19.9.14

Vergonha

Existe uma arte, um dom, ou um desporto, que é magoar os outros propositadamente. Conheço várias pessoas que conseguem escolher as palavras certas e proferi-las no momento certo com o objetivo de fazer sofrer o interlocutor. Nunca consegui aprender a fazer isto, e envergonho-me de o admitir, houve momentos em que desejei fazê-lo. Sempre acreditei que estas pessoas se dividissem em dois grupos; as que o fazem retaliando um ataque de forma imediata e espontânea, e as que o fazem depois, por vingança, seguindo um plano meticulosamente preparado. Mas descobri que há ainda outras, as que pensam no que podem fazer às pessoas, porque as conhecem bem, porque lhes conhecem as fraquezas e preparam o ataque, apontam ao alvo indefeso, incrédulo e se regozijam com a dor alheia, pois só assim se sentem felizes, fazendo os outros infelizes. Habitualmente fazem-se passar por amigos. São os pratos da balança que só sobem quando os outros descem, já que sozinhos não valem nada, vivem dependentes do que acontece aos outros, ora felizes ora infelizes na proporção direta dos estragos que conseguem provocar. Os que magoam à defesa até consigo tolerar, já aos outros, e também me envergonho de o admitir, desprezo-os profundamente.

18.9.14

Sede da alma

"Tinha imaginado o amor como um êxtase de tal maneira arrebatador que todo o mundo se transformasse em Primavera. Tinha ansiado por uma felicidade extasiante. Mas isto não era felicidade, era uma sede da alma, um anseio doloroso, uma angustia amarga que não sabia existir. Tentou descobrir o momento em que começou. Não conseguiu. Só se lembrava que, de cada vez que entrava na casa de chá, depois das primeiras duas ou três vezes, sentia um aperto que lhe fazia doer o coração. E lembrou-se que quando ela falava com ele, ele ficava estranhamente sem respiração. Quando ela se ia embora era pura infelicidade, e quando a via novamente era puro desespero."

Somerset Maugham em "Servidão humana"

17.9.14

Baixo

Em Setembro, todos os anos temos um fim de semana de concertos no jardim do Centro Cultural Vila Flor. Chama-se Festival da Manta e quem quiser leva uma manta, ou um tapete, ou qualquer coisa para estender na relva e ficar a assistir ao concerto sossegadinho sentado no chão. Este ano levei os meus rapazes ao concerto dos Linda Martini. Nem eu nem eles conhecíamos mais do que alguns temas escutados no Youtube e concordamos que era material bom e achamos que valia a pena. Fiquei toda contente por eles quererem ir, caso contrário iriam jantar e dormir em casa do pai, coisa que não me agradava pois estava filada aos beijos de parabéns que me tocavam logo a partir da meia-noite. Fomos e adoramos, foi muito bom, logo a começar o vocalista diz que as mantas podem ser voadoras, não é obrigatório que fiquem no chão e toda a gente de imediato se levantou. O som de Linda Martini não cria propriamente um ambiente que nos deixe ficar sentadinhos calmamente no chão. A meio, o grande que já está mais alto do que eu, vira-se para mim e pergunta-me:
Mãe, sabes que instrumento está a tocar a rapariga?
Respondi: sei, está a tocar baixo.
Ele: está nada, está a tocar alto.

15.9.14

Fraquezas

Não consigo compreender como há pessoas que estão sempre enervadas, desde que acordam até que se deitam, que contrariam toda a gente, durante todo o dia; que ralham, que discutem, que apontam o dedo. Não sei onde vão buscar tanta energia. Quando me enervo ou me zango, a seguir, fico exausta, mas só a seguir, quando acalmo. Se calhar, essas pessoas não se cansam porque nunca se acalmam, ou então sou eu que sou fraca. O que me vale é que raramente me enervo e quase nunca me zango, senão a minha vida iria ser um martírio. Sou mesmo fraquinha.

12.9.14

Assombroso

Poucos filmes me tocaram e me marcaram profundamente.

Um deles é "O Amante" baseado no romance homónimo de Marguerite Duras, o outro é "O cozinheiro, o ladrão, a mulher dele e o amante dela", e o último, vi-o ontem na sessão do Cineclube, é "Only lovers left alive" e qualquer coisa mudou dentro de mim.

(Não escrevi o título em português - "Só os amantes sobrevivem" -  porque acho que se perde algo na tradução)

10.9.14

A P.D.I.

Os cabelos brancos cobrem-se com tinta há anos. As estrias, essas já sabemos que são para a vida. A banha, tem anos que aparece mais, tem outros que desaparece e, embora uns dias melhor do que outros, aguenta-se. As dores nos ossos são companheiras certinhas das vésperas de mudança de tempo, as dores de cabeça, - vá lá - só dão o ar da sua graça uma vez por mês. Os comprimidos para o sangue já têm lugar cativo na mesa de cabeceira e toma-los já é gesto automático antes de deitar. As ecografias mamárias já não escapam de seis em seis meses para contar os corpos estranhos, não vá aparecer mais algum que desestabilize o convívio pacífico dos outros que já lá estão. As rugas já chegaram e parece que gostam dos aposentos, não me parece que tenham vontade de desandar. São os trinta e nove anos, que ninguém se iluda. A novidade é a visão, corrijo, a falta de visão da qual dei conta no último ano letivo, as letras dos livros e das fotocópias todas desfocadas e as letras do quadro ou da projeção a juntarem-se todas e a tornarem-se numa mancha só. Entretanto, fui buscar os óculos ontem ainda estou espantada por perceber quão mal eu via. Portanto, daqui para a frente, certamente, as maleitas são para piorar. Tirando as que ainda vão aparecer. Ah, e esqueci-me de dizer que desconheço o paradeiro da minha líbido e nada indica que pretenda regressar.

29.8.14

Dantes

Dantes quando via nos filmes ou lia nos livros mulheres assim, que viviam paixões intensas, proibidas, adúlteras, mulheres vividas, marcadas, adorava-as e pensava que gostaria de ter a coragem de viver coisas dessas, que mulheres assim eram muito mais interessantes porque tinham um passado, tinham segredos, tinham substância.

Agora sou uma dessas mulheres, que teve a vida de esposa e mãe normalíssima, que depois fez a rodagem das sensações, da sedução e da conquista, do corpo pelo corpo, do sexo pelo sexo, que experimentou vários homens para lhes aprender as diferenças mas sobretudo os diferentes efeitos que causou em cada um deles, que viveu um amor brutal, tórrido, obsceno, proibido, agora que sou essa mulher, não me encontro interesse algum.
 
Como se fosse um buraco negro que absorve o que está à sua volta mas que depois transforma tudo em nada.

28.8.14

Real men




















Steve Buscemi

21.8.14

Real men


















Idris Elba

20.8.14

Real men


















Javier Bardem

19.8.14

Real men


















Jason Statham

30.7.14

Público

Tenho ido suar para o parque ao fim do dia, e tenho ficado parva da minha vida com os jovens que por lá saltitam. Já não são as mulheres que se exibem, apesar de totalmente maquilhadas e a tresandar a perfume ao mesmo tempo que fingem que correm na pista de terra, não, agora são eles, de calções curtos, de tronco nu e, horror dos horrores, sem um pelinho à vista. Não sei explicar mas ver corpos masculinos sem pelos no peito, braços ou pernas mete-me nojo. Juro, dá-me náuseas. Sou velha, bem sei, mas gosto de homens com pelos. Sugiro aos moçoilos que deixem crescer a barba uma semana e depois façam a depilação com cera, tal como na pernoca e na axila, a ver se gostam. Além disso sugiro aos senhores que tomam conta do parque que coloquem tabuletas - várias - a informar que é proibido andar por lá sem t-shirt. Bolas, uma gaja sofre, vai malhar para o parque, já tem os músculos todos a doer e ainda tem de levar com os mocinhos a exibirem o corpo a fazer lembrar um frango depenado. Blheeerrrrrggggg.

28.7.14

Sou deles

Acabei a licenciatura, ainda pensei em inscrever-me num mestrado, mas já desisti. O que eu queria fazer não abriu em horário pós-laboral (contrariamente ao que havia sido anunciado) e o outro em pós-laboral obrigar-me-ia a ir às aulas três noites por semana. Prometi aos meus filhos que faria o mestrado se fosse apenas uma noite por semana (conforme havia sido anunciado). É tempo agora de me dedicar a eles, de lhes dar todo o meu tempo livre, sem aulas, sem trabalhos, sem condicionantes. Foram três anos em que estive um pouco longe deles. Bem sei que estiveram os meus pais, que vigiaram de perto quando eu não pude, mas agora sou eu. Vou ser eu. A tempo inteiro. Quem sabe um dia continuo, mas o que fiz já ninguém me tira e estou satisfeita comigo. Sinto-me bem. Agora sou deles. Só deles.

16.7.14

O grande está cada vez maior

Está mais alto do que eu. Já corta o bigode. Tem acne. Tem voz grossa. Resmunga-me e leva palmadas como se tivesse 6 anos. Abraça-me e levanta-me como se eu tivesse 6 anos. Dá-me beijos gordos e sonoros. Já faz programas com os amigos. Fala de gajas e de mamas. Fui matricula-lo hoje. Vai mudar de escola, vai para o 10º ano. Deus o fade bem.

11.7.14

Está quase a acabar


Tive um pequeno "argument" com a minha professora de Literatura Inglesa sobre a data de entrega do último trabalho, coincidia com a data de entrega de um outro de Literatura Portuguesa já programado há muito, e senti-me injustiçada.

Disse-lho.

Ela cedeu e deu-me mais algum tempo. Entreguei o trabalho 48 horas depois da data inicialmente prevista.

Ontem foram publicadas as notas e hoje de manhã tinha esta mensagem no e-mail:

"Very good work! You ought to be proud of yourself. It was a very well reasoned piece of work."

Um pequeno reconhecimento sabe tão bem, sobretudo quando o que apetece fazer é desistir mas para além do respeito pelo esforço de quem nos apoiou nestes três anos não se desiste, avança-se porque é feio e vergonhoso desistir no fim.

9.7.14

Não sei

Não sei se é por estar sozinha em casa mas não deve ser já que passo bastante tempo sozinha em casa durante o ano todo, não sei porquê mas ontem, pela primeira vez, a minha cama pareceu-me tão grande, tão vazia.

7.7.14

Férias

Fui há bocado deixar os dois, o grande que está cada vez maior e o pequeno que cada vez está menos pequeno, com malas, sacos e mochilas no Centro de Estudos que frequentam, e neste momento devem estar a caminho da Colónia de Férias onde vão passar esta semana. Vão divertir-se com toda a certeza, mas eu estou com o coração nas mãos. Não é a primeira vez que vão, mas para mim é sempre como se fosse. Vou ter sossego para terminar os trabalhos que ainda me restam, vou fazer uma faxina profunda em casa e vou arrumar livros e apontamentos, roupas, gavetas e armários. Mas desconfio que todas as atividades são meras distrações que invento para não sentir tanto as saudades.

12.6.14

Acorda-me

Ao virar-se de costas para mim para dormir, disse-me já de olhos fechados, mãe, acorda-me às seis da manhã, para quê, perguntei-lhe. Para eu te abraçar.

6.6.14

Random

Esta noite fui acordada por uma dor de cabeça brutal. Não foi a primeira vez. Acho estas dores de cabeça estranhas, não consigo associa-las a nenhuma causa em particular. São completamente aleatórias. Não gosto.