28.7.11
Os meus, os teus e os nossos
Há muitos anos a minha mãe contava a história se que um senhor que enviuvou novo com vários filhos pequenos, se casou outra vez e com a nova mulher teve também vários filhos. A nova mulher, por sua vez, também viúva, também já tinha filhos, e depois por piada diziam dos filhos, os meus, os teus e os nossos. Ontem à noite tive cá em casa a jantar além dos meus filhos, os filhos da namorada do pai, um rapaz da idade do meu pequeno e uma rapariga da idade do meu grande, e também um par de gémeas que são filhas dum casal amigo que fui buscar à hora do almoço e que vão cá ficar em casa até à próxima segunda-feira. Estou de férias e esta semana é dedicada aos putos. Com as seis crianças sentadas à mesa, regaladas com a minha lasanha, não pude deixar de me lembrar da história dos meus, os teus e os nossos, não só por serem muitas crianças mas também pela mistura. O meu ex-marido, também padrinho da gémea veio cá com a namorada trazer os filhos dela e também veio ver a miúda. Depois de jantar, os rapazes lá fora no jardim e no pátio com as pistolas de água e as bolas, e nós as gajas, nos vernizes e nas maquilhagens. Elas falavam de miúdos cantores que saem na revista Bravo e perguntavam-me qual é que eu achava o mais giro. Tive os miúdos cá quase até à meia noite, eu tinha dito aos grandes para namorarem à vontade, que não tivessem pressa de os vir buscar. Definitivamente, um programa a repetir.
22.7.11
Done
Está feito e se não consigo uma nota superior a um valor que eu cá sei, até me chicoteio. Aquilo foi escandalosamente fácil, não entendo como é que se pretende que a malta saia do secundário a falar inglês com exames com este nível de exigência. Devo ter percebido tudo mal, eu, claro. Dia 7 de Agosto veremos, depois falamos.
20.7.11
Turning point
Não sei explicar muito bem mas sinto que estou perto de um qualquer acontecimento que vai mudar o rumo da minha vida. A expectativa de ingressar na universidade fez nascer em mim algo de novo e excitante mas muito abstracto. O exame de Inglês é já esta sexta-feira e começa uma nova fase, depois a candidatura e o nervosismo da espera. Estou convencida que vou entrar, mentiria se dissesse que estou insegura. Sinto que a minha vida vai mudar, a todos os níveis. Não sei porquê, mas sinto.
18.7.11
Nó
Hoje é o aniversário dele e tenho um nó na garganta porque apetece-me muito agarrar no telemóvel e mandar um "parabéns" mas depois penso que poderá ser interpretado como uma tentativa de aproximação. Dói-me imaginar que ele possa pensar que nem sequer me lembrei, por não me ter manifestado, mas depois penso que pior será o resultado de uma acção decorrente da tentativa de minimizar esta dor. Sinto, dói-me, desfaço-me em dúvidas e hesitações mas depois penso, penso, penso. Apetecia-me tanto abraçar o meu amor hoje, é o seu aniversário, mas depois... depois, penso.
...
E choro.
...
E choro.
14.7.11
13.7.11
Jealousy
Desde ontem que tenho estado a trabalhar com um casal israelita, ambos com quarenta anos e muito cool. Contaram-me que têm dois filhos pequenos e que ele, advogado, deixou uma empresa financeira internacional em Tel-Aviv para se juntar à mulher, designer, que batalha há quinze anos para fazer vingar a marca que iniciou e da qual sempre se ocupou sozinha. Desde que ele se dedicou ao negócio já abriram uma loja e distribuem em quarenta outras lojas. Estão entusiasmados e decidiram deslocar a produção para Portugal para poderem dedicar-se mais à distribuição e promoção da marca. É um conceito engraçado, destinado a mulheres adultas, entre os trinta e os cinquenta anos, que foge ao clássico mas também não é rock & roll. Acho que vai correr bem. Estão deliciados por não terem mais de comprar as matérias-primas e de ter todas as dores de cabeça até às peças estarem dobradinhas nas prateleiras das lojas. Acabamos hoje, antes do previsto e estivemos à conversa, descontraídos. Ela confessou-me que quando vai às lojas das marcas que mais gosta em Paris sente inveja. Demonstrei-lhe admiração, ela continuou, I am a jealous person, when I go to the Zadig & Voltaire store in Paris I am jealous, I think who needs me? What am I doing? I feel jealousy, it's true. Wait, disse-lhe eu, the fact that you aknowledge that and deal with it is a very good thing, it requires a strong personality and shows that you are very self aware. Yeah, yeah, I know that, I can say that peacefully now that I am forty, when I was twenty I could not say this, but the truth is that this jealousy I sometimes feel makes me really sad. Calei-me. Mudei de assunto. Senti-me pequenina.
7.7.11
Força
Sinto o meu amor a fugir-me, a partir sorrateiramente e não sei se sou eu que que não sou assim tão fraca ou se é ele que não é assim tão forte.
5.7.11
Medo
Doem-me as pernas, a direita mais do que a esquerda, uma veia perto do pé que é mais grossa e saliente está particularmente sensível. Fui buscar as meias elásticas ao fundo da gaveta e aliviei a dor, mas não o medo.
4.7.11
Tanta coisa
Há tristeza, há saudade, há vazio. Há leveza, há esperança, há alívio. Há disto tudo um pouco, misturado com uma sensação de recomeço. Há uma força nova a despontar, mas há sossego, há paz. Há horizonte, há mar, há terra e há céu. Há, sobretudo, tudo, outra vez.
30.6.11
26.6.11
22.6.11
Podre
Ontem um amigo fez-me pensar no motivo do meu desconforto relativamente aos acontecimentos recentes e à consequente análise que se me afigurava difícil. Há sensivelmente um ano eu quebrei e a seguir apodreci. Tenho vivido estes tempos com um profundo desgosto dentro de mim e fechei-me ao mundo e aos homens. Antes era a predadora e marcava os alvos mas este tempo todo, propositadamente, escondi-me no conforto da invisibilidade. É-me infinitamente mais fácil recolher-me dentro de mim própria do que enfrentar o mundo, porque quando olho para fora vejo-me, o que invariavelmente me dói. Agora, de repente senti-me a presa, e ao invés do jogo do ataque, encontro-me a jogar à defesa. Fui apanhada de surpresa. Não consigo perceber se é bom ou mau sinal, se o amor que me destrói está a abandonar-me e eu estou, sem sequer o ter percebido a expor-me de novo à vida como um rebento num tronco seco, ou se estou a expor o flanco à dentada que me vai, finalmente, matar.
18.6.11
Como começar um boato
Esta manhã fui às compras com o meu pai. Fomos ao super mercado e enquanto esperávamos que nos servissem o peixe dei com os olhos numa antiga cliente da minha mãe, mas que desistiu há uns tempos de lá ir arranjar o cabelo. Cumprimentei a senhora e mantive-me sossegada. Ao meu lado, o meu pai não a tinha visto e quando finalmente a mulher se lhe dirigou, pediu desculpa e disse muito espantada que não o tinha reconhecido, que me viu mas que pensou que o homem ali ao meu lado era o meu namor... o meu marido, corrigiu. Olhamos um para o outro e apeteceu-nos rir. Depois, adivinhamos o pensamento um do outro. Assim se começa uma história do arco da velha, a mulher era muito bem capaz de comentar com a vizinha que me viu no super mercado com o namorado. E assim poderia facilmente iniciar um boato, muito naturalmente, sem qualquer malícia. Olha, tem namorado, estavam os dois no super mercado no sábado de manhã. Assim, fácil.
15.6.11
Morte
Sonhei comigo grávida em fim de tempo com violentas contracções, desfeita em água e com a criança quase a nascer, gritava à minha mãe que tinha de ir para o hospital e ela, calma, dizia-me que não, que havia tempo. Sonhei que o tempo passou, as contracções passaram, a água secou e a criança não nascia. Não existia o pai da criança e nem era coisa que me preocupasse, preocupava-me a criança que não nascia e os dias que passavam, um, dois, três. Depois acordei e tive medo de adormecer de novo. Não dormi mais, tive medo de parir um filho morto.
14.6.11
13.6.11
8.6.11
Faz-me sentir
É por isso uma mulher perdoa. É por isso que uma mulher esquece. É por isso que uma mulher fica. Porque o seu homem a faz sentir a melhor do mundo, a faz sentir a única no mundo. Esse homem sabe que ainda que seja só por breves instantes, ainda se dure só o tempo de um olhar, ainda que antes lhe tenha partido as trombas e o sangue ainda corra, ainda que antes lhe tenha partido o coração com insultos, ele sabe que basta mostrar uma nesga de arrependimento e dizer um amo-te com voz sentida, e nesse segundo ela perdoa, ela esquece, ela fica. Enquanto uma mulher só precisar de se sentir amada, ainda que seja mentira, ainda que as palavras doam mais que murros, ainda que seja só por uns breves minutos, basta-lhe. Somos tão fáceis, para nós o amor nem sequer é preciso que seja verdade.
6.6.11
Diminuir
Se a mulher que eu era há um ano atrás e a mulher que sou hoje se encontrassem e se sentassem calmamente para tentar conversar teriam bastante dificuldade em encontrar pontos em comum, naquilo que interessa pelo menos, que é o carácter. Nunca poderiam ser amigas, acho até que dando-lhes tempo suficiente, iriam acabar por detestar-se.
3.6.11
31.5.11
Relativizar
Lembro-me de sentir isto quando percebi que o meu ex-marido me mandou seguir e mandou colocar um dispositivo de localização no meu carro, quando acreditava que eu tinha um amante e queria ter provas para mostrar a toda a gente para justificar a nossa separação. Lembro-me de me sentir assim, roubada, pilhada. A mesma frustração, a mesma raiva, a mesma sensação de perda, e acima de tudo a mesma impotência. Esta fim-de-semana assaltaram o carro do meu irmão e levaram a minha bolsa. A bolsa não valia um cu, mas dentro tinha a minha vida. Além de todas as minhas chaves, de casa e do meu carro, que tive de substituir mais os respectivos canhões, dentro da bolsa estava a minha carteira com os documentos excepto o cartão multibanco e o cartão de cidadão, ou cartão único ou lá como é que se chama, e o telemóvel, que tinha comigo. Mas a carteira constitui a minha vingança. Os filhos da puta dos ladrões não levaram um chavo. Nem tusto. Tive de cancelar o cartão de crédito e os cheques, é verdade, mas nem uma moedinha tinha. Mas a verdade é que preferia que me tivessem roubado uma porrada de euros do que o que efectivamente me roubaram. O sentimento não seria este, seria diferente. O dinheiro que se foda, a minha vida toda nas mãos de um estranho é que me incomoda mesmo muito. Mas, como me disse alguém chegado, quando me queixei que tinha uma puta duma sorte do caralho, vai à merda pá, os documentos e as chaves são todos substituíveis. Pensa que podias ter tido um acidente e a esta hora estar toda fodida numa cama de hospital, isso é que era, vai à merda pá, põe-te fina mas é.
E é.
E é.
Etiquetas:
bestas,
podia ter sido muuuuito pior,
sortinha de merda
27.5.11
26.5.11
Little black dress
Um vestido preto básico transmite poder, verdade? E esta mão na anca, o que diz? Lembro-me de um livro que li ainda adolescente em cuja capa se via uma mulher, num vestido preto curto, na rua, mais precisamente no passeio, que se prostituia. As duas mãos nas ancas, as pernas colocadas mais ou menos como nesta fotografia, e o olhar era triste, muito triste. Nunca mais esqueci essa imagem, a mim dizia-me, estou aqui, para quem me quiser, estou pronta para tudo, aguento com tudo, venham, não me importo, eu aguento. A mulher do livro vendia sexo, mas a linguagem corporal é universal, e tirando-se-lhe o olhar triste, esta postura vende praticamente tudo.25.5.11
Old fashioned
O senhor que me cumprimenta todos os dias no parque de estacionamento ao pé do escritório onde deixo o carro é muito simpático. Todos os dias, às vezes várias vezes por dia, me cumprimenta com um bom dia, ou boa tarde, minha senhora como está? Se estiver sentado levanta-se ao dizer isto através do vidro, automaticamente, instintivamente, e inclina a cabeça numa vénia quase imperceptível. Quando está cá por fora, a jardinar nos canteiros, pára o que está a fazer e vira-se na minha direcção para me saudar como deve de ser. Hoje, quando regressei do almoço e passei por ele, já a pé, em direcção ao escritório, ao dizer a boa tarde minha senhora, como está? levou a mão à boina que trazia e fez o gesto que implica a intenção de, sem de facto a levantar. Acho este homem tão maravilhoso. Ele faz mais por mim do que alguém, algum dia, jamais, possa sonhar. Eu aceito-lhe o cumprimento, retribuo-lho e sorrio-lhe. Sempre. E sem que ele desconfie, de todas as vezes, agradeço-lhe. Gosto de pensar que o cumprimento deste homem surte o mesmo efeito em todas as pessoas que ele cumprimenta, porque se assim não for é um enorme desperdício.
24.5.11
Punhalada
Devo, antes de mais, revelar aqui uma confissão da minha mãe, que não me influenciou nem influencia em nada, mas que aceito pois sei que é sincera e dolorosa. Minha filha, eu sei que és nova e que tens a vida para viver, mas se tu arranjares outro homem eu vou ficar muito triste. E é isto, a minha mãe não me imagina com outro homem, apesar de ter perfeita consciência que é provável que um dia, e mesmo que eu lhe diga que não se preocupe, venha a ter este desgosto. Acontece que, este fim-de-semana, pela primeira vez desde que me separei, tentaram fazer-me um arranjinho. Só me apetece rir, de cada vez que penso dá-me vontade de rir. Pois muito bem, a excursão ao Jamor incluiu a madrinha do meu filho mais velho, minha amiga de infância, os pais dela (a mãe dela é amiga de infância da minha mãe, e isto é o mais delicioso da cena toda), os tios e os primos, e um amigo deles. Também vai um amigo nosso, que é enfermeiro aqui no hospital, muito boa pessoa, impecável, divorciado, tem dois filhos, dois rapazes, é muito nosso amigo, disse-me a T. (a amiga da minha mãe) muito naturalmente. Desconfiei, admito. Ontem, lá no meio da confusão, agarrei a minha amiga pelo braço e perguntei-lhe, tenho a impressão que a tua mãe está a tentar impingir-me o enfermeiro, estou enganada? Fartamo-nos de rir, está mesmo, respondeu, ainda ontem à noite me disse, o F. é que estava bom para ela, não estava? E às gargalhadas disse-lhe, ai se a minha mãe sabe desta merda... já pensaste? A minha mãe, se descobre, mata a tua.
23.5.11
Alien
Não esquecer que eu não percebo rigorosamente nada de futebol, nunca me interessou e continua a não me interessar, não sei ver se foi fora de jogo, se foi falta, não sei nada, mesmo nada. Então fui, com este espírito descontraído, levar os meus filhos ao Jamor. Fomos de autocarro, levamos o farnel, fizemos o piquenique, tudo, a cena toda. Gostei, houve pormenores que dispensava, mas no geral gostei. Os rapazes entusiasmadíssimos, e só isto, valeu tudo, o calor, o carregar os sacos, o pó, os doentinhos da bola já alcoolizados horas antes do jogo. A parte mais bonita foi sem sombra de dúvida aquelas duas horas, já dentro do estádio, a torrar ao Sol mas isso é só um detalhe, a gritar, a fazer a onda, a cantar, Disso gostei muito. Depois do jogo começar é que já podia ter vindo embora que tinha ganho mais. O jogo, passou-me como era de esperar completamente ao lado, vi aquilo como se estivesse numa esplanada a ver as pessos a passar à minha frente, com a naturalidade de quem bebe um sumo de laranja enquanto espera pela torrada, agora os insultos, os pontapés nas cadeiras, os gritos, enfim, pessoas que se transformam em potenciais serial killers, pessoas que libertam tanta raiva que metem medo. Eu tive medo. Depois houve outras pessoas que se foram embora antes do jogo acabar. Não gostei nada dessa parte. Porque é que se vão embora antes do fim? Foram de tão longe e não ficam até ao final? Que raio de adeptos são estes? Cantam hinos de amor ao clube e quando o clube está a perder não ficam para ver o fim do jogo? Desistem simplesmente e abandonam os jogadores? Eu, se fosse jogador não queria estes adeptos. Mas eu não percebo nada de futebol.
21.5.11
Aparências
O dia está cinzento, eu também. O ar está húmido, pegajoso, eu também. Os rapazes foram à piscina, estou sozinha em casa e olho lá para fora e penso que não me apetece sair. Vou tomar um duche, secar o cabelo e maquilhar-me. Poderá parecer exagerado para uma ida ao supermercado mas não é mais do que uma miserável tentativa para esconder o cinzento que há dentro de mim. Quanto mais escuro o cinzento melhor me arranjo, para disfarçar, para despistar. Será que alguém percebe que quanto mais despojada de adereços, quando mais limpa a pele, quanto mais transparente estiver por fora, melhor me sinto por dentro? Será que as mulheres que vejo todas aperaltadas sentem o negro por dentro? Será que quanto mais alto for o salto mais baixo o espírito? Será que quanto mais bonita a roupa mais apertado o coração? Penso nelas e pergunto-me, de todas as bem cuidadas por fora quantas se sentirão realmente bem consigo próprias? E das outras, das que passam despercebidas, quantas se sentirão felizes?
20.5.11
19.5.11
18.5.11
Olhares
Quando entrava no carro depois de almoçar reparei que ao invés de um estavam dois tipos a olhar para mim. Há um que todos os dias me segue com o olhar, quando estaciono mais lá atrás ele regala-se, acompanha-me desde o carro até aos degraus, onde viro e desço, em direcção a casa dos meus pais. O rapaz deve ter vinte e alguns anos, e todos os dias está no café, cá fora, à mesma hora. Está lá quando chego e está lá quando vou embora. Olha-me e nem sequer disfarça, todos os dias, faça chuva ou faça Sol. Atingi aquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos. Hoje eram dois. O segundo é um puto que conheço há anos, via-o na bicicleta às voltas por lá. Cresceu, mas não deve ter sequer vinte anos. Hoje olhavam-me os dois, sem disfarçar, estavam sentados num degrau da casa em frente ao café e quando subi os degraus reparei que depois de me verem trocaram umas palavras e riram-se. Estou naquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos, ou então atraem os homens mais velhos. É normal. Aos mais novos cheira-lhes a sexo fácil, as miúdas da idade deles ainda têm dúvidas e dão-lhes trabalho. Sentem-se atraídos pela experiência que uma mulher mais velha lhes pode proporcionar. Aos mais velhos cheira-lhes a juventude e a frescura, mas ainda assim com alguma maturidade, já não têm pachorra para meninas de vinte, acham-nas parvas. É a meia idade das mulheres, aquela que atrai os dois extremos do espectro. Os do meio foram os que por qualquer motivo não quisemos, os mais novos e os mais velhos estão ali, à espreita, nós sabemos, e deixamos.
17.5.11
16.5.11
Man count
Pergunto-me se chocaria as pessoas se contasse com quantos homens já dormi, perdão, com quantos homens já fodi. Pergunto-me se achariam mais aceitável se todos eles tivessem sido meus namorados. Será que é menos grave uma mulher já ter fodido com vários homens com quem namorou ou não tendo desenvolvido qualquer relação com eles? É que namorado, não tive nenhum. A partir de quantos é que uma mulher passa a ser uma devassa? Acontece-me ter de puxar pela cabeça para enumerar os homens com quem fodi. Não porque tivessem sido muitos, mas porque não significaram nada, além de sexo. Mas já agora, quantos é que são muitos? Quem é que define esse número? Serei uma devassa aos olhos de muitos, é-me fácil foder com homens que não pretendo conhecer profundamente, não preciso sequer de os conhecer profundamente, é-me fácil dar a conhecer o meu corpo. A minha alma, no entanto, está guardada a sete chaves, nunca nenhum deles a viu.
12.5.11
Generalizações
Custa-me encaixar que os homens são todos iguais, mas o facto é que tudo indica que sim. Os homens não são todos iguais em tudo, mas há determinadas características que definitivamente apontam para a ausência de excepções. Ora, em não as havendo, passo, muito obrigada.
11.5.11
Ossos
A respeito das dietas e do peso ideal para a altura digo desde já que não pretendo nem nunca pretendi ser agora manequim, era o que me faltava. Dizem-me que o peso deve ser igual ao número de centímetros da altura, menos dez. Assim sendo, o meu peso ideal deveria ser 52 Kgs. Credo! Eu, com 52 Kgs, primeiro em vez de mamas teria peles dependuradas, depois os ossos das ancas ficavam que nem duas pistolas, espetados para fora, e os ombros, nem quero pensar nos ombros, ia parecer directamente saídinha de um vídeo da Lady Gaga com um daqueles casacos com as ombreiras tipo cadeirão de orelhas, mas sem precisar de ombreiras, mas tudo isto, sem conseguir entrar um tamanho 36, ah pois (tenho para mim que nem o meu esqueleto limpinho, sem vestígio de carne, caberia num tamanho 36). Para não falar da cara, que ia meter medo aos mortos. Eu, assim devagarinho, se conseguir chegar a pesar 60 Kgs (que era o que eu pesava há um ano e meio atrás) fico toda contente, mas mesmo toda contente.
10.5.11
Don't dream it's over
Há dias em que o sonho me abandona e na rua, vejo-me nos olhares vazios e ausentes. Olho as pessoas que passam e vejo-me nelas, passam apenas, na rua e na vida. Há dias em que penso que ultrapassei a minha cota, que já não me é permitido mais e resta-me ficar a ver a vida, amar e educar os meus filhos o melhor que sei e posso e agarrar umas pontas de qualquer coisa aqui e ali. Há dias em que o sonho me abandona, foge-me a sete pés e deixa-me assim, oca.
6.5.11
Provas
Correu-me lindamente, mãe. Respondi a tudo e a minha composição foi de vinte e sete linhas (não sei se concordo com esta norma de estabelecer limites de linhas nas composições, mas isso são outros quinhentos), e sabia as respostas todas. De certezinha absoluta que eu estava muito mais ansiosa do que ele, que acordou muito bem disposto e se despediu de mim com um sorriso de orelha a orelha à porta da escola. Vim para o escritório e a meio da manhã liguei à minha mãe, ele que me telefone imediatamente quando chegar, quero saber como lhe correu a prova, estudou tanto. Ufa! Agora siga a rusga que na próxima semana há prova de Matemática, o fim-de-semana não vai ser propriamente de brincadeira.
4.5.11
Surpresa
És a amante perfeita, não esperas, não exiges, não reclamas. Estás disponível, és leal e verdadeira. Aguardas secretamente pelo momento em que te desiludes e consegues finalmente acabar com tudo. Sabes perfeitamente que tens de o fazer só que não és capaz. Não acalentas falsas esperanças, mas sabes bem o que queres. Um belo dia ouves uma frase que te destrói. Essa frase retirada do contexto poderia ser a tua fagulha de esperança, a tua arma secreta, a tua luz ao fundo do túnel. Essa frase no contexto é a desgraça, é a clareza, é a ruína. Tudo o que foi, sempre soubeste que era para nada. Mas ser para nada é diferente de ser por nada. O que percebeste depois é que foi por nada. Por nada. E apesar de não ter sido intencional, foi deveras surpreendente.
3.5.11
A convocatória da Provocação
1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Sim, "Dona Flor e os seus dois maridos", de Jorge Amado, tão divertido.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, "Os Maias" de Eça de Queiroz, nunca consegui ir até ao fim e asseguro que tentei muitas vezes. Pode ser que ainda tente outra vez.
3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
"O amante" de Marguerite Duras, li-o a primeira vez com dezasseis ou dezassete anos. Marcou-me profundamente.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não escolho livro mas autor, nunca li nada de Saramago, mas gostava de ler só para poder ter opinião. Também nunca li o "Vinhas da Ira" mas esse não escapará. Há o "Libertação" de Sandor Maraí que ainda não li porque ainda não foi publicado em Portugal. Estou à espera.
5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Tenho muita dificuldade em lembrar-me do final dos livros. Ou são finais felizes ou finais para nos fazerem pensar em continuar a história. Para mim o prazer do livro e da história está no decorrer da leitura, no identificar-me com os acontecimentos ou não, ou até no fazer-me reflectir sobre como reagiria eu a uma situação idêntica à que estou a ler. O fim não é importante.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Quando era miúda devorei tudo da Condessa de Ségur, gentileza do meu pai, sócio do Circulo de Leitores. Depois fui lendo Camilo, e as obras obrigatórias do secundário (excepto os Maias) mas o que eu gramava mesmo eram policiais e de espionagem, John le Carré, John Grisham, Patricia Highsmith e outros que tais.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
"O Alquimista" de Paulo Coelho, só fiz questão de ir mesmo até ao fim para poder dizer mal. Não vi ali nada, nadinha. Sem propósito algum.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Só alguns mesmo e o significado que lhes encontrei ou o que me divertiu
- Rosa Brava de José Manuel Saraiva - romance histórico baseado na história de Leonor Teles, as intrigas da côrte, adoro cenas históricas
- O nome da Rosa de Umberto Ecco - romance histórico, a fé e a igreja, a maldade dos homens praticada em nome de Deus, mais uma vez, gosto muito de romances históricos
- O Fio da Navalha de Somerset Maugham - crónica de costumes, a sociedade e o que ela espera de nós, a integridade do indivíduo
- As velas ardem até ao fim de Sandor Maraí - a natureza humana, a amizade, a traição, a lealdade
- 1984 de George Orwell - a natureza humana, a repressão do espírito, a resistência da alma
- O talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith - policial que nos vira a cabeça e nos faz apaixonar pelo criminoso, delicioso.
- O amante de Marguerite Duras - a descoberta dos prazeres carnais, a história de amor proibida que passa a ser aceitável aos olhos da família a partir do momento em que há contrapartidas financeiras, o amor que passa despercebido na juventude mas que dura uma vida inteira.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Neste momento nenhum, mas a meio estão o "A mulher certa" de Sandor Maraí e "O gato Malhado e a andorinha Sinhá" de Jorge Amado (que comprei para o meu filho mais novo) e estão a postos o "Servidão humana" de Somerset Maugham e "Filhos e amantes" de D. H. Laurence.
(Provocação, não convoco doze pessoas para o questionário porque não sei se por aqui andam assim tantas...)
Sim, "Dona Flor e os seus dois maridos", de Jorge Amado, tão divertido.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, "Os Maias" de Eça de Queiroz, nunca consegui ir até ao fim e asseguro que tentei muitas vezes. Pode ser que ainda tente outra vez.
3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
"O amante" de Marguerite Duras, li-o a primeira vez com dezasseis ou dezassete anos. Marcou-me profundamente.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não escolho livro mas autor, nunca li nada de Saramago, mas gostava de ler só para poder ter opinião. Também nunca li o "Vinhas da Ira" mas esse não escapará. Há o "Libertação" de Sandor Maraí que ainda não li porque ainda não foi publicado em Portugal. Estou à espera.
5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Tenho muita dificuldade em lembrar-me do final dos livros. Ou são finais felizes ou finais para nos fazerem pensar em continuar a história. Para mim o prazer do livro e da história está no decorrer da leitura, no identificar-me com os acontecimentos ou não, ou até no fazer-me reflectir sobre como reagiria eu a uma situação idêntica à que estou a ler. O fim não é importante.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Quando era miúda devorei tudo da Condessa de Ségur, gentileza do meu pai, sócio do Circulo de Leitores. Depois fui lendo Camilo, e as obras obrigatórias do secundário (excepto os Maias) mas o que eu gramava mesmo eram policiais e de espionagem, John le Carré, John Grisham, Patricia Highsmith e outros que tais.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
"O Alquimista" de Paulo Coelho, só fiz questão de ir mesmo até ao fim para poder dizer mal. Não vi ali nada, nadinha. Sem propósito algum.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Só alguns mesmo e o significado que lhes encontrei ou o que me divertiu
- Rosa Brava de José Manuel Saraiva - romance histórico baseado na história de Leonor Teles, as intrigas da côrte, adoro cenas históricas
- O nome da Rosa de Umberto Ecco - romance histórico, a fé e a igreja, a maldade dos homens praticada em nome de Deus, mais uma vez, gosto muito de romances históricos
- O Fio da Navalha de Somerset Maugham - crónica de costumes, a sociedade e o que ela espera de nós, a integridade do indivíduo
- As velas ardem até ao fim de Sandor Maraí - a natureza humana, a amizade, a traição, a lealdade
- 1984 de George Orwell - a natureza humana, a repressão do espírito, a resistência da alma
- O talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith - policial que nos vira a cabeça e nos faz apaixonar pelo criminoso, delicioso.
- O amante de Marguerite Duras - a descoberta dos prazeres carnais, a história de amor proibida que passa a ser aceitável aos olhos da família a partir do momento em que há contrapartidas financeiras, o amor que passa despercebido na juventude mas que dura uma vida inteira.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Neste momento nenhum, mas a meio estão o "A mulher certa" de Sandor Maraí e "O gato Malhado e a andorinha Sinhá" de Jorge Amado (que comprei para o meu filho mais novo) e estão a postos o "Servidão humana" de Somerset Maugham e "Filhos e amantes" de D. H. Laurence.
(Provocação, não convoco doze pessoas para o questionário porque não sei se por aqui andam assim tantas...)
Algazarra
No dia de Páscoa, a seguir ao almoço ouvi uma grande algazarra, eram as vozes dos meus filhos e lá no meio ouvia a minha mãe também. Mas, ao invés da minha mãe os estar a mandar calar como é costume, a voz dela pareceu-me tanto ou mais excitada do que as deles. Da janela do quarto do mais novo, sim em casa dos meus pais tanto eu como eles temos quarto, pelo meio das folhas do limoeiro, via-se isto:
Este ninho magnífico lá estava, escondidinho. Diz a minha mãe que agora, onde se vêm dois ovos, estão quatro. Foi uma festa, como é bom de ver. Hoje, há bocadinho, quando lá cheguei para almoçar, deparo-me com isto em cima da mesa das traseiras:
Duas cobras, metidas num frasco que a minha mãe encontrou no quintal e imediatamente chamou o meu pai para as apanhar. São para os rapazes, disseram-me os dois, todos contentes. Quando os moços chegarem da escola vai ser o fim da macacada.
2.5.11
Sacrifício
Esta que vos escreve sente uma profunda repulsa por futebol e derivados. Esta que vos escreve entrou uma vez na vida num estádio de futebol e assistiu a um jogo de uma competição europeia e jurou que nunca mais. Esta que vos escreve é mãe de dois rapazes, um com sete anos e o outro com onze anos. Esta que vos escreve não tem outro remédio senão aceitar que os dois rapazes vibram com futebol e obviamente que estão ambos histéricos porque a equipa cá da terra passou à final, pela primeira vez na história do clube. Esta que vos escreve pediu ontem a alguém que lhes compre bilhetes, a ela e aos dois rapazes, para irem ver a final da taça de Portugal ao Jamor.
29.4.11
27.4.11
Fome
Como esta merda não ata nem desata e os quilos ainda cá estão agarrados ao rabo e às coxas tenho de tomar medidas drásticas. Ontem fui ao médico e fartei-me de rir. Balança... ai. Até doeu. Assim bem, bem eram dez a menos, mas ficavam a ver-se muito os ossos de maneiras que são só sete. Sete têm de ir abaixo. E não é a cena do ai que está aí o Verão e ai a linha e ai o caralhinho mais velho. Não é nada disso. Não entro na roupa que tenho e não vou comprar roupa nova que não tenho paciência nem gosto da puta da saga do entra, escolhe, despe, veste, despe, veste, sai, e entra de novo. Não gosto. Pelo menos esta sequência associada a roupa não gosto. Já o entra e sai e o despe, etc. mas noutra linha de raciocínio, não me importo mesmo nada, muito pelo contrário. Adiante. Estava portanto a conversar com o senhor doutor e a queixar-me que é mais forte do que eu e que tenho imensa fome desde que deixei de fumar quando o homem olha para mim, muito sério e me diz, mas menina, a fome não engorda. Explodi a rir. Evidentemente. Mas prometeu-me que me ajuda a controlar a fome. É que se isto continua assim, vindo o calor a sério vou ter de andar nua, é que não me safo, ainda se estivesse mais magra, era naquela, agora nua e gorda, não me dá mesmo jeitinho nenhum.
26.4.11
Só faltas tu
No carro:
Grande: Sabes mãe, estou à procura de garina.
Eu: Como? (o gajo tem onze anos)
Grande: Sim, à procura de namorada.
Eu: Mas... namorada? Mas para quê?
Grande: Daaaahaaa! Para quê... Para fazer coisas de namorados, ora. O que é que os namorados fazem?
...
Pequeno: Sabes mãe, não percebo, na minha sala todas as raparigas gostam de mim.
Eu: Todas? Mesmo todas? (este tem sete)
Pequeno: Sim, todas, elas dizem que eu sou o mais bonito da sala.
Eu: E tu? Gostas de alguma?
Pequeno: Gosto da Mariana, e ela gosta de mim.
...
Grande: Vês mãe? Só faltas tu.
Pequeno: É, só faltas tu.
Grande: Sabes mãe, estou à procura de garina.
Eu: Como? (o gajo tem onze anos)
Grande: Sim, à procura de namorada.
Eu: Mas... namorada? Mas para quê?
Grande: Daaaahaaa! Para quê... Para fazer coisas de namorados, ora. O que é que os namorados fazem?
...
Pequeno: Sabes mãe, não percebo, na minha sala todas as raparigas gostam de mim.
Eu: Todas? Mesmo todas? (este tem sete)
Pequeno: Sim, todas, elas dizem que eu sou o mais bonito da sala.
Eu: E tu? Gostas de alguma?
Pequeno: Gosto da Mariana, e ela gosta de mim.
...
Grande: Vês mãe? Só faltas tu.
Pequeno: É, só faltas tu.
21.4.11
Não
Angústia. O peito apertado e o inevitável nó na garganta. E achavas que estavas a chegar ao fim? Tola.
20.4.11
Melga
Pensei que dizer claramente a alguém que não se vê qualquer propósito em continuar em contacto devido às diferenças de personalidade, postura e objectivos seria suficiente para efectivamente acabar com o contacto. Depois pensei que uma despedida por escrito fosse esclarecedor que não se pretende continuar a falar. Depois achei que um adeus, vai à tua vida, assim, a frio, chegasse mas também não. Nem deixar de responder foi suficiente, passados dois dias pergunta porque é que não respondo às mensagens e eu, pasmada, voltei ao início, não vejo qualquer propósito. Não, ainda não foi desta, acho que devias pensar melhor e dar outra oportunidade, mas já dei não vês? e não funciona, não percas tempo comigo, tenho pena que penses assim, não tenhas, adeus. Pois. Não, também não. Acabou de chegar, é hoje que vamos estar juntos? beijinho. Hein? Como? Este camelo, de verdade, ainda está convencido que me vai comer? Não posso. A sério. Não posso com gajos burros.
18.4.11
Primeira vez
O meu date de sábado à noite foi verdadeiramente inédito. O tipo melhorou bastante com a idade, conheci-o há vinte e quatro anos atrás, andávamos no ciclo, quero dizer, no quinto ano de escolaridade. Conversamos obviamente sobre aqueles anos de escola, dos colegas com quem se manteve contacto e dos que nunca mais vimos. Falamos também da vida, dos nossos percursos, das relações falhadas, sim , ele também, e dos filhos claro. E fui percebendo o real interesse dele em mim. Nada mais nada menos do que os meus contactos profissionais, trabalho numa empresa com ramificações a nível mundial, com escritórios nos quatro continentes e com infinitas possibilidades para ele, que está a desenvolver um produto e pretende colocá-lo no mercado. Ah pois é! Agora, ainda não decidi se o obrigo a prostituir-se em troca da minha influência. E esta ideia diverte-me tanto...
15.4.11
Homens simples
Os homens que admiro são sempre homens simples. Ao fim destes anos todos chego a esta conclusão sem me importar minimamente com o que esta constatação diz de mim. Consigo enumerar vários exemplos, um é o Berto Gordo de quem já falei, outro é o Eduardo, o marido da minha prima, um tipo que pouco estudou e que começou a trabalhar adolescente numa tecelagem no turno da noite. Durante o dia tinha outro emprego, entregava produtos químicos a várias empresas, andava a tarde toda na carrinha às voltas. Mais tarde, já casado, a tecelagem fechou e a mulher, secretária de direcção (licenciada, tenho de o dizer) num dos hipermercados daqui da terra, arranjou-lhe emprego no talho do tal hipermercado. No outro dia atendeu-me, e fiquei maravilhada com ele. Sempre foi simpático e meigo, mas atendeu-me com tal desenvoltura e confiança que me espantou. Fiquei por perto a vigiar como é que ele atendia as outras pessoas, sim que eu sou prima dele, e a mesma coisa. Um tipo que nunca antes tinha cortado carnes na vida aprendeu a fatiar bifes, a desossar perus e a golpear cabritos com um empenho e brio que me fizeram acreditar ainda mais nesta ideia que tenho mas que às vezes se esconde nas teias do esquecimento, que um homem, quando quer aprende qualquer ofício e consegue ser bom naquilo que faz, seja lá o que isso for. E se esse homem tiver grandeza de espírito para se agarrar a cortar carnes (ou a cortar madeira, ou a varrer o chão) sem qualquer preconceito, e se for simpático e agradável, torna-se num profissional de primeira. Não me admiraria ver a fotografia dele ao lado do anúncio do funcionário do mês. Há anos atrás toda a gente estranhou a escolha da minha prima, uma rapariga licenciada casar-se com um simplório daqueles? Ela é que a sabe toda, além do físico que ele não é feio, longe disso, ela viu-lhe a meiguice, a simpatia e acima de tudo, viu-lhe o carácter. Fez ela muito bem.
12.4.11
Cristal
Não bebo vinho todos os dias mas quando me apetece uso os copos de cristal. Herdei-os da minha tia, são magníficos, com uns desenhos gravados, são copos antigos. A minha tia tinha um enxoval cheio de coisas boas, copos de cristal, serviços de chá e de café em porcelana chinesa verdadeira, daquela que tem um selo no fundo das chávenas, um desenho em relevo que só se vê quando se vira o fundo para a luz, toalhas e lençóis de renda e linho, mas a desgraçada nunca usou nada. Viveu sempre na expectativa de vir a ter a sua casa quando saísse da casa dos senhores em Lisboa. Juntou coisas a vida toda, comprou, comprou, comprou, e depois quando os senhores morreram já estava velha demais para ter casa e viver sozinha. Escolheu uma pequena parte de tudo o que tinha e foi para a Ordem de S. Francisco. Deu-me a escolher entre aquilo tudo o que lhe sobrou e eu escolhi os copos de cristal, três toalhas de linho e um serviço de café chinês, azul e branco. Mas decidi não guardar nada, uso tudo, não quero chegar a velha e tudo o que tenho ser novo. Decidi também nessa altura que ia usar os melhores lençóis na minha cama, para quê guardá-los? Quando me casei a minha mãe mostrou-me lençóis do seu enxoval que nunca tinha usado e lembro-te de ter pensado que era um grande disparate. Vivemos a vida guardando as coisas melhores dentro de armários e baús porquê? Na expectativa de um grande acontecimento que justifique sujar as toalhas de linho e os copos de cristal? Que tristeza chegar a velha e verificar que tal acontecimento nunca aconteceu, por isso decidi que a vida me acontece todos os dias.
11.4.11
O gordo
O Berto Gordo foi sempre gordo, desde pequeno, e nunca foi um rapaz bonito. Mas o Berto Gordo arranjou namorada e casou-se. Tem um filho adolescente que é sobre-dotado, frequenta uma escola de música desde muito pequenino, não tenho a certeza que instrumento o miúdo toca, e canta maravilhosamente. O filho do Berto Gordo não é gordo, e é um rapaz bonito. O Berto Gordo ainda é gordo, está igual, mal ajeitado e balofo. Mas o Berto é um homem respeitado por todos, é prestável e simpático, é homem de palavra, trabalhador e membro activo da comunidade. É escuteiro e faz parte da comissão de festas da freguesia. Canta no coro da igreja, ao lado do seu rapaz. Imagino-o carinhoso com a esposa, só porque vejo alegria nos olhos e nas maneiras daquela mulher. Imagino o Berto gordo a comer desalmadamente à mesa, um prato cheio a seguir ao outro, e no fim um elogio rasgado aos dotes culinários da esposa. Imagino o Berto gordo a deixar ocasionalmente a tampa da sanita levantada mas imagino-o também a barbear-se religiosamente e a tomar o seu duche antes de se deitar ao lado da mulher. Imagino a mulher do Berto gordo a virar-se para ele a sorrir-lhe por sentir o cheiro a fresco e a lavado. Imagino-os a fazer amor.
8.4.11
Carne
A carne que te alimenta o animal não passa de pó que à mínima brisa se espalha e desaparece no ar, o sangue que te ferve nas veias não passa de água que ao mais ténue raio de luz se evapora na pele. Deixa, dorme, respira, nada te fica, nada te marca, é impossível destruir o que está desfeito.
5.4.11
Chato
A cena chata é que apetecem uns braços para nos abraçar e só se imaginam aqueles braços. E apetecem uns lábios para nos beijar e só se visualizam aqueles lábios. É chato. Há montes de braços e há montes de lábios, mas são aqueles, aqueles que se querem. Sim, aqueles que não se tem. Os outros ali à mãozinha de semear e nós, nada. É chato.
29.3.11
Waste
É a segunda vez que sou deitada fora, ao lixo. Como um objecto que não tem utilidade, que não serve para nada e que ocupa um lugar que não possui pois esse lugar pertence a outro. Então resta só livrar-se desse objecto. Da primeira vez, esse espaço era dele, apenas dele e do seu ego. Eu, de nada servia, e o meu amor foi comigo para o caixote do lixo. Agora, o espaço é dela, e ele, não se desfaz dela, porque ela está lá há mais tempo, mas o meu amor não vai para o lixo, ao invés é cuidadosamente colocado na recliclagem e periodicamente é aproveitado, mas nunca todo, só uma parte, a que interessa, a melhor, a mais refinada. Ainda assim, não passo de desperdício, não importam os detalhes, não importam as razões nem os motivos, o desperdício sou eu.
25.3.11
Choque
Estão a cortar árvores no jardim do centro da cidade, as árvores que desde que me lembro dão sombra aos bancos do jardim. Está tudo de pernas para o ar há meses, mas cortar as árvores? Não me habituo à ideia de cortar árvores adultas. Há coisas que por mais que se tornem banais não consigo habituar-me a elas. Como cortar árvores. Ou destruir livros. Não consigo.
24.3.11
Moda
Ok, ok, ok, entrou agora aqui uma colega com duas bolsas e uma carteira, ou porta-moedas ou lá como é que se chama, que fez para um dos clientes dela para nos mostrar e perguntar se queremos encomendar à fábrica que vai produzir a encomenda para o cliente. É prática corrente aqui no escritório, quando as produções são feitas cá, cada uma que se desunhe e compre à fábrica se quiser algum modelo, afinal todas nós conhecemos as fábricas todas, mas quando as encomendas são feitas na China, Tunísia ou Índia, e especialmente acessórios como sapatos, malas e carteiras, ou então peças de malha em caxemira, as colegas que seguem essas produções, no momento em que passam as encomendas às fábricas, mostram o artigo às outras colegas e passam também uma encomenda "pessoal" para a malta do escritório. Pois bem, chegou aqui a colega a mostrar as bolsas, são engraçadas até, e tomou nota dos pedidos. Uma disse que eram giras mas que não faziam o género dela, outra disse logo que não queria e outra achou gira uma bolsa fushia com aplicação de leopardo e uma cena dourada enorme ao meio. É gira para sair à noite, levou logo uma gargalhada geral, e por acaso tu até sais muito à noite, pois sais, e tu, virando-se a colega para mim, não queres nada? Eu? Na, eu, para sair à noite, prefiro foder os setenta euros em vodka.
23.3.11
Não precisa de título
Esta história da universidade, podia ter sido outra coisa qualquer, porque pensar é coisa que me acontece frequentemente, fez-me pensar. E penso na minha vida, onde estou e para onde vou. Ainda não sei assim muito bem. Penso no que foi a minha vida desde que me conheço adulta e comparo com o que vivi nos últimos meses. Penso no meu percurso profissional e no que espero ainda alcançar. Penso nos meus filhos e na marca que gostaria de lhes deixar. Penso essencialmente em mim. Sou tão exigente, tão rigorosa em determinados aspectos e tão desleixada noutros. Gosto de pensar que valorizo muito mais aquilo que importa e o que considero superficial é tratado simplesmente assim, como superficial, sem direito a grande tempo ou esforço, mas este balanço é somente o meu. Aprendi a perdoar e hoje sei que é dos estados mais libertadores que podemos atingir. Há alguns anos achava que nunca perdoaria determinadas atitudes, mas isso só significa agarrarmo-nos a coisas más, e quem se agarra a coisas más fica mau, fica azedo. Quando perdoamos os outros libertamo-nos de nós mesmos, e quem nos olha com desdém porque somos parvos ou fracos é aos nossos olhos apenas mesquinho. Avançamos, deixamos o que nos faz mal para trás e às vezes pessoas também, mas percebemos que não precisamos delas para nada. Nem para nos sentirmos fortes, nem para sermos felizes. Para sermos felizes temos de perdoar a nós próprios, mas isso, ainda não aprendi.
22.3.11
Para começar
Para começar a pensar no assunto acho que um curso de Português, ou de Literatura Portuguesa seria bom. Podia ser também de Inglês, ou isto tudo junto. E já vi que existe um, em horário pós-laboral, que se chama assim:
Licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias
variante bilingue major Português
minor Inglês, Alemão, Francês ou Espanhol
Sou gaja para ir pelo Inglês por não constituir motivo para qualquer preocupação, ou pelo Francês, pelo desafio de aprofundar uma língua que utilizo diariamente numa base comercial, mas que considero deliciosa. Vou pensar.
18.3.11
E agora?
Estou um bocadinho triste, acabaram as minhas aulas. Afinal já frequentei mais aulas do que necessário. Confusões com o meu registo escolar que quase que tive de resolver à estalada, mas ficou tudo definido e perceberam que já está. Mas estava a gostar. Resta-me completar um port-folio absolutamente inútil. Agora penso no que fazer a seguir. Universidade? Talvez. E o quê? Difícil.
17.3.11
Começar bem o dia
Comecei o dia de trabalho hoje com um comentário que, francamente, não poderia nunca ser proferido por um homem sem ser considerado ordinário mas foi a C., a nossa C., a caçula aqui do people do escritório. Então a C. quando me viu hoje a entrar no escritório, ainda nem sequer tinha tido tempo para tirar os óculos de sol, sai-se-me com isto:
Eu: Bom dia.
Ela: Bom dia. Ui, sabes o que tu pareces hoje?
Eu: Não, o quê?
Ela: Pareces uma daquelas gajas dos filmes, que por baixo do casaco apertado só têm uma lingerie sexy e depois abrem o casaco e uau, arrasam.
(depois de termos conseguido parar de rir)
Eu: Oh C., foda-se pá, tu não bates bem, mas gostei da ideia.
Ela: É dos saltos altos, e do casaco assim apertado com um nó, fica-te bem.
Há melhor? Não há.
Eu: Bom dia.
Ela: Bom dia. Ui, sabes o que tu pareces hoje?
Eu: Não, o quê?
Ela: Pareces uma daquelas gajas dos filmes, que por baixo do casaco apertado só têm uma lingerie sexy e depois abrem o casaco e uau, arrasam.
(depois de termos conseguido parar de rir)
Eu: Oh C., foda-se pá, tu não bates bem, mas gostei da ideia.
Ela: É dos saltos altos, e do casaco assim apertado com um nó, fica-te bem.
Há melhor? Não há.
16.3.11
Ena!
E eis que me chega esta manhã às mãos um novo dossier, anunciado há duas semanas pelo meu patrão. Um velho amigo seu, disse-me, voltou e quer imperativamente tê-la a si. E cá está, o tipo que me pôs a cabeça em água há uns anos atrás e que depois de uma violenta discussão que me fez gritar o mais alto que consegui ao telefone e de seguida lho desligar nas trombas, foi remédio santo, ficamos grandes amigos, voltou, com uma nova marca de roupa, um projecto muito engraçado, com muito potencial. E ao descobrir os modelos, as matérias-primas, o conceito, dou comigo a sentir a adrenalina nas veias. Já não era sem tempo.
15.3.11
Coragem
No fim-de-semana tive vários momentos em que pensei: e se fumasses um cigarro agora? Estás sozinha e nunca ninguém saberia. Vais ao carro e pegas nos cigarros, é fácil. Ninguém sabe. E se fosses? Mas não fui. Ontem à noite tive a mesma ideia, e também não fui. O facto é que não tenho coragem. Desde que deixei de fumar há seis meses que mantenho um maço de cigarros num compartimento do carro. E desde aí que tenho vontade de fumar, todos os dias, várias vezes por dia, mas ontem percebi que chegada a este ponto, não fumo simplesmente porque não tenho coragem de fazer o caminho de volta. Um cigarro à noite, outro na noite seguinte. Em menos de nada estaria outra vez a derreter o maço diário. Não tenho coragem. Sou fraca.
14.3.11
Lógica
Ontem, ao almoço, à mesa:
Ele: Sabes mãe, quando eu era pequenino achava que o sal vinha do mar.
Eu: E vem filho, o sal vem do mar.
Ele: Eu sei, vem a água do mar, fica presa naquelas coisas...
Eu: Nas salinas...
Ele: Isso, nas salinas, evapora-se e fica o sal. Mas também achava que o acúcar vinha do rio.
Eu: Do rio?
Ele: Sim, (já a rir-se) a água do rio não é água doce?
(Choramos a rir)
Ele: Sabes mãe, quando eu era pequenino achava que o sal vinha do mar.
Eu: E vem filho, o sal vem do mar.
Ele: Eu sei, vem a água do mar, fica presa naquelas coisas...
Eu: Nas salinas...
Ele: Isso, nas salinas, evapora-se e fica o sal. Mas também achava que o acúcar vinha do rio.
Eu: Do rio?
Ele: Sim, (já a rir-se) a água do rio não é água doce?
(Choramos a rir)
Retenção
Enquanto estive a viver em casa dos meus pais experimentei um sentimento que não posso descrever como ciúme porque não sei se é ciúme. Foi a primeira vez que senti e acho que nunca tinha sentido ciúme antes. Chateava-me ter de partilhar constantemente os meus filhos, nunca estavam só comigo, havia sempre mais alguém. Nem à noite, ao deitar eu sossegava porque se eu estava com um deles, a minha mãe estava com o outro. Isto tudo misturado com o sentimento de gratidão e um profundo amor que sinto pelos meus pais causou-me bastante mau estar. Como posso eu ser assim quando se aqui estou é porque assim o quis e quando tenho todo o apoio dos meus pais e toda a generosidade e sacrifício da minha mãe, todo a segurança trazida pelo meu pai, como posso ser eu assim? Verbalizo pela primeira vez este meu podre, pois consegui encontrar ainda um outro. Agora que estou já em minha casa, com os meus filhos dou comigo a fazer retenção. Dou comigo a passar o fim-de-semana com eles sem vontade nenhuma de participar nos almoços de domingo. Não fui. Passei o dia com eles e eles foram só meus. Só para mim. À noite, pesou-me a consciência e telefonei aos meus pais, os miúdos falaram com eles e eu também. Verifiquei que o ciúme deu origem a outro podre. Sou um cesto de maçãs. A primeira já deu cabo da segunda e se não me livro delas rapidamente apodrecem todas. Mau, muito mau.
11.3.11
Genética
Às vezes penso, e se esta merda se sabe? Se alguém descobre e me chiba? O que pensarão os meus pais? O que pensarão os meus filhos? Acredito que será sempre mais fácil explicar aos meus filhos pois ainda não percebem o que é a vida destilada de emoções. Digo-lhes que o amo e pronto, eles aceitam. Por hora. Aos outros seria muito mais difícil e doloroso. A minha mãe morreria de desgosto, mulher crente, temerosa de Deus e profundamente religiosa. Desgosto. Nem quero pensar. O meu pai, não sei, o meu pai. Pois. Pensando bem no meu pai, a irmã mais velha só se casou com o pai do filho já parido e criado quando engravidou do segundo. Outra irmã, a única cuja história desconheço, foi "obrigada" a casar com um senhor viúvo cheio de filhos pequenos porque já estava a fazer asneiras a mais, a outra engravidou e pariu um filho que abandonou ao encargo da avó aos dezasseis anos, e desandou para Lisboa com os patrões, e um dos irmãos tendo emigrado para França nos anos sessenta, conheceu uma espanhola quente e quinze anos mais velha do que ele e nunca mais apareceu à mulher que cá tinha deixado, voltou vinte anos depois com a espanhola que nós sobrinhos conhecemos como mulher dele até já sermos adultos e descobrirmos a aventura do nosso tio. Casou-se com a espanhola um ano antes de morrer. A espanhola, a minha tia, ficou connosco até morrer. Perante isto, sinto-me tentada a pensar que esta merda só tinha era de acontecer, esta merda está-me no sangue. Com uma família assim, a puta da avaria genética tinha de calhar a alguém. Foi a mim. Olé!
9.3.11
A namorada
Ontem conheci a namorada do meu ex-marido. Já a tinha visto antes, entreguei-lhe os miúdos um dia em que o pai não conseguiu regressar a Portugal no voo previsto, acho que por altura dos fumos do vulcão que perturbaram os percursos aéreos em toda a Europa, e o pai iria chegar mais tarde e pediu-me para entregar os miúdos à namorada que os levaria para um almoço qualquer. Achei-a simpática. Ontem falamos um pouco, mais uma vez, o pai de viagem e ela prontificou-se para os levar com os filhos dela para verem um desfile de Carnaval numa aldeia onde os pais dela têm casa. Levei-os até casa dela e ficamos à conversa. É uma mulher despachada, simples, inteligente e simpática. É bonita mas não é sofisticada. Gosto dela. Já gostava antes, porque os meus filhos gostam muito dela e dos filhos dela também. Gostam de estar em casa dela e os relatos são sempre muito alegres e entusiásticos. Trata-os bem sem no entanto ser demasiado permissiva nem a amigalhaça que os deixa fazer tudo. Disse-me que há regras em casa dela e que faz questão que sejam respeitadas, o que me agradou muito ouvir. As minhas amigas que já a conhecem tinham-me dito que é uma tipa porreira, sem merdas, assim como nós. Ontem pude comprovar que é mesmo. Disse-me também, na cara, que gostaria que eu a visse como uma amiga dos meus filhos e como minha amiga também. Respondi-lhe que sentia que sim, que era amiga dos meus filhos, que eles gostam muito dela e que isso me deixa muito contente. Não respondi à parte de ser minha amiga, acho que não faz muito sentido, mas acredito que é uma mulher que poderia perfeitamente sê-lo. Sem merdas.
7.3.11
Uma mulher séria
O que é uma mulher séria? Vi há pouco esta expressão num blog que costumo ler. Lá onde a li dizia que uma mulher séria não diz asneiras, não apanha uma bebedeira, não vê filmes pornográficos, não dorme com estranhos. Será? O que é que faz duma mulher realmente séria?
4.3.11
Larguezas
A sensação das putas das calças a ficarem largas no rabo é excelente, já sentir o soutien a dançar é mais fodido. Já vão as mamas para o caralho outra vez. Foram dois abaixo.
3.3.11
Gás
É só mesmo para dizer que o meu fogão é um Porsche. Não, não é um Porsche porque não custou nenhuma fortuna, mas dá um gás... um luxo. É uma maravilha, e um fogão em condições é meio caminho andando para bons pratos e barriguinhas cheias e consoladas. E pronto, só queria dizer mesmo isto. Há quem venha falar de roupa ou sapatos, eu falo do meu fogão. Até aqui era a banheira, agora é o fogão, e depois? Há crise?
1.3.11
Sucesso
Vou falar outra vez do Facebook e do grupo da minha escola. Não resisto. Há um tipo que foi da minha turma, era muito popular, senão o mais popular da escola. Era giro, engraçado, destemido, tudo o que um rapaz na adolescência quer ser e só muito poucos são. Além disso era simpático e falava com toda a gente, mesmo com quem não era popular como ele. De vez em quando cruzo-me com ele, ora na rua, de carro, ora no super mercado, cumprimenta-me sempre, e já o vi inclusivamente num concerto em Lisboa, grande coincidência. Mas de há uns anos para cá vejo-o triste e apagado. Houve um dia até, em que o encontrei e quando me viu sorriu e vi naquele sorriso uma característica que me era tão familiar. Vi um sorriso de socorro, de alguém que não se sentindo bem, a lembrança que eu lhe trazia, dos tempos de escola em que a vida lhe corria bem, em que era feliz, o fez sorrir como que a pedir, salva-me, tu que conheces o tempo em que eu era feliz, leva-me de novo para lá. Eu conhecia esse sorriso, era também o meu às vezes. Muitas vezes. O Facebook... pois. Vejo as fotografias dele naquele tempo e a expressão é aquela de que me lembro, a jovialidade, a irreverência e sempre aquele sorriso aberto de quem é feliz. E também no Facebook, vejo as fotografias dele hoje, tão diferentes das do antigamente, vejo-o triste, o olhar apagado, sinto sofrimento naquele rosto. Sei que vive cá na terra, sei que é casado, que tem filhos pequenos, mais novos que os meus. E sei também que não é feliz.
28.2.11
Comida
Estou exausta. Os miúdos voltaram definitivamente a casa. Pareciam loucos. Ai que saudades mãe, a casa está tão bonita mãe. Nem sabiam o que fazer, para que lado se virarem. Jogaram à bola no jardim, ficaram como ferreiros, todos suados, cheios de relva e de terra. Depois do duche, viram a varanda toda arrumada com os brinquedos todos em ordem, e ao abrir as gavetas e percorrer as estantes, ei, que saudades deste carro, que saudades deste jogo, já nem me lembrava. Depois os dvd's, olha este filme, que saudades, podemos ver? Podemos. E o que vamos jantar? Não sei, o que acham? Vamos às compras e decidimos o que vamos comer? Ena, vamos. Fomos. Escolheram picanha. Seja. Chegamos a casa e trinta minutos depois, eles ajudaram, estávamos a jantar. Depois de tudo arrumado e limpo, eles ajudaram, fomos ao circo. Muito bom. No dia seguinte, o almoço foi comprado porque fomos à missa e não dava tempo, mas o jantar, a velha história. Mãe, o que vamos jantar? Não sei, o que acham? Pizza! Hum... não sei... comida de plástico? Sim mãe, não há problema, pizza mas da que tu fazes, nós ajudamos-te. Seja, vamos às compras e fazemos pizza. Fizemos, todos, uma algazarra total, a loucura, adoramos ver-te cozinhar mãe.
(Nunca conseguirei dissociar a ideia de família e união, da comida, da preparação das refeições e das refeições Pelo menos na minha, está tudo íntima e fortemente ligado)
(Nunca conseguirei dissociar a ideia de família e união, da comida, da preparação das refeições e das refeições Pelo menos na minha, está tudo íntima e fortemente ligado)
25.2.11
Descubra as diferenças
Através de uma amiga de escola descubro no Facebook o grupo da nossa escola e delicio-me a ver as fotografias da malta naquela altura. Percorro os perfis e há os que reconheço imediatamente e os que se se sentassem ao meu lado no cinema ou no café não passariam de mais um desconhecido. E divertida, vou andando e vendo, rindo com as fotos dos jogos de futebol, festas e passeios. Até que me deparo com uma fotografia de um passeio e piquenique, e temos lá escarrapachados os comentários dos que lá aparecem. E o que me chamou a atenção foram os comentários de um casal, do meu tempo, da minha idade. Eles começaram a namorar lá na escola, recordo-me perfeitamente dela chegar à escola e dele ter ficado deslumbrado com ela, a ponto de nunca mais a ter largado, a ponto de ter conseguido que ela deixasse o namorado que tinha e ter casado com ele. É aquele tipo de casal que no Facebook tem as fotografias das férias, com os dois filhos ao pé da piscina, a família perfeita, os comentários dos amigos, ai que lindos, ai que apaixonados, ai os meninos que engraçados, e por aí fora. E na puta da foto do passeio, bato com os olhos no comentário dele, este dia mudou a minha vida, foi neste dia que comecei a namorar com a mulher que está comigo hoje. E o comentário dela, foi neste dia que comecei a namorar com o meu marido lindo, graças a este dia tenho agora dois filhos lindos. Sou só eu que vejo aqui uma diferença? Sou?
23.2.11
Tiny little things
No segundo em que me sentei na cadeira pensei de mim para mim: mas que bom que é estar sentada a apanhar Sol numa esplanada e dou-me conta que um prazer tão fácil e simples me passa tanto ao lado. Triste não é não conseguir fazer coisas difíceis, triste é não conseguir fazer coisas fáceis.
Ciúme #1
Há meses que não escrevo sobre os meus filhos, porque durante estes meses fora de casa e a partilhá-los com os meus pais experienciei um sentimento detestável cuja origem começo a identificar mas que ainda não consegui digerir. Abro-lhe a porta apenas, a este sentimento, não ouso deixá-lo sair, ainda é cedo.
Puzzle
E à medida que tudo em minha casa começa a voltar ao devido lugar, à mistura com algumas coisas novas que naturalmente encontraram também o seu lugar, dentro de mim, tudo começa a desmoronar.
22.2.11
Dona Rosa
Dona Rosa enviuvou aos cinquenta e cinco anos. Dona Rosa, muito senhora do seu nariz resolve casar-se com o Senhor Antunes, senhor muito respeitável, de boa apresentação, asseado e educado, cristão católico e praticante, uma boa reforma, enfim, tudo o que se pretende encontrar num marido ideal para combater a solidão dos anos dourados da vida de uma pessoa. Pois casam-se Dona Rosa e o Senhor Antunes, e dos cinco filhos de Dona Rosa, três zangam-se. O Senhor Antunes não teve filhos com a sua falecida esposa. As duas filhas que se conformaram o segundo casamento da mãe estão hoje perante um grande problema nas suas vidas. Passaram-se vinte anos desde que a mãe se casou. Ouvem-na agora queixar-se que não consegue aturar o Senhor Antunes, que é um chato e que não pode mais. O Senhor Antunes, coitado, confessa que Dona Rosa, hipocondríaca de primeira linha, mimada e caprichosa, lhe dá cabo do juízo. Estão velhos, Dona Rosa e Senhor Antunes, já não deviam estar sós. E as filhas? Não se chegam? A mais nova entende que a mais velha, que já não trabalha terá mais disponibilidade para tomar conta dos velhotes. A mais velha reclama que se fosse só a mãe a levaria para sua casa, mas o padrasto... isso não, tem a filha já casada a viver noutra cidade, desvia-se do problema e vai passar longas temporadas em casa da filha. A mais nova, vive num apartamento no oitavo andar, os velhotes não querem ir para lá. Dizem as más línguas, Dona Rosa, muito senhora do seu nariz, casou-se sem precisar da licença de ninguém, não escutou ninguém, agora que está doente e farta do marido, que se desunhe. Dona Rosa nunca cultivou o afecto dos filhos, nunca esteve disponível para ajudar fosse no que fosse, sempre independente e senhora do seu nariz. Sempre com a língua afiada, nunca murmurou um mimo, nem aos filhos, nem aos netos. Dona Rosa colhe agora o que ao longo da vida semeou, não espere carinho quem nunca acarinhou.
14.2.11
13.2.11
Nem acredito
Os móveis estão todos dentro de casa, à excepção das camas dos putos, que estão todas fodidas e vão dar lenha e lugar a um beliche, os putos estão contentíssimos com a ideia, da minha cama que vai ser forrada, e de um armário e uma cómoda que vão ser restaurados. Ontem levei uma coça monumental a limpar todos os restantes móveis enquanto os homens iam buscar a próxima carga ao armazém. À noite doía-me tudo, mas pior, doía-me a perna defeituosa. Há quase um ano que não sentia aquela dor. Vou acreditar que foi do esforço, prefiro acreditar nisso. Adiante. Agora que os móveis estão no sítio é preciso tratar do resto, por isso programei tirar a semana. Sim, férias, mas a trabalhar chez moi. Vou fechar-me em casa e só saio quando tiver terminado (as aulas não contam, claro que não vou faltar). Vim agora ao escritório organizar uns assuntos para a minha colega dar seguimento durante a semana e desapareço do mapa durante uma semana. Quando aparecer espero já estar a morar de novo lá em casa. Ufa, já não é sem tempo. Nem acredito.
10.2.11
Abuso
Mas ele tratava-te mal? Perguntaram-me acerca do meu ex-marido. Se por tratar mal entenderes que me batia, que me insultava, que me impedia de fazer o que eu queria, fosse isso sair ou ficar em casa ou que me proibia de falar com alguém, ou que não me desejava sexualmente, ou que me achava uma má mãe, não, nunca me tratou mal. Mas, se por tratar mal entenderes que me fazia sentir que eu não era suficientemente boa para ele, ou que me dizia que tudo o que eu fazia, se tivesse sido feito por ele teria sido feito muito melhor, ou que porque eu gosto de cinema e conheço os realizadores e os actores me fazia sentir fútil, ou que eu era uma burra e ele só estava comigo porque lhe convinha, ou porque profissionalmente me considerava menor porque não tenho um curso superior apesar do meu salário que não é nada mau ter o seu peso no orçamento familiar, ou porque me desiludiu muito ao longo dos doze anos que estivemos casados sobretudo porque todos os dias me fazia sentir que os meus sentimentos para ele eram merda e o que ele achava é que estava certo e nada do que eu dissesse ou fizesse era levado em conta, sim, tratou-me muito mal. E eu deixei, depois disse basta e a seguir divorciei-me. Haverá talvez mulheres para quem tudo aquilo que eu considero faltas de respeito para comigo não constitua problema algum. Haverá talvez mulheres para quem nem mesmo uns tabefes nas trombas constitua motivo válido para um divórcio. Deixem-se estar. Eu aprendi muito cedo, se bem que não muito cedo o apliquei, que quem não está bem, põe-se. Eu pus-me.
9.2.11
Bulldozer
Não é frequente mas há momentos na minha vida em que sou tomada pelo espírito bulldozer. Como quando contra tudo e contra todos fui sozinha para Lisboa, à base do Lumiar fazer testes para a Força Aérea. Ou como quando decidi que o meu casamento não continuaria nem mais um minuto e sabia perfeitamente que o mundo iria desabar mas não me preocupava nadinha com isso. Esses momentos sao extraordinários. São momentos em que tenho a certeza absoluta daquilo que quero e o resto do mundo que se foda. Nesses momentos, como um bulldozer, levo tudo à minha frente. E levo mesmo, a força vem-me não sei bem de onde e sinto-a percorrer-me o corpo como se fosse uma droga potentíssima que me transforma numa máquina gigante trabalhando arduamente para atingir o seu objectivo. Depois, há os que me acompanham e há os que ficam para trás.
7.2.11
Consumições
1. Separar o que vai para o lixo e o que fica, limpar e arrumar de volta para o lugar, ou não, pode muito bem ir parar a outro sítio, depende. mas interessa mesmo é desimpedir a passagem para que no próximo sabado, se não chover, os móveis possam regressar a casa. Esta semana, à noite, tirando quarta e quinta-feira que tenho aulas, vou alombar com a limpeza das merdas (não foram muitas, vá... mas algumas) que lá ficaram em casa durante as obras, tapadinhas mas que ficaram cheias de pó na mesma, e que estão amontoadas na varanda das traseiras.
2. Começar a dieta (amanhã, isto vai ser lindo, vai) para perder os 6 quilos que desde Setembro, uniformemente se me agarraram ao rabo, coxas e mamas mas fico lixada porque se me incomoda o volume a mais que me impede de entrar em todos os pares de calçar que tenho menos um, nas mamas até nem me importava que ficasse um quilito, metade em cada uma, mas enfim, começo a dieta e lá se vão as mamas. Mas tem lógica, não fumo logo tenho mais apetite; mais apetite, mais comida; mais comida, não entro nas calças; não entro nas calças, faço dieta; faço dieta, fico sem mamas. Deixo de fumar, fico sem mamas, tem lógica.
3. Chatear a cabeça ao homem das cozinhas porque estão lá os móveis mas faltam as pedras que vão por cima e aquilo tem de ficar feito esta semana, mais precisamente na próxima quarta-feira conforme me prometeu, porque quero que os homens das limpezas tratem de vida na sexta-feira e se o gajo falha estraga-me o esquema todo. Sábado voltam os móveis. Ah, já tinha dito isto.
4. Fazer de polícia no escritório para que as peças que tenho de enviar o mais tardar na sexta-feira não falhem pois na segunda-feira começa uma feira e o meu cliente quer apresentar a colecção de Inverno 2011/12, e já vai um bocado tarde porque os outros cliente todos já estão a desenvolver a colecção de Verão 2012. É que na próxima semana vou estar de férias descansadinha, a trabalhar que nem uma mula lá em casa a colocar tudo no devido lugar, e não quero estar a ser incomodada com chamadas do cliente furioso porque lhe faltam modelos na feira.
5. O puto mais velho começa a época de testes hoje. Tenho de estar atenta a ver se o gajo estuda, e se estuda como deve ser. Normalmente é mais de uma semana.
6. O carro está a fazer um barulho estranho, não percebo nada de carros, mas aquele ruido não é normal, tenho de o levar à oficina antes que avarie.
(não sei se dou conta desta merda toda, a sério)
2. Começar a dieta (amanhã, isto vai ser lindo, vai) para perder os 6 quilos que desde Setembro, uniformemente se me agarraram ao rabo, coxas e mamas mas fico lixada porque se me incomoda o volume a mais que me impede de entrar em todos os pares de calçar que tenho menos um, nas mamas até nem me importava que ficasse um quilito, metade em cada uma, mas enfim, começo a dieta e lá se vão as mamas. Mas tem lógica, não fumo logo tenho mais apetite; mais apetite, mais comida; mais comida, não entro nas calças; não entro nas calças, faço dieta; faço dieta, fico sem mamas. Deixo de fumar, fico sem mamas, tem lógica.
3. Chatear a cabeça ao homem das cozinhas porque estão lá os móveis mas faltam as pedras que vão por cima e aquilo tem de ficar feito esta semana, mais precisamente na próxima quarta-feira conforme me prometeu, porque quero que os homens das limpezas tratem de vida na sexta-feira e se o gajo falha estraga-me o esquema todo. Sábado voltam os móveis. Ah, já tinha dito isto.
4. Fazer de polícia no escritório para que as peças que tenho de enviar o mais tardar na sexta-feira não falhem pois na segunda-feira começa uma feira e o meu cliente quer apresentar a colecção de Inverno 2011/12, e já vai um bocado tarde porque os outros cliente todos já estão a desenvolver a colecção de Verão 2012. É que na próxima semana vou estar de férias descansadinha, a trabalhar que nem uma mula lá em casa a colocar tudo no devido lugar, e não quero estar a ser incomodada com chamadas do cliente furioso porque lhe faltam modelos na feira.
5. O puto mais velho começa a época de testes hoje. Tenho de estar atenta a ver se o gajo estuda, e se estuda como deve ser. Normalmente é mais de uma semana.
6. O carro está a fazer um barulho estranho, não percebo nada de carros, mas aquele ruido não é normal, tenho de o levar à oficina antes que avarie.
(não sei se dou conta desta merda toda, a sério)
3.2.11
Bad Girl
Não custará nenhuma fortuna comprar um bilhete de avião, reservar hotel para uma ou duas noites e alugar um bicho destes e arrancar em direcção aquela auto-estrada alemã onde não há limite de velocidade, pois não?
Bad boy
De todos as figuras másculas que, como a qualquer adolescente, me fizeram sonhar, esta tem ainda hoje um efeito algo perturbador em mim. Sempre teve ar de "bad boy", mas o timbre da voz e o olhar contradizem o corpo musculado e a atitude firme que independentemente dos personagens, sempre lhe vi. Os anos passam e o efeito permanece, a voz continua segura, calma e quente, e o olhar doce e sereno. Este senhor, para quem não conhece, é actor da TV Globo e chama-se Humberto Martins.
27.1.11
Areia
Não. Não guardo rancor de ninguém, apesar de já me terem feito mal. Não guardo rancor porque não gosto. É como quando tenho areia no sapato, incomoda e chateia, e torna impossível esquecermo-nos dela lá dentro. Não dou meia dúzia de passos sem parar tirar o sapato e a sacudir para poder andar sem incómodo. É assim o rancor, apodera-se de nós, não o conseguimos esquecer e condiciona-nos os movimentos, transforma-nos. Sem percebermos somos amargos e vingativos. É melhor sacudir e deixar para trás. Caminhamos sempre melhor sem areia dentro do sapato.
25.1.11
Tinta
Tenho uma vontade medonha de te escrever cartas de amor, à antiga, de escrever com caneta e derramar toda a tristeza na tinta preta desenhando na alvura do papel os contornos do meu amor, de transformar em palavras todos os sentimento que me prendem e me escorraçam de ti, de te abrir as entranhas e mostrar-te toda a podridão que me definha, de aliviar este peso que me esmaga o peito e me impede de respirar, mas não sei a tua morada, mesmo que as escreva, não sei para onde as mandar.
24.1.11
Zen
Não ando em mim ultimamente. É um pensamento altamente reconfortante pois este não ando em mim dá-me pano para mangas. Como não ando em mim, não posso ser responsabilizada pelos meus actos. Ou pela falta deles, e aqui, nesta falta de acção, é que reside o grande problema. Em condições normais, eu já teria feito qualquer coisa, já teria tomado uma decisão, como já fiz antes, mas não. Deixo-me estar, deixo-me andar. Ele telefona-me e eu atendo, ele manda-me mensagens e eu respondo. Diz-me que me ama e eu acredito. Estou apenas a uns milímetros de me tornar oficialmente amante de um homem casado. E nada, estou meia burra, ou melhor estou completamente burra. Isto vai contra tudo o que eu acho certo, no entanto nada faço para parar. Eu devia era parar de tomar os filhos da puta dos comprimidos que me emburreceram, era o que eu devia fazer. O médico diz-me que estou deprimida, que tenho de tomar anti-depressivos, e eu tomo. E eu atendo, e eu respondo, e eu acredito. Depois pergunto-me, onde, quando, como, o que foi que me destruiu? Em que momento quebrei? O que me vergou? O amor ou o anti-depressivo? Burra.
21.1.11
Acordares
Primeiro veio o maior, já de casaco vestido e mochila às costas, trepou para a cama e deu-me um beijo bem no meio da bochecha acordando-me, então mãe, estás melhor das costas? hum... que bem que me soube aquele beijo, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-te estar deitada mais um bocadinho, eu já vou para a escola, até logo. Depois senti o pequeno, ainda em pijama, a deslizar para debaixo da roupa, abraçou-me e deixou-se estar, agarrado a mim, mãe, já acordaste? estás melhor? hum... que bem que me soube aquele abraço, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-me ficar aqui um bocadinho ao pé de ti, a avó vai ter de me procurar, não lhe digas que estou aqui, esconde-me, e ficou aninhado no meu colo, no quentinho do ninho da mãe. Quais dores nas costas quais quê? O mimo dos filhos cura tudo.
19.1.11
Identidade
Nunca compreendi o que leva algumas mulheres a mudarem de nome quando casam. Porque é que metem lá o nome dos homems com quem se casam? Porquê? O que é que muda por mudarem de nome? Procurava não há muito duas primas minhas no Facebook e acabei por encontra-las só depois de ter encontrado o marido de uma delas. E porque não as encontrava eu? Porque as meninas já não dão pelo nome de baptismo mas antes pelo nome dos maridos. Fez-me impressão. Eu casei-me e não mudei de nome. Não deixei de ser quem era por me casar, nem passei a ser de alguém por me casar. Também não sei o que pensar dos homens que apreciam que as esposas lhes adquiram o nome. Sentimento de posse? Será? As mulheres que mudam de nome quando se casam fazem-me sempre pensar que de alguma forma se anulam porque parece que só com o nome do marido existem. Por exemplo, a minha sogra (será ex-sogra? dizem que não, que as sogras serão sempre sogras) tem o nome do marido, médico reconhecido na sua área de especialidade, e quando a senhora diz o nome imediatamente se sabe que é a esposa do senhor doutor. Quando a minha prima diz o nome, também se sabe que é a esposa do senhor doutor (este é advogado). Não estão estas mulheres a admitir que sem este nome ninguém as conhece, ninguém sabe quem são, e por conseguinte não existem?
Lastro
Às vezes penso nas pessoas a quem perdi o rasto ao longo da vida. E tenho pena de as ter perdido pelo caminho. Hoje pensei em algumas pessoas com as quais não tenho contacto e que até nem me importaria de o ter mantido. Não é bem a mesma coisa, há pessoas que nos fazem bem, que puxam por nós enquanto indivíduos e que nos trazem naturalmente coisas boas, ou porque são boas ou porque fazem vir ao de cima coisas boas em nós e não é dessas que falo, falo das outras, daquelas que não são propriamente aquelas com quem mais nos identificamos mas cuja companhia é agradável e com quem o convívio é positivo. Mas, nesta fase da minha vida conviver com essas pessoas requereria um esforço da minha parte, a ligação que havia deixou de existir e apesar de ser possível retomar a relação que me unia a essas pessoas, ela não é natural. A gestão do meu tempo é já bastante complicada, já não me chega para tudo e as tentativas de aproximação da minha parte seriam motivo de preocupação e stress para mim. Não posso ter mais coisas que me preocupem, que me suguem energia, que me desgastem, simplesmente não aguento. E assim vou perdendo pessoas na minha vida, e mesmo não sendo as pessoas mais importantes acho que é triste. A nossa capacidade de mantermos na nossa vida aqueles de quem gostamos diz muito sobre nós. Neste momento não tenho energia para investir em relações de amizade. Não cultivo novas amizades, vou mantendo as que tenho, felizmente são de betão. E chego à conclusão que não tenho nada para dar. Não tenho amizade, não tenho tempo, não tenho disponibilidade. Estou fechada sobre mim própria, sobre a minha família e o meus poucos amigos. Sou um ovo, o meu mundo é cá dentro confinado ao que sou, ao que conheço e ao que está muito perto, e sem vontade nenhuma de partir este ovo. Que tristeza.
17.1.11
Saldos
Fiquei a saber este fim-de-semana que parece que sendo gaja, tenho de ir aos saldos. Só porque há saldos, como se as promoções fossem por si só, razão mais que válida para se comprar roupa, sapatos, acessórios e o caralho mais velho. Ora, eu vou às compras quando preciso e se não preciso de comprar nada porque raio é que hei-de ir aos saldos? Não percebo.
Strip
Chega um momento em que te deixas de merdas e vais ao fundo ver o que queres. Nesse momento sabes o que verdadeiramente importa e o que tens a certeza absoluta que não queres. Aí vês quem és e do que és capaz. E escolhes.
14.1.11
Puta
Há dias em que tenho a certeza de que preferia prostituir-me do que ter este trabalho. Ao menos vendia o corpo. Aqui, há dias em que vendo a alma. Nojo.
11.1.11
Segredos cabeludos
Do lado da família do meu pai, dos irmãos e irmãs dele, há histórias do arco da velha, disso já eu sei há anos. Há o meu tio que abandonou a mulher e fugiu para França e engatou uma espanhola quinze anos mais velha do que ele e com quem viveu e com quem só se casou um ano antes de morrer, sem nunca mais ter aparecido à esposa, há a minha tia que só se casou quando engravidou do segundo filho, ou a outra tia que teve um filho solteira e toda a vida mentiu sobre o pai da criança, ou ainda a outra tia que por causa duma história embaraçosa, esta ainda não a descobri, foi empurrada para um senhor viúvo com quem se casou e que tinha seis criancinhas pequenas e que a minha tia criou como filhos, a eles e depois aos filhos deles como netos. Conheço estas histórias todas há anos, excepto a da minha tia casada com o senhor viúvo, e todas elas possuidoras de contornos que têm tanto de hilariante como de trágico. Mas ontem descobri uma história fantástica sobre um irmão da minha mãe. Ora deste lado da família não há, não havia até ontem, ponta por onde se lhe pegasse. E esta história bate aos pontos as outras todas, porque ter sabido que o meu tio, irmão mais velho da minha mãe, que só se casou com a mulher quando ela engravidou do segundo filho, onde é que eu já vi isto? e poucos anos depois teve um affair com a irmã mais nova dela, que ainda por cima era freira, não é fazer uma descoberta do caralho, não sei o que será. Estou parva da minha vida.
8.1.11
Raio-X
Retirei o contador, olho para ele e em vez de ver algo destinado a incentivar a continuidade de uma batalha, que contas feitas, se é que se podem fazer, atravesso incólume, nem uma flecha cravada num braço, nem um arranhão na testa, vejo as lanças voarem na minha direcção mas passo-lhes ao lado, estaco diante das espadas erguidas mas depois corro, muito, mesmo muito, tem sido assim, parece que ninguém dá por mim, parece que os guerreiros se concentram em abater os mais fortes e querem lá saber dos mais fracos porque esses, esses não representam perigo, agora olho e vejo um anúncio, como se dissesse olhem para mim que já não fumo há quatro meses e vejam bem o que eu fiz, e sou a maior porque estou a conseguir onde a maioria falha. É isto que vejo. Vejo vaidade, e a vaidade é coisa que abomino. A minha, principalmente.
7.1.11
Relatividade
Quatro meses sem fumar. De alguma forma que não compreendo, assinalar ou contar o tempo deixou de ter a mesma importância. Antes olhava para o "marcador" para me lembrar que estava a vencer uma luta pessoal. Agora olho para o marcador e não lhe encontro utilidade absolutamente nenhuma, mas deixo-o ficar. Não fumo. Mas não é por isso que deixei de ser a pessoa que era. A diferença é apenas esta: eu era uma pessoa que fumava e agora sou uma pessoa que não fuma, O resto, está igual, de há quatro meses para cá. Mais ou menos igual.
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