15.4.11

Homens simples

Os homens que admiro são sempre homens simples. Ao fim destes anos todos chego a esta conclusão sem me importar minimamente com o que esta constatação diz de mim. Consigo enumerar vários exemplos, um é o Berto Gordo de quem já falei, outro é o Eduardo, o marido da minha prima, um tipo que pouco estudou e que começou a trabalhar adolescente numa tecelagem no turno da noite. Durante o dia tinha outro emprego, entregava produtos químicos a várias empresas, andava a tarde toda na carrinha às voltas. Mais tarde, já casado, a tecelagem fechou e a mulher, secretária de direcção (licenciada, tenho de o dizer) num dos hipermercados daqui da terra, arranjou-lhe emprego no talho do tal hipermercado. No outro dia atendeu-me, e fiquei maravilhada com ele. Sempre foi simpático e meigo, mas atendeu-me com tal desenvoltura e confiança que me espantou. Fiquei por perto a vigiar como é que ele atendia as outras pessoas, sim que eu sou prima dele, e a mesma coisa. Um tipo que nunca antes tinha cortado carnes na vida aprendeu a fatiar bifes, a desossar perus e a golpear cabritos com um empenho e brio que me fizeram acreditar ainda mais nesta ideia  que tenho mas que às vezes se esconde nas teias do esquecimento, que um homem, quando quer aprende qualquer ofício e consegue ser bom naquilo que faz, seja lá o que isso for. E se esse homem tiver grandeza de espírito para se agarrar a cortar carnes (ou a cortar madeira, ou a varrer o chão) sem qualquer preconceito, e se for simpático e agradável, torna-se num profissional de primeira. Não me admiraria ver a fotografia dele ao lado do anúncio do funcionário do mês. Há anos atrás toda a gente estranhou a escolha da minha prima, uma rapariga licenciada casar-se com um simplório daqueles? Ela é que a sabe toda, além do físico que ele não é feio, longe disso, ela viu-lhe a meiguice, a simpatia e acima de tudo, viu-lhe o carácter. Fez ela muito bem.

8 comentários:

Eli disse...

É tão bom encontrar alguém simples!

:)

Junkie Jones disse...

A escala de interesses varia muito de pessoa para pessoa, mas na verdade poucos são os que conseguem reconhecer o seu verdadeiro interesse, e menos ainda aqueles que o escolhem em deterimento do interesse que seria o mais logico segundo a escala de interesses imposta pelo socialmente apetecivel.

Uma merda, na qual eu também sinto a minha cota parte de envolvimento.

Pois é Jacklyn, porque caralhos, havemos alguns, de tonar tudo tão complicado, em prejuízo proprio, hã ?

provocação disse...

Um bom cortador de carnes ganha mais que a maioria dos licenciados. Não sei no super quanto ganha mas sei que num talho ganham, já com experiência, cerca de 1200 euros por mês e agora até acredito que comecem a ser mais necessários que o mercado anda escasso deles (conversa ouvida no talho aqui da zona em que o dono se queixava de não encontrar ninguém e disse quanto pagava).

jacklyn disse...

Cortador de carnes, advogado, carpinteiro, agricultor, empresário, artista é tudo detalhe. Para mim, o que verdadeiramente importa é o carácter das pessoas e uma boa parte do carácter vê-se na forma como as pessoas agarram e/ou aceitam o trabalho/profissão e se esforçam ou não por ser bons profissionais seja qual for o trabalho que escolheram ou que lhes tocou.

jacklyn disse...

Tenho um amigo que é mecânico de automóveis e é outro merecedor de post, por exemplo. Ao longo dos anos foi tirando cursos de aperceiçoamento ou de matérias específicas, já ganhou vários prémios e chegou a ser chefe de oficina de grandes marcas de automóveis. É um homem que se esforçou e hoje trabalha por conta própria, e é um profissional muito conceituado aqui na área. Depois disso, é uma pessoa muito interessante, culto, educado, e com interesses variados que o tornam num homem muito atraente para qualquer mulher de jeito. É o perfeito exemplo de um homem impecável por trás de uma profissão que para certas pessoas pode ser alvo de preconceito.

provocação disse...

Eu concordo contigo e muito nesse campo, cada vez mais eu tenho a certeza que a capacidade afectiva do homem é o que me impressiona logo à partida, gosto de homens ligados à família, com consciência social, emotivos, a par com ânimo laboral, depois, desde que não tenham esqueletos no armário, tipo incapacidade de gerir dinheiro, vícios, e comportamento agressivo, já é um belo candidato à minha atenção. O que faz profissionalmente, ui, tenho fantasias com mecânicos que não tenho com advogados :p

Maya disse...

Pois eu vi cá um lixeiro, ups, um técnico de limpeza municipal (acabei de inventar isto agora, a função, digo) aqui na minha terra que ui ui, ia-me espetando outra vez. Se eu lhe dissesse "gostava de gostar de gostar ..." e ele me dissesse "também gosto de Álvaro de Campos", eu estava basicamente ... tramada!

Pulha Garcia disse...

Gostei de ler. A tua prima viu bem e viu longe.