17.6.10
Inveja
Invejo-te porque quando te aproximas de mim o teu coração bate mais forte, porque o teu corpo treme, porque te arrepias. Sinto-o. Porque ficas ofegante e perdido, porque te rendes, porque involuntariamente reages a mim. Sei-o. Invejo-te porque gostava de ser como tu. Tudo isso que tu és, eu não sou.
16.6.10
Isto vai ser lindo
Passei o dia a comer, seguindo religiosamente as instruções do senhor doutor e foda-se, estou com mais fome do que ontem que só fiz as refeições principais. Ele foi pão ao pequeno-almoço, ele foi iogurte e mais pão a meio da manhã, ele foi batatas com fartura ao almoço, ele foi fruta e mais pão ao lanche e estou com uma puta duma fome do caralho. Mau, brincamos ou quê?
Medo
Estou cagadinha de medo. Fui hoje a um senhor doutor que supostamente me vai ajudar a emagrecer. 5 quilos, disse ele, e fico óptima. Eu tenho de ter pressão, tenho de ter as putas das regras bem definidas porque senão abandalho a dieta toda e era o emagrecias, era... Pois bem, já que o outro senhor doutor me liberou completamente só de olhar para mim, que está tudo bem e a perna não impede rigorosamente nada, cá vamos nós tentar perder a banha acumulada desde a puta da trombose que me obrigou a ficar de molho. E ouvi o que nunca pensei vir a ouvir na minha vida. Tenho, TENHO, de comer pão e arroz, ou masssa, ou batata, TODOS OS DIAS, ao almoço E ao jantar. Com a carne ou peixe e com os legumes. E tenho, TENHO, de fazer cinco, CINCO, refeições por dia. Estou fodidinha. Daqui a 1 mês volto lá, quer dizer, não sei se volto, porque o mais certo é não passar na porta. Tenho para mim que este senhor doutor vai levar nas trombas desta vossa amiga que me cheira que a comer desta forma vai triplicar o peso. Não passando na porta, espero por ele cá fora.
15.6.10
Tempo
Esqueci-me. Ou melhor, não me lembrei. Só me lembrei hoje que já passou um ano. Lembrei-me porque no percurso desde as escolas do mais velho e do mais novo que são pertinho uma da outra, e o escritório, estava a pensar que o ano lectivo está quase a acabar e que realmente o tempo passa depressa, cada vez mais. Acaba o primeiro ano e acaba o quinto, é o final do primeiro ano desta nova fase da vida deles. E no início do ano lectivo todos pensamos que pois, este ano é o ano da mudança, que para eles provavelmente será um ano complicado e por aí fora, e que foi o ano do divórcio e aí sim, lembrei-me que já fez um ano que o pai saiu de casa. Pois, lembrei-me disso sem sequer ser por isso, só me lembrei porque pensei nos miúdos e na escola e no ano lectivo. Lembrei-me por arrasto, por associação, porque de resto, está tudo tão no lugar certo que parece que foi sempre assim, que nunca foi de outra maneira, e o que está certo fica assim quieto e parado, dissolvido na vida sem direito a recordações, nem boas nem más, assim, esquecido.
14.6.10
Inevitável
Eu, pelo menos, não o consigo evitar. Há aquele momento que chega sorrateiro, aqueles segundos em que penso que estou exactamente onde quero estar e com quem quero estar. São segundos apenas, em que avalio o contexto e peso o que sinto. Mas também é verdade que imagino aquele lugar e como seria estar na companhia não de um grupo de amigos muito chegados, mas na companhia de uma pessoa. Uma pessoa que não existe. Acho que seria bom. Mas seria assim tão bom? Seriam as gargalhadas tão fáceis? Seriam os dias e as noites tão divertidos? Seria o silêncio tão confortável? Seriam as vontades tão respeitadas? Não, acho que não. Estas coisas são boas quando se está com alguém com quem se tem intimidade. E isso eu tenho com os meus amigos. São eles que apreciam as mesmas merdas que eu, são eles que, como eu, esquecem o relógio à chegada, são eles que me fazem rir até doer a barriga, são eles que me deixam dormir quando me apetece, são eles que ficam a dormir e eu vou passear sozinha, são eles que me levam àquele estado em que absolutamente nada me preocupa e me esqueço do mundo. São eles. Um qualquer gajo que eu levasse comigo para umas mini-férias serviria para acalmar os desejos que o calor e o Sol me acordam nas entranhas mas, e o resto? Não, está bem assim, obrigada.
13.6.10
Tudo muito.
Muito Sol, muita música, muita noite, muito fumo, muita gente, muita gargalhada, muita festa, muita comida, muita bebida, muito sono em atraso, muito cansaço. Curiosamente, espírito muito leve.
8.6.10
É que gosto
O nosso primeiro encontro foi algo tumultuoso, tive de me enervar para que ele fizesse o que eu queria. Mas perdoei-lhe pois ele rapidamente ajustou a atitude e tudo acabou em bem. Hoje foi uma doçura, todo mel. Mal me viu desfez-se em sorrisos e delicadezas, desculpando-se pelo atraso. Ouviu-me com muita calma e falou-me mansinho. Combinamos novo encontro para daqui a tanto tempo quanto decorreu entre o primeiro e o segundo: "só para me contar como está" disse ele, com meiguice.
Se me tivesse mandado fazer o filha da puta do eco-doppler é que ele tinha sido fino, o tótó. Isso queria eu, saber se os coágulos ainda lá estão ou não, foda-se! Perguntou-me se a perna está inchada e foi o necessário para chegar ao brilhante diagnóstico que está tudo bem comigo, tudo maravilha, já nem de anticoagulante preciso, só da meia elástica, isso sim, para passar o Verão a parecer que em vez de perna direita tenho uma prótese, nada chato, e para nem falar no filha da puta do calor que aquela merda faz. Só de olhar para mim viu logo que está tudo bem, são competentes os médicos hoje em dia, já devem vir equipados com visão raio X de origem, ou o caralho. Passaram quase 6 meses desde o episódio da trombose, e quer ver-me daqui a outros 6. Pergunto-me, para quê? Ah, só para lhe contar como estou. De facto não tenho mesmo mais nada para fazer do que ir de 6 em 6 meses à Consulta Externa de Cirurgia Vascular do Hospital, só para contar ao médico como estou. É. Até porque se o gajo tivesse engraçado comigo e me quisesse comer, de certezinha que não esperaria tanto tempo. Digo eu.
Se me tivesse mandado fazer o filha da puta do eco-doppler é que ele tinha sido fino, o tótó. Isso queria eu, saber se os coágulos ainda lá estão ou não, foda-se! Perguntou-me se a perna está inchada e foi o necessário para chegar ao brilhante diagnóstico que está tudo bem comigo, tudo maravilha, já nem de anticoagulante preciso, só da meia elástica, isso sim, para passar o Verão a parecer que em vez de perna direita tenho uma prótese, nada chato, e para nem falar no filha da puta do calor que aquela merda faz. Só de olhar para mim viu logo que está tudo bem, são competentes os médicos hoje em dia, já devem vir equipados com visão raio X de origem, ou o caralho. Passaram quase 6 meses desde o episódio da trombose, e quer ver-me daqui a outros 6. Pergunto-me, para quê? Ah, só para lhe contar como estou. De facto não tenho mesmo mais nada para fazer do que ir de 6 em 6 meses à Consulta Externa de Cirurgia Vascular do Hospital, só para contar ao médico como estou. É. Até porque se o gajo tivesse engraçado comigo e me quisesse comer, de certezinha que não esperaria tanto tempo. Digo eu.
Respostas
"Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida."
Sandor Maraí - As velas ardem até ao fim
Sandor Maraí - As velas ardem até ao fim
7.6.10
Livro amarelo
Da última vez que fui fazer o controlo do sangue quase que houve chapada entre os idosos que lá estavam na fila para fazer a inscrição. Aquilo é simplesmente absurdo. Primeiro dois guichets e duas filas paralelas a uns dois metros depois da porta que para além de ser para as pessoas que vão às consultas externas também é para as pessoas que ficam à espera de familiares que dão entrada nas urgências. Portanto é um corridinho de pessoal a passar de muletas, de cadeira de rodas, malta com as criancinhas ao colo, tudo ali a furar as filas e os das filas a serem apertados uns contra os outros. Segundo, o povo põe-se na fila mas as inscrições para Imunohemoterapia (onde eu vou tirar sangue) só começam às 10:15h o que quer dizer que ficam as pessoas todas misturadas, as que vão ao sangue (que é assim que os idosos dizem) e as que não vão, e há sempre aquelas alminhas que não se apercebem e ficam à espera, atrás dos do sangue e podiam passar para a frente. E há também aqueles velhinhos que se sentam, e à hora de começarem as inscrições se aproximam e fazem de conta que estavam na fila e tentam fazer batota. Ora isto, dá sempre origem a confusões, desde que lá vou que é este circo. Os funcionários aguentam tudo, os velhinhos a reclamar uns com os outros, os não velhinhos a reclamar com os funcionários e devo dizê-lo, com muita paciência e categoria, coisa rara em serviços públicos. Pois bem, da ultima vez que lá estive pensei que aquela merda havia de ter um Livro de Reclamações e que estava na altura de o usar. Perguntei onde é que estava o tal livro e lá fui pronta para escrever. Basicamente sugeri que abrissem o terceiro guichet, que esteve sempre fechado desde que lá vou, só para a malta que vai ao sangue, que são mais de 100 pessoas na segunda leva (a minha) e deduzo que sejam outras tantas na primeira. Portanto, abrir o tal guichet só para as cerca de 250 pessoas que todas as manhãs vão ao sangue, acho que se justifica. E deixam-se os outros dois para o pessoal "sortido", além de que o terceiro guichet está afastado da porta abrindo assim mais espaço para os que por lá passam. Hoje achei aquilo estranhamente calmo. Pouca gente à porta, e pouco barulho principalmente. Ao avançar mais uns passos, verifiquei que o terceiro guichet estava aberto e a fila era só de malta para o sangue. Sorri.
6.6.10
Interruptor
Desde ontem que sinto uma energia estranha, uma vibração que não sei de onde vem. Como aquela tristeza que chegou de parte incerta e se instalou como se fosse a dona da casa. Uma pujança inexplicável que desde ontem me faz fazer coisas que há muito não fazia. Estou cheia de ganas. De tudo. O que é estranho. O que me faz pensar que da mesma forma que me toma a tristeza só porque sim, me toma agora uma força vinda do nada que me faz arrancar a todo o gás e me faz sentir bem. E esta merda, assim sem explicação é sinal de desiquilíbrio. Isto é andar ao sabor do vento sem qualquer controlo sobre nada. E a puta da minha vida não pode ser isto, como os interruptores, ora para cima ora para baixo, só porque sim. De modos que não sei o que é normal, se estar triste se estar porreira visto que nem uma coisa nem outra se baseiam em qualquer motivo válido, porque afinal todo o resto se mantém constante.
5.6.10
Fascínio
O que dizer? Que durante toda a minha adolescência era esta figura que me fazia sonhar? Era. Que nunca me disseram nada os bonitões da moda? Nunca. Que a série era sagrada? Era. Que anos depois, já adulta comprei a colecção toda em vídeo? Comprei. Que a inteligência sempre teve para mim uma forte carga erótica? Sempre.
O ter descoberto há uns anos que o actor era gay não mudou rigorosamente nada. Eu era apaixonada pelo Sherlock Holmes, que tanto quanto se sabe, também podia muito bem ser gay, eu na altura é que não tinha rasgo para tanto.
4.6.10
Simples
O P. tem uma característica que me agrada bastante. Deve-se talvez ao facto dele ser uma pessoa simples, no verdadeiro sentido da palavra. Ele tem a capacidade de me foder com todo o vigor e desdém como se de uma puta se tratasse, e de me beijar e acariciar como se me amasse. Extraordinário.
Pensamentos
"Ai que este gajo é tão bicha, parece impossível, a voz claramente forçada para obter um tom doce que é preciso ser muito inocente para não perceber a trafulhice, as pausas dramáticas no discurso que a mim só causam nervos, mas que toda a gente parece estar a gostar, ai que esta merda nunca mais acaba e eu ainda tenho de comprar o pão para o almoço em casa dos meus pais, ai que raio de gajo bicha foram desencantar para por aqui, e depois do almoço mando mensagem ao P. para saber se está livre, apetece-me estar com ele, e estas gajas vêm para aqui armadas em boas e não têm onde cair mortas que eu bem as conheço de outros carnavais, e francamente esta bicha é um escândalo e aposto que desfila lá em casa com as cenas que veste aqui, e podias despachar-te não que eu não tenho a tua vida, nunca mais cá venho podes crer, e será que os meus tios vão aparecer depois do almoço e despacho logo o assunto ou vou ter de passar em casa deles depois do jantar, ai porra! que este gajo é tão óbvio com esta vozinha de mel e só deve mesmo enganar as velhinhas, e na próxima semana o puto tem testes e vai ser uma canseira, e amanhã vou ter um dia de cão no trabalho, e daqui a nada ponho-me a andar que a malta vai começar a ligar-me porque não tem pão para o almoço e eu aqui não posso atender o telefone e ainda me entram todos em pânico, mas o que é que aconteceu à rapariga, e esta bicha é tão bicha, mas tão bicha que até mete impressão, e foda-se! ainda bem que já está a acabar."
Tudo coisas que me passaram pela cabeça durante a missa a que resolvi ir.
Tudo coisas que me passaram pela cabeça durante a missa a que resolvi ir.
3.6.10
Crivo II
É curiosa a forma como penso nos espécimens do sexo masculino que me aparecem pela frente. São palavras como moço, rapaz ou gajo que me vêm à mente. É bom moço; um rapaz em condições; é um cromo, o gajo. Nenhuma destas palavras é usada de forma negativa, mas parecem-me as mais correctas pois sinto-me sempre mais velha do que eles, mesmo podendo não o ser, ou então acho que ainda têm algum caminho a percorrer. Não me apareceu ainda nenhum homem. Aqueles em que penso como homens são o meu pai, alguns dos meus tios, o meu patrão e conheço poucos mais. Curioso isto, tem certamente a ver com o respeito que lhes tenho. Tão díficil de ganhar e tão fácil de perder.
2.6.10
Revelação
" Se alguém é forte o suficiente para reconhecer a verdade da sua própria natureza, disse o homem, está próximo da libertação. E suporta-a, sem mágoa, porque é uma verdade. E, na medida em que isso humanamente é possível, vive sem falsos desejos. "
Sandor Maraí - Revelação
Sandor Maraí - Revelação
1.6.10
Inútil
Poderia fazer exercícios mentais na tentativa de perceber determinados comportamentos. Poderia tecer hipóteses na tentativa de explicar determinadas atitudes. Poderia fazer juízos de valor, poderia especular sobre personalidade, sobre vivências, sobre hábitos, sobre maturidade, sobre montes de coisas. Não. Ao invés penso na minha reacção a tais acções e é esse comportamento e essa atitude que importa perceber e explicar sobretudo para não se repetir. O resto é perfeitamente inútil. Por isso, dou cordinha aos sapatos e afasto-me para ajustar a perspectiva. O que vejo não me agrada. Nada. Porém, não podendo mudar o comportamento dos outros, o que tenho a fazer é mudar o meu.
31.5.10
Crivo
Os outros não passam da percepção que temos deles, assim ainda que eventualmente referindo outros estaremos sempre a falar essencialmente de nós.
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