16.5.14

Endrominanços

À mesa, durante o jantar, sobre qualquer coisa que um amigo de um deles queria fazer e que a mãe não deixou:

Eu: Sabem, às vezes, as melhores mães não são aquelas que deixam fazer tudo.
Grande: Eu sei mãe, tu já me explicaste.
Pequeno: Mas às vezes as mães não deixam, e depois deixam.
Eu: As que são endrominadas.

Silêncio...

Eu: Vocês acham que me dão a volta facilmente?
Grande: Facilmente não, dificilmente, quase nunca.
Pequeno: Muito poucas vezes.
Eu: Pois fiquem sabendo que as vezes que vocês acham que me deram a volta, não deram, fui eu que mudei de ideias (tentativa desesperada de manter a minha posição sem me desfazer a rir) E ao pai?
Pequeno: Ao pai nunca damos a volta, impossível.

Silêncio...

Eu: E à avó e ao avô, conseguem dar a volta?
(ambos às gargalhadas)
Grande: À avó damos sempre a volta. Sempre.
Pequeno: Ao avô também, quando eu quero alguma coisa ele pergunta: quantos beijos me dás? Eu respondo 200, e começo a dar-lhe beijos mas ele manda-me logo parar, diz que são muitos.

13.5.14

Conversas

Juntam-se 7 mulheres com idades compreendidas entre os trinta e os quarenta e dois anos.

2 delas têm um filho com menos de 2 anos
1 delas está grávida do segundo filho
1 delas não tem filhos e não é casada
1 delas tem um casal, a menina com 7 e o menino com 12
2 delas têm um ou mais filhos com mais de 10 anos e são as únicas divorciadas

De que se fala todo o dia, além de trabalho?

 Fraldas, papas, mamas, partos, sopas, roupa e sapatos de bebé, pediatras, otites e gastroenterites, vacinas, sogras, cunhadas, creches, infantários, educadoras, etc… etc… etc…
Às segundas, também se fala de novelas, ou programas de entretenimento de sábado e domingo à noite.
Muitas vezes também se fala de supermercados, promoções, bacalhau, cabrito, refogados, bolos de chocolate, pudins de ovos.
De vez em quando fala-se de roupa a secar, de marcas de detergentes, de limpezas e arrumações.
Muito raramente discutem-se algumas lojas e marcas de roupa e trocam-se informações sobre os tamanhos de cada marca, sobre a durabilidade das peças e sobre maior ou menor facilidade para fazer trocas.

Nunca se fala cinema, de literatura, de concertos ou qualquer espetáculo que seja, de viagens, de diferentes culturas ou de documentários na televisão.

Quando se fala da empresa é sempre tudo mau, porque nunca trabalharam noutra.

Ainda bem que possuo uma grande capacidade de abstração e desligo o aparelho auditor a maior parte do tempo. Sinto-me uma completa extraterrestre perdida no meio destas pessoas.

 Vale-me uma delas (a outra divorciada) que me compreende e se sente tão perdida como eu no meio das outras.

Confessou-me recentemente que também teve de aprender a desligar porque estava quase a enlouquecer e que agradeceu às alminhas todas eu ter chegado (um ano depois dela).

Comunicamos através de olhares e ficamos absolutamente espantadas com as coisas que (ainda) ouvimos durante o horário de expediente.

17.4.14

Carta

Venho informar por este meio que tem de deixar o seu neto fazer as coisas que ele gosta. Eu soube por informação satélite que você andava a praticar esta atividade. Cumpra-a que assim é melhor para você.

Ass: M.A.P.
(melhores avós possíveis)


O meu pai recebeu ontem esta carta, que alguém meteu na caixa do correio, com a seguinte nota no envelope:

 "acabou o tinteiro, por isso está escrito a caneta"

Está bom de ver quem foi, não está?

15.4.14

Por onde andas

Não compreendo porque me olham como se eu fosse atrasada mental quando não permito que me fotografem em locais públicos. Como se ser fotografada nos bares e discotecas fosse o grande objetivo final de quem sai de casa. Toda a gente sabe que no dia seguinte, às vezes antes, todas as fotografias vão parar às redes sociais. Ora, eu, ainda acho que ninguém tem nada que saber onde é que eu fui, ou por onde ando. Ainda acho que se saio ou se fico em casa só a mim me diz respeito, e o local onde passo férias é da minha conta apenas. Basta que me vejam as pessoas com quem me cruzo quando saio. Essas estão concentradas nas suas vidas e não me ligam nenhuma. Não consigo perceber porque querem as pessoas revelar a todo o mundo tudo o que fazem, onde fazem e quando fazem. Ah, mas são coisas inofensivas, coisas que se podem saber, coisas banais. E depois? Porque raio quererei eu contar a toda a gente o que faço? Mais, para que querem as pessoas saber? Hoje em dia as pessoas não querem saber só o que interessa (será que querem mesmo saber o que interessa?), as pessoas querem saber o que não interessa para nada. Passam horas na internet a espiolhar a vida dos outros, a ver as fotografias (com legendas a explicar tudinho) para saberem o que fizeram, onde foram, com quem foram, tudo com autorização e incentivo dos próprios que adoram por tudo ao léu. Está tudo maluco, é o que eu digo. Tudo maluco. Mas eu é que sou a atrasada mental, porque quando lá vem o mocinho da máquina e se posiciona para obter o melhor ângulo, já com com o nariz encostado ao aparelho lhe digo: nem pense.

10.4.14

Grande

Veio de Barcelona a dizer que gostou muito e que não teve muitas saudades. Que ficava mais dois dias. Arrasou-me. Ontem quis ir ao cinema com um amigo. Primeira vez. Está a ficar grande. Mesmo grande, não é o grande que eu lhe chamava para distingui-lo do pequeno, é mesmo grande de grande, de crescido. Tenho de olhar para ele de outra forma, tenho de ajustar os olhos, mas acho que não conseguirei ajustar o coração.

3.4.14

Fui leva-lo ao autocarro que saía às 20:00h. Todo contente, nem quis que eu ficasse até o autocarro arrancar. Eu com um nó na garganta e um maçarico a queimar-me por dentro, meia dúzia de pedras no estômago e agulhas nos intestinos, mas com um sorriso nos lábios. Fui neste estado merdoso para a aula de Literatura Portuguesa, e mais ou menos a meio do caminho, já sentia náuseas. Raios partam quem decidiu meter os putos num autocarro em vez de num avião esticou as duas horas de agonia até uma noite inteira de falta de ar. Mandou-me há bocado uma foto, a fazer peito, grande como um homem. Não estou nada cansado, mãe. Isto é espetacular. E pronto, assim se arruma uma mãe preocupada. Assim se desaperta (um bocadinho de) um coração. Simples.

31.3.14

Medo

Ainda ontem tinha três anos e já vai esta semana a Barcelona, em viagem de finalistas do 9º ano. Quatro dias de dor de barriga para mim, mas eu aguento. O que eu quero é que não lhe doa nada a ele, que seja só gozo, deslumbramento, e muito juizinho naquela cabeça.

27.3.14

Diz

...que já sabe tudo sobre mim. Que sabe tudo o que precisava de saber sobre mim. Que sou livre. E que agora far-me-á a corte....

20.3.14

Brincamos

O meu professor de Literatura Portuguesa faz de conta que está apaixonado por mim. E eu, além de fazer de conta que não percebo que ele está a fazer de conta, faço de conta que acredito.

6.3.14

Bruta



Eu ali a ouvi-lo e a sentir-me cada vez mais pequena. Cada vez mais ignorante. Cada vez mais bruta. Ouvia o fascínio, a admiração. Ouvia as explicações, as interpretações. Ouvia tudo e não sentia nada. Mas sentia. Sentia uma inesperada mistura da recusa que cultivei estes anos todos, com uma curiosidade medrosa e quase infantil pela obra que sempre me intimidou. Nunca quis ler aquele homem com medo de sem querer lhe roubar as palavras e de sem saber querer fazê-las minhas, levada pela vaidade e pela soberba, que quando se me mostram me envergonham e me fazem sentir pequena, ignorante e bruta.

10.1.14

Nada

Recebi ontem um email de um "old acquaintance of mine" a perguntar-me quando é que nos podemos encontrar, que está cheio de saudades minhas... de me ver... de... enfim... cheio de saudades. Tem mandado mensagens escritas e eu não tenho respondido, decidiu mandar email.

E eu, nada.
O tipo é giro, bem educado, simpático e tem tamanho e força suficiente para me encostar à parede. E pelo que parece, tem vontade também.

E eu, nada.

Nem um formigueirosinho, uma pequena efervescência dentro de mim, umas borboletitas, nada.
 
Morri. Pelos vistos.

7.8.13

Ponham-se finos


Retirado daqui:  http://www.lorrainepascale.com/category:books

(não resisti...)

18.1.13

Recapitulando

1. Não tenho escrito aqui no blog ultimamente não porque não me apeteça, mas porque não tenho tipo tempo;
2. Ando aflita porque tenho amanhã, ou seja, hoje, a última frequência do semestre e a esta hora ainda estou a estudar;
3. Ando aflita também porque deixei quatro cadeiras para exame, para poder ir às aulas apenas duas noites por semana, e tenho, como está bom de ver, quatro exames para fazer. Na verdade, são três porque exame de Inglês não conta;
4. Tenho de acabar de ler um livro e ler ainda outro para poder fazer o exame de Literatura Inglesa;
5. Tenho de estudar para o exame de Literatura Portuguesa que foca as obras de Camões e Sá de Miranda;
6. Tenho de estudar para o exame de Mentalidades e Cultura Portuguesa que aborda o Republicanismo / Implantação da República em Portugal e mais dois temas dos quais não me lembro agora;
7. Estou praticamente a entrar em stress pré-traumático (há o pós-traumático, pois há? então também há o pré-traumático!) porque os exames terão lugar nas próximas 3 semanas, ou duas, não tenho a certeza porque ainda não foi publicado o calendário de exames;
8. Tive outra trombose venosa profunda na semana passada, desta vez na perna esquerda mas não foi tão grave como a de há três anos na perna direita, e ninguém me tira da ideia que esta merda é falta de vodka, visto que não saio à noite vai para quatro meses, e de como vodka nem o cheiro, tenho para mim que o meu sangue retaliou.

E prontos, a minha vida tem sido, basicamente, isto. Para além dos meus filhos, da casa, e do trabalho. De tédio, não me posso queixar.

10.1.13

Desejos

Gosto que a minha vida tenha muitos momentos em que estou onde quero estar e a fazer o que quero fazer sabendo que não está ninguém à minha espera.

Gosto de estar deitada no sofá a ler ou a ver um filme e pensar que se houvesse um companheiro me iria aborrecer porque o que me apetece mesmo é estar sozinha.

Gosto de não planear nada e saber que vou fazer só o que me apetecer ou não vou mesmo fazer nada.
Gosto de não sair à noite sabendo que se quisesse sair poderia sair mas prefiro ficar em casa e acender a lareira.

Gosto de esperar pelos meus filhos, de fazer o jantar enquanto espero e de jantarmos os três sem qualquer interferência do mundo exterior.

Gosto de dormir no meio deles e de acordar no meio deles mesmo sabendo que me vai doer o corpo todo porque eles já são grandes e já me apertam durante o sono.
Gosto da sensação cansaço e de dever cumprido quando acabo de limpar a casa, do cheiro a roupa lavada e do frigorífico e da dispensa devidamente abastecidos.

Espero ter saúde e trabalho para continuar a levar a vida assim, sossegadamente, e espero acima de tudo conseguir melhorar aquilo que tem de ser melhorado, e ter força para mudar o que tem de ser mudado.

8.10.12

Devenir

"On ne naît pas femme, on le devient"

Simone de Beauvoir

3.10.12

26.9.12

Batota

Anda o pessoal a divertir-se a ler as sombras daquele senhor que parece que lhe bate e ela gosta e eu sou obrigada a ler Sá de Miranda e Virgínia Wolf. Da outra vez fiz de conta que li mas não li e safei-me mas desta... hum... acho que não ne safo.

(Ontem pela primeira vez na vida li, obrigada, uns poemas de Sá de Miranda e, surpresa, gostei muito.)

25.9.12

Perpétua

Quem não se lembra da Tieta do Agreste? (por favor não valorizar as alusões a obras do Jorge Amado ultimamente, não têm qualquer significado para além do que lhes dou, de serem base de muitas telenovelas que quer queiramos quer não deixaram fortes memórias em várias gerações) E quem se lembra da Tieta do Agreste também se lembra de certeza da Perpétua, a irmã. Sempre vestida de preto, eterna viúva e com a trança a atravessar-lhe a cabeça. Sempre mal disposta, sempre zangada e sisuda. Ora o meu pai gosta de chamar Perpétua à minha mãe, quando estamos todos na palhaçada e ela se irrita connosco. Isto dura há anos, desde a telenovela, ou seja, quando a brincadeira começa a ser demasiada e a minha mãe manda parar, o meu pai dá o alerta, calem-se que vem aí a Perpétua o que dá sempre risota e desarma a automaticamente a minha mãe. Os meus filhos obviamente que já aprenderam a história da Perpétua, sem terem sequer ideia que quem é ou foi a Perpétua, mas há muito que captaram o espírito da coisa.

Hoje, hora de almoço, eu a mandar o rapaz grande despachar-se para entrar no carro, costumo deixa-lo à porta da escola a caminho do trabalho e hoje com a chuva ele estava mais lento do que o habitual. Ena mãe! Estás brava, já pareces a Perpétua versão 2! E ria-se às gargalhadas. Não consegui, também explodi às gargalhadas.

20.9.12

Fúria

Ontem, tinha acabado de anoitecer e eu dirigia-me ao meu carro depois da reunião na escola do meu filho mais velho. E enquanto retirava a chave do carro de dentro da bolsa reparei num indivíduo que estava parado no passeio, encostado à parede na esquina da entrada de um café. O homem olhava para mim e eu passei e ouvi um sussurro melado assim: "pareces a Gabriela". A verdade é que morena, rechonchuda e de cabelo escuro, comprido e ondulado, com um vestido vermelho justo pelo joelho, sou o mesmo tipo de mulher que a moça que faz de Gabriela na telenovela. Quando ouvi aquilo, dito assim, daquele indivíduo que não me conhece de lado nenhum, não sei, mas em vez de ficar contente com o que foi nitidamente um elogio, ou no mínimo uma demonstração de tesão, apeteceu-me esbofeteá-lo. Mas esbofeteá-lo violentamente. É muito estranho.

19.9.12

Benção

Depois de várias alterações ao horário, este primeiro semestre vislumbra-se menos difícil do que o anterior, mas ainda assim  três noites por semana os moços terão de dormir nos avós. Na cabeça da minha mãe isto é terrível porque e se depois eles têm dúvidas nos trabalhos de casa e eu não consigo ajuda-los? Ao que eu respondo, tentando sossega-la, que num desses três dias da semana só tenho aulas às oito o que me permite ir a casa deles depois do trabalho, ver os trabalhos dos rapazes antes das aulas. Serão só dois dias em que eles têm de fazer os trabalhos sem ninguém para acudir às dúvidas e nesses dias farão como os outros e colocarão as dúvidas aos professores no dia seguinte. Mas não sei, continua ela, eles vão ter saudades, e eu é que sei porque eu é que os deito e eles dizem-me, não sempre, mas às vezes, que têm muitas saudades da mãe. Eu sei mamã, eu sei, e isto corta-me o coração também a mim. Só que o meu pai, mediante as choraminguices de mãe e de avó, eu já a considerar deixar mais uma cadeira para exame e libertar outra noite da semana, insurge-se e pergunta por que raio haveria eu de deixar de ir a essa aula, porque os rapazes ficam bem e ela fez tudo este ano que passou, não fez? Fiz, papá, fiz. Então que faça igual agora neste que dos moços cuidamos nós e se vai fazer o esforço, que aproveite o mais possível para acabar o mais depressa possível. E eu fico a vê-los aos dois, a minha mãe e o meu pai, assim a decidirem a minha vida como se eu nem lá estivesse, a discutirem e a organizarem as vidas, a deles, a minha e a dos meus filhos, sempre pelo melhor, sempre sem pensar nos próprios sacrifícios. E eu fico a vê-los aos dois, a minha mãe e o meu pai, e penso, que sorte que eu tenho.