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10.2.11

Abuso

Mas ele tratava-te mal? Perguntaram-me acerca do meu ex-marido. Se por tratar mal entenderes que me batia, que me insultava, que me impedia de fazer o que eu queria, fosse isso sair ou ficar em casa ou que me proibia de falar com alguém, ou que não me desejava sexualmente, ou que me achava uma má mãe, não, nunca me tratou mal. Mas, se por tratar mal entenderes que me fazia sentir que eu não era suficientemente boa para ele, ou que me dizia que tudo o que eu fazia, se tivesse sido feito por ele teria sido feito muito melhor, ou que porque eu gosto de cinema e conheço os realizadores e os actores me fazia sentir fútil, ou que eu era uma burra e ele só estava comigo porque lhe convinha, ou porque profissionalmente me considerava menor porque não tenho um curso superior apesar do meu salário que não é nada mau ter o seu peso no orçamento familiar, ou porque me desiludiu muito ao longo dos doze anos que estivemos casados sobretudo porque todos os dias me fazia sentir que os meus sentimentos para ele eram merda e o que ele achava é que estava certo e nada do que eu dissesse ou fizesse era levado em conta, sim, tratou-me muito mal. E eu deixei, depois disse basta e a seguir divorciei-me. Haverá talvez mulheres para quem tudo aquilo que eu considero faltas de respeito para comigo não constitua problema algum. Haverá talvez mulheres para quem nem mesmo uns tabefes nas trombas constitua motivo válido para um divórcio. Deixem-se estar. Eu aprendi muito cedo, se bem que não muito cedo o apliquei, que quem não está bem, põe-se. Eu pus-me.

27.1.11

Areia



Não. Não guardo rancor de ninguém, apesar de já me terem feito mal. Não guardo rancor porque não gosto. É como quando tenho areia no sapato, incomoda e chateia, e torna impossível esquecermo-nos dela lá dentro. Não dou meia dúzia de passos sem parar tirar o sapato e a sacudir para poder andar sem incómodo. É assim o rancor, apodera-se de nós, não o conseguimos esquecer e condiciona-nos os movimentos, transforma-nos. Sem percebermos somos amargos e vingativos. É melhor sacudir e deixar para trás. Caminhamos sempre melhor sem areia dentro do sapato.

23.12.10

Pointless

Há mulheres que não precisam de pretexto para se arranjarem. Sem mais nem menos pegam na lingerie mais bonita e vestem-na, só para elas. Calçam as meias de liga e sentem-se bem, só para elas. Olham-se ao espelho e não, não é preciso maquilhagem. Apetece aquele vestido preto e não saem sem o sapato de salto alto. Não há nenhuma ocasião especial, não é para ninguém em especial. É somente para dentro, para um sentimento muito delas, que provavelmente ninguém entende e não faz diferença. Hoje, eu sou essa mulher. Estou triste, deprimida, vazia de entusiasmo, sim estou. Mas sinto-me bem comigo, vesti-me e arranjei-me para mim, só para mim. E agora? Expliquem-me isto.

1.10.10

Tudo

Tenho dias em que travo batalhas e tenho dias em que me estico em camas feitas de lavado. Tenho momentos do mais cerrado nevoeiro e tenho momentos de preguiça estendida na relva, ao sol. Há tempos de guerra e tempos de paz, há tempos de gargalhadas e tempos de lágrimas. Há tornados e há orvalho. Há espuma salgada de ondas e há terra, palha e pó. Há cheiro a fruta fresca e flores e há cheiro a sangue, ferro e fogo. Há isto tudo dentro de mim, mas pouca gente sabe, disfarço muito bem.