Ninguém.
Estranho pensou ele enquanto avançava a passo lento mas largo pela calçada
poeirenta. A avenida tinha árvores grossas de cada lado e o passo era cada vez
menos lento, a descer, gostava da sensação do peso do seu próprio corpo o
empurrar para baixo. Havia uma espécie de armazém comprido, abandonado e com o
que antes teriam sido as entradas completamente tapadas com betão para evitar
vandalismos lá para dentro. Mais abaixo uma decadente remanescência de um salão
de Bingo. Desembocou numa grande praça, e olhando para a
direita não conseguia ver o fim de um jardim demasiado bem arranjado. Isto é
novo, pareceu-lhe, pelo cheiro a terra revolvida recentemente. Tinha acabado de
chegar à cidade e gostou da envolvência apesar de não se ver vivalma.
Estava vento,
havia folhas pelo ar e insetos a esbarrarem-se-lhe nas trombas, mas ei, o que
era aquilo comparado com as merdas por que já tinha passado. Cheirou-lhe a
comida e sentiu o estômago às voltas, lembrou-se que já não comia nada desde a
manhã do dia anterior, e tendo em conta a quantidade de whiskey ingerido
naquela noite já nem estômago devia ter, estaria tudo dissolvido. E pelo fedor
dos peidos largados durante a viagem, não tinha dúvidas de que estava todo podre.
Ao menos a pinta de rufia que fazia questão em manter não cortando a barba mais
do que uma vez por semana ainda lhe ia valendo algumas quecas com gajas
bastante aceitáveis e com uma regularidade que muitos dariam o cu para conseguir.
Ouviu as
batidas dum sino próximo, ergueu a cabeça e reparou numa igreja do lado
esquerdo e num edifício cheio de janelas todas iguais do lado direito. Na
esquina mesmo ali um café com cadeiras em madeira cobertas com vestígios de
verniz, que terá sido luxuosamente brilhante um dia. Dois empregados encostados
ao balcão, calças pretas lustrosas de tanto uso e camisas que já nem se
lembravam de um dia terem sido brancas, ar nitidamente entediado devido à
ausência da clientela. Talvez fosse da hora tardia, mas caralho, um café
deserto a esta hora da tarde? Não faz sentido. Algo de estranho se passa nesta
cidade. Resolveu não parar e logo adiante percebeu de onde saía o cheiro a
comida, percebia agora que lhe chegava ao nariz o aroma a bife. Calhava bem um
belo bife, podia ser que comesse o resto do álcool que ainda sentia a balançar
quando se virava mais bruscamente para confirmar se era seguido. Até o chafariz
antigo, ao estilo fruteira de louça de três andares, lhe parecia preguiçoso,
tudo ali estava parado, e entranhava-se-lhe nos ossos a sensação que algo de
errado se passava. Mesmo desconfiado do ambiente demasiado calmo sentou-se na
cadeira da esplanada e pousou a carteira na mesa. Tirou os óculos escuros e
pousou-os também, encostou-se na cadeira, deslizou o cu para a frente e cruzou
as pernas. Finalmente ia poder descontrair, comer uma refeição decente e pensar
no próximo passo.
Estava cansado de fugir e esta
parecia uma terrinha pequena o suficiente para ninguém se lembrar de o procurar
ali e grande o suficiente para poder misturar-se com os nativos sem causar
grande estrilho. Não compreendeu bem o significado das enormes letras brancas
espetadas naquele pedaço inusitado de muralha entre duas casas, mas achou que
era qualquer coisa relacionada com algum qualquer feito histórico. Decidiu que
iria perguntar ao tipo que vinha encontrar-se com ele, devia estar quase a
chegar, faltavam cinco minutos para as seis da tarde. O Crispim falou-lhe de um
tipo que facilmente lhe arranjaria onde ficar e que o orientaria na cidade,
agora que tinha chegado não lhe parecia haver necessidade de cicerone, mas já
havia sido feito o contacto, e não iria desmarcar. Sentiu as costas a doer e
descruzou as pernas, voltando a cruza-las mas invertendo-as e sentiu o odor do
seu próprio suor misturado com o perfume da Susana, hum… seria Susana? Não
tinha a certeza do nome mas a gaja colou-se-lhe na noite anterior. Tinha-a
montado durante mais de uma hora e a gaja lembrava-lhe vagamente a colombiana mamalhuda
que conheceu em Sevilha no ano anterior quando lá teve um trabalho daqueles
fodidos, mas compensou a massa que lhe pagaram, e afinal limpar o sebo aos maus
não lhe tirava o sono e não.
Lá estava o tipo, de lenço atado na
cabeça, e de aspeto a raiar o albino, os olhos eram quase transparentes. Era
feio, mas abriu-lhe um sorriso quando o viu e lá apareceram as falhas na
dentadura. Heroína, pá, é fodido. Estrangeiro? Sim, senta-te pá. Pede de beber,
o que queres?, Um fino, e emborcou metade de golada assim que chegou à mesa. E
então o que vens cá fazer? Ando a ver se desapareço, tás a ver? Preciso de
desaparecer por uns tempos e achei boa ideia vir para cá. Não há problema, man.
Aqui fazes a tua vidinha e ninguém repara em ti, desde que não te metas em
estrondos. Mas ó pá, em que caralho é que te meteste para teres de desaparecer?
Já estás a querer saber demais, mete-te na tua vida se não queres merda para o
teu lado. O Crispim garantiu que tu eras boa onda, mas estou a ver que és
metido a besta. Não sei se não desando já. E enquanto falava num tom de voz
sereno mas firme, não sentindo que fosse necessário mais do que isso para meter
o totó que tinha à frente na linha, teve a impressão de que algo brilhava na
torre da igreja que estava agora de frente. Fixou o olhar nos sinos mas não percebeu
movimento algum. De repente lembrou-se que ainda lá estava o tipo, que
entretanto acabava a cerveja e tinha algumas perguntas para lhe fazer. Precisava
de alugar um carro e de comprar alguma roupa barata e discreta. Também queria
umas gramas de haxixe pois precisava mesmo de relaxar e dormir e sentia-se mal
com Valiums e merdas dessas que só fazem mal à saúde de um gajo.
Vislumbrou um
brilho outra vez e ouviu um estalido seco e curto e na testa do tipo abriu-se
um orifício de 1cm de diâmetro. Só teve tempo de olhar para ele e olhar de novo
para a torre e percebeu a pintinha vermelha no peito e estacou. Viu-a subir até
deixar de conseguir vê-la enquanto ouvia alguém chamar por alguém para virem
ver o Mané que tinha levado um tiro nos cornos. Olhou fixamente para a torre da
igreja e soube que era o fim. Dois segundos que pareceram duas horas e a gota
de suor que lhe escorreu muito lentamente pela fonte pareceu-lhe o único
movimento no universo inteiro. Sabia que a pinta vermelha estava parada na sua
testa, mas foda-se, se era para acabar com ele, porque caralho é que ainda
estava vivo? Levantou-se da cadeira e andou, mesmo quando os homens que estavam
dentro do bar saiam aos berros e agarravam o Mané. Nem deram por ele, que puta
de sorte. Dirigiu-se para a esquerda e dobrou a esquina mesmo em frente ao café
das cadeiras de madeira de verniz descascado e viu outra praça. Uma placa de um
hotel, calha mesmo bem, fico já aqui, não queria um hotel deste calibre mas que
se foda, tem de ser, tenho de sair de circulação imediatamente.
Entrou e pediu
um quarto single, deu nome falso e apresentou o cartão, dos cinco que tinha
dentro da carteira retirou o cartão com o nome dado à rececionista. Quando chegou ao quarto abeirou-se da
janela e percebeu que estava mesmo por cima do acontecimento. O Mané deitado na
pedra e o sangue a crescer à volta da sua cabeça. Os homens de volta dele, um
deles agarrado ao telemóvel provavelmente a chamar por ajuda. Desviou-se e
voltou a concentrar-se na torre e nos sinos. O tiro veio dali, só podia ter
vindo dali. Despiu-se e entrou no duche. Ouviu a sirene da ambulância enquanto
sentia a água quente a descer-lhe pelo corpo e ainda conseguiu perceber o
tumulto das pessoas que começavam a juntar-se à volta do morto. Não compreendeu
de onde aparecia aquela gente toda quando há poucos minutos a praça estava
deserta, mas não foi assunto que o preocupasse mais do que dez segundos. Acendeu
um cigarro e esticou-se na cama só com a toalha à volta da cintura. Tentou
puxar a fita atrás, desde essa manhã, quando entrou no comboio em Santa
Apolónia. Esteve sempre atento, ninguém o seguira, tinha a certeza.
Em Campanhã não
percebeu nenhum movimento suspeito enquanto fingia que lia o jornal à espera da
ligação para cá. Não podia ser. Ficou a matutar no percurso todo, recuou até à
noite anterior, no Bairro Alto e nada se destacou. É verdade que no aeroporto
houve uma mulher que o fixou quando esperava pela bagagem, mas depois
sorriu-lhe e ele convenceu-se que era o seu charme de bad ass a funcionar. Teria sido a puta da Susana a bufa-lo, ou lá
como é que ela se chamava, mas a gaja era burra que nem um sino e só estava
interessada em beber à borla e foder, e que bem que se fodeu. Está a escapar-me
alguma coisa, pensou, e nem tive tempo de comer o bife, que merda, foda-se,
estou cheio de fome. Mas não posso sair agora, vou pedir room service, espero
que tenham room service neste hotel de cidade pequena. Pediu. Havia. Comeu. E
depois de mais um cigarro adormeceu.
Maria do Carmo
trabalhava naquele hotel desde que abriu e estava convencida que já tinha visto
de tudo quando ia arrumar os quartos, mas naquela manhã, afinal, ainda houve
espaço para espanto. Quando abriu a porta estava um homem esticado
na cama, descoberto, todo nu. O seu primeiro instinto foi recuar, mas como de burra não
tinha nada, Maria do Carmo percebeu que ali havia coisa, porque o homem não se
mexeu quando ela entrou. Aproximou-se e viu do outro lado da cama o sangue que
lhe escorrera do buraco que tinha por cima da orelha direita. Sentiu uma leve
brisa e olhou para a janela para ver um dos vidros quebrados. Ao olhar para o
chão, no meio dos pedaços de vidro viu uma beata de um cigarro. O coração quase
que lhe saltava pela boca, mas ainda assim agarrou no telefone e fez o que
tinha a fazer.
Veio gente, e
mais gente, e bombeiros, e polícia e fizeram-lhe as perguntas todas que havia
para fazer. E aquilo durou o dia todo e
Maria do Carmo estava exausta e só queria ir para casa para perto do marido e
dos filhos, coitadinhos. Quando finalmente conseguiu chegar a casa, respirou
fundo aliviada. Preparou o jantar, deu banho às crianças e deitou-as. Depois do
marido adormecer no sofá, veio cá fora, à varanda, estava calor. E olhando para
a montanha em frente, tirou o telemóvel do bolso do avental e marcou um número.
Está lá? Está lá? disse, sem levantar o tom de voz, não fosse o marido acordar,
e continuou, sim, confirmo, está feito, foi durante a noite.