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25.9.11
Velhos
Hoje vi o Sr. Lopes. Conheço-o desde que me lembro, era amigo do meu avô e frequentava a nossa casa. Hoje faz noventa anos, um homem de cair para o lado. Fato cinza escuro e uma gravata de cor indefinida numa camisa branca imaculada. Um metro e oitenta e cinco, no mínimo, de pura elegância, esguia e leve. Lavrador, sim lavrador, aqui diz-se lavrador, agricultor é palavra chique e aqui não há lavradores chiques. Há homens como o Sr. Lopes, lindos, magníficos, velhos e vividos. Há homens cuja palavra vale a própria vida, cuja honra está acima de tudo. Há homens humildes e dignos, trabalhadores honestos com as mãos cheias de calos e que sabem dar valor ao que têm. Havia, porque do grupo de amigos do meu avô, o Sr. Lopes é o último, o Sr. Miranda foi a seguir ao meu avô e resta o Sr. Lopes que era o mais novo. Dezanove anos mais novo do que o meu avô, lembro-me que ele dizia sempre, o Lopes é um rapaz novo, e eu ria-me, porque o meu avô é que era velho, aos noventa saía com putos de setenta.
24.5.11
Punhalada
Devo, antes de mais, revelar aqui uma confissão da minha mãe, que não me influenciou nem influencia em nada, mas que aceito pois sei que é sincera e dolorosa. Minha filha, eu sei que és nova e que tens a vida para viver, mas se tu arranjares outro homem eu vou ficar muito triste. E é isto, a minha mãe não me imagina com outro homem, apesar de ter perfeita consciência que é provável que um dia, e mesmo que eu lhe diga que não se preocupe, venha a ter este desgosto. Acontece que, este fim-de-semana, pela primeira vez desde que me separei, tentaram fazer-me um arranjinho. Só me apetece rir, de cada vez que penso dá-me vontade de rir. Pois muito bem, a excursão ao Jamor incluiu a madrinha do meu filho mais velho, minha amiga de infância, os pais dela (a mãe dela é amiga de infância da minha mãe, e isto é o mais delicioso da cena toda), os tios e os primos, e um amigo deles. Também vai um amigo nosso, que é enfermeiro aqui no hospital, muito boa pessoa, impecável, divorciado, tem dois filhos, dois rapazes, é muito nosso amigo, disse-me a T. (a amiga da minha mãe) muito naturalmente. Desconfiei, admito. Ontem, lá no meio da confusão, agarrei a minha amiga pelo braço e perguntei-lhe, tenho a impressão que a tua mãe está a tentar impingir-me o enfermeiro, estou enganada? Fartamo-nos de rir, está mesmo, respondeu, ainda ontem à noite me disse, o F. é que estava bom para ela, não estava? E às gargalhadas disse-lhe, ai se a minha mãe sabe desta merda... já pensaste? A minha mãe, se descobre, mata a tua.
14.3.11
Retenção
Enquanto estive a viver em casa dos meus pais experimentei um sentimento que não posso descrever como ciúme porque não sei se é ciúme. Foi a primeira vez que senti e acho que nunca tinha sentido ciúme antes. Chateava-me ter de partilhar constantemente os meus filhos, nunca estavam só comigo, havia sempre mais alguém. Nem à noite, ao deitar eu sossegava porque se eu estava com um deles, a minha mãe estava com o outro. Isto tudo misturado com o sentimento de gratidão e um profundo amor que sinto pelos meus pais causou-me bastante mau estar. Como posso eu ser assim quando se aqui estou é porque assim o quis e quando tenho todo o apoio dos meus pais e toda a generosidade e sacrifício da minha mãe, todo a segurança trazida pelo meu pai, como posso ser eu assim? Verbalizo pela primeira vez este meu podre, pois consegui encontrar ainda um outro. Agora que estou já em minha casa, com os meus filhos dou comigo a fazer retenção. Dou comigo a passar o fim-de-semana com eles sem vontade nenhuma de participar nos almoços de domingo. Não fui. Passei o dia com eles e eles foram só meus. Só para mim. À noite, pesou-me a consciência e telefonei aos meus pais, os miúdos falaram com eles e eu também. Verifiquei que o ciúme deu origem a outro podre. Sou um cesto de maçãs. A primeira já deu cabo da segunda e se não me livro delas rapidamente apodrecem todas. Mau, muito mau.
11.3.11
Genética
Às vezes penso, e se esta merda se sabe? Se alguém descobre e me chiba? O que pensarão os meus pais? O que pensarão os meus filhos? Acredito que será sempre mais fácil explicar aos meus filhos pois ainda não percebem o que é a vida destilada de emoções. Digo-lhes que o amo e pronto, eles aceitam. Por hora. Aos outros seria muito mais difícil e doloroso. A minha mãe morreria de desgosto, mulher crente, temerosa de Deus e profundamente religiosa. Desgosto. Nem quero pensar. O meu pai, não sei, o meu pai. Pois. Pensando bem no meu pai, a irmã mais velha só se casou com o pai do filho já parido e criado quando engravidou do segundo. Outra irmã, a única cuja história desconheço, foi "obrigada" a casar com um senhor viúvo cheio de filhos pequenos porque já estava a fazer asneiras a mais, a outra engravidou e pariu um filho que abandonou ao encargo da avó aos dezasseis anos, e desandou para Lisboa com os patrões, e um dos irmãos tendo emigrado para França nos anos sessenta, conheceu uma espanhola quente e quinze anos mais velha do que ele e nunca mais apareceu à mulher que cá tinha deixado, voltou vinte anos depois com a espanhola que nós sobrinhos conhecemos como mulher dele até já sermos adultos e descobrirmos a aventura do nosso tio. Casou-se com a espanhola um ano antes de morrer. A espanhola, a minha tia, ficou connosco até morrer. Perante isto, sinto-me tentada a pensar que esta merda só tinha era de acontecer, esta merda está-me no sangue. Com uma família assim, a puta da avaria genética tinha de calhar a alguém. Foi a mim. Olé!
11.1.11
Segredos cabeludos
Do lado da família do meu pai, dos irmãos e irmãs dele, há histórias do arco da velha, disso já eu sei há anos. Há o meu tio que abandonou a mulher e fugiu para França e engatou uma espanhola quinze anos mais velha do que ele e com quem viveu e com quem só se casou um ano antes de morrer, sem nunca mais ter aparecido à esposa, há a minha tia que só se casou quando engravidou do segundo filho, ou a outra tia que teve um filho solteira e toda a vida mentiu sobre o pai da criança, ou ainda a outra tia que por causa duma história embaraçosa, esta ainda não a descobri, foi empurrada para um senhor viúvo com quem se casou e que tinha seis criancinhas pequenas e que a minha tia criou como filhos, a eles e depois aos filhos deles como netos. Conheço estas histórias todas há anos, excepto a da minha tia casada com o senhor viúvo, e todas elas possuidoras de contornos que têm tanto de hilariante como de trágico. Mas ontem descobri uma história fantástica sobre um irmão da minha mãe. Ora deste lado da família não há, não havia até ontem, ponta por onde se lhe pegasse. E esta história bate aos pontos as outras todas, porque ter sabido que o meu tio, irmão mais velho da minha mãe, que só se casou com a mulher quando ela engravidou do segundo filho, onde é que eu já vi isto? e poucos anos depois teve um affair com a irmã mais nova dela, que ainda por cima era freira, não é fazer uma descoberta do caralho, não sei o que será. Estou parva da minha vida.
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