30.5.12
Impacto
Há homens que escolhem as mulheres pelo impacto que elas causam neles próprios, e há homens que escolhem as mulheres pelo impacto que elas causam nas outras pessoas.
21.3.12
Negação
Quando toda uma teoria científica se baseia num pressuposto que está errado, ela acabará invariavelmente por ser desacreditada. Assim fizeste, com as tuas atitudes e esquemas, venenos e armadilhas, não só desacreditaste tudo o que estava para trás como me fizeste negar tudo o que até aqui eu guardei como bom. Portanto, o que te disse um dia, convencida do homem que tu não és e que hoje acredito que nunca tenhas sido, será impossível de cumprir. Disse-te que nunca seria capaz de te virar as costas se um dia precisasses de mim mas sucede que não posso manter a minha palavra, porque tu simplesmente, deixaste de existir.
11.3.12
Desilusão
Ouvi no outro dia um escritor famoso dizer que a primeira frase do primeiro romance que escreveu foi muito bem pensada. Que pensou, pensou, pensou até que a frase fosse perfeita, pois o objetivo era que prendesse a atenção do leitor. Desilusão. Eu achava que quem escreve o faz porque tem de o fazer, porque lhe vem de dentro, do coração ou das entranhas, ou porque a ideia lhe martela na cabeça até ser libertada através de letras e palavras, simplesmente por necessidade de escrever, como o pintor tem de pintar e o compositor de compor, de materializar o que lhe vai na alma ou de dar vida a demónios e monstros capazes de feitos inconfessáveis, ou de fazer emergir pessoas e vidas não vividas mas imaginadas em turbilhões de imagens mentais, e nunca para agarrar a atenção de alguém ou a pensar se quem lê irá gostar. Sempre achei que o escritor escrevia primeiro para si. Sou mesmo ingénua. E parva.
8.3.12
Finalmente
O trabalho foi entregue e hoje saiu e nota. 18. Devia estar contente, e até estou, só que não estou. Fico a pensar que se tivesse tempo para estudar e para preparar os trabalhos como deve de ser fazia esta merda com uma perna às costas. Mas como o tempo é pouco, os meus filhos pesam-me na alma por estar a roubar-lhes tempo e atenção, o dinheiro não sobra e o meu carro bebe cada vez mais o que significa que tenho realmente de trocar de carro urgentemente porque as viagens até Braga estão literalmente a depenar-me, o novo trabalho que me faz estar constantemente alerta, e isto não é forçosamente uma coisa má, mas o facto de ter tido boas notas no primeiro semestre, em vez de me trazer satisfação só me dá tristeza, porque provavelmente vou congelar a matricula no final do segundo semestre e vou ter muita pena. Só não o faço já porque iria deitar fora a massa que já paguei de propinas e como já paguei metade custa-me desperdiçar. Mas custa-me aguentar, custa, custa, bastante.
26.2.12
Falta pouco...
Estou a tentar terminar o último trabalho que tenho de apresentar, que é um web site que tenho de entregar amanhã e cuja entrega significa colocá-lo online e enviar aos professores o link para lá irem ver. Mas não resisti e fui ver se já está na pauta a nota do exame que fiz no dia dezasseis e como tinha dito que mostrava as notas do primeiro semestre, cá estão:
Introdução aos Estudos Literários: 12 (a do exame)
Introdução aos Estudos da Linguagem: 14
Português: 15
Inglês: 19
E só falta esta, que os professores são finos, não se sabe a nota do primeiro trabalho para ninguém se baldar neste. Veremos.
Introdução aos Estudos Literários: 12 (a do exame)
Introdução aos Estudos da Linguagem: 14
Português: 15
Inglês: 19
E só falta esta, que os professores são finos, não se sabe a nota do primeiro trabalho para ninguém se baldar neste. Veremos.
21.2.12
Patifes!
Chegamos a casa e mandei-os à garagem buscar um cesto de lenha. Foram. Acendi a lareira e comecei o jantar. Mandei-os por a mesa. Puseram. Enquanto eu cozinhava mandei-os lá baixo buscar o correio à caixa. Foram. Sentamo-nos para jantar e enquanto eu os servia começaram a balbuciar qualquer coisa entre eles que eu não percebi, mas quando começaram a rir às gargalhadas perguntei-lhes o que se passava. Começou o grande, ai mãe, nem sabes o que aconteceu, o pequeno continuou, sabes o que eu fiz no elevador? sabes, mãe?, eu não sei, o que foi que fizeste? olha mãe, dei um pu muito malcheiroso dentro do elevador e depois quando chegamos lá baixo, entrou uma senhora. Ai valha-me Deus, disse eu, enquanto eles se riam às gargalhadas, coitadinha da senhora.
14.2.12
Valentine
Não tenho um mas dois. São dois tremendos calhamaços que tenho de peneirar e absorver até quinta-feira pois espera-me de goelas abertas e dentes afiados um magnífico exame da cadeira semestral de "Introdução aos Estudos Literários" prontinho para me devorar. Vai daí, tenho programa para hoje à noite, amanhã à noite e quinta-feira até à hora do exame. Se correr bem devoro-o eu a ele e poderei dizer o que quero tanto dizer: menos uma! Depois dessa é fazer e entregar o trabalho da outra cadeira semestral que se chama "Tecnologias de Comunicação em Humanidades" que é nada mais nada menos do que construir um website para a empresa de um amigo que gentilmente concordou com esta aventura. E acabo o semestre, aleluia! As outras estão no papo já desde que acabaram as aulas. Depois mostro as notas. Estou triste contudo, ainda não sei se o novo emprego me permitirá frequentar o segundo semestre. Façam figas...
13.2.12
Simples
Há mulheres que querem um homem para não se sentirem sós. Há mulheres que querem um homem para se sentirem amparadas, apoiadas. Há mulheres que querem um homem para terem companhia para irem aos sítios. Há mulheres que querem um homem que as sustente. Há mulheres que querem um homem porque acham que os outros pensam que uma mulher que esteja sozinha é porque não é boa peça, se ninguém lhe pega é porque não deve valer grande coisa. Lamento muito mas não consigo encaixar-me em nenhum dos exemplos acima descritos, primeiro porque não encaixo propriamente na categoria das mulheres que querem um homem, apesar da verdade ser que também não posso dizer que não quero porque em tempos dizia que não queria e depois acabei por querer, portanto posso eventualmente vir a querer um homem, e tendo esclarecido o primeiro ponto, passo ao segundo, que é então o porquê, ou o para quê quererei eu um homem. Admito que já pensei nisto muitas vezes, e de todas elas cheguei à mesma conclusão. É fundamental que eu goste desse homem, não é fundamental que o ame, que eu goste é suficiente. Mas não sendo imperativo que me ame, apenas que goste de mim, é imperativo que saiba e aceite que não o quero para nada, só que gosto dele. E isto, parecendo tão simples, é provavelmente o mais complicado.
7.2.12
Baralha, parte e dá II
Há os homens que nos amam, mas nem sempre nos merecem. E há os que nós amamos e que julgamos merecer. Depois baralhamos tudo e agradam-nos os que nos merecem, mesmo que não sejam os que amamos.
6.2.12
Tola
Percebi aqui há dias, no dia 2 de Fevereiro para ser precisa, que na véspera teria sido o décimo quinto aniversário do meu casamento, claro, se estivesse casada. Estava à mesa, em casa dos meus pais e falavamos no dia do aniversário do meu irmão, que era dali a dias, e que entretanto já foi. E a minha mãe, pergunta-me sorrateiramente se não tinha feito anos que eu casei. Tive de pensar, juro que não tive a certeza, mas sim, tinha feito anos que casei. É assombroso como esse facto se apagou completamente da minha memória, assim como também desapareceu a marca do dia em que nos separamos, o dia em que ele efetivamente saiu de casa. Passo por esses dias sem me ocorrerem os eventos, tanto o casamento como a separação. E devo acrescentar que o dia do divórcio também passa despercebido, é que na véspera de ano novo, há outras coisas em que pensar. A minha mãe nunca compreendeu bem esta minha característica, ela acha que sou um bocado tola, mas a verdade é que pouco tempo depois de estar sozinha, não me lembrava sequer que ali tinha vivido aquela pessoa. Desapareceram as memórias, todas, as más e as boas também. Vivo naquela casa como se ali sempre tivesse vivido sem ele, nem me lembro que ele existe. Todos os dias sou confrontada com a existência dele, ele telefona aos filhos todas as noites, e os filhos falam nele frequentemente, mas isso permanecer na minha cabeça é outra coisa completamente diferente. Não fica nada. A minha mãe diz que sou tola, vivi com um homem durante doze anos, tive dois filhos dele, e nem me lembro que ele existe. Temos uma relação perfeitamente cordial, falamos o que temos de falar, combinamos as coisas conforme nos dá jeito, somos flexíveis em relação a horários, fins de semana, almoços e jantares de família que calhem fora de tempo estabelecido, sem qualquer problema ou hostilidade, conheço a namorada dele e damo-nos lindamente, ele entra lá em casa quando vai buscar os miúdos e circula pela casa toda, cumprimentamo-nos e despedimo-nos com dois beijos como se fossemos amigos, mas mal ele sai, puff... desaparece, esfuma-se, como se nunca tivesse existido. Devo ser tola, serei?
30.1.12
Máscara
Sim, eu sei que também tem uma máscara, disse-me ela, para logo depois me perguntar se podia tratar-me por tu. Concerteza que sim, é engraçado como todos, naturalmente, me tratam por você. No outro dia houve uma miúda que se referiu a mim como "aquela senhora", o que me fez soltar uma gargalhada. Mas voltando à máscara, se soubesses querida, o trabalho que dá não ter máscara alguma, e o que dói às vezes, se soubesses... O tempo passa e não há paciência para máscaras, isso é para ti que tens dezoito ou dezanove anos, eu já não tenho paciência. As máscaras, querida, vais aprender um dia que só nos tornam prisioneiras de nós próprias, tira a máscara, conhece-te e aceita-te e verás, serás livre. Mas a liberdade, também aprenderás um dia, paga-se.
26.1.12
23.1.12
Emoção
O grande, mãe! acho que vou ter um ataque cardíaco! O quê?!? perguntei eu, espantada. Sim, o meu coração está a bater muito! E o pequeno, o meu também mãe! Sinto a música a bater. E o grande, eu também, sinto a música a bater aqui no coração! Eu olhava ora para um ora para o outro, primeiro aflita, mas depois a sorrir-lhes. É da emoção rapazes, é da emoção!
(Estavamos no meio da multidão, apertadinhos como sardinhas numa lata, mas adoramos!)
(Estavamos no meio da multidão, apertadinhos como sardinhas numa lata, mas adoramos!)
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| Espetáculo da Abertura Oficial da "Guimarães - Capital Europeia da Cultura 2012" no Largo do Toural, 21.01.2012 |
20.1.12
Perdão
Tenho grande dificuldade em perdoar, custa-me muito. Não perdoei o meu ex-marido, divorciei-me. Perdoei-lhe apenas depois. Não perdoei o meu patrão, despedi-me. Anteontem. Talvez um dia lhe perdoe, não sem antes me afastar. Nunca sinto necessidade de me vingar ou de agredir, só de me afastar, de cortar relações e terminar a convivência e a partilha. Depois, muito depois virá talvez o perdão. Não sou capaz de respeitar quem me desrespeita, não sou capaz de sequer conviver com quem me desrespeita, e insistir é violento, violento-me profundamente. Assim, vou-me embora rumo a novas aventuras, mais modestas, mais humildes, mas mais dignas, que a dignidade não tem preço. A minha, pelo menos, não.
8.1.12
Porquê?
Mãe, agora nunca estamos contigo. Porque é que tinhas de ir para a universidade?
(Achei que com duas noites por semana a deixa-los a dormir em casa dos meus pais me safava. Achei mal e tenho de dar a volta a isto no próximo semestre, ou faço menos cadeiras ou simplesmente deixo aquilo. Dói-me demasiado. Não quero ouvir mais o que ouvi hoje. Não quero).
(Achei que com duas noites por semana a deixa-los a dormir em casa dos meus pais me safava. Achei mal e tenho de dar a volta a isto no próximo semestre, ou faço menos cadeiras ou simplesmente deixo aquilo. Dói-me demasiado. Não quero ouvir mais o que ouvi hoje. Não quero).
6.1.12
Carne
Retirada a carga do desejo, começamos a observar as pessoas de outra forma. Seja por se ter concretizado a vontade ou seja por despontar a falta dela, quando já não olho para um homem com desejo, vejo-o muito melhor. E se houve de quem gostei menos, outros há de quem gosto muito mais. Outros não, outro, vá.
2.1.12
Fuga
Não tenho desejo nenhum. Um dia atrás do outro. Saúde. Mais nada. Não tenho mais desejo nenhum, estou vazia. Vazia de desejos, vazia de projetos, vazia de amor. Vazia de tudo. Há coisas que gosto e há coisas que não gosto, sinto-me distante de todas, tão distante. Estou a fugir, mas não sei bem de quê. Estou triste, mas não sei bem porquê. Tenho vontade de fugir, estou a fugir desesperadamente apesar de ficar no mesmo lugar. Estou aqui, e todavia tão longe, ainda não parei, ainda não acabei de fugir.
23.12.11
Mulheres
Peles brancas, com sardas, morenas. Cabelos compridos, curtos, ondulados lisos. Rabos gordos, ossudos, flácidos e rijos. Redondos, achatados, outros descaídos. Mamas, muitas mamas, umas saltitonas outras tristes. Mamas frondosas e mamas tímidas, mamilos grandes, mamilos pequeninos, uns rosados outros negros. Cremes e óleos, peles lisas e lustrosas. Peles estriadas e engelhadas. Peles viçosas, espinhas cheias de pus, cicatrizes e eczemas. Corpos, muitos corpos, a granel, por atacado. Vapor, suor, rostos vermelhos, afogueados. Cheiro a sapatos transpirados, a axilas suadas, a bafos sedentos. Desodorizantes e perfumes e produtos de cabelo. Às vezes reparo mais num corpo ou noutro. Gosto de corpos, de espiolhar corpos, se pudesse via-os até por dentro, como numa autópsia. Gosto das barrigas e das coxas. Cheias de celulite ou musculadas, não importa. Gosto das curvas férteis das mulheres, e não me fazem impressão nenhuma as velhas com as peles descaídas e os ossos tortos. Só há uma coisa, absolutamente democrática, há em novas em velhas, em gordas e em magras, em boazonas e em arrombadas, que me mete nojo. Que me desilude e me deita por terra. Olho-lhes para as unhas dos pés e muitas delas, é ver literalmente o verniz a estalar. Unhas de pés pintadas de cores fortes com o verniz todo descascado e algumas, lá pelo meio, até já sem nenhum. Que nojo. É nestas coisas, nas que não estão à vista, que se vê a elegância de uma mulher.
11.12.11
Agora aguenta que ninguém te mandou meteres-te nelas
Textos, e mais textos. Resumos de textos, textos argumentativos sobre outros textos. Um ensaio sobre um livro que escolhi e que me custou imenso acabar de ler. E mais trabalhos, que são textos, sobre as características do texto lírico, e sobre as diferentes correntes literárias. E outro trabalho que consiste em utilizar a linguagem html e construir um website, com tema à minha escolha. E o emprego, e os rapazes, e os trabalhos de casa e os testes deles, e a roupa para passar a ferro, e o carro para levar à inspeção, e as contas para pagar, e os papéis para arrumar. A minha vida parece um castelo da cartas, abana uma e eu seguro, para logo de seguida abanarem mais duas ou três. E eu seguro, e eu corro, e eu aguento. Não sei quanto tempo mais. Fecha os olhos, respira e aguenta, trabalha, não durmas, trabalha. Podias muito bem ter ficado quieta, mas não, queixavas-te do tédio, não queixavas? Agora aguenta, é bem feito, vês? Tédio é a última coisa de que te podes queixar.
1.12.11
Detalhes
Equipas-te e vais para a aula de Power Camp, fazes o aquecimento e ficas a morrer com a língua de fora e com a boca seca, mas de alguma forma inexplicável continuas e fazes os exercícios todos mesmo já te arrastando nos últimos vinte minutos. Chegas ao edifício com folhas secas presas no cabelo, com a camisola completamente suada, as calças cheias de lama no rabo e nos joelhos e a cara simplesmente quase a entrar em combustão espontânea. No balneário despes-te aflitivamente e metes-te debaixo do chuveiro e parece que chegaste ao paraíso, água quente no corpo, o champô, o gel de banho, cheira tão bem, hum, que bom. A saga de secar o corpo e vestir a roupa num ambiente quente e saturado de vapor de água é só mais uma cena que tens de ultrapassar e quando entregas a chave do cacifo e levantas o cartão ainda não estás completamente seca, até porque ainda não paraste de transpirar. A caminhada de volta ao carro sabe-te bem, estás relaxada, o corpo ainda um pouco dormente, o cabelo molhado e os pulmões a debitar ao máximo. Sentas-te à mesa no restaurante, o teu amigo serve-te um copo de água e ao agarrar no copo reparas que tens as putas das unhas todas pretas, cheias de terra.
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