25.2.11

Descubra as diferenças

Através de uma amiga de escola descubro no Facebook o grupo da nossa escola e delicio-me a ver as fotografias da malta naquela altura. Percorro os perfis e há os que reconheço imediatamente e os que se se sentassem ao meu lado no cinema ou no café não passariam de mais um desconhecido. E divertida, vou andando e vendo, rindo com as fotos dos jogos de futebol, festas e passeios. Até que me deparo com uma fotografia de um passeio e piquenique, e temos lá escarrapachados os comentários dos que lá aparecem. E o que me chamou a atenção foram os comentários de um casal, do meu tempo, da minha idade. Eles começaram a namorar lá na escola, recordo-me perfeitamente dela chegar à escola e dele ter ficado deslumbrado com ela, a ponto de nunca mais a ter largado, a ponto de ter conseguido que ela deixasse o namorado que tinha e ter casado com ele. É aquele tipo de casal que no Facebook tem as fotografias das férias, com os dois filhos ao pé da piscina, a família perfeita, os comentários dos amigos, ai que lindos, ai que apaixonados, ai os meninos que engraçados, e por aí fora. E na puta da foto do passeio, bato com os olhos no comentário dele, este dia mudou a minha vida, foi neste dia que comecei a namorar com a mulher que está comigo hoje. E o comentário dela, foi neste dia que comecei a namorar com o meu marido lindo, graças a este dia tenho agora dois filhos lindos. Sou só eu que vejo aqui uma diferença? Sou?

23.2.11

Tiny little things

No segundo em que me sentei na cadeira pensei de mim para mim: mas que bom que é estar sentada a apanhar Sol numa esplanada e dou-me conta que um prazer tão fácil e simples me passa tanto ao lado. Triste não é não conseguir fazer coisas difíceis, triste é não conseguir fazer coisas fáceis.

Ciúme #1

Há meses que não escrevo sobre os meus filhos, porque durante estes meses fora de casa e a partilhá-los com os meus pais experienciei um sentimento detestável cuja origem começo a identificar mas que ainda não consegui digerir. Abro-lhe a porta apenas, a este sentimento, não ouso deixá-lo sair, ainda é cedo.

Puzzle

E à medida que tudo em minha casa começa a voltar ao devido lugar, à mistura com algumas coisas novas que naturalmente encontraram também o seu lugar, dentro de mim, tudo começa a desmoronar.

22.2.11

Dona Rosa

Dona Rosa enviuvou aos cinquenta e cinco anos. Dona Rosa, muito senhora do seu nariz resolve casar-se com o Senhor Antunes, senhor muito respeitável, de boa apresentação, asseado e educado, cristão católico e praticante, uma boa reforma, enfim, tudo o que se pretende encontrar num marido ideal para combater a solidão dos anos dourados da vida de uma pessoa. Pois casam-se Dona Rosa e o Senhor Antunes, e dos cinco filhos de Dona Rosa, três zangam-se. O Senhor Antunes não teve filhos com a sua falecida esposa. As duas filhas que se conformaram o segundo casamento da mãe estão hoje perante um grande problema nas suas vidas. Passaram-se vinte anos desde que a mãe se casou. Ouvem-na agora queixar-se que não consegue aturar o Senhor Antunes, que é um chato e que não pode mais. O Senhor Antunes, coitado, confessa que Dona Rosa, hipocondríaca de primeira linha, mimada e caprichosa, lhe dá cabo do juízo. Estão velhos, Dona Rosa e Senhor Antunes, já não deviam estar sós. E as filhas? Não se chegam? A mais nova entende que a mais velha, que já não trabalha terá mais disponibilidade para tomar conta dos velhotes. A mais velha reclama que se fosse só a mãe a levaria para sua casa, mas o padrasto... isso não, tem a filha já casada a viver noutra cidade, desvia-se do problema e vai passar longas temporadas em casa da filha. A mais nova, vive num apartamento no oitavo andar, os velhotes não querem ir para lá. Dizem as más línguas, Dona Rosa, muito senhora do seu nariz, casou-se sem precisar da licença de ninguém, não escutou ninguém, agora que está doente e farta do marido, que se desunhe. Dona Rosa nunca cultivou o afecto dos filhos, nunca esteve disponível para ajudar fosse no que fosse, sempre independente e senhora do seu nariz. Sempre com a língua afiada, nunca murmurou um mimo, nem aos filhos, nem aos netos. Dona Rosa colhe agora o que ao longo da vida semeou, não espere carinho quem nunca acarinhou.

14.2.11

Foi você que pediu?

The real thing, é a minha.






(esta noite já durmo chez moi)

13.2.11

Nem acredito

Os móveis estão todos dentro de casa, à excepção das camas dos putos, que estão todas fodidas e vão dar lenha e lugar a um beliche, os putos estão contentíssimos com a ideia, da minha cama que vai ser forrada, e de um armário e uma cómoda que vão ser restaurados. Ontem levei uma coça monumental a limpar todos os restantes móveis enquanto os homens iam buscar a próxima carga ao armazém. À noite doía-me tudo, mas pior, doía-me a perna defeituosa. Há quase um ano que não sentia aquela dor. Vou acreditar que foi do esforço, prefiro acreditar nisso. Adiante. Agora que os móveis estão no sítio é preciso tratar do resto, por isso programei tirar a semana. Sim, férias, mas a trabalhar chez moi. Vou fechar-me em casa e só saio quando tiver terminado (as aulas não contam, claro que não vou faltar). Vim agora ao escritório organizar uns assuntos para a minha colega dar seguimento durante a semana e desapareço do mapa durante uma semana. Quando aparecer espero já estar a morar de novo lá em casa. Ufa, já não é sem tempo. Nem acredito.

10.2.11

Abuso

Mas ele tratava-te mal? Perguntaram-me acerca do meu ex-marido. Se por tratar mal entenderes que me batia, que me insultava, que me impedia de fazer o que eu queria, fosse isso sair ou ficar em casa ou que me proibia de falar com alguém, ou que não me desejava sexualmente, ou que me achava uma má mãe, não, nunca me tratou mal. Mas, se por tratar mal entenderes que me fazia sentir que eu não era suficientemente boa para ele, ou que me dizia que tudo o que eu fazia, se tivesse sido feito por ele teria sido feito muito melhor, ou que porque eu gosto de cinema e conheço os realizadores e os actores me fazia sentir fútil, ou que eu era uma burra e ele só estava comigo porque lhe convinha, ou porque profissionalmente me considerava menor porque não tenho um curso superior apesar do meu salário que não é nada mau ter o seu peso no orçamento familiar, ou porque me desiludiu muito ao longo dos doze anos que estivemos casados sobretudo porque todos os dias me fazia sentir que os meus sentimentos para ele eram merda e o que ele achava é que estava certo e nada do que eu dissesse ou fizesse era levado em conta, sim, tratou-me muito mal. E eu deixei, depois disse basta e a seguir divorciei-me. Haverá talvez mulheres para quem tudo aquilo que eu considero faltas de respeito para comigo não constitua problema algum. Haverá talvez mulheres para quem nem mesmo uns tabefes nas trombas constitua motivo válido para um divórcio. Deixem-se estar. Eu aprendi muito cedo, se bem que não muito cedo o apliquei, que quem não está bem, põe-se. Eu pus-me.

9.2.11

Bulldozer

Não é frequente mas há momentos na minha vida em que sou tomada pelo espírito bulldozer. Como quando contra tudo e contra todos fui sozinha para Lisboa, à base do Lumiar fazer testes para a Força Aérea. Ou como quando decidi que o meu casamento não continuaria nem mais um minuto e sabia perfeitamente que o mundo iria desabar mas não me preocupava nadinha com isso. Esses momentos sao extraordinários. São momentos em que tenho a certeza absoluta daquilo que quero e o resto do mundo que se foda. Nesses momentos, como um bulldozer, levo tudo à minha frente. E levo mesmo, a força vem-me não sei bem de onde e sinto-a percorrer-me o corpo como se fosse uma droga potentíssima que me transforma numa máquina gigante trabalhando arduamente para atingir o seu objectivo. Depois, há os que me acompanham e há os que ficam para trás.

7.2.11

Consumições

1. Separar o que vai para o lixo e o que fica, limpar e arrumar de volta para o lugar, ou não, pode muito bem ir parar a outro sítio, depende. mas interessa mesmo é desimpedir a passagem para que no próximo sabado, se não chover, os móveis possam regressar a casa. Esta semana, à noite, tirando quarta e quinta-feira que tenho aulas, vou alombar com a limpeza das merdas (não foram muitas, vá... mas algumas) que lá ficaram em casa durante as obras, tapadinhas mas que ficaram cheias de pó na mesma, e que estão amontoadas na varanda das traseiras.

2. Começar a dieta (amanhã, isto vai ser lindo, vai) para perder os 6 quilos que desde Setembro, uniformemente se me agarraram ao rabo, coxas e mamas mas fico lixada porque se me incomoda o volume a mais que me impede de entrar em todos os pares de calçar que tenho menos um, nas mamas até nem me importava que ficasse um quilito, metade em cada uma, mas enfim, começo a dieta e lá se vão as mamas. Mas tem lógica, não fumo logo tenho mais apetite; mais apetite, mais comida; mais comida, não entro nas calças; não entro nas calças, faço dieta; faço dieta, fico sem mamas. Deixo de fumar, fico sem mamas, tem lógica.

3. Chatear a cabeça ao homem das cozinhas porque estão lá os móveis mas faltam as pedras que vão por cima e aquilo tem de ficar feito esta semana, mais precisamente na próxima quarta-feira conforme me prometeu, porque quero que os homens das limpezas tratem de vida na sexta-feira e se o gajo falha estraga-me o esquema todo. Sábado voltam os móveis. Ah, já tinha dito isto.

4. Fazer de polícia no escritório para que as peças que tenho de enviar o mais tardar na sexta-feira não falhem pois na segunda-feira começa uma feira e o meu cliente quer apresentar a colecção de Inverno 2011/12, e já vai um bocado tarde porque os outros cliente todos já estão a desenvolver a colecção de Verão 2012. É que na próxima semana vou estar de férias descansadinha, a trabalhar que nem uma mula lá em casa a colocar tudo no devido lugar, e não quero estar a ser incomodada com chamadas do cliente furioso porque lhe faltam modelos na feira.

5. O puto mais velho começa a época de testes hoje. Tenho de estar atenta a ver se o gajo estuda, e se estuda como deve ser. Normalmente é mais de uma semana.

6. O carro está a fazer um barulho estranho, não percebo nada de carros, mas aquele ruido não é normal, tenho de o levar à oficina antes que avarie.

(não sei se dou conta desta merda toda, a sério)

3.2.11

Bad Girl

Não custará nenhuma fortuna comprar um bilhete de avião, reservar hotel para uma ou duas noites e alugar um bicho destes e arrancar em direcção aquela auto-estrada alemã onde não há limite de velocidade, pois não?

Bad boy






De todos as figuras másculas que, como a qualquer adolescente, me fizeram sonhar, esta tem ainda hoje um efeito algo perturbador em mim. Sempre teve ar de "bad boy", mas o timbre da voz e o olhar contradizem o corpo musculado e a atitude firme que independentemente dos personagens, sempre lhe vi. Os anos passam e o efeito permanece, a voz continua segura, calma e quente, e o olhar doce e sereno. Este senhor, para quem não conhece, é actor da TV Globo e chama-se Humberto Martins.

27.1.11

Areia



Não. Não guardo rancor de ninguém, apesar de já me terem feito mal. Não guardo rancor porque não gosto. É como quando tenho areia no sapato, incomoda e chateia, e torna impossível esquecermo-nos dela lá dentro. Não dou meia dúzia de passos sem parar tirar o sapato e a sacudir para poder andar sem incómodo. É assim o rancor, apodera-se de nós, não o conseguimos esquecer e condiciona-nos os movimentos, transforma-nos. Sem percebermos somos amargos e vingativos. É melhor sacudir e deixar para trás. Caminhamos sempre melhor sem areia dentro do sapato.

25.1.11

Tinta

Tenho uma vontade medonha de te escrever cartas de amor, à antiga, de escrever com caneta e derramar toda a tristeza na tinta preta desenhando na alvura do papel os contornos do meu amor, de transformar em palavras todos os sentimento que me prendem e me escorraçam de ti, de te abrir as entranhas e mostrar-te toda a podridão que me definha, de aliviar este peso que me esmaga o peito e me impede de respirar, mas não sei a tua morada, mesmo que as escreva, não sei para onde as mandar.

Não sou vítima

24.1.11

Zen

Não ando em mim ultimamente. É um pensamento altamente reconfortante pois este não ando em mim dá-me pano para mangas. Como não ando em mim, não posso ser responsabilizada pelos meus actos. Ou pela falta deles, e aqui, nesta falta de acção, é que reside o grande problema. Em condições normais, eu já teria feito qualquer coisa, já teria tomado uma decisão, como já fiz antes, mas não. Deixo-me estar, deixo-me andar. Ele telefona-me e eu atendo, ele manda-me mensagens e eu respondo. Diz-me que me ama e eu acredito. Estou apenas a uns milímetros de me tornar oficialmente amante de um homem casado. E nada, estou meia burra, ou melhor estou completamente burra. Isto vai contra tudo o que eu acho certo, no entanto nada faço para parar. Eu devia era parar de tomar os filhos da puta dos comprimidos que me emburreceram, era o que eu devia fazer. O médico diz-me que estou deprimida, que tenho de tomar anti-depressivos, e eu tomo. E eu atendo, e eu respondo, e eu acredito. Depois pergunto-me, onde, quando, como, o que foi que me destruiu? Em que momento quebrei? O que me vergou? O amor ou o anti-depressivo? Burra.

21.1.11

Acordares

Primeiro veio o maior, já de casaco vestido e mochila às costas, trepou para a cama e deu-me um beijo bem no meio da bochecha acordando-me, então mãe, estás melhor das costas? hum... que bem que me soube aquele beijo, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-te estar deitada mais um bocadinho, eu já vou para a escola, até logo. Depois senti o pequeno, ainda em pijama, a deslizar para debaixo da roupa, abraçou-me e deixou-se estar, agarrado a mim, mãe, já acordaste? estás melhor? hum... que bem que me soube aquele abraço, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-me ficar aqui um bocadinho ao pé de ti, a avó vai ter de me procurar, não lhe digas que estou aqui, esconde-me, e ficou aninhado no meu colo, no quentinho do ninho da mãe. Quais dores nas costas quais quê? O mimo dos filhos cura tudo.

19.1.11

Identidade

Nunca compreendi o que leva algumas mulheres a mudarem de nome quando casam. Porque é que metem lá o nome dos homems com quem se casam? Porquê? O que é que muda por mudarem de nome? Procurava não há muito duas primas minhas no Facebook e acabei por encontra-las só depois de ter encontrado o marido de uma delas. E porque não as encontrava eu? Porque as meninas já não dão pelo nome de baptismo mas antes pelo nome dos maridos. Fez-me impressão. Eu casei-me e não mudei de nome. Não deixei de ser quem era por me casar, nem passei a ser de alguém por me casar. Também não sei o que pensar dos homens que apreciam que as esposas lhes adquiram o nome. Sentimento de posse? Será? As mulheres que mudam de nome quando se casam fazem-me sempre pensar que de alguma forma se anulam porque parece que só com o nome do marido existem. Por exemplo, a minha sogra (será ex-sogra? dizem que não, que as sogras serão sempre sogras) tem o nome do marido, médico reconhecido na sua área de especialidade, e quando a senhora diz o nome imediatamente se sabe que é a esposa do senhor doutor. Quando a minha prima diz o nome, também se sabe que é a esposa do senhor doutor (este é advogado). Não estão estas mulheres a admitir que sem este nome ninguém as conhece, ninguém sabe quem são, e por conseguinte não existem?

Lastro

Às vezes penso nas pessoas a quem perdi o rasto ao longo da vida. E tenho pena de as ter perdido pelo caminho. Hoje pensei em algumas pessoas com as quais não tenho contacto e que até nem me importaria de o ter mantido. Não é bem a mesma coisa, há pessoas que nos fazem bem, que puxam por nós enquanto indivíduos e que nos trazem naturalmente coisas boas, ou porque são boas ou porque fazem vir ao de cima coisas boas em nós e não é dessas que falo, falo das outras, daquelas que não são propriamente aquelas com quem mais nos identificamos mas cuja companhia é agradável e com quem o convívio é positivo. Mas, nesta fase da minha vida conviver com essas pessoas requereria um esforço da minha parte, a ligação que havia deixou de existir e apesar de ser possível retomar a relação que me unia a essas pessoas, ela não é natural. A gestão do meu tempo é já bastante complicada, já não me chega para tudo e as tentativas de aproximação da minha parte seriam motivo de preocupação e stress para mim. Não posso ter mais coisas que me preocupem, que me suguem energia, que me desgastem, simplesmente não aguento. E assim vou perdendo pessoas na minha vida, e mesmo não sendo as pessoas mais importantes acho que é triste. A nossa capacidade de mantermos na nossa vida aqueles de quem gostamos diz muito sobre nós. Neste momento não tenho energia para investir em relações de amizade. Não cultivo novas amizades, vou mantendo as que tenho, felizmente são de betão. E chego à conclusão que não tenho nada para dar. Não tenho amizade, não tenho tempo, não tenho disponibilidade. Estou fechada sobre mim própria, sobre a minha família e o meus poucos amigos. Sou um ovo, o meu mundo é cá dentro confinado ao que sou, ao que conheço e ao que está muito perto, e sem vontade nenhuma de partir este ovo. Que tristeza.

17.1.11

Saldos

Fiquei a saber este fim-de-semana que parece que sendo gaja, tenho de ir aos saldos. Só porque há saldos, como se as promoções fossem por si só, razão mais que válida para se comprar roupa, sapatos, acessórios e o caralho mais velho. Ora, eu vou às compras quando preciso e se não preciso de comprar nada porque raio é que hei-de ir aos saldos? Não percebo.

Strip

Chega um momento em que te deixas de merdas e vais ao fundo ver o que queres. Nesse momento sabes o que verdadeiramente importa e o que tens a certeza absoluta que não queres. Aí vês quem és e do que és capaz. E escolhes.

14.1.11

Puta

Há dias em que tenho a certeza de que preferia prostituir-me do que ter este trabalho. Ao menos vendia o corpo. Aqui, há dias em que vendo a alma. Nojo.

11.1.11

Segredos cabeludos

Do lado da família do meu pai, dos irmãos e irmãs dele, há histórias do arco da velha, disso já eu sei há anos. Há o meu tio que abandonou a mulher e fugiu para França e engatou uma espanhola quinze anos mais velha do que ele e com quem viveu e com quem só se casou um ano antes de morrer, sem nunca mais ter aparecido à esposa, há a minha tia que só se casou quando engravidou do segundo filho, ou a outra tia que teve um filho solteira e toda a vida mentiu sobre o pai da criança, ou ainda a outra tia que por causa duma história embaraçosa, esta ainda não a descobri, foi empurrada para um senhor viúvo com quem se casou e que tinha seis criancinhas pequenas e que a minha tia criou como filhos, a eles e depois aos filhos deles como netos. Conheço estas histórias todas há anos, excepto a da minha tia casada com o senhor viúvo, e todas elas possuidoras de contornos que têm tanto de hilariante como de trágico. Mas ontem descobri uma história fantástica sobre um irmão da minha mãe. Ora deste lado da família não há, não havia até ontem, ponta por onde se lhe pegasse. E esta história bate aos pontos as outras todas, porque ter sabido que o meu tio, irmão mais velho da minha mãe, que só se casou com a mulher quando ela engravidou do segundo filho, onde é que eu já vi isto? e poucos anos depois teve um affair com a irmã mais nova dela, que ainda por cima era freira, não é fazer uma descoberta do caralho, não sei o que será. Estou parva da minha vida.

8.1.11

Raio-X

Retirei o contador, olho para ele e em vez de ver algo destinado a incentivar a continuidade de uma batalha, que contas feitas, se é que se podem fazer, atravesso incólume, nem uma flecha cravada num braço, nem um arranhão na testa, vejo as lanças voarem na minha direcção mas passo-lhes ao lado, estaco diante das espadas erguidas mas depois corro, muito, mesmo muito, tem sido assim, parece que ninguém dá por mim, parece que os guerreiros se concentram em abater os mais fortes e querem lá saber dos mais fracos porque esses, esses não representam perigo, agora olho e vejo um anúncio, como se dissesse olhem para mim que já não fumo há quatro meses e vejam bem o que eu fiz, e sou a maior porque estou a conseguir onde a maioria falha. É isto que vejo. Vejo vaidade, e a vaidade é coisa que abomino. A minha, principalmente.

7.1.11

Relatividade

Quatro meses sem fumar. De alguma forma que não compreendo, assinalar ou contar o tempo deixou de ter a mesma importância. Antes olhava para o "marcador" para me lembrar que estava a vencer uma luta pessoal. Agora olho para o marcador e não lhe encontro utilidade absolutamente nenhuma, mas deixo-o ficar. Não fumo. Mas não é por isso que deixei de ser a pessoa que era. A diferença é apenas esta: eu era uma pessoa que fumava e agora sou uma pessoa que não fuma, O resto, está igual, de há quatro meses para cá. Mais ou menos igual.

5.1.11

Insisto

Já aqui disse, acho que até mais do que uma vez, que gosto de épicos. Agora ainda gosto mais.


4.1.11

Marcas

Ontem tive de tomar a decisão de mandar colocar uma pedra no chão para que se não queime a madeira que mandei pôr no chão da sala. É melhor, disse o homem, porque aqui, por baixo da porta do recuperador de calor é provável que caiam pedaços de carvão ao chão quando se abre a porta. É verdade, pensei, mas também pensei que não gosto nada da ideia da pedra e que não me importo nada que o chão de madeira venha a mostrar marcas de queimaduras. Assim como não me importo com nenhuma outra marca que a minha casa venha a apresentar por causa do uso. As coisas são para se usarem, as casas são para se usarem. Os sofás rompidos, pedaços de madeira, brinquedos ou livros largados são marcas de vida dentro de uma casa. A lareira suja tudo, pois suja, mas aquece, o corpo e a alma. O sofá rompido é feio, pois é, mas reconforta, dá alento e dá sossego, ao corpo e à alma. Uns brinquedos e uns livros largados aqui ou ali dão ânimo e dão vida. Ao corpo e à alma. Ainda nem sequer está pronta, mas estou morta que a minha casa nova fique velha, que ganhe vida.

27.12.10

Voltas

Às vezes regressamos a lugares onde nunca antes estivemos, assim como às vezes regressamos a pessoas que nunca antes tivemos. E mesmo assim sentimos imediatamente que pertencemos, somos invadidos pela sensação de conforto, aquela que nos diz que nunca dali saímos, que nunca nos separamos. Temos simplesmente a certeza que somos, e regressamos.

23.12.10

Pointless

Há mulheres que não precisam de pretexto para se arranjarem. Sem mais nem menos pegam na lingerie mais bonita e vestem-na, só para elas. Calçam as meias de liga e sentem-se bem, só para elas. Olham-se ao espelho e não, não é preciso maquilhagem. Apetece aquele vestido preto e não saem sem o sapato de salto alto. Não há nenhuma ocasião especial, não é para ninguém em especial. É somente para dentro, para um sentimento muito delas, que provavelmente ninguém entende e não faz diferença. Hoje, eu sou essa mulher. Estou triste, deprimida, vazia de entusiasmo, sim estou. Mas sinto-me bem comigo, vesti-me e arranjei-me para mim, só para mim. E agora? Expliquem-me isto.

20.12.10

Para acabar o ano em beleza

Parece que estou deprimida, parece. Parece que é uma depressão, parece. Pois se me perguntou eu respondi, que acordo com vontade de não acordar, que não descortino interesse em nada, que nunca me apetece ir trabalhar. Que confundo as coisas, que acho que fiz o que não fiz e que não fiz o que fiz. Que me esqueço, sim, esqueço-me de coisas das quais não devia esquecer-me. Que me faz falta estar sozinha, que me apetece estar sozinha, que quero estar sozinha e que nunca estou sozinha. Que deixei de fumar há mais de três meses, e que nestes três meses chorei mais do que na minha vida toda, o que não é difícil porque nunca fui mulher de chorar por qualquer coisa, aliás nunca fui mulher de chorar por quase nada e que nestes três meses me fartei de chorar, mas que já não choro, tanto. Que reencontrei uma pessoa que conheço há muitos anos e que este reencontro me pertubou, me abanou e me arrasou, mas já consigo respirar outra vez. Parece que é uma depressão, parece, quase como que a pedir-me confirmação. Sei lá se é uma depressão, não sou médica, foi por isso que cá vim, isso pergunto-lhe eu. É. É uma depressão.

13.12.10

Heart beat

Nada bate o bater de um coração. Que acelera na ansiedade de ver, que dispara com a adrenalina de tocar. Nada bate esse momento em que já não chega a mão para o sentir, é preciso encostar-se o ouvido ao peito para o escutar, para absorver a vibração, permitindo que trespasse o nosso peito e invada o nosso corpo. Sentes? Sim, sinto. O bater de um coração, o ouvir o bater de um coração com o ouvido encostado ao peito desata qualquer nó, derruba qualquer barreira e aproxima o coração que bate do coração que ouve. O bater de um coração é, ao fim e ao cabo, a vida que temos, a vida que damos, e a que recebemos.

2.12.10

Tangerina

O cheiro é maravilhoso. Apetece encher a boca, mas não é para comer. É de massajar, é de acariciar, é de envolver, é de... nem sei. Faltam-me as palavras mas sobram-me as sensações. Desperta-me os sentidos e faz-me sentir bem. Sinto-me sexy, sinto-me doce, sinto-me desejável. Regalo-me com um creme que cheira tão bem que se pudesse comia-o. Cheira a tangerina, e combinado com o gel duche, deixa-me a pele tão macia, brilhante e cheirosa que me apetece trincar-me,  apetece-me tocar-me, uma loucura. O meu creme cheira a tangerina, faz-me sentir bem comigo, faz-me sorrir, e desperta-me os sentidos. Tenho um gajo assim, tal e qual o creme, faz-me tão bem e é tão bom que apetece comer só que não é para comer.  Também cheira bem, mas não é a tangerina.

30.11.10

Turning point

Às vezes somos como o S. Tomé. Precisamos de ver para crer. E depois de vermos e ouvirmos parece que tudo muda. Parece que as coisas tomam outros contornos, parece que de repente, só por causa de uns breves minutos em que vimos e ouvimos, a realidade torce-se e transforma-se numa outra. A que era nossa passa a ser de outros e a dos outros passa a ser a nossa. E o que antes sabíamos ser verdade mas esperávamos que fosse mentira passa a ser mesmo verdade. Mesmo muito verdade. E esta percepção retira-nos um certo peso, e retira-nos uma certa mágoa. Ficamos aliviados do nosso fardo e a vida parece mais fácil. E é. Resumindo, é extremamente simples. Bastou-me enviar um simples e-mail e esperar uma semana pela resposta. Esta semana foi determinante. Esta ausência de resposta foi determinante. Chegou para que quando veio a resposta, o que queria dizer já não fosse bem a mesma coisa. O que disse foi condicionado pela ausência de resposta. O que disse foi que se iniciou dentro de mim um processo muito importante. Iniciou-se o processo de passar à frente, virar a página, encerrar o capítulo, o que se lhe queira chamar. O que é certo é que estou cada vez mais longe. E esta minha nova etapa, gerou um outro fenómeno muito interessante, que contarei mais tarde.

15.11.10

Aviso

Temporariamente fora de serviço.

Até breve.

Espero.

12.11.10

Under the stars

Se eu acreditasse nestas merdas ia já a correr ver o que é que isto quer dizer. Pois bem, noto um padrão que de certeza que quer dizer qualquer coisa. O meu ex-marido e o tipo por quem me perdi este Verão são do mesmo signo. Depois, os homens que intelectualmente acho mais estimulantes são também do mesmo signo. Aposto que alguém encontra e me dá a explicação para isto, mas custa-me a acreditar que o signo do Zodíaco condicione assim o carácter ou a inteligência, ou mesmo o sentido de humor de uma pessoa.

11.11.10

Just what I needed

Pó de talco, algodão.
Relva acabada de cortar.
Uma cama feita de lavado.
Uma manta e uma lareira.
Um abraço apertado.
Um par de mãos quentes que me seguram no rosto.
Um copo de vinho.
Espreguiçar-me ao sol.
Um corpo colado ao meu.
Um beijo na nuca, mesmo na linha do cabelo.
Um beijo nas costas, mesmo ali no fundo, onde faz cócegas.
Uma gargalhada ao acordar.

Tu fazes-me pensar em tudo isto. Só coisas boas, muito boas.
Obrigada.

9.11.10

Frase do dia (a minha)

"É um bocado estranho porque tenho o tempo tão ocupado, tenho sempre tanta coisa para fazer e ao mesmo tempo sinto que não faço nada de jeito. Puta de estupidez."

7.11.10

Fardamento

Hoje houve fardamento. É o que se chama a terem estado todos os escuteiros da freguesia, devidamente fardados, do mais pequenino ao mais velho, na missa das onze. Com as bandeiras do agrupamento levantadas com orgulho. Achei muito bom, porque estava o professor, que por acaso é o director do agrupamento das escolas primárias sentado ao lado do tecelão, e por acaso o tecelão, na hierarquia dos escuteiros está acima do professor. Também estavam os moços, lado a lado, todos iguais com o lenço da mesma cor, os universitários e os operários fabris. Os putos, uma maravilha, sejam filhos do sapateiro ou do presidente da junta, do agricultor ou do advogado, é tudo igual. Gostei. E tive pena, mais uma vez, que os meus macaquitos não queiram ser escuteiros. O princípio da coisa é fixe. Seja qual for a proveniência, a família, a profissão, a condição financeira, ali não há distinções, a farda é igual e apaga as diferenças de todas as espécies. A única coisa que conta é a cor do lenço, e essa vai mudando com o passar dos anos e com o mérito de cada um. Ponho o meu pescoço como ali ninguém suborna ninguém para que o lenço mude de cor mais depressa.

6.11.10

Et voilà, comme promis

Lady Marmelada



Miss Geleia




O grande circulava à minha volta chegando-me todos os utensílios que iam sendo necessários e atento a todos os meus movimentos, absorvia todo o ritual com visível prazer.

O pequeno oscilava entre o espaço à volta do fogão onde andávamos eu e o irmão, e o cesto da gata, que é grande o suficiente para ele lá se meter dentro com a gata ao colo.

No fim, rapamos as panelas e lambemos as colheres, todos três, como sempre.

No próximo fim-de-semana, há mais.



Cala-te

Amanhã faz dois meses que não fumo (estranho porque mais dois dias e são nove semanas, mas ninguém contradiga o calendário). O primeiro mês foi absolutamente fodido, o segundo foi bastante suportável. Há uma semana que tudo ficou diferente. Desde aquele dia em que quase que fumava um cigarro. Na minha cabeça só me vejo a fumar. Vejo-me a entrar numa tabacaria ou num quiosque e a comprar um maço de Marlboro Lights, não, que lhe mudaram o nome, Marlboro Gold, e um isqueiro e a acender um cigarro. Penso nisto constantemente. Ainda agora acabei de almoçar e fiz o percurso para o escritório a pé, sozinha e pensei, um cigarro, ia tão bem agora um cigarro, ninguém iria saber. Estou a quebrar, sinto-me a ceder. O meu cérebro já está às voltas a tentar arranjar um esquema para me enganar. Já sei como é. Já ouço aquela voz from the back of my head a dizer-me: fuma, vá, se te apetece, ninguém precisa de saber, vai comprar, é só um, escondes o maço no carro, ninguém descobre, vá, vai, tu queres, bem sabes que queres. E é isto, a puta da voz não se cala. Mandem-na calar, mandem-na calar senão ainda lhe espeto dois pares de estalos.

3.11.10

Todos iguais

Serve-me um qualquer corpo, um qualquer rosto, uma qualquer voz, fecho os olhos ou mesmo com eles abertos e tanto me faz, serve-me um qualquer homem para foder, são todos iguais, serve-me qualquer um, o único que quero não tenho, os outros são todos iguais.

2.11.10

Fraquezas

Ontem fraquejei e quase que fumei um cigarro, felizmente a minha amiga impediu-me. Sentia-me tão mal que mandava às urtigas todo o esforço que fiz este tempo todo para não fumar. Por uns minutos de prazer deitaria tudo a perder. Depois, já sei, sentir-me-ia mal, muito mal, uma fraca, uma merda. Por uns minutos de prazer iria sentir-me uma merda durante muitos minutos, muitas horas, muitos dias. Burra. Felizmente a minha amiga impediu-me. Felizmente passou-me a ideia, foi um momento, um repente. Acho que estou a enlouquecer. Obrigada G.

31.10.10

Prioridades

A noite de ontem deve ter-me custado uns 150€, mais coisa menos coisa. Gasolina, portagens, jantar e copos, tudo junto a coisa não andou longe, mas, de longe, antes euros gastos em bons jantares e bons copos com amigos do que em roupas e sapatos e malas e essas coisas todas que se compram em lojas. Gostos...

27.10.10

Tradições

Outra das coisas que à primeira vista ninguém imagina é que eu, todos os anos por esta altura, faço marmelada. Daquela que se mete em tigelas de barro e se deixa a secar à janela, ao Sol. Daquela que liberta um cheirinho maravilhoso que inunda a casa toda enquanto ferve ao lume. Daquela que invariavelmente me garante os meus filhos à minha volta na cozinha enquanto mexo a panela com a colher de pau, enquanto encho as tigelas para depois, contentíssimos raparem e lamberem a panela e a colher de pau. Daquela que é feita com marmelos e açúcar e muito, muito amor. Adoro.

26.10.10

Pensamento do dia

"É dificil comerem-me de cebolada, muito difícil. Mais depressa me comem com chantilly do que de cebolada."

(Este foi o "meu" pensamento do dia, eu é que pensei esta merda, fui eu. Isto está lindo, sim senhor)

25.10.10

Quem não está...

Outra maravilhosa característica desta minha cativante personalidade é que, apesar de haver pessoas com as quais gostaria imenso de conviver mais, não convivendo penso sempre: quem está, está, quem não está, estivesse. E amigos na mesma, nem chateada fico. A sério, é uma categoria.

24.10.10

Missa das 11

Hoje na missa das 11, sim levo os meus filhos à missa, sim o pai, apesar de não ter tido uma educação católica como eu tive, também os leva à missa quando estão com ele e sim andam os dois na catequese. Não lhes faz mal absolutamente nenhum e terão muito tempo para questionar, abandonar, renegar, e escolher outra coisa qualquer ou não escolher nada. Por agora fica assim porque além de, repito, não lhes fazer mal nenhum, poupamos um grandessíssimo desgosto à avó e também somos coerentes porque se os meninos fazem a primeira comunhão com  direito a festa de família como manda a sapatilha, há que ser minimamente coerente e dar algum seguimento à coisa. Bom, hoje na missa das 11, eu toda fodida porque estive numa festa fantástica até às 5 da matina e obviamente que estava cheinha de sono e com o corpo todo moidinho, o maior a curtir aquilo à brava, sim o grande curte a missa, e o pequeno a achar a seca de sempre. Já perto do fim, ao ver o padre a guardar as coisas todas dentro do sacrário, o pequeno aproxima-se de mim e com as duas mãos em concha à volta da boca que encostou ao meu ouvido diz-me assim:

- Mãe, ali dentro, onde ele está a guardar o pão, é quentinho não é?
- Não filho, claro que não.
- Mas então aquilo não é um forno?

Não sei como me segurei.

21.10.10

Rosita

Quando casou, toda a gente disse que a Rosita tinha tido muita sorte. O marido era uma estampa. E por acaso era, lembro-me perfeitamente de ser miúda e de achar o indivíduo um homem muito bonito. A Rosita também era bonita, faziam um casal lindo de se ver. Hoje, a Rosita está mais velha obviamente e o rosto transformou-se num rosto sofrido e gasto. O marido continua muito bem parecido, é normal. O tipo não trabalha, passa o dia na rua ou no café a coçá-los, enquanto a Rosita trabalha que nem uma moura para o manter e aos dois filhos quase adultos. Trabalha Rosita, que a estampa do teu marido gasta.

19.10.10

Os meus lençóis.

Tenho saudades da minha cama. Mais do que qualquer coisa lá de casa, falta-me a minha cama, faltam-me os meus lençóis. Os meus lençóis são parte de mim. Na suavidade dos meus lençóis amei, na solidão dos meus lençóis chorei e na imensidão dos meus lençóis desejei. Desejei tudo o que uma mulher pode desejar, um corpo de um homem junto ao seu ou uma existência mais feliz. Forcei o descanso e escorracei memórias, reneguei o mundo todo e reconciliei-me comigo, tantas vezes. Os lençóis para onde entraram os meu filhos tantas vezes de noite, ignorando o amor feito pouco tempo antes. Quando na minha cama se deixou de fazer amor passou a fazer-me impressão que os meus filhos lá entrassem naqueles lençóis, sujos, já não havia amor. Sossegados, como anjos dormindo entre o pai e a mãe, eu olhava-os e pensava, nesta cama já não se faz amor. O pai talvez ame a mãe mas a mãe não ama o pai, aqui já não se faz amor. Os meus filhos dormiram muitas vezes numa cama cheia de pai e de mãe, mas completamente vazia de amor.

Saturday night

Aconteceu-me uma coisa estranhíssima no Sábado passado, não este que acabou de passar, no Sábado passado mesmo, o da semana passada. Entendido? Bom, adiante. No Sábado passado jantei em casa do meu compadre que cozinha muito bem. Comemos e bebemos muito bem. Depois de jantar apareceu o meu irmão, um primo nosso e um amigo deles. Bota música e vai daí, o meu compadre teve a excelente ideia de preparar umas bebidas. Muito bem, vai daí, emborquei duas vodkas Absolut com Sumol de laranja, que foi o sumo que se arranjou no café lá de baixo. Bebida altamente improvável, mas que escorregou que foi uma maravilha. Resultado: fomos depois à festa de reabertura da discoteca cá do sítio, onde me deparei com um tipo que nunca antes tinha visto, boa pinta por sinal, e que me olhava com aquele olhar que já aqui descrevi, o olhar que me faz voar, o olhar desafiador. Arrependi-me imediatamente da vodka já consumida, mas não havia volta a dar-lhe, e este, com este olhar e esta pintarola, não vai a lado nenhum, fica já aqui, pensei. E ficou. Conversamos, dançamos e no fim trocamos de nº de telefone. Só um pequeno problema, no dia seguinte não conseguia lembrar-me do rosto dele. Lembrava-me da conversa, lembrava-me de o ter achado um giraço, lembrava-me do olhar que me fez levantar voo e lembrava-me que ele cheirava bem. Do rosto, nada - lá está, vodka a mais - não me lembrava do rosto, uma chatice. Como expliquei no início, tudo isto aconteceu no Sábado passado, o da semana passada, porque este Sábado, este que acabou de passar, o tipo telefonou-me e eu, claro, eu quis ir confirmar se o que me lembrava batia certo. Bate tudo certo, simpático, giro, cheiroso, e desafiador. Isto promete. Ui, se promete!

18.10.10

Friday night

O fim de semana começou com um concerto muito intimista deste senhor que apesar de madurinho continua um charme, uma doçura que só visto. Foram duas horas a ouvi-lo tocar que souberam a uma tarde passada num sofá, à lareira com um copo de vinho e um albúm de fotografias antigas. Muito bom. Mesmo.

(Lloyd Cole - 15/10/2010)

15.10.10

Farinha

Há mulheres que são parolas e serão parolas toda a vida. Podem arranjar o cabelo, podem vestir as melhores roupas e calçar os melhores sapatos que serão sempre parolas. Mas essas, não têm culpa, não podem mudar o código genético que lhes saiu na rifa. Podem por outro lado cultivar a simpatia, a gentileza, podem desenvolver características que as tornem atraentes, mas só se o tal código genético também lá tiver o bom material. É preciso boa farinha para fazer bom pão. Há outras mulheres que podem até parecer boazinhas, que são simpáticas e humildes e depois, atingindo o objectivo a que se propuseram na maior parte das vezes recorrendo a meios menos correctos se transformam numas cabras impossíveis, arrogantes e cheias de manias, até tentam melhorar o aspecto e umas conseguem outras não, mas a massa, a farinha é ruim, e por mais que se amasse, nunca dará bom pão.

14.10.10

Exigências

Eu tenho uma maneira de ser um bocado fodida. É que não faço a coisa por menos. Levo sempre as coisas ao ponto das outras pessoas serem quase que obrigadas a mostrar o material de que são feitas. Não consigo fazer de outra maneira, ponho sempre as coisas num patamar em que ou se tem tomates ou não se tem, nunca facilito. Tenho sempre de ver até onde é que se vai, até que ponto se é verdadeiro, até que ponto se assume o que se é. Podia ser menos exigente, pois podia? Podia facilitar as merdas, pois podia? No imediato até lucrava mais, mas a longo prazo seria corrosivo, conheço-me. Pois é, eu podia ser uma mulher mais "fácil", podia, mas depois não era a mesma coisa.

12.10.10

Carga

Deixei o homem que me interessava ter por perto, deixei o tabaco, deixei a minha casa, é preciso estar de olho nas obras lá de casa, no emprego atravesso uma fase complicada, as aulas dão-me trabalho e consomem-me tempo que encontro com muito esforço. Isto tudo junto parece-me mais do que o que consigo aguentar, mas enquanto os meus rapazes estiverem bem, o resto todo que se foda, hei-de sobreviver.

Cinco semanas

Já não custa tanto, é verdade. Já não me lembro de todos os cigarros que fumava, lembro-me só de alguns. Ainda me apetece fumar, mas não da mesma forma violenta e dolorosa. Ainda me apetece fumar, mas bem sei que não posso, não fumo.

8.10.10

Engano

Pensei que as minhas aulas iriam ser um tédio, mas não. Ontem um professor claramente de esquerda e hoje uma professora claramente de direita, começa bem.Uma turma que prova que é muito mais difícil controlar adultos apalhaçados e com a mania que são espertos e engraçados do que putos insurrectos. É triste ver homens feitos armados em adolescentes parvos a mandar bocas aos profs e raparigas que já têm idade para ter juízo a rirem das piadolas deles como se fossem adolescentes aparvalhadas. A cota bem mais cota do que eu a fazer olhinhos ao prof, o tipo que tem a mania que tem personalidade e convicções fortes quando na verdade apenas usa clichés para argumentar tudo e mais alguma coisa. Os caladinhos que nunca abrem a boca e os fala-baratos. Uma tourada, portanto. O tema para debate: O governo francês expulsa os ciganos romenos. Ninguém achou piada nenhuma. Este tema é muito difícil diziam eles. Fui a única a concordar quando ontem o prof atirou o tema para o debate da próxima semana. Agora é pesquisar. Eu adorei, é um assunto tão rico, tão abrangente, levanta tantas questões de variadíssimas ordens, estou entusiasma. Mas sou mesmo só eu. E os profs.

5.10.10

E quase que me esquecia

De dizer que fui ao concerto dos U2 no domingo à noite e... tchan tchan tchan tchan... não fumei! Nem cigarros nem nada! Ah pois é! Em contra partida fartei-me de chorar. Em suma, adorei!

P.S. Devo esclarecer que as três pessoas que me acompanharam ao concerto choraram também, por isso posso concluir que a emoção não se deveu à minha especial dificuldade em conter as lágrimas neste momento. O concerto é que foi mesmo de cortar a respiração e de ir às lágrimas.

P.S. 2 - Das três pessoas, uma era uma gaja, e as outras duas eram gajos.

P.S. 3 - O meu irmão também lá estava e depois confessou-me que também chorou quando ouviu o Bono a cantar em italiano na Miss Sarajevo.

P.S: 4 - Acho que está tudo esclarecido, certo?

National Geographic

Assinei a revista durante sensivelmente 3 anos, devo ter cerca de 150 exemplares. Ao fim desses 3 anos fraquejei e cedi, anulei a assinatura que na altura nem era dinheiro por aí além. Todos os meses, quando chegava a revista pelo correio era um chorrilho de comentários negativos, que aquilo era dinheiro deitado fora, que eu nem lia aquilo, que só ocupava espaço, etc... É verdade que eu não li todos os exemplares de ponta a ponta, mas li a maior parte, e da outra parte li alguns artigos. Guardei-os e ali estão, protegidos do pó e arrumadinhos para não se estragarem durante as obras. Guarda-los-ei enquanto me apetecer. Acalento secretamente a esperança que venham a ser úteis aos rapazes nalgum trabalho de escola. E se não forem, quero que se lixe, são meus e quanto mais não seja, quando chegar à reforma terei ali centenas ou milhares de páginas de informação totalmente desactualizada mas cujas fotos continuarão magníficas para me entreter. Dava-me prazer ler a National Geographic, como hoje me dá prazer ver os documentários na televisão. Pergunto-me hoje qual teria sido a reacção se em vez da National Geographic me desse para gastar os 600 paus mensais em revistas de roupas e sapatos e malas e perfumes e maquilhagem e essas cenas... Na volta o maridinho teria achado mais piada, sei lá.

4.10.10

Introdução

Depois da poeira assentar vê-se muito melhor. E eu, não sou diferente dos outros e é à distância que vejo melhor. Depois de ter atravessado o período de adaptação a este novo estado, depois de ter concluído e aceite tudo o que concluí e aceitei, chegou a data estipulada para o corte com o tabaco. E foi o fim da macacada, não sei que raio de mutação genética se deu em mim que me tornei numa grandessíssima chorona. Era a minha mãe a falar-me num tom um nadinha mais... assim... coiso que eu pimba, logo as lágrimas nos olhos, eram os miúdos a portarem-se um bocadinho pior e eu a ter de impôr a ordem e eu pimba, logo as lágrimas nos olhos, e era vir-me à ideia qualquer coisa que metesse um determinado indivíduo que pimba, logo as lágrimas nos olhos. Isto do choro começou há sensivelmente 4 semanas, faz amanhã. O que nunca antes me incomodou passou a fazer-me chorar como uma Maria Madalena. Se pensarmos que nunca fui de chorar, de tal forma que atravessei todo o processo de separação e divórcio e o único gajo que me fez chorar foi o meu pai, e foi uma única vez quando batemos de frente e eu lhe garanti que ele nunca mais iria ver os netos porque ele achou que proibindo-me de lá entrar em casa (na dele, que eu também considero minha) me faria mudar de ideias quanto ao divórcio, é ainda mais absurdo. Mas o que é certo é que de há 4 semanas para cá acho que já chorei mais do que em 35 anos de vida. Acho não, tenho mesmo a certeza. O giro disto tudo é que as outras merdas todas já me passaram, já aguento bem a minha mãe e os miúdos. Agora, as cenas relativas ao indivíduo, não sei porquê, mas tenho a sensação que isto está apenas a começar.

1.10.10

Tudo

Tenho dias em que travo batalhas e tenho dias em que me estico em camas feitas de lavado. Tenho momentos do mais cerrado nevoeiro e tenho momentos de preguiça estendida na relva, ao sol. Há tempos de guerra e tempos de paz, há tempos de gargalhadas e tempos de lágrimas. Há tornados e há orvalho. Há espuma salgada de ondas e há terra, palha e pó. Há cheiro a fruta fresca e flores e há cheiro a sangue, ferro e fogo. Há isto tudo dentro de mim, mas pouca gente sabe, disfarço muito bem.

29.9.10

Dina

A Dina é mais ou menos da minha idade, um ou dois anos mais nova ou mais velha, não sei bem. A Dina teve meningite em pequenina, tem uma faltinha. Foi o que sempre ouvi dizer por lá, todas as vizinhas acenavam com a cabeça quando a Dina passava. Eu era amiga da Dina, fui sempre, desde pequenina. Só não me lembro da Dina ter a tal meningite, talvez fosse quando ainda era bebé. Foi a Dina que me contou que o pai era muito mau e que batia na mãe e nos irmãos e irmãs dela. Eram muitos filhos, ao todo talvez uns sete ou oito. Eu e a Dina brincávamos e ela contava-me estas coisas. Todos os filhos morriam de medo do pai, e a mãe também. A Dina cresceu, eu também e naturalmente afastamo-nos. Até que um dia ouvi a mãe dela dizer: a minha Dina arranjou moço, não sei o que vai ser. Claro, a Dina tem uma faltinha e a mãe, melhor do que ninguém sabe disso. A Dina casou-se a mãe disse: não sei se a minha Dina vai dar conta do recado. A Dina teve uma filha que por acaso é da idade do meu filho mais velho e andam juntos na escola desde o primeiro ano. A Dina deu conta do recado. A Dina trabalha numa fábrica, é casada e tem uma filha. É despachada, na boca da mãe: a minha Dina deu mulher de vida, nunca pensei, ela que teve meningite em pequenina. E eu acho que a Dina é feliz, é uma mulher realizada, satisfeita com a sua vida. Sempre que passa por mim a Dina sorri-me e pergunta-me se está tudo bem comigo. Gosto dela. Recentemente o pai da Dina morreu, velho e doente, amado por todos os filhos independentemente de ter sido mau e cruel com todos eles. A Dina veste luto pelo pai, e é sentido aquele luto. Vem-lhe do coração. Esqueceu todas as coças que levou, por amor.

27.9.10

Smoke free

Vou tentar explicar o que sinto ao fim de três semanas sem fumar. Há os dentes que "embranqueceram" um bocadinho e as gengivas que entretanto estão a voltar ao cor-de-rosa original em vez do acastanhado dos últimos anos, e o hálito de merda pela manhã melhorou significativament, já não é de merda, é só o mau hálito normal de quem está a acordar. Depois há uma certa sensação de liberdade porque deixei de pensar nos sítios onde vou condicionada se são espaços fumadores ou não fumadores. Deixei de ter a canseira de ter de ter sempre tabaco comigo e a preocupação de saber onde está o isqueiro. Já não me preocupo se aquele intervalozinho entre afazeres vai dar para fumar um cigarro. A minha sala de estar já não fede e já não há cinzeiros para despejar. Fisicamente ainda não sinto nada de mais, tirando uns ataques de tosse que quando fumava não tinha. Diz que são os pulmões a limpar. Diz que sim. Mas, meus amigos, continuo a ter a mesma vontade de fumar. Pois.

26.9.10

Novo mundo

Se muitas pessoas e acontecimentos nos valem apenas um comentário banal ou um acenar de cabeça inconsciente há outras que nos perturbam de uma forma que nos muda. Se muitas situações são complicadas e confusas há outras que se nos mostram claras como água e o caminho abre-se à nossa frente sem encruzilhadas ou desvios. O verão de 2010 ficará como o verão da mudança, ou melhor, da descoberta. Descobri em mim uma mulher que julgava não existir, descobri que essa mulher pode pouco contra ela própria e no entanto tem perfeita consciência do que faz e de como o faz, e mesmo vendo à sua frente o precipício, resolve dar o passo em frente. Percebi que, mesmo sabendo que o caminho não tinha saída, fui capaz de não travar, fui capaz de avançar, de ir até ao fim. Há agora todo um novo mundo dentro de mim, há toda uma nova percepção da realidade e tudo isto, grande e avassalador é completamente inútil. Nada se pode fazer com tudo isto e aceitei que ficará guardado numa gaveta onde te encerrei. Junto-te agora tudo o que fizeste acordar dentro de mim, junto-te agora tudo o que me fizeste sentir. Guarda nessa gaveta, fecha-a e esconde a chave até que tudo adormeça ou morra, até que as memórias bafientas e cobertas de pó sirvam apenas para serem lembradas, já sem lágrimas e só com sorrisos. Pode ser que um dia, como nos filmes, eu conte esta história e faça alguém sonhar.

23.9.10

Choque em cadeia

Os olhos viram um vulto e um carro que o cérebro não teve a certeza de identificar, mas achou que podia ser um determinado carro e o vulto o seu dono, e isto numa fracção de segundo, em andamento, na estrada. A seguir o cérebro envia instruções e o corpo recebe uma descarga de adrenalina, os braços e as pernas quase perdem a força, as tripas contraem-se e torcem-se e os dentes mordem o lábio inferior. Tudo isto mais ou menos em dois segundos. Restou um nico de frieza para permitir a condução num mínimo de segurança. Fiquei mal-disposta, tinha acabado de almoçar, e tudo isto por causa de um vulto que nem sei se era quem o meu cérebro achou que era, só porque conduzia um carro da mesma marca e da mesma cor. Estou mal-disposta principalmente por saber que não consigo controlar estas reacções que tenho àquele homem. Reajo involuntariamente àquele homem. O meu corpo reage, é incontrolável.

Rostos

Vi há dias uma das raparigas mais populares do meu tempo de liceu. Hoje vi outra. E há ainda outra que rejo frequentemente. Todas muito giras e boas na altura do liceu. Maquilhavam-se e usavam as roupas da moda. Tinham os rapazes todos de volta delas. Eram as maiores. A primeira namorava com um tipo que era lindíssimo mas completamente louco. Dava-lhe ordens e estalos na cara, nem sempre por esta ordem. Ela engravidou e casaram-se. poucos anos depois divorciaram-se porque segundo as más-línguas os estalos evoluíram para grandes cargas de porrada. Quando a vi no sábado passado ia com  filha, uma pré-adolescente, e ela, a mãe, falava nervosamente ao telemóvel. Nervosa, muito nervosa. A que vi hoje era uma miúda engraçada, alegre e gaiteira. Desconheço-lhe o percurso de vida, mas hoje passeava-se nos corredores do super mercado, gorda e feia, arrombada e desleixada, cara fechada e passos lentos. A terceira é caixa nesse mesmo super mercado. Tem a pele cheia de marcas de acne, lembro-me que desde muito nova se maquilhava, tinha quilos de base e pó no rosto diariamente. Era gira e boa, tinha estilo. Não sei se acabou o secundário, mas desde que este super mercado abriu já há uns bons anos que a vejo lá na caixa. A pele estragada e os dentes todos estuporados, não é antipática com os clientes porque não pode mas também não sorri. Vejo estas mulheres e penso que talvez a popularidade na escola e os rapazes todos babados lhes tenham subido à cabeça e espalharam-se ao comprido. Penso nestas mulheres e inevitavelmente penso em mim, que sempre fui uma rapariga roliça, mas alegre. Nunca tive os rapazes em meu redor, mas sempre me dei bem com eles, sempre tive bons amigos, mas eu nunca fui a gaja boa, era a gaja porreiraça. Os anos foram passando e a vida seguiu o seu curso, fui envelhecendo e tive filhos, mas hoje estou bem melhor do que estas três miúdas, gosto mais do meu corpo agora do que quando era adolescente. Mas o que realmente me entristece nestas mulheres é que lhes vejo a infelicidade e a amargura no rosto. As mulheres infelizes são feias, quer se arranjem quer não, podem tentar esconder com roupas caras e maquilhagens magníficas. Podem até ter traços finos, rostos dignos de esculturas gregas ou de telas renascentistas mas a amargura e a tristeza são implacáveis, reconheço-as no rosto de qualquer mulher.

21.9.10

Carne

Como uma lança cravada na carne arranquei-te de mim, a frio, sem hesitar. Como uma lança cravada na carne que ao sair rasga mais um pouco, dói mais um pouco, sangra mais um pouco, para a seguir sarar.

20.9.10

Adeus

Quando um homem te diz que é fácil apaixonar-se por ti, que és uma mulher de trato fácil, extremamente inteligente, bem disposta, que és lindíssima, que ainda por cima não és convencida, quando um homem te diz isto estando deitado na tua cama e principalmente sabendo que é a última vez, sentes-te tentada a acreditar.

19.9.10

Tão errado

Sabes que algo está muito errado contigo quando, já no carro e a caminho de casa, com um sorriso nos lábios e com aquela sensação tão boa que te faz inclinar a cabeça e roçar o rosto no ombro, com o corpo relaxado e mole, a pensar que o P. é uma maravilha e que mais uma vez não te desiludiu, e na rádio toca uma puta duma música e é como se levasses com um balde de água fria pelos cornos abaixo porque sentes que acabaste de trair alguém. Muito errado, mesmo muito errado.

17.9.10

Manda foto

Ri-me tanto que até me deu um ataque de tosse e depois de conseguir compor-me lá respondi que ia pensar porque foi o que me ocorreu responder ao pedido que me fizeram hoje, um pouco antes do almoço, para eu enviar uma foto minha. Nua. Este pedido, não é assim tão ridículo se tivermos em conta que veio de alguém que já me conhece no sentido bíblico há bastante tempo e com quem eu estava hoje, um pouco antes do almoço, a falar para marcar um encontro para amanhã. E porque é que eu tive um ataque de riso de ir às lágrimas e à tosse convulsa? Porque eu, no fundo no fundo, entendi esta merda como um elogio. Cigarros, dai-me cigarros! Depressa!

16.9.10

A doer

Tive sempre a convicção que quando as merdas são a sério, tem de ser a doer, senão não vale. Daí que, o que se sente tem de ser dito, tem de ser escutado. Mesmo que doa ao dizer, e que doa ainda mais depois de ser escutado. Não pode ser de outra maneira, senão fico com a sensação que não é real, e é, por isso rejeito reduzi-lo a uma mera impressão que com o passar do tempo se transforma numa ténue lembrança turva e sem importância, não seria justo. Não seria honesto.

15.9.10

Provas de fogo

Passei ontem à noite com distinção (e ajuda dos amigos porque a dada altura vacilei e pedi uma passa mas não me deram e eu não insisti) uma das provas de fogo para quem está a tentar deixar de fumar: um concerto. Ah pois é. Os Supertramp tocaram ontem no Pavilhão Rosa Mota no Porto. E eu fui. E não fumei. Batam palmas se fazem favor. E gostei muito do concerto e teria gostado muito mais se tivesse fumado um cigarrito, mas pronto, não se pode ter tudo. Quero ver lá para o dia 23 ou 24, como é que vai ser. Preparem os tambores. Vou ovular. Vai ser lindo.

13.9.10

Igual ao litro

Se eu abrisse uma certa gaveta que eu cá sei, e se abrisse um maço que eu cá sei e fumasse um cigarro, ou dois ou três, ninguém saberia. Estou em casa sozinha e seria igualzinho ao litro. Mas não abro e não fumo, porque assim posso dizer que não fumo há 7 dias sem mentir, e mais, com uma pontinha de orgulho. Só me apetece chorar, inexplicavelmente a falta de nicotina dá-me para a lamechice em vez de me dar para ter vontade de partir o focinho a toda a gente, mas, puta que me pariu, hoje não fumo.

11.9.10

Turbilhão



Clã - Sopro do coração

É fodido

É muito fodido quando percebes que o melhor sexo da tua vida não se vai repetir. É fodido quando percebes que aquilo do mover montanhas, do entrar em transe, do já nem saber de que terra és, de já não aguentares mais e o orgasmo vir acalmar o turbilhão em vez de ser o turbilhão não é um mito inventado pelos filmes, que a puta da fasquia não desce dali e não há nada a fazer. É fodido quando percebes que o gajo que te põe a arder com um olhar, que quase que te faz vir só com um sussurro ao ouvido e que te diz meu amor e tu por qualquer motivo incompreensível não te desfazes a rir, é fodido perceber que esse gajo, esse preciso gajo tu não podes ter. Eu já percebi e aceitei isto tudo há muito, mas só deixei de fumar agora, vai daí que as merdas que me irritam, neste momento irritam-me infinitamente mais.

10.9.10

Caminhos

Saio do escritório e entro no carro. Desço a rua e lá em baixo contorno a rotunda. Podia virar logo à direita e subir, depois virar à esquerda e entrar na circular que contorna a cidade e chegaria ao meu destino em 5 minutos. Mas contorno a rotunda e só saio na próxima e vou em direcção ao centro da cidade. O semáforo calha sempre em vermelho, sempre. Espero, gosto de ver as pessoas. Gosto do tempo que perco, não perco porque este tempo não é perdido, gosto de percorrer as ruas do centro, gosto de observar por entre o trânsito lento os avós que trazem os meninos pela mão, as mulheres em passo rápido com os sacos do super-mercado quase a rebentar. Delicio-me com as pessoas que correm para entrar nos autocarros, ansiosas por chegar a casa. Avanço lentamente e ouço a rua. O movimento das pessoas na rua, as compras rápidas antes do jantar, ou o café ou a cerveja descontraída na esplanada. No Inverno é parecido, há sempre gente na rua ao final do dia, há sempre mulheres e homens apressados e há sempre mulheres e homens descontraídos. Há idosos com crianças pela mão. E há trânsito. Às vezes há chuva também. Há, sobretudo vida, várias vidas, muitas vidas que se cruzam diariamente, incognitamente. Não dispenso esta passagem breve pela vida de outras pessoas. Podia contornar tudo isto, mas escolho não o fazer, escolho fazer com que todas estas pessoas que não conheço façam parte da minha vida.

9.9.10

A mim ninguém me cala

Apetece-me tanto fumar! Elas encolhem os ombros e não abrem a boca. Fumava um cigarro agora, ai... Elas entreolham-se e baixam os olhos. Posso dar um grito? Elas escancaram-se a rir. Merda! Ninguém diz nada? Então? Não sabemos o que te dizer, não sabemos se te custa mais se falarmos nisso ou se não dissermos nada. As minhas colegas todas de sala fumam, pois. E eu estou a tentar deixar de fumar. E ajuda-me falar nisso, ajuda-me dizer de vez em quando, quando tenho vontade de fumar, ajuda-me verbalizá-lo. Se, de vez em quando, eu mandar umas bocas, ai que eu fumava uma cigarrada, ai que me apetece tanto fumar, ai que nervos, ai que nojo, foda-se esta merda toda, puta de ideinha esta que me foi dar de deixar de fumar! Pronto, sinto-me melhor. Deixem-me falar!

Nada contra

Ontem fiz o eco-doppler, coincidência das coincidências, o sô dôtor que me fez o exame era o mesmo que me viu no hospital, tanto na urgência em Janeiro como na consulta de Junho. Lembrava-se de mim. Coitado, viu-se fodidinho para me aturar, teve de me explicar tudo, tudo mesmo, o que estava a fazer, o que tinha feito e o que não tinha feito. Como e porquê. Massacrei-o durante mais de uma hora. No fim, fiquei satisfeita, percebi tudo o que me faltava perceber apesar de não concordar com alguns procedimentos. O homem acabou o exame todo contente por ter conseguido limpar a imagem dele e a dizer-me que "até já gosto de si", mas percebeu a argolada e remendou: "Não é que antes não gostasse, percebeu, não percebeu? Não tenho nada contra si". Sosseguei-o: "Claro que percebi doutor, eu também não tenho nada contra si. Nem a favor"

8.9.10

Veredicto

Fiz o tal exame, hoje. O eco-doppler. A veia poplítea está bem. Há lá um pequeno vestígio da trombose na válvula, mas pouco, muito pouco.

Apetece-me tanto fumar. Tanto, mas tanto... Para me distrair ontem à noite fiz chá. Devo ter bebido perto de um litro de chá. Não me apetece chá, hoje. Coca-cola. Hoje é coca-cola.

Tenho de desfazer-me de todas as garrafas de bebidas alcoólicas, antes que a coisa vire...

7.9.10

Noventa

Como na sexta-feira passada já dormiram em casa do pai ontem à noite dormiram comigo, a regra é dormirem comigo só uma vez por semana e normalmente é à sexta-feira. Deitamo-nos como sempre, eu no meio e um de cada lado agarrando-me um braço cada um e uma perna a entrelaçar cada uma das minhas. Mas, o grande começou a queixar-se que tinha qualquer coisa a incomodá-lo numa unha do pé. Acendi a luz e verifiquei do que se tratava. Uma unha partida, nada de especial. Então levantei-me e fui buscar a tesourinha pequenina e agarrei-lhe no dedo para cortar o pedacinho da unha que estava levantado e arranhava o que fosse que tocasse. Acontece que ao agarrar o dedo, não sei como fiz, mas a articulação estalou, e estalou a confusão. Foi um ver se te avias, o grande soltou uma gargalhada quando o dedo estalou, o pequeno achou piada e toca a puxar os dedos dos pés ao grande a ver se estalavam. E o grande, claro, toca a puxar os dedos dos pés ao pequeno. Quanto mais os dedos estalavam mais eles se riam e quando dou conta já me estão os dois a tentar apanhar os dedos dos meus pés e instalou-se definitivamente a tourada em cima da minha cama. Não me aguentei, as gargalhadas eram contagiantes e quanto mais eu me ria menos força tinha para lhes fugir. Não escapou um dedinho, de ninguém, e cada dedo cada gargalhada. Eram trinta dedos naquela cama, eram três pessoas a rir, o que feitas as contas resultou em noventa gargalhadas em menos de cinco minutos. Já tive muitos presentes de aniversário, mas nenhum, nenhum como este.

6.9.10

Hoje

Faço 35 anos.
Deixo de fumar.

5.9.10

Amanhã

Chega a doer um bocadinho. Amanhã é o último dia.

4.9.10

A sangue frio.

Se um dia um dos meus filhos me disser, mãe, aquele homem fez-me isto, ou, aquele homem tocou-me aqui, ou, isso mesmo que ocorre a todas as mães e pais e que é tão medonho que se luta contra essa ideia com todas as forças do ser, se um dia um dos meus filhos me disser mãe, aquele homem, aquele homem, se um dia eu o apanhar, e esforçar-me-ei para o conseguir ainda que seja a última coisa que faça na puta da vida, se um dia eu o apanhar, aquele homem, morre às minhas mãos, às minhas unhas, aos meus dentes. Depois podem fazer um circo mediático à minha volta. Não me importo. Não verterei uma lágrima. Não proferirei uma palavra.

2.9.10

Salva-vidas

Porque projectamos nós nos outros, aquilo que gostaríamos que fossem ao invés de aceitarmos o que realmente são? Tendemos todos para isso, acho eu. Conhecemos as pessoas, até ao nível que nos é dado a conhecer e incluindo sempre o cunho que lhes imprimimos que nunca é isento, faz parte do ser humano, a nossa interpretação tem sempre e só a ver connosco, mas depois projectamos, invariavelmente todo o potencial que a pessoa tem, ou que pensamos que tem. Muitas vezes é esse potencial que é o mais atractivo, diminuímos o real e focamo-nos no potencial. Depois, quando as pessoas não correspondem ao potencial que lhes atribuímos inventamos todos os motivos e mais alguns para que tal não suceda. Há uma pessoa que me acha o máximo. Acha-me linda, maravilhosa e um espectáculo de pessoa. Tudo filme daquela cabeça. Fico chateada, porque não só não me conhece bem como também tem as ideias um bocado baralhadas por conjunturas negativas e então, eu pareço-lhe um raio de sol no meio da escuridão, pareço-lhe o salva-vidas que lhe vai deitar a mão porque se sente a afundar. Tudo filme daquela cabeça. Aceito que me ache bonita, há gostos para tudo e gostos não se discutem. Não aceito que me venere, que me eleve a um plano que só naquela cabeça existe, e muito menos que me tome por salva-vidas. Tomara eu manter a minha vida à tona.

Needs

"I think he always loved me, in his own way, spending no time with me, showing me no affection"

"Why did you stay?"

"I didn't need him to feel about me the same way I felt about him"

1.9.10

As minhas dores

Consegui recuperar alguns hábitos que me fizeram muita falta durante anos. Encontrando-me com tempo para dedicar a mim própria recomecei a fazer aquelas coisas que me dão imenso prazer e das quais me tinha simplesmente esquecido. Recomecei a frequentar as sessões do Cineclube ainda que quinzenalmente, recomecei a deitar o olho aos concertos e às peças de teatro, recomecei a comprar livros. Durante cerca de dez anos li apenas um livro por ano, a minha avidez pela leitura morreu. Li desalmadamente pela adolescência fora, encontrava-me dentro de livros e vivia neles a maior parte do meu tempo, e custava-me imenso deles sair. Li livros que eram para a minha idade e que não eram para a minha idade. Depois casei-me e continuei a ler, tinha muito tempo para mim com um marido que viajava a maior parte do tempo. Depois tive um filho e o tempo para ler fez-se pouco. O tempo para ir ao cinema, concertos e todo o tipo de espectáculos fez-se nenhum. Depois tive outro filho e os dois eram todo o meu tempo, toda a minha vida. À noite, aquele tempo de silêncio de nada rendia, vencida pelo cansaço a leitura era simplesmente impossível, tentava mas de nada servia. Levantá-los, vesti-los, pequeno-almoço, escola ou infantário, trabalho, banho, deitá-los, sozinha porque no meu caso durante a semana não havia com quem repartir as tarefas, tudo isto fazia com que tudo o que lesse fosse inútil. Desisti de ler simplesmente, não valia a pena, não retinha absolutamente nada. As férias grandes, sim, um livro cuidadosamente escolhido, da lista que mentalmente ia fazendo, os que queria ler. Sentia-me reduzida a quase nada por só ser capaz de ler um livro por ano. Sou uma grande parva, não sei organizar-me, não faço a gestão do tempo como devia fazer, deveria conseguir ler mais, não leio mais por exclusiva responsabilidade minha. Nunca culpei fosse o que fosse ou fosse quem fosse pela minha falta de disciplina. Hoje, com tempo para dedicar a todas as coisas que gosto de fazer, com oportunidade de investir no meu prazer pessoal, os livros são o que mais me custa. Não preciso de sair de casa, não preciso de fazer rigorosamente nada, basta pegar neles e abri-los. Não percebo porque me custa tanto. Não percebo porque me doem tanto os livros.

30.8.10

Fútil

O tédio destrói-me, corrói-me, esventra-me. Vazio de tudo, sede de tudo, fome de tudo. E o mais estúpido é que nunca me senti tão bem com o meu corpo, nunca gostei tanto de mim, acho francamente que, fisicamente, estou no meu melhor. Gosto do meu cabelo, das ondas sedosas, gosto da minha pele, macia e brilhante. Gosto das minhas curvas e das minhas carnes, voluptuosoas. Até gosto das minhas mamas, pequenas e mansas. Gosto do meu rosto, das minhas rugas e das minhas sardas que só aparecem no Verão. Não, não é estúpido, é só fútil.

28.8.10

Distância

Observei um casal, não vai há muito, numa festa. Reconheci a mulher. São de cá, apesar da festa ter sido a uns 70 quilómetros daqui, numa praia. Acompanhei um amigo que foi pôr música, numa festa "I love 80's". Este amigo é dj, porque gosta, é de borla e faz disso apenas um hobbie. Pelos menos por aqui, nos meses de Julho e Agosto fecham-se as dicotecas e deslocam-se as festas para as praias. Alugam sítios, ou instalam-se noutros sítios, ou constroem sítios só para as noites de Verão. Este amigo é amigo dos donos dos estaminés nocturnos locais e foi então convidado para essa festa. Levei-o e fui obviamente à festa. No meio de gente muito beta, de casais com mais de 60 anos, de meninas muito bem e de meninos de calça caqui e sapato de vela, reconheci esta mulher, lindíssima, cabelo cor de mel, e olhos azuis, alta e magra, uma elegância. Tem dois filhos, parecidos com a mãe, lindos portanto, já a vi com eles por aqui. Estava com o que deduzi ser o marido, um tipo de aspecto perfeitamente normal. Muito calma esta mulher, enquanto toda a gente dançava como se não houvesse amanhã, ela apenas balançava o corpo, sem sorrir. O marido, mais animado, tentava que ela sucumbisse ao espírito da festa, à musica, tão familiar a música que trazia de volta a adolescência e a inconsciência. Ela, nada. Ele continuava, sorria-lhe, estendia-lhes as mãos, abraçava-a e procurava-lhe o pescoço, ela, nada. Estariam zangados? Hum... Não parecia, não lhe vi raiva nem azedume na expressão, a ela, porque a ele vi-lhe desejo escancarado nos gestos. Entristeci por eles, tão perto, e mesmo assim tão longe um do outro. Uma pena.

26.8.10

Encontros imediatos de terceiro grau

Os meninos foram jantar e dormir a casa do pai. A mãe aproveita a noite livre e resolve ir ao cinema. Até aqui tudo bem. Bom, saí do escritório e programei a noite: compro o bilhete, vou à Fnac procurar o livro e ainda tenho tempo de comer qualquer coisa antes do filme. Fui a um dos centros comerciais cá do sítio e dirigi-me imediatamente à bilheteira do cinema. Continua tudo bem. Com o bilhete comprado, dou meia volta para ir à Fnac e com quem me deparo? Quem? Pois... Outro encontro imediato de terceiro grau com alguém que durante anos e anos tinha desaparecido do mapa e que agora... bem, agora... em poucos dias emerge duas vezes. "Olá tudo bem?" e continuo em direcção à Fnac, resolvo o que lá tenho a resolver e à saída, eis que quase me esbarro novamente com essa pessoa. Ai o caralho... pensei eu, já a achar que isto são coincidências a mais. Já estava sentada à mesa quando me passa, mesmo pela frente, outra vez o gajo. Puta que pariu esta merda, aparece duas vezes em quatro dias, e três vezes na mesma noite.

Fiquei a saber, com estes encontros imediatos de terceiro grau, algo que não gostei nada de ter ficado a saber. Bato com os olhos nele, e estremeço, como dantes. Foda-se,  foda-se,  foda-se.

22.8.10

Autorização para namorar

Sem mais nem menos, assim de rajada fiquei a saber que pelo menos o meu filho mais velho concebe a ideia da mãe ter namorado. Com um de cada lado, pela mão à saída da missa deparo-me com um velho amigo, que do meio de uma confusão de gente aperaltada para o que parecia ser um casamento, se dirige a mim e me cumprimenta. Sorriu aos dois e perguntou o "Tudo bem?" da praxe. Seguimos com o habitual "Adeus, gostei de te ver" e logo o mais velho perguntou "Quem era mãe?" Respondi-lhe que era um velho amigo, do tempo de escola e ele, para minha total surpresa perguntou se era o meu namorado. "Não filho, que tolice!" E ele "Mas, oh mãe, vocês ficavam bem juntos".

(Caiu-me tudo ao chão. Este velho amigo era nem mais nem menos do que o tipo que me tinha ficado atravessado e que recentemente desatravessei. E pensar que passei anos sem me cruzar com ele, agora que já não é preciso aparece-me assim à frente, raio de sorte a minha.)

Mudança

Falta-me apenas decidir sobre as casas de banho, azulejos, louças, torneiras, essas coisas. O resto já está decidido, madeiras, janelas e estores, a nova lareira, a custo de várias visitas a obras e a casas em construção que o senhor é impecável e teve o cuidado de me mostrar o efeito final de cada um dos elementos que tive de escolher. Esperam-me dias e noites a embalar e encaixotar tudo o que tenho dentro de cada armário, todos os livros de todas as estantes. Os móveis serão carregados e depositados num armazém providenciado pelo senhor das obras. A roupa ficará para o final, vai tudo para casa dos meus pais para onde me vou mudar durante os meses que durarão as obras. Lá para o fim do mês de Setembro decidirei sobre a cozinha, falta-me um orçamento. Disseram-me três meses, conto com cinco. Viverei portanto uns bons meses em casa dos meus pais, e nesse tempo há o regresso às aulas, tanto dos miúdos como o meu, há a tentativa de deixar de fumar que prometi à minha mãe e a mim própria, há o regresso ao exercício físico. Será uma excelente oportunidade de me livrar de alguns péssimos hábitos que tenho.

21.8.10

Bouillabaisse

Em 2004 tive de ir a St Tropez trabalhar. É verdade, trabalhar, estranho não é? Mas o cliente em questão, depois de ter apresentado a colecção aos representantes europeus cá em Portugal e cá na terrinha, foi de férias para St. Tropez de mandou-nos lá ir ter com ele passado mais ou menos um mês para nos passar as encomendas. tratava-se de uma marca americana, e como as encomendas para a Europa já tínhamos, um mês depois teríamos as encomendas para os Estados Unidos. Preparámos os modelos todos e lá fomos, eu e a minha colega, de malas e sacos aviados para St. Tropez. Julho, calor filha da puta e o bikini devidamente guardado dentro da mala, obviamente. Se despacharmos o trabalho rapidamente ainda damos uns mergulhitos, pensamos nós. Pois muito bem, trabalhamos como umas burras, aturamos malucos de meia-noite mas tivemos uma tarde de domingo livre. Um dos comerciais de uma das fábricas que tinham trabalhado na colecção e que tinha as consequentes encomendas, foi lá ter connosco porque queria a informação que lhe tocava logo que possível e regressaria mais cedo do que nós. Almoçámos nesse dia no hotel onde estávamos todos hospedados. Todos porque além de mim e da minha colega, estava o nosso patrão, o nosso agente nos Estados Unidos, o tal comercial, o representante francês, a mulher, os filhos e a bábá, o dono da marca, a mulher os filhos e a bábá, e mais dois ou três capangas do dono da marca que além de lhe chegarem os cigarros, de lhe carregarem os sacos e de lhe tratarem das mais variadas merdas, também lhe organizavam as saídas e garantiam entrada em qualquer discoteca e/ou restaurante em St. Tropez. Um verdadeiro circo. Dizia eu, almoçamos nesse dia no hotel, no terraço ao lado da piscina e a estrela (o dono da marca) lembrou-se de mandar fazer uma Boullabaisse para o jantar (prato típico do sul de França, creio que é mesmo típico de Marselha, mas não tenho a certeza, é parecido com uma caldeirada de peixe) e perguntou aos convivas quem alinhava. Encomendou-se a Bouillabaisse então para o jantar. Tarde de sorna na piscina, tudo a jibóiar ao sol, nós as duas entretidas na conversa com o nosso colega português e com a mulher da estrela, muito simpática por sinal. A meio da tarde entram uns 4 ou 5 gajos munidos de guitarras e desatam a cantar espanholadas tipo Gipsy Kings lá ao pé do povo. Fartaram-se de cantar, já ninguém os podia ouvir, um desespero para todos os presentes menos para a estrela, é fã do género, ficamos a saber. No fim, a estrela aplaude entusiasticamente, faz sinal ao outros todos para aplaudirem também e grita: Très bien, on prend les gitans pour le dinner!!! Nós as duas deitamos as mãosinhas à cabeça, o nosso colega revira os olhos e diz: Creeeeeedo! Pensei que íamos comer peixe...

19.8.10

Dores de crescimento

Lembro-me bem quando me deitava e me doía a dobra das pernas, por detrás dos joelhos e não havia posição que acalmasse o raio da dor. A minha mãe dizia-me que eram as dores de crescimento, que era normal. Sei lá se eram, mas doía e não era pouco. Há outras dores, na idade adulta, daquelas que o corpo não sente e essas são sim, as dores de crescimento. E doem muito mais. Doem cá dentro, por dentro, e não há pomada, comprimido ou xarope que as acalme. O único calmante para estas dores é o perceber que não somos os únicos com dores, que há outros como nós e que há sempre quem não nos julgue. Há sempre alguém que nos segure a mão, que nos dê a opinião sem censura que mesmo não sendo igual à nossa nos faz pensar e nos ajuda a aceitar as nossas falhas como parte de nós, e a retirar-lhes a lição para evoluirmos como indivíduos. E quando finalmente percebemos e aceitamos que a vida não é a preto e branco mas pintada de milhares de tons de cinza encontramos alguma paz. Quando finalmente aceitamos a nossa condição de seres feitos de racionalidade mas também de impulsos, que não deixamos de ser bichos muitas vezes guiados por instinto, estamos a crescer.

18.8.10

Guerra

Ontem à noite o pequeno quis dormir em casa dos avós, então fui para casa com o grande e decidimos ver um filme que tinha acabado de começar. Vimos o Tróia, eu pela quarta ou quinta vez, que eu gosto de épicos e de filmes onde há guerras, sangue e honra, e ele pela primeira. Deliciei-me a vê-lo ver o filme. Gostou das batalhas e das espadas, dos guerreiros e das armaduras, dos navios e dos cavalos, mas lindo foi vê-lo a absorver o discurso dos reis e a ler a raiva e a ganância, o discurso dos amantes e a descobrir o adultério, o discurso de Heitor e a interiorizar o carácter, o discurso de Príamo e a perceber o amor. O meu filho percebeu aquilo tudo, percebeu as metáforas todas. Mas não percebeu uma coisa fundamental porque no fim disse-me que o filme foi justo. Foi justo? Sim mãe, o Páris matou o Aquiles porque ele matou o Heitor, que matou o Pátroclo pensando que ele era o Aquiles, e que também também matou Menelau para defender o Páris. Continuou: e o Menelau queria matar o Páris porque ele lhe roubou a mulher, e foi por isso que começou a guerra mas eu sei que o Agamémnon aproveitou a guerra porque queria conquistar Tróia. A guerra foi justa. Na cabeça dele aquilo teve lógica, mas que desgosto! Meu amor, a guerra não foi justa. Meia dúzia de homens decidem a guerra e muitos inocentes morrem, não viste? Não viste quantos soldados morreram? Não viste quantos troianos morreram sem culpa de nada? Sim, tens razão mãe, devem ter morrido milhares de pessoas naquela guerra não é? Pois. Vês? Nenhuma guerra é justa meu amor, nenhuma.

(Também gostei da parte em que o Aquiles salta para a espinha da refém e ele me pergunta: estão a fazer amor, pois estão mãe? Ui... sem preservativo... mas naquela altura não havia preservativos, pois não mãe? Pois não...filho. E no final quando Aquiles vai desvairado à procura da miúda, ele diz: está à procura da mulher dele, não é mãe? Podemos dizer que é a mulher dele, pois podemos mãe? Eles gostam um do outro mãe...)

17.8.10

Silêncio

O que não se diz é tão importante como o que se diz.
Assim como aquilo que não se faz é tão revelador como o que se faz.
Às vezes, até mais.
Que ninguém se iluda.

15.8.10

Julião Sarmento

No Tate Modern Museum, em Londres, numa sala só com obras dele. Houve uma que não irei mais esquecer. A acompanhar uma sequência de fotografias de um torso de uma mulher, tem o seguinte texto:

"Des le commencement il y a ton ombre qui leche mon corps, et des que mon corps se laisse lecher par ton ombre, mon corps se fait en brume."

Pode ser vista aqui.

(desde o início há a tua sombra que lambe o meu corpo, e desde que o meu corpo se deixa lamber pela tua sombra, o meu corpo faz-se em bruma)

13.8.10

O amor

Há um homem que se casou com uma mulher, que não ama que nunca amou e de quem fez a segunda escolha, mas nunca a traiu. Ama desde sempre outra mulher que não consegue esquecer, apesar de nunca lhe ter tocado. Vive assim, resignado. A mulher dele sente-lhe o mau humor, sente-lhe a indiferença e a distância. Vive assim, resignada.

Há um homem que se casou com uma mulher, que ama profundamente, a quem dá toda a atenção quando estão juntos. Leva-a ao cinema e ao teatro, ajuda-a em tudo o que pode, esforça-se por ser o melhor marido, e trata-a muito bem. No entanto, no horário de expediente, porque pode, trai-a sempre que tem oportunidade, tem casos fugazes com variadíssimas mulheres e não consegue viver sem isso, sem a emoção da caça, sem a adrenalina. Vive assim, no limite. A mulher sente-lhe o carinho, o amor, a dedicação. Vive assim, sente-se a mulher mais amada do mundo.

Há um homem que se casou com uma mulher, diz-lhe que a ama todos os dias e nunca a traiu. Pensa basicamente nele, e não nela. Faz o que quer e não tem em conta os desejos dela. Diminui-a todos os dias, emocionalmente e intelectualmente. Diz-lhe que a ama todos os dias. Desilude-a frequentemente com comportamentos que a magoam sem sequer se dar conta disso. Desvaloriza os sentimentos dela, o amor dela. Vive assim, sem noção do que lhe faz. Ela sente-lhe a arrogância, sente-lhe a distância, sente o quanto ele se acha melhor do que ela, e sente que só está com ele porque a ele lhe convém. Vive assim, frustrada.

Conheço estes três casos de perto, e desconheço se o homem comprometido de quem falei se encaixa em algum deles, nunca saberei.

Pergunto a todas as mulheres qual destas três esposas preferiria ser.

O que conta mais? O que eles efectivamente fazem ou o que eles nos fazem sentir?

Eu já fui a terceira e não gostei, por isso, já não sou.

1.8.10

London

Here I go.

Plástico

Sempre que vou a Trás-os-Montes venho de lá com a sensação que a minha vida é de plástico. Descartável. O ambiente agreste lá de cima faz-me sempre pensar que não dou o devido valor às coisas. Caio sempre num estado de espírito que me atinge como um balde de água fria. Volto sempre a achar que ali sim, se vive verdadeiramente. Ali, nas aldeias de Trás-os-montes, onde se trabalha a terra, onde as estações do ano comandam o ritmo da vida, onde tudo é díficil e vem apenas do trabalho, ali é que se vive. Aqui, onde tudo é fácil, onde tudo se compra feito, onde tudo se desperdiça, aqui a vida é de plástico, não conta. Nem se trata de ter mais ou menos dinheiro, de ter mais ou menos poder de compra, é o trabalho, é o levantar de madrugada, é o frio, é o ter a canseira de fazer as coisas mesmo que custe, senão não há frutos, senão não se come, senão não há nada. Não sei explicar porquê mas no fundo, tenho a convicção que aquelas vidas difíceis valem muito mais do que a minha.