20.9.12
Fúria
Ontem, tinha acabado de anoitecer e eu dirigia-me ao meu carro depois da reunião na escola do meu filho mais velho. E enquanto retirava a chave do carro de dentro da bolsa reparei num indivíduo que estava parado no passeio, encostado à parede na esquina da entrada de um café. O homem olhava para mim e eu passei e ouvi um sussurro melado assim: "pareces a Gabriela". A verdade é que morena, rechonchuda e de cabelo escuro, comprido e ondulado, com um vestido vermelho justo pelo joelho, sou o mesmo tipo de mulher que a moça que faz de Gabriela na telenovela. Quando ouvi aquilo, dito assim, daquele indivíduo que não me conhece de lado nenhum, não sei, mas em vez de ficar contente com o que foi nitidamente um elogio, ou no mínimo uma demonstração de tesão, apeteceu-me esbofeteá-lo. Mas esbofeteá-lo violentamente. É muito estranho.
19.9.12
Benção
Depois de várias alterações ao horário, este primeiro semestre vislumbra-se menos difícil do que o anterior, mas ainda assim três noites por semana os moços terão de dormir nos avós. Na cabeça da minha mãe isto é terrível porque e se depois eles têm dúvidas nos trabalhos de casa e eu não consigo ajuda-los? Ao que eu respondo, tentando sossega-la, que num desses três dias da semana só tenho aulas às oito o que me permite ir a casa deles depois do trabalho, ver os trabalhos dos rapazes antes das aulas. Serão só dois dias em que eles têm de fazer os trabalhos sem ninguém para acudir às dúvidas e nesses dias farão como os outros e colocarão as dúvidas aos professores no dia seguinte. Mas não sei, continua ela, eles vão ter saudades, e eu é que sei porque eu é que os deito e eles dizem-me, não sempre, mas às vezes, que têm muitas saudades da mãe. Eu sei mamã, eu sei, e isto corta-me o coração também a mim. Só que o meu pai, mediante as choraminguices de mãe e de avó, eu já a considerar deixar mais uma cadeira para exame e libertar outra noite da semana, insurge-se e pergunta por que raio haveria eu de deixar de ir a essa aula, porque os rapazes ficam bem e ela fez tudo este ano que passou, não fez? Fiz, papá, fiz. Então que faça igual agora neste que dos moços cuidamos nós e se vai fazer o esforço, que aproveite o mais possível para acabar o mais depressa possível. E eu fico a vê-los aos dois, a minha mãe e o meu pai, assim a decidirem a minha vida como se eu nem lá estivesse, a discutirem e a organizarem as vidas, a deles, a minha e a dos meus filhos, sempre pelo melhor, sempre sem pensar nos próprios sacrifícios. E eu fico a vê-los aos dois, a minha mãe e o meu pai, e penso, que sorte que eu tenho.
17.9.12
Verdades
Pedir desculpa serve, basicamente e na grande maioria das vezes, só para que quem o faz se sinta melhor consigo próprio. Assim como contar a verdade, às vezes só resulta em sofrimento de quem ouve, independentemente de se poder bater com a mão no peito e afirmar que se é honesto, cagando-se de alto para quem tem de ouvir, engolir, e sofrer. E é rídiculo que se ache que por ter contado a verdade já se merece tratamento menos duro, uma palmadinha a atenuar a asneira. Há verdades que nunca devem ser ditas, não mudam nada. Só aliviam a consciência de quem as conta e destroçam quem as ouve. Nas infidelidades é óbvio que quem conta ao cônjuge que traiu só espera aligeirar o peso na consciência, espera ser perdoado só por ter contado a facada, vês? podia ter estado calado mas fui sincero. Ora merda. Ninguém quer saber que foi traído, pois vê-se forçado a tomar uma decisão. Ou perdoa e demonstra fraqueza ou não perdoa e rompe, o que talvez não tenha estrutura para fazer. Fica-se mal de uma forma ou de outra, mesmo que se faça um pé de vento e se grite, esperneie e leve tudo à frente. Quem é traído e abandona nunca fica por cima, ainda que pareça que sim. Contar uma verdade destas é cruel e trucidante. Quem trai e sente culpa tem de guardar só para si, tem de carregar o peso sozinho. Pode ser que um dia passe. Ou não. Mas tem de arrecadar com as consequências sozinho.
11.9.12
Fez na semana passada dois anos que não fumo. E a verdade é que há mais ou menos um mês que não tenho vontade de fumar todos os dias, há mesmo dias em que não me lembro. Começo a acreditar que há uma vida depois do tabaco, eu, que já tinha engolido que ia viver até ao fim dos meus dias com vontade de fumar. Pode ser que não.
31.8.12
Podia ter sido no Texas
Ninguém.
Estranho pensou ele enquanto avançava a passo lento mas largo pela calçada
poeirenta. A avenida tinha árvores grossas de cada lado e o passo era cada vez
menos lento, a descer, gostava da sensação do peso do seu próprio corpo o
empurrar para baixo. Havia uma espécie de armazém comprido, abandonado e com o
que antes teriam sido as entradas completamente tapadas com betão para evitar
vandalismos lá para dentro. Mais abaixo uma decadente remanescência de um salão
de Bingo. Desembocou numa grande praça, e olhando para a
direita não conseguia ver o fim de um jardim demasiado bem arranjado. Isto é
novo, pareceu-lhe, pelo cheiro a terra revolvida recentemente. Tinha acabado de
chegar à cidade e gostou da envolvência apesar de não se ver vivalma.
Estava vento, havia folhas pelo ar e insetos a esbarrarem-se-lhe nas trombas, mas ei, o que era aquilo comparado com as merdas por que já tinha passado. Cheirou-lhe a comida e sentiu o estômago às voltas, lembrou-se que já não comia nada desde a manhã do dia anterior, e tendo em conta a quantidade de whiskey ingerido naquela noite já nem estômago devia ter, estaria tudo dissolvido. E pelo fedor dos peidos largados durante a viagem, não tinha dúvidas de que estava todo podre. Ao menos a pinta de rufia que fazia questão em manter não cortando a barba mais do que uma vez por semana ainda lhe ia valendo algumas quecas com gajas bastante aceitáveis e com uma regularidade que muitos dariam o cu para conseguir.
Ouviu as batidas dum sino próximo, ergueu a cabeça e reparou numa igreja do lado esquerdo e num edifício cheio de janelas todas iguais do lado direito. Na esquina mesmo ali um café com cadeiras em madeira cobertas com vestígios de verniz, que terá sido luxuosamente brilhante um dia. Dois empregados encostados ao balcão, calças pretas lustrosas de tanto uso e camisas que já nem se lembravam de um dia terem sido brancas, ar nitidamente entediado devido à ausência da clientela. Talvez fosse da hora tardia, mas caralho, um café deserto a esta hora da tarde? Não faz sentido. Algo de estranho se passa nesta cidade. Resolveu não parar e logo adiante percebeu de onde saía o cheiro a comida, percebia agora que lhe chegava ao nariz o aroma a bife. Calhava bem um belo bife, podia ser que comesse o resto do álcool que ainda sentia a balançar quando se virava mais bruscamente para confirmar se era seguido. Até o chafariz antigo, ao estilo fruteira de louça de três andares, lhe parecia preguiçoso, tudo ali estava parado, e entranhava-se-lhe nos ossos a sensação que algo de errado se passava. Mesmo desconfiado do ambiente demasiado calmo sentou-se na cadeira da esplanada e pousou a carteira na mesa. Tirou os óculos escuros e pousou-os também, encostou-se na cadeira, deslizou o cu para a frente e cruzou as pernas. Finalmente ia poder descontrair, comer uma refeição decente e pensar no próximo passo.
Estava cansado de fugir e esta parecia uma terrinha pequena o suficiente para ninguém se lembrar de o procurar ali e grande o suficiente para poder misturar-se com os nativos sem causar grande estrilho. Não compreendeu bem o significado das enormes letras brancas espetadas naquele pedaço inusitado de muralha entre duas casas, mas achou que era qualquer coisa relacionada com algum qualquer feito histórico. Decidiu que iria perguntar ao tipo que vinha encontrar-se com ele, devia estar quase a chegar, faltavam cinco minutos para as seis da tarde. O Crispim falou-lhe de um tipo que facilmente lhe arranjaria onde ficar e que o orientaria na cidade, agora que tinha chegado não lhe parecia haver necessidade de cicerone, mas já havia sido feito o contacto, e não iria desmarcar. Sentiu as costas a doer e descruzou as pernas, voltando a cruza-las mas invertendo-as e sentiu o odor do seu próprio suor misturado com o perfume da Susana, hum… seria Susana? Não tinha a certeza do nome mas a gaja colou-se-lhe na noite anterior. Tinha-a montado durante mais de uma hora e a gaja lembrava-lhe vagamente a colombiana mamalhuda que conheceu em Sevilha no ano anterior quando lá teve um trabalho daqueles fodidos, mas compensou a massa que lhe pagaram, e afinal limpar o sebo aos maus não lhe tirava o sono e não.
Lá estava o tipo, de lenço atado na cabeça, e de aspeto a raiar o albino, os olhos eram quase transparentes. Era feio, mas abriu-lhe um sorriso quando o viu e lá apareceram as falhas na dentadura. Heroína, pá, é fodido. Estrangeiro? Sim, senta-te pá. Pede de beber, o que queres?, Um fino, e emborcou metade de golada assim que chegou à mesa. E então o que vens cá fazer? Ando a ver se desapareço, tás a ver? Preciso de desaparecer por uns tempos e achei boa ideia vir para cá. Não há problema, man. Aqui fazes a tua vidinha e ninguém repara em ti, desde que não te metas em estrondos. Mas ó pá, em que caralho é que te meteste para teres de desaparecer? Já estás a querer saber demais, mete-te na tua vida se não queres merda para o teu lado. O Crispim garantiu que tu eras boa onda, mas estou a ver que és metido a besta. Não sei se não desando já. E enquanto falava num tom de voz sereno mas firme, não sentindo que fosse necessário mais do que isso para meter o totó que tinha à frente na linha, teve a impressão de que algo brilhava na torre da igreja que estava agora de frente. Fixou o olhar nos sinos mas não percebeu movimento algum. De repente lembrou-se que ainda lá estava o tipo, que entretanto acabava a cerveja e tinha algumas perguntas para lhe fazer. Precisava de alugar um carro e de comprar alguma roupa barata e discreta. Também queria umas gramas de haxixe pois precisava mesmo de relaxar e dormir e sentia-se mal com Valiums e merdas dessas que só fazem mal à saúde de um gajo.
Vislumbrou um brilho outra vez e ouviu um estalido seco e curto e na testa do tipo abriu-se um orifício de 1cm de diâmetro. Só teve tempo de olhar para ele e olhar de novo para a torre e percebeu a pintinha vermelha no peito e estacou. Viu-a subir até deixar de conseguir vê-la enquanto ouvia alguém chamar por alguém para virem ver o Mané que tinha levado um tiro nos cornos. Olhou fixamente para a torre da igreja e soube que era o fim. Dois segundos que pareceram duas horas e a gota de suor que lhe escorreu muito lentamente pela fonte pareceu-lhe o único movimento no universo inteiro. Sabia que a pinta vermelha estava parada na sua testa, mas foda-se, se era para acabar com ele, porque caralho é que ainda estava vivo? Levantou-se da cadeira e andou, mesmo quando os homens que estavam dentro do bar saiam aos berros e agarravam o Mané. Nem deram por ele, que puta de sorte. Dirigiu-se para a esquerda e dobrou a esquina mesmo em frente ao café das cadeiras de madeira de verniz descascado e viu outra praça. Uma placa de um hotel, calha mesmo bem, fico já aqui, não queria um hotel deste calibre mas que se foda, tem de ser, tenho de sair de circulação imediatamente.
Entrou e pediu um quarto single, deu nome falso e apresentou o cartão, dos cinco que tinha dentro da carteira retirou o cartão com o nome dado à rececionista. Quando chegou ao quarto abeirou-se da janela e percebeu que estava mesmo por cima do acontecimento. O Mané deitado na pedra e o sangue a crescer à volta da sua cabeça. Os homens de volta dele, um deles agarrado ao telemóvel provavelmente a chamar por ajuda. Desviou-se e voltou a concentrar-se na torre e nos sinos. O tiro veio dali, só podia ter vindo dali. Despiu-se e entrou no duche. Ouviu a sirene da ambulância enquanto sentia a água quente a descer-lhe pelo corpo e ainda conseguiu perceber o tumulto das pessoas que começavam a juntar-se à volta do morto. Não compreendeu de onde aparecia aquela gente toda quando há poucos minutos a praça estava deserta, mas não foi assunto que o preocupasse mais do que dez segundos. Acendeu um cigarro e esticou-se na cama só com a toalha à volta da cintura. Tentou puxar a fita atrás, desde essa manhã, quando entrou no comboio em Santa Apolónia. Esteve sempre atento, ninguém o seguira, tinha a certeza.
Em Campanhã não percebeu nenhum movimento suspeito enquanto fingia que lia o jornal à espera da ligação para cá. Não podia ser. Ficou a matutar no percurso todo, recuou até à noite anterior, no Bairro Alto e nada se destacou. É verdade que no aeroporto houve uma mulher que o fixou quando esperava pela bagagem, mas depois sorriu-lhe e ele convenceu-se que era o seu charme de bad ass a funcionar. Teria sido a puta da Susana a bufa-lo, ou lá como é que ela se chamava, mas a gaja era burra que nem um sino e só estava interessada em beber à borla e foder, e que bem que se fodeu. Está a escapar-me alguma coisa, pensou, e nem tive tempo de comer o bife, que merda, foda-se, estou cheio de fome. Mas não posso sair agora, vou pedir room service, espero que tenham room service neste hotel de cidade pequena. Pediu. Havia. Comeu. E depois de mais um cigarro adormeceu.
Estava vento, havia folhas pelo ar e insetos a esbarrarem-se-lhe nas trombas, mas ei, o que era aquilo comparado com as merdas por que já tinha passado. Cheirou-lhe a comida e sentiu o estômago às voltas, lembrou-se que já não comia nada desde a manhã do dia anterior, e tendo em conta a quantidade de whiskey ingerido naquela noite já nem estômago devia ter, estaria tudo dissolvido. E pelo fedor dos peidos largados durante a viagem, não tinha dúvidas de que estava todo podre. Ao menos a pinta de rufia que fazia questão em manter não cortando a barba mais do que uma vez por semana ainda lhe ia valendo algumas quecas com gajas bastante aceitáveis e com uma regularidade que muitos dariam o cu para conseguir.
Ouviu as batidas dum sino próximo, ergueu a cabeça e reparou numa igreja do lado esquerdo e num edifício cheio de janelas todas iguais do lado direito. Na esquina mesmo ali um café com cadeiras em madeira cobertas com vestígios de verniz, que terá sido luxuosamente brilhante um dia. Dois empregados encostados ao balcão, calças pretas lustrosas de tanto uso e camisas que já nem se lembravam de um dia terem sido brancas, ar nitidamente entediado devido à ausência da clientela. Talvez fosse da hora tardia, mas caralho, um café deserto a esta hora da tarde? Não faz sentido. Algo de estranho se passa nesta cidade. Resolveu não parar e logo adiante percebeu de onde saía o cheiro a comida, percebia agora que lhe chegava ao nariz o aroma a bife. Calhava bem um belo bife, podia ser que comesse o resto do álcool que ainda sentia a balançar quando se virava mais bruscamente para confirmar se era seguido. Até o chafariz antigo, ao estilo fruteira de louça de três andares, lhe parecia preguiçoso, tudo ali estava parado, e entranhava-se-lhe nos ossos a sensação que algo de errado se passava. Mesmo desconfiado do ambiente demasiado calmo sentou-se na cadeira da esplanada e pousou a carteira na mesa. Tirou os óculos escuros e pousou-os também, encostou-se na cadeira, deslizou o cu para a frente e cruzou as pernas. Finalmente ia poder descontrair, comer uma refeição decente e pensar no próximo passo.
Estava cansado de fugir e esta parecia uma terrinha pequena o suficiente para ninguém se lembrar de o procurar ali e grande o suficiente para poder misturar-se com os nativos sem causar grande estrilho. Não compreendeu bem o significado das enormes letras brancas espetadas naquele pedaço inusitado de muralha entre duas casas, mas achou que era qualquer coisa relacionada com algum qualquer feito histórico. Decidiu que iria perguntar ao tipo que vinha encontrar-se com ele, devia estar quase a chegar, faltavam cinco minutos para as seis da tarde. O Crispim falou-lhe de um tipo que facilmente lhe arranjaria onde ficar e que o orientaria na cidade, agora que tinha chegado não lhe parecia haver necessidade de cicerone, mas já havia sido feito o contacto, e não iria desmarcar. Sentiu as costas a doer e descruzou as pernas, voltando a cruza-las mas invertendo-as e sentiu o odor do seu próprio suor misturado com o perfume da Susana, hum… seria Susana? Não tinha a certeza do nome mas a gaja colou-se-lhe na noite anterior. Tinha-a montado durante mais de uma hora e a gaja lembrava-lhe vagamente a colombiana mamalhuda que conheceu em Sevilha no ano anterior quando lá teve um trabalho daqueles fodidos, mas compensou a massa que lhe pagaram, e afinal limpar o sebo aos maus não lhe tirava o sono e não.
Lá estava o tipo, de lenço atado na cabeça, e de aspeto a raiar o albino, os olhos eram quase transparentes. Era feio, mas abriu-lhe um sorriso quando o viu e lá apareceram as falhas na dentadura. Heroína, pá, é fodido. Estrangeiro? Sim, senta-te pá. Pede de beber, o que queres?, Um fino, e emborcou metade de golada assim que chegou à mesa. E então o que vens cá fazer? Ando a ver se desapareço, tás a ver? Preciso de desaparecer por uns tempos e achei boa ideia vir para cá. Não há problema, man. Aqui fazes a tua vidinha e ninguém repara em ti, desde que não te metas em estrondos. Mas ó pá, em que caralho é que te meteste para teres de desaparecer? Já estás a querer saber demais, mete-te na tua vida se não queres merda para o teu lado. O Crispim garantiu que tu eras boa onda, mas estou a ver que és metido a besta. Não sei se não desando já. E enquanto falava num tom de voz sereno mas firme, não sentindo que fosse necessário mais do que isso para meter o totó que tinha à frente na linha, teve a impressão de que algo brilhava na torre da igreja que estava agora de frente. Fixou o olhar nos sinos mas não percebeu movimento algum. De repente lembrou-se que ainda lá estava o tipo, que entretanto acabava a cerveja e tinha algumas perguntas para lhe fazer. Precisava de alugar um carro e de comprar alguma roupa barata e discreta. Também queria umas gramas de haxixe pois precisava mesmo de relaxar e dormir e sentia-se mal com Valiums e merdas dessas que só fazem mal à saúde de um gajo.
Vislumbrou um brilho outra vez e ouviu um estalido seco e curto e na testa do tipo abriu-se um orifício de 1cm de diâmetro. Só teve tempo de olhar para ele e olhar de novo para a torre e percebeu a pintinha vermelha no peito e estacou. Viu-a subir até deixar de conseguir vê-la enquanto ouvia alguém chamar por alguém para virem ver o Mané que tinha levado um tiro nos cornos. Olhou fixamente para a torre da igreja e soube que era o fim. Dois segundos que pareceram duas horas e a gota de suor que lhe escorreu muito lentamente pela fonte pareceu-lhe o único movimento no universo inteiro. Sabia que a pinta vermelha estava parada na sua testa, mas foda-se, se era para acabar com ele, porque caralho é que ainda estava vivo? Levantou-se da cadeira e andou, mesmo quando os homens que estavam dentro do bar saiam aos berros e agarravam o Mané. Nem deram por ele, que puta de sorte. Dirigiu-se para a esquerda e dobrou a esquina mesmo em frente ao café das cadeiras de madeira de verniz descascado e viu outra praça. Uma placa de um hotel, calha mesmo bem, fico já aqui, não queria um hotel deste calibre mas que se foda, tem de ser, tenho de sair de circulação imediatamente.
Entrou e pediu um quarto single, deu nome falso e apresentou o cartão, dos cinco que tinha dentro da carteira retirou o cartão com o nome dado à rececionista. Quando chegou ao quarto abeirou-se da janela e percebeu que estava mesmo por cima do acontecimento. O Mané deitado na pedra e o sangue a crescer à volta da sua cabeça. Os homens de volta dele, um deles agarrado ao telemóvel provavelmente a chamar por ajuda. Desviou-se e voltou a concentrar-se na torre e nos sinos. O tiro veio dali, só podia ter vindo dali. Despiu-se e entrou no duche. Ouviu a sirene da ambulância enquanto sentia a água quente a descer-lhe pelo corpo e ainda conseguiu perceber o tumulto das pessoas que começavam a juntar-se à volta do morto. Não compreendeu de onde aparecia aquela gente toda quando há poucos minutos a praça estava deserta, mas não foi assunto que o preocupasse mais do que dez segundos. Acendeu um cigarro e esticou-se na cama só com a toalha à volta da cintura. Tentou puxar a fita atrás, desde essa manhã, quando entrou no comboio em Santa Apolónia. Esteve sempre atento, ninguém o seguira, tinha a certeza.
Em Campanhã não percebeu nenhum movimento suspeito enquanto fingia que lia o jornal à espera da ligação para cá. Não podia ser. Ficou a matutar no percurso todo, recuou até à noite anterior, no Bairro Alto e nada se destacou. É verdade que no aeroporto houve uma mulher que o fixou quando esperava pela bagagem, mas depois sorriu-lhe e ele convenceu-se que era o seu charme de bad ass a funcionar. Teria sido a puta da Susana a bufa-lo, ou lá como é que ela se chamava, mas a gaja era burra que nem um sino e só estava interessada em beber à borla e foder, e que bem que se fodeu. Está a escapar-me alguma coisa, pensou, e nem tive tempo de comer o bife, que merda, foda-se, estou cheio de fome. Mas não posso sair agora, vou pedir room service, espero que tenham room service neste hotel de cidade pequena. Pediu. Havia. Comeu. E depois de mais um cigarro adormeceu.
Maria do Carmo
trabalhava naquele hotel desde que abriu e estava convencida que já tinha visto
de tudo quando ia arrumar os quartos, mas naquela manhã, afinal, ainda houve
espaço para espanto. Quando abriu a porta estava um homem esticado
na cama, descoberto, todo nu. O seu primeiro instinto foi recuar, mas como de burra não
tinha nada, Maria do Carmo percebeu que ali havia coisa, porque o homem não se
mexeu quando ela entrou. Aproximou-se e viu do outro lado da cama o sangue que
lhe escorrera do buraco que tinha por cima da orelha direita. Sentiu uma leve
brisa e olhou para a janela para ver um dos vidros quebrados. Ao olhar para o
chão, no meio dos pedaços de vidro viu uma beata de um cigarro. O coração quase
que lhe saltava pela boca, mas ainda assim agarrou no telefone e fez o que
tinha a fazer.
Veio gente, e
mais gente, e bombeiros, e polícia e fizeram-lhe as perguntas todas que havia
para fazer. E aquilo durou o dia todo e
Maria do Carmo estava exausta e só queria ir para casa para perto do marido e
dos filhos, coitadinhos. Quando finalmente conseguiu chegar a casa, respirou
fundo aliviada. Preparou o jantar, deu banho às crianças e deitou-as. Depois do
marido adormecer no sofá, veio cá fora, à varanda, estava calor. E olhando para
a montanha em frente, tirou o telemóvel do bolso do avental e marcou um número.
Está lá? Está lá? disse, sem levantar o tom de voz, não fosse o marido acordar,
e continuou, sim, confirmo, está feito, foi durante a noite.
30.8.12
Podia ter sido em Paris
Madalena
acordou sobressaltada, o coração batia descompassadamente e tinha aquela sensação
de ter estado a cair num poço, aquela sensação que cessa ao acordar mas que
deixa uma dormência desconfortável que impede os movimentos do corpo nos
segundos imediatos. Ficou imóvel portanto, e respirou fundo. Não conseguia
lembrar-se do sonho, mas sabia que não fora nada de bom. Olhou para o relógio e
sossegou pois ainda faltavam vinte minutos para a hora que na noite anterior
tinha decidido marcar no despertador. Levantou-se e abriu a portada da janela e
deixou o Sol inundar-lhe o quarto. Sorriu. Ia ser um dia bom. Arrepiou-se e num
movimento quase instintivo cruzou os braços agarrando os antebraços com as mãos
ainda um pouco suadas, o mau sonho devia ter sido mesmo mau.
A manhã estava soalheira, apeteceu-lhe abrir a janela e cheirar o dia. Assim fez mas não demorou muito tempo a fecha-la pois sentiu a brisa gelada e arrepiou-se de novo, então vestiu o casaco de cachemira que de tão velho já lhe tinha decorado todas as curvas do corpo e antes de se dirigir à cozinha abriu a torneira da banheira. Depois, ligou a máquina do café e bebeu um copo de água. Ansiava que o dia começasse, iria vê-lo de novo, e de cada vez que pensava nisso o estômago dava uma reviravolta. Fez o café e bebeu-o mas comer o que quer que fosse era simplesmente impensável.
Olhou para o roupeiro aberto e sabia exatamente que vestido tirar, tinha pensado nisso no dia anterior durante a tarde toda. Hesitou entre o vestido verde-escuro que tinha comprado no Natal e o preto, aquele preto que só usava em ocasiões mesmo especiais. Especiais para ela, não em festas. Usava-o apenas quando queria causar um determinado impacto em alguém, era um vestido que podia usar tanto de dia ou de noite pois era neutro, só fazia a diferença nos sapatos ou no casaco. Aquele vestido era discreto mas assentava-lhe como uma luva. Aprendera a usar o corpo como uma arma havia muitos anos. Não como uma metralhadora barulhenta e disparatada, antes como um revólver com silenciador, daqueles que se encosta às costelas e surte o efeito desejado sem ninguém para além do alvo se aperceber. E Madalena usava o seu corpo de forma discreta mas com eficácia total, jamais falhara. Foi com esta certeza que se decidiu pelo vestido preto, e retirava-o agora do roupeiro com o cuidado que ele lhe merecia. Estendeu-o sobre a cama e de seguida tirou os sapatos de verniz preto e contemplou a indumentária, satisfeita, prevendo o resultado e por dentro tremeu.
Quando entrou na banheira e sentiu a água quente envolver-lhe o corpo imaginou-se nos braços do homem que tanto a perturbava. Deixou cair o corpo até as nádegas tocarem no fundo da banheira e sentiu o vapor da água aquecer-lhe o rosto enquanto inalava o aroma que pairava no ar, cheirava a tangerina, ácido e doce ao mesmo tempo, “combina tão bem comigo”, pensou. Lavou o corpo lentamente, quase que se acariciava e talvez fosse isso mesmo que pensaria se alguém a visse de longe mergulhada na banheira. Madalena não conseguia parar de pensar no encontro que ia ter, era mais forte do que ela, e tudo o que fazia e sentia estava relacionado com esse momento. As suas mãos percorrendo o corpo macio e quente eram como veludo, e a sua pele reagia a cada segundo.
Lavou o cabelo e saiu, secou-se e permitiu-se exagerar no creme que aplicou no corpo. Adorava a sensação do creme hidratante no corpo, as axilas, os cotovelos, os joelhos, o pescoço e o peito, a barriga e as virilhas, as coxas e as nádegas, não descurou nenhuma parte. Tinha um corpo que correspondia à sua idade, não era musculada nem tampouco flácida. Era um corpo que lhe agradava e que lhe servia. Escovou os dentes, secou o cabelo, maquilhou-se e foi nua até ao armário de cuja gaveta tirou a roupa interior. Da gaveta abaixo dessa pegou num par de meias, calçou-as com cuidado e prendeu-as às ligas. Sabia que apesar da temperatura ainda um pouco fresca lá fora não iria sentir frio, estava demasiado agitada para ter frio. Calçou os sapatos, pôs o vestido e por cima o casaco de feltro, abotoou-o e apertou o cinto. Faltavam apenas as gotas do seu perfume favorito e estava pronta. Pegou na bolsa, verificou que continha a carteira e a chave de casa e saiu.
O elevador cheirava mal. Algum dos vizinhos trouxe um saco de lixo da véspera e não foi há muito tempo, sentiu nojo. Ainda bem que morava no segundo andar e não no oitavo senão era muito provável que se lhe assomasse um vómito. Ainda assim susteve a respiração até a porta se abrir, mas antes ainda teve tempo de confirmar como estava no espelho do elevador.
Tempo morno, Madalena apostaria que não menos de vinte graus. Virou à esquerda e caminhou a ritmo certo mas devagar. Havia gente na rua, famílias com crianças e casais de velhos a passear. Eram onze e meia da manhã e também havia quem fosse tomar o pequeno-almoço, num dos cafés e pastelarias da avenida. Do outro lado da rua as pessoas entravam e saiam do centro comercial, o primeiro que fizeram na cidade, devia ter quase trinta anos. Ainda estava aberto, resistiam algumas lojas e tanto quanto sabia, uma pastelaria muito conhecida. O certo era que as lojas com montras viradas para a rua estavam todas ocupadas, o tipo de negócio tinha variado ao longo dos anos, mas havia negócio.
Não tardou a passar em frente ao hotel, e reparou no autocarro daqueles pequeninos, estacionado em frente, era alemão. Mais um grupo de turistas a visitar a cidade, era o tempo deles começarem a aparecer. Mal a temperatura subia com a chegada da Primavera, os turistas chegavam, ou em grupos metidos dentro de autocarros ou só casais a passeio ou famílias com crianças pequenas em miniférias. Sendo uma cidade pequena, tornava-se bastante atraente para casais com crianças pois podiam passear-se à vontade sem ficarem exaustos, a volta é pequena e não chateia se uma das crianças tiver de ser levada ao colo.
“Crianças” pensava Madalena, como gostaria de as ter, sonhava com isso desde nova, mas acreditava que o contexto tradicional era o mais indicado para ter filhos, com mãe, pai e de preferência também avós por perto. E ela, uma mulher sozinha, não considerava que tivesse condições para oferecer uma vida a uma criança. Talvez agora, que encontrou um homem que lhe mexe com as entranhas, talvez agora consiga vislumbrar uma centelha de possibilidade. E esqueceu-se do hotel e dos turistas e das crianças para voltar a concentrar-se no caminho que a levava até junto dele, quase que lhe sentia o cheiro, da última vez tinha ficado mesmo ao lado dele, e sentiu-lhe o perfume que lhe ficou gravado no cérebro e regressava de cada vez que pensava nisso. Acelerou o passo e nem reparou no grupo de rapazes sentados no café do outro lado da rua que já a miravam desde que deram com os olhos nela e a seguiram até que dobrou a esquina já ao pé da igreja. Subiu a avenida do lado esquerdo ao jardim.
Adorava aquele jardim, que dependendo da época do ano era presenteado com flores novas, plantadas uma a uma por jardineiros carinhosos. Na quaresma, pintavam-no de amores-perfeitos roxos a condizer com as bandeiras que ladeavam os arbustos que faziam o contorno do jardim. Os saltos dos sapatos balançavam na calçada mas estava treinada para andar sobre qualquer tipo de piso mesmo com stilettos, não fosse ela a elegância em pessoa, parecia que deslizava sobre o chão e quase que não se lhe ouviam os passos, se não fosse uma mulher tão sofisticada quase que se poderia dizer que fazia de propósito para chegar sorrateira e surpreender, mas não, era-lhe natural, não fazia esforço algum.
Atravessou a rua e virou à direita para contornar a esquina à esquerda passando mesmo junto da esplanada repleta de ociosos que aproveitavam os raios de Sol primaveris. Notou que a estação da Via Sacra pegada ao muro do museu estava aberta e não resistiu a espreitar, atravessou de novo a rua para passar mais perto das imagens que a fascinavam. Eram velhas e desbotadas mas eram também tão expressivas que a emocionavam, e não conseguia fugir-lhes de cada vez que passava por uma das várias estações que havia espalhadas pela parte velha da cidade. Imaginava as mulheres que cuidavam delas, despachadas e trabalhadoras de mãos calejadas, talvez se revezassem no asseio das jarras, pois tinham sempre flores frescas, achava aquelas estações da Via Sacra maravilhosas.
Passou pelo museu e voltou a acelerar o passo, faltava pouco e o coração batia mais forte, cada vez mais forte. Teve medo das pernas, podiam falhar-lhe tal era a excitação que sentia. Viu a esplanada cheia, e estava espalhado no ar o cheiro a café e a croissants mornos, havia jornais e revistas nas mãos e nos colos dos clientes e rapazes a jogar à bola, eram normal ao Domingo de manhã naquela praça haver aquela agitação que curiosamente a acalmava. Respirou fundo e sentiu uma vertigem subir-lhe pelas pernas e pelas entranhas e entrou.
Viu-o sentado no sítio do costume, e não estava ninguém sentado ao lado dele. “É a minha oportunidade” disse-se, avançou e sentou-se, reconhecendo o perfume, toda ela tremeu e garantia que todas as pessoas ali notaram a sua perturbação mas esforçou-se por manter a postura. Ele olhou-a e sorriu-lhe, ela retribuiu o sorriso mas ele provocava-lhe uma emoção que não compreendia completamente pois a última vez que a sentira era ainda adolescente, virgem e inocente, e que a fez virar-se para a frente quase automaticamente, como que embaraçada. Arrependeu-se imediatamente de não ter olhado de frente para ele nem que fosse por mas dois ou três segundos, talvez ele lhe tivesse dirigido a palavra, talvez lhe tivesse sussurrado um “bom dia”. Ouviu a música e saiu da dormência em que entrara no segundo em que o viu. Benzeu-se, e começou a missa.
A manhã estava soalheira, apeteceu-lhe abrir a janela e cheirar o dia. Assim fez mas não demorou muito tempo a fecha-la pois sentiu a brisa gelada e arrepiou-se de novo, então vestiu o casaco de cachemira que de tão velho já lhe tinha decorado todas as curvas do corpo e antes de se dirigir à cozinha abriu a torneira da banheira. Depois, ligou a máquina do café e bebeu um copo de água. Ansiava que o dia começasse, iria vê-lo de novo, e de cada vez que pensava nisso o estômago dava uma reviravolta. Fez o café e bebeu-o mas comer o que quer que fosse era simplesmente impensável.
Olhou para o roupeiro aberto e sabia exatamente que vestido tirar, tinha pensado nisso no dia anterior durante a tarde toda. Hesitou entre o vestido verde-escuro que tinha comprado no Natal e o preto, aquele preto que só usava em ocasiões mesmo especiais. Especiais para ela, não em festas. Usava-o apenas quando queria causar um determinado impacto em alguém, era um vestido que podia usar tanto de dia ou de noite pois era neutro, só fazia a diferença nos sapatos ou no casaco. Aquele vestido era discreto mas assentava-lhe como uma luva. Aprendera a usar o corpo como uma arma havia muitos anos. Não como uma metralhadora barulhenta e disparatada, antes como um revólver com silenciador, daqueles que se encosta às costelas e surte o efeito desejado sem ninguém para além do alvo se aperceber. E Madalena usava o seu corpo de forma discreta mas com eficácia total, jamais falhara. Foi com esta certeza que se decidiu pelo vestido preto, e retirava-o agora do roupeiro com o cuidado que ele lhe merecia. Estendeu-o sobre a cama e de seguida tirou os sapatos de verniz preto e contemplou a indumentária, satisfeita, prevendo o resultado e por dentro tremeu.
Quando entrou na banheira e sentiu a água quente envolver-lhe o corpo imaginou-se nos braços do homem que tanto a perturbava. Deixou cair o corpo até as nádegas tocarem no fundo da banheira e sentiu o vapor da água aquecer-lhe o rosto enquanto inalava o aroma que pairava no ar, cheirava a tangerina, ácido e doce ao mesmo tempo, “combina tão bem comigo”, pensou. Lavou o corpo lentamente, quase que se acariciava e talvez fosse isso mesmo que pensaria se alguém a visse de longe mergulhada na banheira. Madalena não conseguia parar de pensar no encontro que ia ter, era mais forte do que ela, e tudo o que fazia e sentia estava relacionado com esse momento. As suas mãos percorrendo o corpo macio e quente eram como veludo, e a sua pele reagia a cada segundo.
Lavou o cabelo e saiu, secou-se e permitiu-se exagerar no creme que aplicou no corpo. Adorava a sensação do creme hidratante no corpo, as axilas, os cotovelos, os joelhos, o pescoço e o peito, a barriga e as virilhas, as coxas e as nádegas, não descurou nenhuma parte. Tinha um corpo que correspondia à sua idade, não era musculada nem tampouco flácida. Era um corpo que lhe agradava e que lhe servia. Escovou os dentes, secou o cabelo, maquilhou-se e foi nua até ao armário de cuja gaveta tirou a roupa interior. Da gaveta abaixo dessa pegou num par de meias, calçou-as com cuidado e prendeu-as às ligas. Sabia que apesar da temperatura ainda um pouco fresca lá fora não iria sentir frio, estava demasiado agitada para ter frio. Calçou os sapatos, pôs o vestido e por cima o casaco de feltro, abotoou-o e apertou o cinto. Faltavam apenas as gotas do seu perfume favorito e estava pronta. Pegou na bolsa, verificou que continha a carteira e a chave de casa e saiu.
O elevador cheirava mal. Algum dos vizinhos trouxe um saco de lixo da véspera e não foi há muito tempo, sentiu nojo. Ainda bem que morava no segundo andar e não no oitavo senão era muito provável que se lhe assomasse um vómito. Ainda assim susteve a respiração até a porta se abrir, mas antes ainda teve tempo de confirmar como estava no espelho do elevador.
Tempo morno, Madalena apostaria que não menos de vinte graus. Virou à esquerda e caminhou a ritmo certo mas devagar. Havia gente na rua, famílias com crianças e casais de velhos a passear. Eram onze e meia da manhã e também havia quem fosse tomar o pequeno-almoço, num dos cafés e pastelarias da avenida. Do outro lado da rua as pessoas entravam e saiam do centro comercial, o primeiro que fizeram na cidade, devia ter quase trinta anos. Ainda estava aberto, resistiam algumas lojas e tanto quanto sabia, uma pastelaria muito conhecida. O certo era que as lojas com montras viradas para a rua estavam todas ocupadas, o tipo de negócio tinha variado ao longo dos anos, mas havia negócio.
Não tardou a passar em frente ao hotel, e reparou no autocarro daqueles pequeninos, estacionado em frente, era alemão. Mais um grupo de turistas a visitar a cidade, era o tempo deles começarem a aparecer. Mal a temperatura subia com a chegada da Primavera, os turistas chegavam, ou em grupos metidos dentro de autocarros ou só casais a passeio ou famílias com crianças pequenas em miniférias. Sendo uma cidade pequena, tornava-se bastante atraente para casais com crianças pois podiam passear-se à vontade sem ficarem exaustos, a volta é pequena e não chateia se uma das crianças tiver de ser levada ao colo.
“Crianças” pensava Madalena, como gostaria de as ter, sonhava com isso desde nova, mas acreditava que o contexto tradicional era o mais indicado para ter filhos, com mãe, pai e de preferência também avós por perto. E ela, uma mulher sozinha, não considerava que tivesse condições para oferecer uma vida a uma criança. Talvez agora, que encontrou um homem que lhe mexe com as entranhas, talvez agora consiga vislumbrar uma centelha de possibilidade. E esqueceu-se do hotel e dos turistas e das crianças para voltar a concentrar-se no caminho que a levava até junto dele, quase que lhe sentia o cheiro, da última vez tinha ficado mesmo ao lado dele, e sentiu-lhe o perfume que lhe ficou gravado no cérebro e regressava de cada vez que pensava nisso. Acelerou o passo e nem reparou no grupo de rapazes sentados no café do outro lado da rua que já a miravam desde que deram com os olhos nela e a seguiram até que dobrou a esquina já ao pé da igreja. Subiu a avenida do lado esquerdo ao jardim.
Adorava aquele jardim, que dependendo da época do ano era presenteado com flores novas, plantadas uma a uma por jardineiros carinhosos. Na quaresma, pintavam-no de amores-perfeitos roxos a condizer com as bandeiras que ladeavam os arbustos que faziam o contorno do jardim. Os saltos dos sapatos balançavam na calçada mas estava treinada para andar sobre qualquer tipo de piso mesmo com stilettos, não fosse ela a elegância em pessoa, parecia que deslizava sobre o chão e quase que não se lhe ouviam os passos, se não fosse uma mulher tão sofisticada quase que se poderia dizer que fazia de propósito para chegar sorrateira e surpreender, mas não, era-lhe natural, não fazia esforço algum.
Atravessou a rua e virou à direita para contornar a esquina à esquerda passando mesmo junto da esplanada repleta de ociosos que aproveitavam os raios de Sol primaveris. Notou que a estação da Via Sacra pegada ao muro do museu estava aberta e não resistiu a espreitar, atravessou de novo a rua para passar mais perto das imagens que a fascinavam. Eram velhas e desbotadas mas eram também tão expressivas que a emocionavam, e não conseguia fugir-lhes de cada vez que passava por uma das várias estações que havia espalhadas pela parte velha da cidade. Imaginava as mulheres que cuidavam delas, despachadas e trabalhadoras de mãos calejadas, talvez se revezassem no asseio das jarras, pois tinham sempre flores frescas, achava aquelas estações da Via Sacra maravilhosas.
Passou pelo museu e voltou a acelerar o passo, faltava pouco e o coração batia mais forte, cada vez mais forte. Teve medo das pernas, podiam falhar-lhe tal era a excitação que sentia. Viu a esplanada cheia, e estava espalhado no ar o cheiro a café e a croissants mornos, havia jornais e revistas nas mãos e nos colos dos clientes e rapazes a jogar à bola, eram normal ao Domingo de manhã naquela praça haver aquela agitação que curiosamente a acalmava. Respirou fundo e sentiu uma vertigem subir-lhe pelas pernas e pelas entranhas e entrou.
Viu-o sentado no sítio do costume, e não estava ninguém sentado ao lado dele. “É a minha oportunidade” disse-se, avançou e sentou-se, reconhecendo o perfume, toda ela tremeu e garantia que todas as pessoas ali notaram a sua perturbação mas esforçou-se por manter a postura. Ele olhou-a e sorriu-lhe, ela retribuiu o sorriso mas ele provocava-lhe uma emoção que não compreendia completamente pois a última vez que a sentira era ainda adolescente, virgem e inocente, e que a fez virar-se para a frente quase automaticamente, como que embaraçada. Arrependeu-se imediatamente de não ter olhado de frente para ele nem que fosse por mas dois ou três segundos, talvez ele lhe tivesse dirigido a palavra, talvez lhe tivesse sussurrado um “bom dia”. Ouviu a música e saiu da dormência em que entrara no segundo em que o viu. Benzeu-se, e começou a missa.
29.8.12
Sono
Como faço todas as noites, antes de me deitar vou buscar o rapaz pequeno e levanto-o para o levar à casa de banho. Já não o levo ao colo que ele já ultrapassou há muito o meu limite máximo de levantamento de peso, mas basta orienta-lo e ele vai pelo pé dele, de olhos fechados e faz o chichi. Ontem, deixei-o à porta da casa de banho e fui-me despir. Quando lá cheguei estava de olhos fechados, muito direito a fazer chichi para dentro da banheira.
30.5.12
Não é bem a mesma coisa
- Are you happy?
- I don't have the right to be unhappy... but that's not really the same thing, is it?
- Not quite.
Impacto
Há homens que escolhem as mulheres pelo impacto que elas causam neles próprios, e há homens que escolhem as mulheres pelo impacto que elas causam nas outras pessoas.
21.3.12
Negação
Quando toda uma teoria científica se baseia num pressuposto que está errado, ela acabará invariavelmente por ser desacreditada. Assim fizeste, com as tuas atitudes e esquemas, venenos e armadilhas, não só desacreditaste tudo o que estava para trás como me fizeste negar tudo o que até aqui eu guardei como bom. Portanto, o que te disse um dia, convencida do homem que tu não és e que hoje acredito que nunca tenhas sido, será impossível de cumprir. Disse-te que nunca seria capaz de te virar as costas se um dia precisasses de mim mas sucede que não posso manter a minha palavra, porque tu simplesmente, deixaste de existir.
11.3.12
Desilusão
Ouvi no outro dia um escritor famoso dizer que a primeira frase do primeiro romance que escreveu foi muito bem pensada. Que pensou, pensou, pensou até que a frase fosse perfeita, pois o objetivo era que prendesse a atenção do leitor. Desilusão. Eu achava que quem escreve o faz porque tem de o fazer, porque lhe vem de dentro, do coração ou das entranhas, ou porque a ideia lhe martela na cabeça até ser libertada através de letras e palavras, simplesmente por necessidade de escrever, como o pintor tem de pintar e o compositor de compor, de materializar o que lhe vai na alma ou de dar vida a demónios e monstros capazes de feitos inconfessáveis, ou de fazer emergir pessoas e vidas não vividas mas imaginadas em turbilhões de imagens mentais, e nunca para agarrar a atenção de alguém ou a pensar se quem lê irá gostar. Sempre achei que o escritor escrevia primeiro para si. Sou mesmo ingénua. E parva.
8.3.12
Finalmente
O trabalho foi entregue e hoje saiu e nota. 18. Devia estar contente, e até estou, só que não estou. Fico a pensar que se tivesse tempo para estudar e para preparar os trabalhos como deve de ser fazia esta merda com uma perna às costas. Mas como o tempo é pouco, os meus filhos pesam-me na alma por estar a roubar-lhes tempo e atenção, o dinheiro não sobra e o meu carro bebe cada vez mais o que significa que tenho realmente de trocar de carro urgentemente porque as viagens até Braga estão literalmente a depenar-me, o novo trabalho que me faz estar constantemente alerta, e isto não é forçosamente uma coisa má, mas o facto de ter tido boas notas no primeiro semestre, em vez de me trazer satisfação só me dá tristeza, porque provavelmente vou congelar a matricula no final do segundo semestre e vou ter muita pena. Só não o faço já porque iria deitar fora a massa que já paguei de propinas e como já paguei metade custa-me desperdiçar. Mas custa-me aguentar, custa, custa, bastante.
26.2.12
Falta pouco...
Estou a tentar terminar o último trabalho que tenho de apresentar, que é um web site que tenho de entregar amanhã e cuja entrega significa colocá-lo online e enviar aos professores o link para lá irem ver. Mas não resisti e fui ver se já está na pauta a nota do exame que fiz no dia dezasseis e como tinha dito que mostrava as notas do primeiro semestre, cá estão:
Introdução aos Estudos Literários: 12 (a do exame)
Introdução aos Estudos da Linguagem: 14
Português: 15
Inglês: 19
E só falta esta, que os professores são finos, não se sabe a nota do primeiro trabalho para ninguém se baldar neste. Veremos.
Introdução aos Estudos Literários: 12 (a do exame)
Introdução aos Estudos da Linguagem: 14
Português: 15
Inglês: 19
E só falta esta, que os professores são finos, não se sabe a nota do primeiro trabalho para ninguém se baldar neste. Veremos.
21.2.12
Patifes!
Chegamos a casa e mandei-os à garagem buscar um cesto de lenha. Foram. Acendi a lareira e comecei o jantar. Mandei-os por a mesa. Puseram. Enquanto eu cozinhava mandei-os lá baixo buscar o correio à caixa. Foram. Sentamo-nos para jantar e enquanto eu os servia começaram a balbuciar qualquer coisa entre eles que eu não percebi, mas quando começaram a rir às gargalhadas perguntei-lhes o que se passava. Começou o grande, ai mãe, nem sabes o que aconteceu, o pequeno continuou, sabes o que eu fiz no elevador? sabes, mãe?, eu não sei, o que foi que fizeste? olha mãe, dei um pu muito malcheiroso dentro do elevador e depois quando chegamos lá baixo, entrou uma senhora. Ai valha-me Deus, disse eu, enquanto eles se riam às gargalhadas, coitadinha da senhora.
14.2.12
Valentine
Não tenho um mas dois. São dois tremendos calhamaços que tenho de peneirar e absorver até quinta-feira pois espera-me de goelas abertas e dentes afiados um magnífico exame da cadeira semestral de "Introdução aos Estudos Literários" prontinho para me devorar. Vai daí, tenho programa para hoje à noite, amanhã à noite e quinta-feira até à hora do exame. Se correr bem devoro-o eu a ele e poderei dizer o que quero tanto dizer: menos uma! Depois dessa é fazer e entregar o trabalho da outra cadeira semestral que se chama "Tecnologias de Comunicação em Humanidades" que é nada mais nada menos do que construir um website para a empresa de um amigo que gentilmente concordou com esta aventura. E acabo o semestre, aleluia! As outras estão no papo já desde que acabaram as aulas. Depois mostro as notas. Estou triste contudo, ainda não sei se o novo emprego me permitirá frequentar o segundo semestre. Façam figas...
13.2.12
Simples
Há mulheres que querem um homem para não se sentirem sós. Há mulheres que querem um homem para se sentirem amparadas, apoiadas. Há mulheres que querem um homem para terem companhia para irem aos sítios. Há mulheres que querem um homem que as sustente. Há mulheres que querem um homem porque acham que os outros pensam que uma mulher que esteja sozinha é porque não é boa peça, se ninguém lhe pega é porque não deve valer grande coisa. Lamento muito mas não consigo encaixar-me em nenhum dos exemplos acima descritos, primeiro porque não encaixo propriamente na categoria das mulheres que querem um homem, apesar da verdade ser que também não posso dizer que não quero porque em tempos dizia que não queria e depois acabei por querer, portanto posso eventualmente vir a querer um homem, e tendo esclarecido o primeiro ponto, passo ao segundo, que é então o porquê, ou o para quê quererei eu um homem. Admito que já pensei nisto muitas vezes, e de todas elas cheguei à mesma conclusão. É fundamental que eu goste desse homem, não é fundamental que o ame, que eu goste é suficiente. Mas não sendo imperativo que me ame, apenas que goste de mim, é imperativo que saiba e aceite que não o quero para nada, só que gosto dele. E isto, parecendo tão simples, é provavelmente o mais complicado.
7.2.12
Baralha, parte e dá II
Há os homens que nos amam, mas nem sempre nos merecem. E há os que nós amamos e que julgamos merecer. Depois baralhamos tudo e agradam-nos os que nos merecem, mesmo que não sejam os que amamos.
6.2.12
Tola
Percebi aqui há dias, no dia 2 de Fevereiro para ser precisa, que na véspera teria sido o décimo quinto aniversário do meu casamento, claro, se estivesse casada. Estava à mesa, em casa dos meus pais e falavamos no dia do aniversário do meu irmão, que era dali a dias, e que entretanto já foi. E a minha mãe, pergunta-me sorrateiramente se não tinha feito anos que eu casei. Tive de pensar, juro que não tive a certeza, mas sim, tinha feito anos que casei. É assombroso como esse facto se apagou completamente da minha memória, assim como também desapareceu a marca do dia em que nos separamos, o dia em que ele efetivamente saiu de casa. Passo por esses dias sem me ocorrerem os eventos, tanto o casamento como a separação. E devo acrescentar que o dia do divórcio também passa despercebido, é que na véspera de ano novo, há outras coisas em que pensar. A minha mãe nunca compreendeu bem esta minha característica, ela acha que sou um bocado tola, mas a verdade é que pouco tempo depois de estar sozinha, não me lembrava sequer que ali tinha vivido aquela pessoa. Desapareceram as memórias, todas, as más e as boas também. Vivo naquela casa como se ali sempre tivesse vivido sem ele, nem me lembro que ele existe. Todos os dias sou confrontada com a existência dele, ele telefona aos filhos todas as noites, e os filhos falam nele frequentemente, mas isso permanecer na minha cabeça é outra coisa completamente diferente. Não fica nada. A minha mãe diz que sou tola, vivi com um homem durante doze anos, tive dois filhos dele, e nem me lembro que ele existe. Temos uma relação perfeitamente cordial, falamos o que temos de falar, combinamos as coisas conforme nos dá jeito, somos flexíveis em relação a horários, fins de semana, almoços e jantares de família que calhem fora de tempo estabelecido, sem qualquer problema ou hostilidade, conheço a namorada dele e damo-nos lindamente, ele entra lá em casa quando vai buscar os miúdos e circula pela casa toda, cumprimentamo-nos e despedimo-nos com dois beijos como se fossemos amigos, mas mal ele sai, puff... desaparece, esfuma-se, como se nunca tivesse existido. Devo ser tola, serei?
30.1.12
Máscara
Sim, eu sei que também tem uma máscara, disse-me ela, para logo depois me perguntar se podia tratar-me por tu. Concerteza que sim, é engraçado como todos, naturalmente, me tratam por você. No outro dia houve uma miúda que se referiu a mim como "aquela senhora", o que me fez soltar uma gargalhada. Mas voltando à máscara, se soubesses querida, o trabalho que dá não ter máscara alguma, e o que dói às vezes, se soubesses... O tempo passa e não há paciência para máscaras, isso é para ti que tens dezoito ou dezanove anos, eu já não tenho paciência. As máscaras, querida, vais aprender um dia que só nos tornam prisioneiras de nós próprias, tira a máscara, conhece-te e aceita-te e verás, serás livre. Mas a liberdade, também aprenderás um dia, paga-se.
26.1.12
23.1.12
Emoção
O grande, mãe! acho que vou ter um ataque cardíaco! O quê?!? perguntei eu, espantada. Sim, o meu coração está a bater muito! E o pequeno, o meu também mãe! Sinto a música a bater. E o grande, eu também, sinto a música a bater aqui no coração! Eu olhava ora para um ora para o outro, primeiro aflita, mas depois a sorrir-lhes. É da emoção rapazes, é da emoção!
(Estavamos no meio da multidão, apertadinhos como sardinhas numa lata, mas adoramos!)
(Estavamos no meio da multidão, apertadinhos como sardinhas numa lata, mas adoramos!)
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| Espetáculo da Abertura Oficial da "Guimarães - Capital Europeia da Cultura 2012" no Largo do Toural, 21.01.2012 |
20.1.12
Perdão
Tenho grande dificuldade em perdoar, custa-me muito. Não perdoei o meu ex-marido, divorciei-me. Perdoei-lhe apenas depois. Não perdoei o meu patrão, despedi-me. Anteontem. Talvez um dia lhe perdoe, não sem antes me afastar. Nunca sinto necessidade de me vingar ou de agredir, só de me afastar, de cortar relações e terminar a convivência e a partilha. Depois, muito depois virá talvez o perdão. Não sou capaz de respeitar quem me desrespeita, não sou capaz de sequer conviver com quem me desrespeita, e insistir é violento, violento-me profundamente. Assim, vou-me embora rumo a novas aventuras, mais modestas, mais humildes, mas mais dignas, que a dignidade não tem preço. A minha, pelo menos, não.
8.1.12
Porquê?
Mãe, agora nunca estamos contigo. Porque é que tinhas de ir para a universidade?
(Achei que com duas noites por semana a deixa-los a dormir em casa dos meus pais me safava. Achei mal e tenho de dar a volta a isto no próximo semestre, ou faço menos cadeiras ou simplesmente deixo aquilo. Dói-me demasiado. Não quero ouvir mais o que ouvi hoje. Não quero).
(Achei que com duas noites por semana a deixa-los a dormir em casa dos meus pais me safava. Achei mal e tenho de dar a volta a isto no próximo semestre, ou faço menos cadeiras ou simplesmente deixo aquilo. Dói-me demasiado. Não quero ouvir mais o que ouvi hoje. Não quero).
6.1.12
Carne
Retirada a carga do desejo, começamos a observar as pessoas de outra forma. Seja por se ter concretizado a vontade ou seja por despontar a falta dela, quando já não olho para um homem com desejo, vejo-o muito melhor. E se houve de quem gostei menos, outros há de quem gosto muito mais. Outros não, outro, vá.
2.1.12
Fuga
Não tenho desejo nenhum. Um dia atrás do outro. Saúde. Mais nada. Não tenho mais desejo nenhum, estou vazia. Vazia de desejos, vazia de projetos, vazia de amor. Vazia de tudo. Há coisas que gosto e há coisas que não gosto, sinto-me distante de todas, tão distante. Estou a fugir, mas não sei bem de quê. Estou triste, mas não sei bem porquê. Tenho vontade de fugir, estou a fugir desesperadamente apesar de ficar no mesmo lugar. Estou aqui, e todavia tão longe, ainda não parei, ainda não acabei de fugir.
23.12.11
Mulheres
Peles brancas, com sardas, morenas. Cabelos compridos, curtos, ondulados lisos. Rabos gordos, ossudos, flácidos e rijos. Redondos, achatados, outros descaídos. Mamas, muitas mamas, umas saltitonas outras tristes. Mamas frondosas e mamas tímidas, mamilos grandes, mamilos pequeninos, uns rosados outros negros. Cremes e óleos, peles lisas e lustrosas. Peles estriadas e engelhadas. Peles viçosas, espinhas cheias de pus, cicatrizes e eczemas. Corpos, muitos corpos, a granel, por atacado. Vapor, suor, rostos vermelhos, afogueados. Cheiro a sapatos transpirados, a axilas suadas, a bafos sedentos. Desodorizantes e perfumes e produtos de cabelo. Às vezes reparo mais num corpo ou noutro. Gosto de corpos, de espiolhar corpos, se pudesse via-os até por dentro, como numa autópsia. Gosto das barrigas e das coxas. Cheias de celulite ou musculadas, não importa. Gosto das curvas férteis das mulheres, e não me fazem impressão nenhuma as velhas com as peles descaídas e os ossos tortos. Só há uma coisa, absolutamente democrática, há em novas em velhas, em gordas e em magras, em boazonas e em arrombadas, que me mete nojo. Que me desilude e me deita por terra. Olho-lhes para as unhas dos pés e muitas delas, é ver literalmente o verniz a estalar. Unhas de pés pintadas de cores fortes com o verniz todo descascado e algumas, lá pelo meio, até já sem nenhum. Que nojo. É nestas coisas, nas que não estão à vista, que se vê a elegância de uma mulher.
11.12.11
Agora aguenta que ninguém te mandou meteres-te nelas
Textos, e mais textos. Resumos de textos, textos argumentativos sobre outros textos. Um ensaio sobre um livro que escolhi e que me custou imenso acabar de ler. E mais trabalhos, que são textos, sobre as características do texto lírico, e sobre as diferentes correntes literárias. E outro trabalho que consiste em utilizar a linguagem html e construir um website, com tema à minha escolha. E o emprego, e os rapazes, e os trabalhos de casa e os testes deles, e a roupa para passar a ferro, e o carro para levar à inspeção, e as contas para pagar, e os papéis para arrumar. A minha vida parece um castelo da cartas, abana uma e eu seguro, para logo de seguida abanarem mais duas ou três. E eu seguro, e eu corro, e eu aguento. Não sei quanto tempo mais. Fecha os olhos, respira e aguenta, trabalha, não durmas, trabalha. Podias muito bem ter ficado quieta, mas não, queixavas-te do tédio, não queixavas? Agora aguenta, é bem feito, vês? Tédio é a última coisa de que te podes queixar.
1.12.11
Detalhes
Equipas-te e vais para a aula de Power Camp, fazes o aquecimento e ficas a morrer com a língua de fora e com a boca seca, mas de alguma forma inexplicável continuas e fazes os exercícios todos mesmo já te arrastando nos últimos vinte minutos. Chegas ao edifício com folhas secas presas no cabelo, com a camisola completamente suada, as calças cheias de lama no rabo e nos joelhos e a cara simplesmente quase a entrar em combustão espontânea. No balneário despes-te aflitivamente e metes-te debaixo do chuveiro e parece que chegaste ao paraíso, água quente no corpo, o champô, o gel de banho, cheira tão bem, hum, que bom. A saga de secar o corpo e vestir a roupa num ambiente quente e saturado de vapor de água é só mais uma cena que tens de ultrapassar e quando entregas a chave do cacifo e levantas o cartão ainda não estás completamente seca, até porque ainda não paraste de transpirar. A caminhada de volta ao carro sabe-te bem, estás relaxada, o corpo ainda um pouco dormente, o cabelo molhado e os pulmões a debitar ao máximo. Sentas-te à mesa no restaurante, o teu amigo serve-te um copo de água e ao agarrar no copo reparas que tens as putas das unhas todas pretas, cheias de terra.
14.11.11
Correção
Não, acontecer acontecem-nos coisas como sermos atropelados, ou o eclodir de uma doença que estava escrita nos nossos genes. Há coisas que não nos acontecem, nós é que nos metemos nelas ou então não temos força ou esperteza para as evitar. Isso sim.
9.11.11
Escolhas
Não são as minhas decisões que tens dificuldade em aceitar, em engolir. São as tuas. É muito mais difícil, não é?
6.11.11
2.11.11
Estudos
Terceiro ano do primeiro ciclo, o pequeno estuda Estudo do Meio. Aborda os monumentos, alguma história da cidade onde vive, no livro que não é o estipulado pela escola mas outro de exercícios que o pai lhe comprou (o pai tem o hábito, bom hábito, diga-se de passagem, de lhes comprar livros de exercícios complementares) e ia desfiando as perguntas em voz alta. Chegou à parte das autoridades, forças de segurança, e a pergunta era esta, ou parecida com esta: Qual é a figura de autoridade na tua freguesia? A resposta dele, muito pronta, sem hesitar: A minha mãe!
28.10.11
Power camp #3
Peso ainda não perdi, mas barriga e rabo estão a diminuir, já se nota. Ontem fiquei desiludida porque achei que ia correr e rebolar na erva à chuva. Lama também não havia que o treinador quis ser simpático e levou-nos para uma parte do campo longe de qualquer lamaçal, tive pena. Mas foi bom, a pele a queimar, os músculos a doer, o coração a rebentar no peito e a erva húmida no corpo é sem dúvida, uma sensação excelente. Amanhã há mais.
26.10.11
Nunca pensei
Choca-me a necessidade que algumas pessoas sentem de magoar, o tempo que gastam a construir raciocínios e formas subtis de atingir o epicentro da fragilidade, não é para todos. Choca-me mais até do que me dói.
19.10.11
Física
Se acariciar os lábios com a língua durante algum tempo consigo sentir o sabor da tua boca na minha, como às vezes ao tocar inadvertidamente na minha pele sinto o toque quente dos teus dedos, ou como quando de manhã ao acordar me viro na cama e sinto o teu cheiro nos lençóis, sim, o meu corpo ainda é o teu.
18.10.11
Jardim
Eram uns oito ou nove, jovens e giros ali a tostar ao sol. Encaixavam as pedrinhas brancas e as pretas no desenho pré-definido. Estão a acabar de calcetar o jardim ali no centro. Tão engraçados com os coletes amarelos e os capacetes. Juro que me apeteceu abrandar, meter a cabeça de fora do carro e atirar um grandessíssimo piropo, daqueles que normalmente se esperaria que fossem eles a mandar às moças. Não tive coragem, mas abrandei e ao passar olhei para eles e sorri. Eles sorriram-me de volta, que bom.
17.10.11
13.10.11
Tudo bons rapazes
O Bita deve ter mais uns dez anos do que eu. Vive com a mãe e com o irmão mais novo, o pai morreu há poucos anos. É o mais velho de seis irmãos, todos rapazes, e um deles morreu de acidente de carro também há uns anos. O Bita é um tipo que está sempre bem disposto, trabalha há anos para o mesmo patrão e tem uma adoração tremenda pela mãe e pelos irmãos. Fez-me chorar quando no enterro do pai gritou ao irmão já ido há muito, Zé, toma conta do nosso pai! Faz-me sorrir sempre que fala comigo, estás boa rapariga? Tudo bem Bita, e tu? Tudo em ordem, até logo. A mãe diz que o meu Vítor é a alma da casa, que sempre foi. Foi o primeiro filho, e teve problemas em pequeno, e por isso é que ficou assim, nunca deu nada na escola, tem problemas de cabeça, diz a mãe. Mas todos sabemos que é um homem bom, puro. O Bita não tem maldade, todos gostam dele e o respeitam. É um gosto vê-lo ao sábado de manhã a empurrar o carro do super mercado, acena-me sempre, enquanto a mãe escolhe nas prateleiras e o irmão mais novo coloca dentro do carro. Os do meio já saíram de casa, casados ou não, já não vivem com a mãe. Ficaram o mais velho e o mais novo. Aquela mãe, viúva agora, deve ser das mães mais realizadas. Aqueles homens fazem tudo por ela, vê-se-lhes a meiguice e o carinho com ela, que também sempre fez, sabe Deus as dificuldades, tudo por eles, tal como faz agora pelos netos. São todos bons rapazes, todos simpáticos e conheço-os desde sempre, uns mais bonitos, ou mais faladores do que outros, mas o meu preferido é o Bita. O Bita é alegria.
12.10.11
Precipício
E aos trinta e seis anos volto a sentir-me insegura e acagaçada. Recordo como é constatar a ignorância e abrir involuntariamente as portas ao medo. Saio, ao fim de muitos anos, da minha zona de conforto e tenho de respirar fundo para não sucumbir ao pânico. Trinta e seis e mais parece que tenho dezasseis. Não gosto.
9.10.11
Medo, medinho, daquele de não caber um feijão no...
Vinha toda lançada para meter aqui um texto que acabo de escrever sobre o amor a mando do professor de Português. Quer avaliar o nosso nível de escrita. Dez linhas, disse ele, não é preciso mais. Mas não, não meto aqui o texto. Ele disse que vai ao Google e mete as primeiras frases dos trabalhos só para topar as batotas. Ficava logo queimada, era lindo ele descobrir que copiei um texto de um blog chamado somos-a-normais escrito por uma tipa que diz que é jacklyn. Esturricadinha. Já enviei o texto por e-mail e a verdade é que não me cabe um feijão no cu.
Power camp #1
Ora bem, o cabelo. E mais? As unhas, e sim, os dedos também. Assim de repente não me ocorre mais nada que não me doa. É, basicamente, é isto. Ontem doía um bocadinho, mas hoje... Venham internar-me por favor que ainda assim estou para aqui a pensar repetir a dose de Power Camp (é assim que eles chamam àquilo) durante a semana. Fiz tudo, menos cantar aquelas cenas ridículas tiradas dos filmes da tropa. Era o que me faltava. Isso não fiz.
4.10.11
Actividades extra-curriculares
Ele é jantares, ele é worlshops, ele é as tunas, ele é corridas, ele é jogos de toda a espécie, ele é cursos disto e daquilo, depois junta-se a copofonia das festas à noute e é óbvio que a rapaziada não tem tempo para estudar. Registei-me naquilo e digo-vos do fundo do meu coração, estou varadinha da minha vida com a quantidade de e-mails que recebo diariamente de pessoas e entidades ligadas à Universidade do Minho a aliciar os estudantes para todas as merdas e mais algumas. Não admira que a canalhada ande com a cabeça virada do avesso, eles têm muito mais que fazer do que tirar cursos. O tempo não lhes chega para tudo, claro que não.
3.10.11
30.9.11
Orelhas
Como esta semana ficaram a dormir em casa dos meus pais para eu poder ir às aulas e como ontem não tive, fomos para casa e decidi deixá-los dormir comigo apesar de ser quinta-feira. Combinamos jogar às cartas antes de dormir, duas partidas às orelhas disse eu, que já não havia muito tempo, e já estavam os dois de pijama, dentes escovados e sentados de pernas à chinês em cima da minha cama, quando da minha casa de banho os ouvi a combinar, o grande para o pequeno, se a mãe perder dou-lhe beijos, se perderes tu levas orelhadas, e o pequeno está bem, se for a mãe leva beijinhos mas se fores tu, coooooooçaaaaaaa!
26.9.11
Estreia
Meu dito, meu feito. Ainda dei duas voltas até atinar com a entrada, só depois percebi que mesmo assim não dei com a entrada, mas lá consegui estacionar num buraquito e fiz a caminhada até lá. Ao telefone com uma amiga a dar-me direcções descobri o edifício que queria e cheguei à sala que marcava o horário. Vazia. Sem surpresa, mas fiquei sem saber se o professor teria aparecido ou não, à hora que cheguei tinha tido tempo de se apresentar, os alunos também e de alegremente se terem todos despedido até à próxima aula. Vagueei pelos corredores e percebi a geografia do edifício. Tive tempo para um café e para ler mais um pouco do meu livro. Depois fui à cafetaria. Uma sopa, uma maçã e outro café. Na fila, duas miúdas com a cara pintada viraram-se para trás e perguntaram-se se era professora. Sorri e respondi que não, mas também não disse que era tão caloira como elas. Já cá fora, outra miúda perguntou-me onde era uma sala qualquer e eu, que já por lá tinha andado, dei-lhe instruções precisas para lá chegar, ela ficou a pensar que eu percebia daquilo a potes. Finalmente a hora da aula e eis que me aparece uma prof com idade já próxima da reforma, um ligeiro sotaque brasileiro, simpática, e cinco compinchas de turma. Meia dúzia de gatos pingados, literalmente. Introdução aos Estudos Literários, primeira obra: Capitães de Areia (ou será da Areia?) Gostei. Este livro nunca li, mas gosto de Jorge Amado. A frustração de não ter chegado a tempo do Inglês foi subsituída pela pontinha de entusiasmo dos Estudos Literários. Jorge Amado, bem bom.
Butterflies
É hoje. Não sei onde é o campus, faço uma pequena ideia para que lado fica e a estrada que tenho de fazer, mas não sei exactamente onde é. Diz que as aulas começam às cinco, mas às cinco nunca na vida lá estarei, se conseguir lá chegar às sete já será bem bom. Depois tenho de aprender a ler as siglas que constam no horário, lá diz CP1- C1/304 TP1, que para mim é tão compreensível como mandarim, e descortinar onde é a aula de Inglês A2. Estou ansiosa, admito. Sou antiga.
25.9.11
Velhos
Hoje vi o Sr. Lopes. Conheço-o desde que me lembro, era amigo do meu avô e frequentava a nossa casa. Hoje faz noventa anos, um homem de cair para o lado. Fato cinza escuro e uma gravata de cor indefinida numa camisa branca imaculada. Um metro e oitenta e cinco, no mínimo, de pura elegância, esguia e leve. Lavrador, sim lavrador, aqui diz-se lavrador, agricultor é palavra chique e aqui não há lavradores chiques. Há homens como o Sr. Lopes, lindos, magníficos, velhos e vividos. Há homens cuja palavra vale a própria vida, cuja honra está acima de tudo. Há homens humildes e dignos, trabalhadores honestos com as mãos cheias de calos e que sabem dar valor ao que têm. Havia, porque do grupo de amigos do meu avô, o Sr. Lopes é o último, o Sr. Miranda foi a seguir ao meu avô e resta o Sr. Lopes que era o mais novo. Dezanove anos mais novo do que o meu avô, lembro-me que ele dizia sempre, o Lopes é um rapaz novo, e eu ria-me, porque o meu avô é que era velho, aos noventa saía com putos de setenta.
23.9.11
O grande
Ontem fui com ele fazer o percurso de autocarro até ao Instituto Britânico, para ele aprender. Começa na próxima semana as aulas, às segundas e quartas, das cinco e meia às sete. Ensinei-o a ir de autocarro, o salão de estudo que ele frequenta fica mesmo ao pé da paragem, até ao centro da cidade e de lá, a pé, pelo passeio e sempre pelas passadeiras, até à porta do Instituto. Depois voltamos para trás até à paragem do autocarro que faz o percurso inverso. O plano é ele vir ter comigo ao escritório quando acabar a aula e vai comigo para casa mas, visto que eu também vou ter aulas e posso não conseguir alguém para o ir buscar, assim fica a saber também voltar de autocarro, caso seja necessário. Tinha combinado uma boleia do meu irmão para regressarmos, e enquanto esperávamos por ele, apareceu o autocarro. Mãe, deixa-me ir sozinho, deixa-me, é facílimo, eu sei onde tenho de sair, vá deixa-me, eu sei, não te preocupes. Hesitei. A sério, mãe, saio em frente à escola e vou para casa da avó, deixa-me. Deixei. Foi todo contente, como um homem. Quando cheguei a casa dos meus pais com o meu irmão já lá estava, satisfeitíssimo.
22.9.11
O pequeno
Chamo macacos aos meus filhos, e eles sabem perfeitamente que é um carinho. Macaquinhos, às vezes, também. O meu irmão de vez em quando também usa a mesma expressão, quando se quer meter com eles. No outro dia chamava por eles, onde estão os macaquinhos, onde? O grande, lixado, ai é? Se nós somos macacos, tu és um gorila! E o pequeno, de longe, calmamente, é, é um gorila... sem pila.
Faz hoje oito anos.
Faz hoje oito anos.
20.9.11
Permissão
Recebo um sms pouco antes das dez da noite, posso ligar? Deixei. O meu coração não disparou nem fiquei a tremer. Falamos e confirmei-lhe que entrei no curso que queria e que ao invés de ter sabido só o resultado ontem como estava previsto tinha recebido e-mail no sábado à tarde. Ficou contente mas não surpreendido, disse que nunca duvidou e deu-me os parabéns. Não é nada de extraordinário mas agradeci. São dez, tenho de deitar os miúdos, certo, certo, não te atrapalho, fica bem, obrigado por fazeres parte da minha vida. Manda-me email no dia do meus aniversário, telefona-me no dia em que sabe que saem os resultados do ensino superior, e faço parte da vida dele por lhe permitir estes pequenos nadas. E agradece-mo. Nesse momento soube serena e tranquilamente que é uma questão de tempo. Não mantemos contacto, desde que acabei com tudo que não lhe ouvia a voz, apenas me escreveu. Serão anos, não importa, mas é uma questão de tempo. Há-de aparecer-me alguém pelo meio, aposto, mas ele há-de vir, livre, e onde quer que eu esteja, com quer que eu esteja, desembaraçar-me-ei e serei dele. Simples.
17.9.11
Agri-doce
Recebi há bocado o email que me diz que fui colocada e estou contente. Claro que estou. Mas fixe, fixe teria sido ter pegado no telefone e ter partilhado, só que não posso, e estou triste. Claro que estou. Quando temos de guardar as alegrias só para nós, transformamo-las tristezas.
13.9.11
Ausência
À excepção dos meus filhos e de tudo o que a eles diz respeito os meus interesses resumem-se a praticamente nada, faço o que tem de ser feito para garantir o bom funcionamento da casa e à noite vejo televisão. Vejo sempre algo que não envolva esforço mental. Recuso simplesmente telejornais e debates. Vejo animais e máquinas ou polícias e agentes secretos em perseguições de automóveis e tiros e explosões. Ocasionalmente um filme, mas com filmes costumo adormecer. Vidinha interessante que eu tenho.
7.9.11
Saudade
Gosto do aroma e aproximo-me de quem estiver a fumar. Deixo fumar no meu carro e na minha casa desde que os miúdos não estejam. Mas fumar, não fumo, nem fumei mais desde há um ano. Faz hoje.
5.9.11
Momentos marcantes
A noção de que o meu filho mais velho ia começar a escola priomária foi um momento marcante para mim, depois quando começou o ciclo (acho que já não é assim que se diz) coincidiu com o início da primária do mais novo, outro momento marcante. Este ano o mais velho está no sétimo ano, inicia-se outro ciclo e eu sinto estas coisas. Mas choque mesmo senti quando percebi que as sapatilhas dele, que já não usa porque lhe ficaram pequenas, me servem. Que estalo, arrasou-me.
Grandes questões
Fui informada há uns meses que em Setembro poderia ter de ir a Paris reunir com um cliente americano que lá vai visitar uma feira. Se conseguirmos conciliar todas as agendas (a minha é a mais fácil, estou sempre aqui e vou para onde me mandarem) haverá reunião no nosso escritório de Paris. E de certeza que por causa desta possível viagem sonhei no fim-de-semana passada que o meu cliente me convidava para ir trabalhar com (não para) ele em Los Angeles, durante três estações, e o meu boss lambeu os beiços e esfregou as mãos (não tenho a certeza se por esta ordem) e quase que lhe vi cifrões nos olhos como o Tio Patinhas, pois isto implicaria eu orientar os produtos para a nossa empresa, fazer o desenvolvimento e acompanhar a produção. Do lado de lá. Esta brincadeira iria significar eu embolsar uma pipa de massa que me permitiria liquidar metade do meu calote ao banco. Pagava metade da minha casa. Tripei. Eu a sonhar e a passar-me da cabeça. O que é que eu faço? Três estações é mais de um ano, e os meus filhos? Não, não posso. E a massa? É muita massa. O que é que eu faço? E acordei e fiquei a pensar nisto, o que é que eu faria se me propusessem uma coisa assim? Algo que monetariamente valesse a pena mas que me afastasse dos meus filhos por um tempo considerável? O que é que eu faria. Pois hoje digo, com toda a certeza: não sei.
1.9.11
Vida
Ontem à noite fui buscar o edredon, tenho sentido frio. Já me tinha esquecido como é bom dormir nua, já me tinha esquecido que às vezes o meu corpo ganha vida própria.
29.8.11
Pele
Estou a pensar seriamente em fazer sessões de dança lá em casa. Toda a gente sabe que eu odeio fazer exercício físico, mas gosto muito de dançar. Ao som disto, então...
27.8.11
Acordar
Aqueles minutinhos de sábado de manhã são insubstituíveis. Quando eu os acordo e eles ainda sem abrir os olhos se viram para mim e me abraçam. O pequeno do lado esquerdo dá-me um beijo mesmo de olhos fechados e o grande do lado direito põe a perna por cima da minha. Ficamos assim, eu derretida com um de cada lado agarradinhos a mim, eles quase acordados, ainda de olhos fechados, quentinhos no mimo da mãe.
(sexta-feira é a noite de dormir comigo)
(sexta-feira é a noite de dormir comigo)
24.8.11
Post aborrecido sobre roupa, ou moda, não sei bem.
Trabalho há vinte anos na industria têxtil, em vestuário, e no entanto, não percebo um boi de moda, por um motivo extremamente básico, nunca a moda me interessou. Vagueio pela blogsfera e vejo os blogs famosos de mulheres supostamente entendidas na matéria, vejo fotografias de revistas conceituadíssimas a lançar tendências, vejo catálogos de marcas conhecidas com as novidades de cada estação. Talvez por lidar com roupa há demasiado tempo moda é assunto que não me diz nada. Não gosto, e se pensar um bocadinho mais poderia dizer até que me causa um nadinha de asco. Sou obrigada a saber qual é a tendência da estação em termos de cores, formas e texturas, mas só porque sou obrigada. Sei se a roupa tem qualidade ou não e se a relação qualidade/preço está bem ou mal. Às vezes rio-me com as marcas que andam aí na moda, se as pessoas soubessem, mas não vou ser eu a destruir o glamour da coisa. Aliás, até vou. Quando as marcas aparecem em Portugal, normalmente já não valem a ponta de um chavo no país de origem, é triste mas é verdade. Uma marca nova, hot, muito fashion, quando começa a ser vista cá, é porque já deu o que tinha a dar. Exemplo, em 2003 comecei a trabalhar uma marca americana que começou a dar que falar nos USA quando o designer que lhe pegou resolveu deixar meia dúzia de bonés no hotel onde estava a Britney Spears e a moça meteu o boné na cabecinha. Namorava ela na altura com o Justin Timberlake. E a marca explodiu porque a rapariga apareceu na TV ou numa revista qualquer com o puto do boné e milhões de pessoas quiseram ter o mesmo boné. Quando foi preciso fazer t-shirts a granel, cá apareceram eles, para produzir em Portugal. Até aí faziam t-shirts em Los Angeles, como? Compravam t-shirt lisas, em várias cores à Americal Apparel, sim é verdade, a America Apparel é uma empresa que faz roupa de péssima qualidade, a preços de merda, na Ásia, mas só as bases, as formas, para vender a outras marcas que depois personalizam, com estampados, bordados ou outras decorações, mas agora a American Apparel parece que está na moda, enfim. Nesse ano, essa marca dos bonés vendeu muitos bonés e muitas t-shirts, no ano seguinte explodiu na Europa, por altura do Europeu de futebol de 2004 tivemos uma convenção aqui na terrinha, recebemos todos os distribuidores europeus e vendemos umas boas centenas de milhar de peças, sem contar com as encomendas para os USA que fomos depois buscar a Saint-Tropez, onde o tal designer estava de férias com a família. Bom, tudo isto para dizer que, esta mesma marca só começou a despontar em Portugal cerca de três anos depois, só que três anos depois, já o designer tinha batido com a porta e lançado outra marca que já tinha explodido nos USA, já não vendia quase nada nos USA e na Eurora já estava em decadência. Quero com isto dizer que, nunca vi nenhuma das marcas "cutting edge" em blog nenhum, ninguém as conhece. São aquelas marcas pequeninas, topo de gama, que as outras marcas vão copiar. Peço desculpa, copiar não que é feio, vão retirar inspiração. São aquelas marcas que encomendam quinhentas ou mil peças de cada modelo e pagam o preço justo pela peça. Depois vendem t-shirts a duzentos e cinquenta euros, claro, que ninguém anda aqui a trabalhar para aquecer e as lojas em Paris, Londres e Nova Iorque têm rendas altas, certo? Depois os "scouts" de grupos como a Inditex fotografam a montra e mandam para a base onde dezenas de designers trabalham essa inspiração e três semanas ou quatro depois temos modelos "inspirados" nesse nas lojas da Zara à venda por 9,99 Euros. Por isso a Inditex não tem uma política de direitos humanos. Não tem. Por isso acontecem coisas como o que se descobriu no Brasil. Não me surpreendeu nada. A Inditex não é directamente responsável por situações daquelas, mas pode perfeitamente desligar-se de misérias destas, só que custa dinheiro e encarece as peças. Já li num blog que a autora preferia gastar cem euros em roupa na Zara do que cem euros numa boa refeição num restaurante. Eu aceito, são opções. Mas posso, claro, questioná-las. Eu prefiro gastar cem euros num par de calças de uma marca que sei que manda pessoas verificar a fábrica antes de colocar uma encomenda e só confirma a encomenda se a puta da fábrica tiver casas de banho como deve de ser, sim, a auditoria puxa o autoclismo e se o mesmo não funcionar conta como não conformidade, e se os recibos de vencimento dos funcionários estiverem de acordo com a lei em vigor nesse país, e se as horas extra forem pagas justamente, e se as entrevistas individuais feitas a funcionários escolhidos aleatoriamente forem satisfatórias, perguntam se se sentem bem, se são respeitados pelos superiores, se há assédio de qualquer espécie, e se os exercícios de incêndio estiverem em dia e devidamente documentados e certificados pela Corporação de Bombeiros, e se os extintores forem inspeccionados regularmente, e se as saídas de emergência estiverem bem assinaladas e desimpedidas. Pois, isto envolve investimentos por parte das fábricas que queiram trabalhar com estas marcas, e envolve contratar empresas que auditem estas fábricas, e isto, faz com que o preço da peça aumente. Mas isto também dignifica os trabalhadores, e por conseguinte valoriza uma marca. Eu prefiro gastar cem euros numa t-shirt, ou num par de calças produzida nestas condições do que gastar cem euros em seis, sete ou oito peças das outras, só que depois, claro, tenho pouca roupa que eu não sou rica, e não ando na moda, nem percebo nada de moda. Mas as pessoas não sabem e tal... é tão fácil saber, basta ir à internet investigar. Investiga-se tanta coisa, menos a roupa. Naa, a roupa é para usar, para brilhar, não é para pensar.
23.8.11
22.8.11
Golpes
Noutros tempos pararia e iria de imediato desinfectar e aplicar uma ligadura, iria fazer a coisa como deve de ser, dois dedos cortados não é nada de dramático mas também não é coisa que não mereça atenção. Mas não, estando a preparar um gelado de maracujá, com dois gajos atentíssimos a todas as operações necessárias, a cena é assim, ao abrir um maracujá com a faca de serrilha, a puta da faca salta e corta razoavelmente o indicador e o médio da mão esquerda, e o que se faz é abrir a torneira, passar os dedos por água, espremer um pouco para sair aquele sangue merdoso, aquele, o primeiro, e depois envolve-se a mão num pano de cozinha até o sangue estancar, e com cuidado para não arriscar umas gotinhas de sangue no gelado, continua-se o que se estava a fazer. Simples.
18.8.11
Liberdade
Diz-lhe que o queres só porque sim, que não precisas dele para nada, só gostas dele, ponto final. Diz-lhe que se deixe de merdas e decida o que quer da vida e depois falam, e que aceitarás a decisão, seja ela qual for. Diz-lhe que o queres por inteiro, que não há meias verdades nem hesitações, e que de outra forma estás fora. Diz-lhe que gostas dele, mas que exiges respeito, que nunca te menospreze. Diz-lhe que ele é livre de fazer o que bem entender, que nunca o obrigarás a nada e que só o aceitarás se ele vier de livre vontade e se vier a sério e completamente. Diz-lhe tudo isso e verás um homem feito perdido como uma criança.
17.8.11
A beleza
Ela era linda de morrer e todos à volta dela o confirmavam. Casou-se com um homem que nem acreditava no que lhe estava a acontecer. Só que ela não gostava de trabalhar e o marido não era rico e suportou enquanto pôde os dias, semanas, meses intermináveis em que ela passava os dias de pijama e robe, deitada no sofá a fumar e a ver televisão. Ocasionalmente chamava a miúda da vizinha para lhe fazer companhia. E os meses passaram e ela engravidou. Nasceu o rapaz e o caldo entornou, foram dois anos até ao divórcio. Entre namorados violentos, álcool e droga, o rapaz testemunhou tudo. Aos cinco anos saiu de casa e foi ao café telefonar à avó porque a mãe estava estendida no chão e não acordava. Ainda era bonita, e nova. Incendiou o apartamento um dia, estava nervosa, mas o filho já estava entregue ao pai. Prostituiu-se durante uns anos até que emigrou e viveu na Suíça com um italiano endinheirado, mas depois cansou-se. Voltou e agora trabalha num mini-mercado. Vi-lhe as fotografias no facebook porque o filho dela veio sentar-se no meu colo muitas vezes em pequeno, quando fugia ao pai e à tia depois de uma qualquer asneira. Eu lembrava-me das tardes que passei a jogar às cartas com a mãe e dava-lhe mimo. Dei-lhe muito mimo, e ontem estive a ver as fotografias da bebé dele e deparei-me também com as fotografias da mãe. Gasta, acabada. Tem pouco mais de cinquenta anos mas o olhar parece que carrega duzentos.
16.8.11
Baralha, parte e dá
Como cartas misturadas numa mesa redonda sem fim,
Tenho as ideias todas misturadas assim
Ouros, copas, espadas e paus
Todos juntos sinto-os maus
Começo, separo, ordeno
Não consigo, desespero
Baralho, parto e dou
Sem decidir contudo se vou.
Tenho as ideias todas misturadas assim
Ouros, copas, espadas e paus
Todos juntos sinto-os maus
Começo, separo, ordeno
Não consigo, desespero
Baralho, parto e dou
Sem decidir contudo se vou.
14.8.11
Ninho
Há uma festa para ir, mas cheguei hoje a casa e abri as janelas. Há uma festa para ir, mas cheguei hoje a casa e desfiz as malas, tirei a roupa e pu-la a lavar. Acendi velas de cheiro e guardei os sapatos. Há uma festa para ir, mas tomei um duche e deitei-me na minha cama que cheira a lavado e me abraçou. Há uma festa para ir, mas tenho tantas saudades da minha casa e haverá festa na mesma sem mim.
28.7.11
Os meus, os teus e os nossos
Há muitos anos a minha mãe contava a história se que um senhor que enviuvou novo com vários filhos pequenos, se casou outra vez e com a nova mulher teve também vários filhos. A nova mulher, por sua vez, também viúva, também já tinha filhos, e depois por piada diziam dos filhos, os meus, os teus e os nossos. Ontem à noite tive cá em casa a jantar além dos meus filhos, os filhos da namorada do pai, um rapaz da idade do meu pequeno e uma rapariga da idade do meu grande, e também um par de gémeas que são filhas dum casal amigo que fui buscar à hora do almoço e que vão cá ficar em casa até à próxima segunda-feira. Estou de férias e esta semana é dedicada aos putos. Com as seis crianças sentadas à mesa, regaladas com a minha lasanha, não pude deixar de me lembrar da história dos meus, os teus e os nossos, não só por serem muitas crianças mas também pela mistura. O meu ex-marido, também padrinho da gémea veio cá com a namorada trazer os filhos dela e também veio ver a miúda. Depois de jantar, os rapazes lá fora no jardim e no pátio com as pistolas de água e as bolas, e nós as gajas, nos vernizes e nas maquilhagens. Elas falavam de miúdos cantores que saem na revista Bravo e perguntavam-me qual é que eu achava o mais giro. Tive os miúdos cá quase até à meia noite, eu tinha dito aos grandes para namorarem à vontade, que não tivessem pressa de os vir buscar. Definitivamente, um programa a repetir.
22.7.11
Done
Está feito e se não consigo uma nota superior a um valor que eu cá sei, até me chicoteio. Aquilo foi escandalosamente fácil, não entendo como é que se pretende que a malta saia do secundário a falar inglês com exames com este nível de exigência. Devo ter percebido tudo mal, eu, claro. Dia 7 de Agosto veremos, depois falamos.
20.7.11
Turning point
Não sei explicar muito bem mas sinto que estou perto de um qualquer acontecimento que vai mudar o rumo da minha vida. A expectativa de ingressar na universidade fez nascer em mim algo de novo e excitante mas muito abstracto. O exame de Inglês é já esta sexta-feira e começa uma nova fase, depois a candidatura e o nervosismo da espera. Estou convencida que vou entrar, mentiria se dissesse que estou insegura. Sinto que a minha vida vai mudar, a todos os níveis. Não sei porquê, mas sinto.
18.7.11
Nó
Hoje é o aniversário dele e tenho um nó na garganta porque apetece-me muito agarrar no telemóvel e mandar um "parabéns" mas depois penso que poderá ser interpretado como uma tentativa de aproximação. Dói-me imaginar que ele possa pensar que nem sequer me lembrei, por não me ter manifestado, mas depois penso que pior será o resultado de uma acção decorrente da tentativa de minimizar esta dor. Sinto, dói-me, desfaço-me em dúvidas e hesitações mas depois penso, penso, penso. Apetecia-me tanto abraçar o meu amor hoje, é o seu aniversário, mas depois... depois, penso.
...
E choro.
...
E choro.
14.7.11
13.7.11
Jealousy
Desde ontem que tenho estado a trabalhar com um casal israelita, ambos com quarenta anos e muito cool. Contaram-me que têm dois filhos pequenos e que ele, advogado, deixou uma empresa financeira internacional em Tel-Aviv para se juntar à mulher, designer, que batalha há quinze anos para fazer vingar a marca que iniciou e da qual sempre se ocupou sozinha. Desde que ele se dedicou ao negócio já abriram uma loja e distribuem em quarenta outras lojas. Estão entusiasmados e decidiram deslocar a produção para Portugal para poderem dedicar-se mais à distribuição e promoção da marca. É um conceito engraçado, destinado a mulheres adultas, entre os trinta e os cinquenta anos, que foge ao clássico mas também não é rock & roll. Acho que vai correr bem. Estão deliciados por não terem mais de comprar as matérias-primas e de ter todas as dores de cabeça até às peças estarem dobradinhas nas prateleiras das lojas. Acabamos hoje, antes do previsto e estivemos à conversa, descontraídos. Ela confessou-me que quando vai às lojas das marcas que mais gosta em Paris sente inveja. Demonstrei-lhe admiração, ela continuou, I am a jealous person, when I go to the Zadig & Voltaire store in Paris I am jealous, I think who needs me? What am I doing? I feel jealousy, it's true. Wait, disse-lhe eu, the fact that you aknowledge that and deal with it is a very good thing, it requires a strong personality and shows that you are very self aware. Yeah, yeah, I know that, I can say that peacefully now that I am forty, when I was twenty I could not say this, but the truth is that this jealousy I sometimes feel makes me really sad. Calei-me. Mudei de assunto. Senti-me pequenina.
7.7.11
Força
Sinto o meu amor a fugir-me, a partir sorrateiramente e não sei se sou eu que que não sou assim tão fraca ou se é ele que não é assim tão forte.
5.7.11
Medo
Doem-me as pernas, a direita mais do que a esquerda, uma veia perto do pé que é mais grossa e saliente está particularmente sensível. Fui buscar as meias elásticas ao fundo da gaveta e aliviei a dor, mas não o medo.
4.7.11
Tanta coisa
Há tristeza, há saudade, há vazio. Há leveza, há esperança, há alívio. Há disto tudo um pouco, misturado com uma sensação de recomeço. Há uma força nova a despontar, mas há sossego, há paz. Há horizonte, há mar, há terra e há céu. Há, sobretudo, tudo, outra vez.
30.6.11
26.6.11
22.6.11
Podre
Ontem um amigo fez-me pensar no motivo do meu desconforto relativamente aos acontecimentos recentes e à consequente análise que se me afigurava difícil. Há sensivelmente um ano eu quebrei e a seguir apodreci. Tenho vivido estes tempos com um profundo desgosto dentro de mim e fechei-me ao mundo e aos homens. Antes era a predadora e marcava os alvos mas este tempo todo, propositadamente, escondi-me no conforto da invisibilidade. É-me infinitamente mais fácil recolher-me dentro de mim própria do que enfrentar o mundo, porque quando olho para fora vejo-me, o que invariavelmente me dói. Agora, de repente senti-me a presa, e ao invés do jogo do ataque, encontro-me a jogar à defesa. Fui apanhada de surpresa. Não consigo perceber se é bom ou mau sinal, se o amor que me destrói está a abandonar-me e eu estou, sem sequer o ter percebido a expor-me de novo à vida como um rebento num tronco seco, ou se estou a expor o flanco à dentada que me vai, finalmente, matar.
18.6.11
Como começar um boato
Esta manhã fui às compras com o meu pai. Fomos ao super mercado e enquanto esperávamos que nos servissem o peixe dei com os olhos numa antiga cliente da minha mãe, mas que desistiu há uns tempos de lá ir arranjar o cabelo. Cumprimentei a senhora e mantive-me sossegada. Ao meu lado, o meu pai não a tinha visto e quando finalmente a mulher se lhe dirigou, pediu desculpa e disse muito espantada que não o tinha reconhecido, que me viu mas que pensou que o homem ali ao meu lado era o meu namor... o meu marido, corrigiu. Olhamos um para o outro e apeteceu-nos rir. Depois, adivinhamos o pensamento um do outro. Assim se começa uma história do arco da velha, a mulher era muito bem capaz de comentar com a vizinha que me viu no super mercado com o namorado. E assim poderia facilmente iniciar um boato, muito naturalmente, sem qualquer malícia. Olha, tem namorado, estavam os dois no super mercado no sábado de manhã. Assim, fácil.
15.6.11
Morte
Sonhei comigo grávida em fim de tempo com violentas contracções, desfeita em água e com a criança quase a nascer, gritava à minha mãe que tinha de ir para o hospital e ela, calma, dizia-me que não, que havia tempo. Sonhei que o tempo passou, as contracções passaram, a água secou e a criança não nascia. Não existia o pai da criança e nem era coisa que me preocupasse, preocupava-me a criança que não nascia e os dias que passavam, um, dois, três. Depois acordei e tive medo de adormecer de novo. Não dormi mais, tive medo de parir um filho morto.
14.6.11
13.6.11
8.6.11
Faz-me sentir
É por isso uma mulher perdoa. É por isso que uma mulher esquece. É por isso que uma mulher fica. Porque o seu homem a faz sentir a melhor do mundo, a faz sentir a única no mundo. Esse homem sabe que ainda que seja só por breves instantes, ainda se dure só o tempo de um olhar, ainda que antes lhe tenha partido as trombas e o sangue ainda corra, ainda que antes lhe tenha partido o coração com insultos, ele sabe que basta mostrar uma nesga de arrependimento e dizer um amo-te com voz sentida, e nesse segundo ela perdoa, ela esquece, ela fica. Enquanto uma mulher só precisar de se sentir amada, ainda que seja mentira, ainda que as palavras doam mais que murros, ainda que seja só por uns breves minutos, basta-lhe. Somos tão fáceis, para nós o amor nem sequer é preciso que seja verdade.
6.6.11
Diminuir
Se a mulher que eu era há um ano atrás e a mulher que sou hoje se encontrassem e se sentassem calmamente para tentar conversar teriam bastante dificuldade em encontrar pontos em comum, naquilo que interessa pelo menos, que é o carácter. Nunca poderiam ser amigas, acho até que dando-lhes tempo suficiente, iriam acabar por detestar-se.
3.6.11
31.5.11
Relativizar
Lembro-me de sentir isto quando percebi que o meu ex-marido me mandou seguir e mandou colocar um dispositivo de localização no meu carro, quando acreditava que eu tinha um amante e queria ter provas para mostrar a toda a gente para justificar a nossa separação. Lembro-me de me sentir assim, roubada, pilhada. A mesma frustração, a mesma raiva, a mesma sensação de perda, e acima de tudo a mesma impotência. Esta fim-de-semana assaltaram o carro do meu irmão e levaram a minha bolsa. A bolsa não valia um cu, mas dentro tinha a minha vida. Além de todas as minhas chaves, de casa e do meu carro, que tive de substituir mais os respectivos canhões, dentro da bolsa estava a minha carteira com os documentos excepto o cartão multibanco e o cartão de cidadão, ou cartão único ou lá como é que se chama, e o telemóvel, que tinha comigo. Mas a carteira constitui a minha vingança. Os filhos da puta dos ladrões não levaram um chavo. Nem tusto. Tive de cancelar o cartão de crédito e os cheques, é verdade, mas nem uma moedinha tinha. Mas a verdade é que preferia que me tivessem roubado uma porrada de euros do que o que efectivamente me roubaram. O sentimento não seria este, seria diferente. O dinheiro que se foda, a minha vida toda nas mãos de um estranho é que me incomoda mesmo muito. Mas, como me disse alguém chegado, quando me queixei que tinha uma puta duma sorte do caralho, vai à merda pá, os documentos e as chaves são todos substituíveis. Pensa que podias ter tido um acidente e a esta hora estar toda fodida numa cama de hospital, isso é que era, vai à merda pá, põe-te fina mas é.
E é.
E é.
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bestas,
podia ter sido muuuuito pior,
sortinha de merda
27.5.11
26.5.11
Little black dress
Um vestido preto básico transmite poder, verdade? E esta mão na anca, o que diz? Lembro-me de um livro que li ainda adolescente em cuja capa se via uma mulher, num vestido preto curto, na rua, mais precisamente no passeio, que se prostituia. As duas mãos nas ancas, as pernas colocadas mais ou menos como nesta fotografia, e o olhar era triste, muito triste. Nunca mais esqueci essa imagem, a mim dizia-me, estou aqui, para quem me quiser, estou pronta para tudo, aguento com tudo, venham, não me importo, eu aguento. A mulher do livro vendia sexo, mas a linguagem corporal é universal, e tirando-se-lhe o olhar triste, esta postura vende praticamente tudo.25.5.11
Old fashioned
O senhor que me cumprimenta todos os dias no parque de estacionamento ao pé do escritório onde deixo o carro é muito simpático. Todos os dias, às vezes várias vezes por dia, me cumprimenta com um bom dia, ou boa tarde, minha senhora como está? Se estiver sentado levanta-se ao dizer isto através do vidro, automaticamente, instintivamente, e inclina a cabeça numa vénia quase imperceptível. Quando está cá por fora, a jardinar nos canteiros, pára o que está a fazer e vira-se na minha direcção para me saudar como deve de ser. Hoje, quando regressei do almoço e passei por ele, já a pé, em direcção ao escritório, ao dizer a boa tarde minha senhora, como está? levou a mão à boina que trazia e fez o gesto que implica a intenção de, sem de facto a levantar. Acho este homem tão maravilhoso. Ele faz mais por mim do que alguém, algum dia, jamais, possa sonhar. Eu aceito-lhe o cumprimento, retribuo-lho e sorrio-lhe. Sempre. E sem que ele desconfie, de todas as vezes, agradeço-lhe. Gosto de pensar que o cumprimento deste homem surte o mesmo efeito em todas as pessoas que ele cumprimenta, porque se assim não for é um enorme desperdício.
24.5.11
Punhalada
Devo, antes de mais, revelar aqui uma confissão da minha mãe, que não me influenciou nem influencia em nada, mas que aceito pois sei que é sincera e dolorosa. Minha filha, eu sei que és nova e que tens a vida para viver, mas se tu arranjares outro homem eu vou ficar muito triste. E é isto, a minha mãe não me imagina com outro homem, apesar de ter perfeita consciência que é provável que um dia, e mesmo que eu lhe diga que não se preocupe, venha a ter este desgosto. Acontece que, este fim-de-semana, pela primeira vez desde que me separei, tentaram fazer-me um arranjinho. Só me apetece rir, de cada vez que penso dá-me vontade de rir. Pois muito bem, a excursão ao Jamor incluiu a madrinha do meu filho mais velho, minha amiga de infância, os pais dela (a mãe dela é amiga de infância da minha mãe, e isto é o mais delicioso da cena toda), os tios e os primos, e um amigo deles. Também vai um amigo nosso, que é enfermeiro aqui no hospital, muito boa pessoa, impecável, divorciado, tem dois filhos, dois rapazes, é muito nosso amigo, disse-me a T. (a amiga da minha mãe) muito naturalmente. Desconfiei, admito. Ontem, lá no meio da confusão, agarrei a minha amiga pelo braço e perguntei-lhe, tenho a impressão que a tua mãe está a tentar impingir-me o enfermeiro, estou enganada? Fartamo-nos de rir, está mesmo, respondeu, ainda ontem à noite me disse, o F. é que estava bom para ela, não estava? E às gargalhadas disse-lhe, ai se a minha mãe sabe desta merda... já pensaste? A minha mãe, se descobre, mata a tua.
23.5.11
Alien
Não esquecer que eu não percebo rigorosamente nada de futebol, nunca me interessou e continua a não me interessar, não sei ver se foi fora de jogo, se foi falta, não sei nada, mesmo nada. Então fui, com este espírito descontraído, levar os meus filhos ao Jamor. Fomos de autocarro, levamos o farnel, fizemos o piquenique, tudo, a cena toda. Gostei, houve pormenores que dispensava, mas no geral gostei. Os rapazes entusiasmadíssimos, e só isto, valeu tudo, o calor, o carregar os sacos, o pó, os doentinhos da bola já alcoolizados horas antes do jogo. A parte mais bonita foi sem sombra de dúvida aquelas duas horas, já dentro do estádio, a torrar ao Sol mas isso é só um detalhe, a gritar, a fazer a onda, a cantar, Disso gostei muito. Depois do jogo começar é que já podia ter vindo embora que tinha ganho mais. O jogo, passou-me como era de esperar completamente ao lado, vi aquilo como se estivesse numa esplanada a ver as pessos a passar à minha frente, com a naturalidade de quem bebe um sumo de laranja enquanto espera pela torrada, agora os insultos, os pontapés nas cadeiras, os gritos, enfim, pessoas que se transformam em potenciais serial killers, pessoas que libertam tanta raiva que metem medo. Eu tive medo. Depois houve outras pessoas que se foram embora antes do jogo acabar. Não gostei nada dessa parte. Porque é que se vão embora antes do fim? Foram de tão longe e não ficam até ao final? Que raio de adeptos são estes? Cantam hinos de amor ao clube e quando o clube está a perder não ficam para ver o fim do jogo? Desistem simplesmente e abandonam os jogadores? Eu, se fosse jogador não queria estes adeptos. Mas eu não percebo nada de futebol.
21.5.11
Aparências
O dia está cinzento, eu também. O ar está húmido, pegajoso, eu também. Os rapazes foram à piscina, estou sozinha em casa e olho lá para fora e penso que não me apetece sair. Vou tomar um duche, secar o cabelo e maquilhar-me. Poderá parecer exagerado para uma ida ao supermercado mas não é mais do que uma miserável tentativa para esconder o cinzento que há dentro de mim. Quanto mais escuro o cinzento melhor me arranjo, para disfarçar, para despistar. Será que alguém percebe que quanto mais despojada de adereços, quando mais limpa a pele, quanto mais transparente estiver por fora, melhor me sinto por dentro? Será que as mulheres que vejo todas aperaltadas sentem o negro por dentro? Será que quanto mais alto for o salto mais baixo o espírito? Será que quanto mais bonita a roupa mais apertado o coração? Penso nelas e pergunto-me, de todas as bem cuidadas por fora quantas se sentirão realmente bem consigo próprias? E das outras, das que passam despercebidas, quantas se sentirão felizes?
20.5.11
19.5.11
18.5.11
Olhares
Quando entrava no carro depois de almoçar reparei que ao invés de um estavam dois tipos a olhar para mim. Há um que todos os dias me segue com o olhar, quando estaciono mais lá atrás ele regala-se, acompanha-me desde o carro até aos degraus, onde viro e desço, em direcção a casa dos meus pais. O rapaz deve ter vinte e alguns anos, e todos os dias está no café, cá fora, à mesma hora. Está lá quando chego e está lá quando vou embora. Olha-me e nem sequer disfarça, todos os dias, faça chuva ou faça Sol. Atingi aquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos. Hoje eram dois. O segundo é um puto que conheço há anos, via-o na bicicleta às voltas por lá. Cresceu, mas não deve ter sequer vinte anos. Hoje olhavam-me os dois, sem disfarçar, estavam sentados num degrau da casa em frente ao café e quando subi os degraus reparei que depois de me verem trocaram umas palavras e riram-se. Estou naquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos, ou então atraem os homens mais velhos. É normal. Aos mais novos cheira-lhes a sexo fácil, as miúdas da idade deles ainda têm dúvidas e dão-lhes trabalho. Sentem-se atraídos pela experiência que uma mulher mais velha lhes pode proporcionar. Aos mais velhos cheira-lhes a juventude e a frescura, mas ainda assim com alguma maturidade, já não têm pachorra para meninas de vinte, acham-nas parvas. É a meia idade das mulheres, aquela que atrai os dois extremos do espectro. Os do meio foram os que por qualquer motivo não quisemos, os mais novos e os mais velhos estão ali, à espreita, nós sabemos, e deixamos.
17.5.11
16.5.11
Man count
Pergunto-me se chocaria as pessoas se contasse com quantos homens já dormi, perdão, com quantos homens já fodi. Pergunto-me se achariam mais aceitável se todos eles tivessem sido meus namorados. Será que é menos grave uma mulher já ter fodido com vários homens com quem namorou ou não tendo desenvolvido qualquer relação com eles? É que namorado, não tive nenhum. A partir de quantos é que uma mulher passa a ser uma devassa? Acontece-me ter de puxar pela cabeça para enumerar os homens com quem fodi. Não porque tivessem sido muitos, mas porque não significaram nada, além de sexo. Mas já agora, quantos é que são muitos? Quem é que define esse número? Serei uma devassa aos olhos de muitos, é-me fácil foder com homens que não pretendo conhecer profundamente, não preciso sequer de os conhecer profundamente, é-me fácil dar a conhecer o meu corpo. A minha alma, no entanto, está guardada a sete chaves, nunca nenhum deles a viu.
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