18.5.11

Olhares

Quando entrava no carro depois de almoçar reparei que ao invés de um estavam dois tipos a olhar para mim. Há um que todos os dias me segue com o olhar, quando estaciono mais lá atrás ele regala-se, acompanha-me desde o carro até aos degraus, onde viro e desço, em direcção a casa dos meus pais. O rapaz deve ter vinte e alguns anos, e todos os dias está no café, cá fora, à mesma hora. Está lá quando chego e está lá quando vou embora. Olha-me e nem sequer disfarça, todos os dias, faça chuva ou faça Sol. Atingi aquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos. Hoje eram dois. O segundo é um puto que conheço há anos, via-o na bicicleta às voltas por lá. Cresceu, mas não deve ter sequer vinte anos. Hoje olhavam-me os dois, sem disfarçar, estavam sentados num degrau da casa em frente ao café e quando subi os degraus reparei que depois de me verem trocaram umas palavras e riram-se. Estou naquela idade em que as mulheres atraem os rapazes mais novos, ou então atraem os homens mais velhos. É normal. Aos mais novos cheira-lhes a sexo fácil, as miúdas da idade deles ainda têm dúvidas e dão-lhes trabalho. Sentem-se atraídos pela experiência que uma mulher mais velha lhes pode proporcionar. Aos mais velhos cheira-lhes a juventude e a frescura, mas ainda assim com alguma maturidade, já não têm pachorra para meninas de vinte, acham-nas parvas. É a meia idade das mulheres, aquela que atrai os dois extremos do espectro. Os do meio foram os que por qualquer motivo não quisemos, os mais novos e os mais velhos estão ali, à espreita, nós sabemos, e deixamos.

17.5.11

Saudades

Este fim-de-semana fui à praia, foi o primeiro Sol no corpo, este ano. Custou-me tanto não fumar.

Aperto

Estão grandes, pois estão?


Semana # 3

8:00h - 65,8 Kgs

(data real: 06.05.2011, mas o blogger não deixou)

16.5.11

Man count

Pergunto-me se chocaria as pessoas se contasse com quantos homens já dormi, perdão, com quantos homens já fodi. Pergunto-me se achariam mais aceitável se todos eles tivessem sido meus namorados. Será que é menos grave uma mulher já ter fodido com vários homens com quem namorou ou não tendo desenvolvido qualquer relação com eles? É que namorado, não tive nenhum. A partir de quantos é que uma mulher passa a ser uma devassa? Acontece-me ter de puxar pela cabeça para enumerar os homens com quem fodi. Não porque tivessem sido muitos, mas porque não significaram nada, além de sexo. Mas já agora, quantos é que são muitos? Quem é que define esse número? Serei uma devassa aos olhos de muitos, é-me fácil foder com homens que não pretendo conhecer profundamente, não preciso sequer de os conhecer profundamente, é-me fácil dar a conhecer o meu corpo. A minha alma, no entanto, está guardada a sete chaves, nunca nenhum deles a viu.

12.5.11

Generalizações

Custa-me encaixar que os homens são todos iguais, mas o facto é que tudo indica que sim. Os homens não são todos iguais em tudo, mas há determinadas características que definitivamente apontam para a ausência de excepções. Ora, em não as havendo, passo, muito obrigada.

11.5.11

Ossos

A respeito das dietas e do peso ideal para a altura digo desde já que não pretendo nem nunca pretendi ser agora manequim, era o que me faltava. Dizem-me que o peso deve ser igual ao número de centímetros da altura, menos dez. Assim sendo, o meu peso ideal deveria ser 52 Kgs. Credo! Eu, com 52 Kgs, primeiro em vez de mamas teria peles dependuradas, depois os ossos das ancas ficavam que nem duas pistolas, espetados para fora, e os ombros, nem quero pensar nos ombros, ia parecer directamente saídinha de um vídeo da Lady Gaga com um daqueles casacos com as ombreiras tipo cadeirão de orelhas, mas sem precisar de ombreiras, mas tudo isto, sem conseguir entrar um tamanho 36, ah pois (tenho para mim que nem o meu esqueleto limpinho, sem vestígio de carne, caberia num tamanho 36). Para não falar da cara, que ia meter medo aos mortos. Eu, assim devagarinho, se conseguir chegar a pesar 60 Kgs (que era o que eu pesava há um ano e meio atrás) fico toda contente, mas mesmo toda contente.

10.5.11

São melros

Já nasceram. Quatro.



Don't dream it's over

Há dias em que o sonho me abandona e na rua, vejo-me nos olhares vazios e ausentes. Olho as pessoas que passam e vejo-me nelas, passam apenas, na rua e na vida. Há dias em que penso que ultrapassei a minha cota, que já não me é permitido mais e resta-me ficar a ver a vida, amar e educar os meus filhos o melhor que sei e posso e agarrar umas pontas de qualquer coisa aqui e ali. Há dias em que o sonho me abandona, foge-me a sete pés e deixa-me assim, oca.

6.5.11

Provas

Correu-me lindamente, mãe. Respondi a tudo e a minha composição foi de vinte e sete linhas (não sei se concordo com esta norma de estabelecer limites de linhas nas composições, mas isso são outros quinhentos), e sabia as respostas todas. De certezinha absoluta que eu estava muito mais ansiosa do que ele, que acordou muito bem disposto e se despediu de mim com um sorriso de orelha a orelha à porta da escola. Vim para o escritório e a meio da manhã liguei à minha mãe, ele que me telefone imediatamente quando chegar, quero saber como lhe correu a prova, estudou tanto. Ufa! Agora siga a rusga que na próxima semana há prova de Matemática, o fim-de-semana não vai ser propriamente de brincadeira.

Semana # 2

8:00h - 66,1 kgs

4.5.11

Surpresa

És a amante perfeita, não esperas, não exiges, não reclamas. Estás disponível, és leal e verdadeira. Aguardas secretamente pelo momento em que te desiludes e consegues finalmente acabar com tudo. Sabes perfeitamente que tens de o fazer só que não és capaz. Não acalentas falsas esperanças, mas sabes bem o que queres. Um belo dia ouves uma frase que te destrói. Essa frase retirada do contexto poderia ser a tua fagulha de esperança, a tua arma secreta, a tua luz ao fundo do túnel. Essa frase no contexto é a desgraça, é a clareza, é a ruína. Tudo o que foi, sempre soubeste que era para nada. Mas ser para nada é diferente de ser por nada. O que percebeste depois é que foi por nada. Por nada. E apesar de não ter sido intencional, foi deveras surpreendente.

3.5.11

A convocatória da Provocação

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Sim, "Dona Flor e os seus dois maridos", de Jorge Amado, tão divertido.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, "Os Maias" de Eça de Queiroz, nunca consegui ir até ao fim e asseguro que tentei muitas vezes. Pode ser que ainda tente outra vez.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
"O amante" de Marguerite Duras, li-o a primeira vez com dezasseis ou dezassete anos. Marcou-me profundamente.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não escolho livro mas autor, nunca li nada de Saramago, mas gostava de ler só para poder ter opinião. Também nunca li o "Vinhas da Ira" mas esse não escapará. Há o "Libertação" de Sandor Maraí que ainda não li porque ainda não foi publicado em Portugal. Estou à espera.

5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Tenho muita dificuldade em lembrar-me do final dos livros. Ou são finais felizes ou finais para nos fazerem pensar em continuar a história. Para mim o prazer do livro e da história está no decorrer da leitura, no identificar-me com os acontecimentos ou não, ou até no fazer-me reflectir sobre como reagiria eu a uma situação idêntica à que estou a ler. O fim não é importante.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Quando era miúda devorei tudo da Condessa de Ségur, gentileza do meu pai, sócio do Circulo de Leitores. Depois fui lendo Camilo, e as obras obrigatórias do secundário (excepto os Maias) mas o que eu gramava mesmo eram policiais e de espionagem, John le Carré, John Grisham, Patricia Highsmith e outros que tais.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
"O Alquimista" de Paulo Coelho, só fiz questão de ir mesmo até ao fim para poder dizer mal. Não vi ali nada, nadinha. Sem propósito algum.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Só alguns mesmo e o significado que lhes encontrei ou o que me divertiu
- Rosa Brava de José Manuel Saraiva - romance histórico baseado na história de Leonor Teles, as intrigas da côrte, adoro cenas históricas
- O nome da Rosa de Umberto Ecco - romance histórico, a fé e a igreja, a maldade dos homens praticada em nome de Deus, mais uma vez, gosto muito de romances históricos
- O Fio da Navalha de Somerset Maugham - crónica de costumes, a sociedade e o que ela espera de nós, a integridade do indivíduo
- As velas ardem até ao fim de Sandor Maraí - a natureza humana, a amizade, a traição, a lealdade
- 1984 de George Orwell - a natureza humana, a repressão do espírito, a resistência da alma
- O talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith - policial que nos vira a cabeça e nos faz apaixonar pelo criminoso, delicioso.
- O amante de Marguerite Duras - a descoberta dos prazeres carnais, a história de amor proibida que passa a ser aceitável aos olhos da família a partir do momento em que há contrapartidas financeiras, o amor que passa despercebido na juventude mas que dura uma vida inteira.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Neste momento nenhum, mas a meio estão o "A mulher certa" de Sandor Maraí e "O gato Malhado e a andorinha Sinhá" de Jorge Amado (que comprei para o meu filho mais novo) e estão a postos o "Servidão humana" de Somerset Maugham e "Filhos e amantes" de D. H. Laurence.

(Provocação, não convoco doze pessoas para o questionário porque não sei se por aqui andam assim tantas...)

Algazarra

No dia de Páscoa, a seguir ao almoço ouvi uma grande algazarra, eram as vozes dos meus filhos e lá no meio ouvia a minha mãe também. Mas, ao invés da minha mãe os estar a mandar calar como é costume, a voz dela pareceu-me tanto ou mais excitada do que as deles. Da janela do quarto do mais novo, sim em casa dos meus pais tanto eu como eles temos quarto, pelo meio das folhas do limoeiro, via-se isto:


Este ninho magnífico lá estava, escondidinho. Diz a minha mãe que agora, onde se vêm dois ovos, estão quatro. Foi uma festa, como é bom de ver. Hoje, há bocadinho, quando lá cheguei para almoçar, deparo-me com isto em cima da mesa das traseiras:



Duas cobras, metidas num frasco que a minha mãe encontrou no quintal e imediatamente chamou o meu pai para as apanhar. São para os rapazes, disseram-me os dois, todos contentes. Quando os moços chegarem da escola vai ser o fim da macacada.

2.5.11

Sacrifício

Esta que vos escreve sente uma profunda repulsa por futebol e derivados. Esta que vos escreve entrou uma vez na vida num estádio de futebol e assistiu a um jogo de uma competição europeia e jurou que nunca mais. Esta que vos escreve é mãe de dois rapazes, um com sete anos e o outro com onze anos. Esta que vos escreve não tem outro remédio senão aceitar que os dois rapazes vibram com futebol e obviamente que estão ambos histéricos porque a equipa cá da terra passou à final, pela primeira vez na história do clube. Esta que vos escreve pediu ontem a alguém que lhes compre bilhetes, a ela e aos dois rapazes, para irem ver a final da taça de Portugal ao Jamor.

29.4.11

Semana # 1

8:00h - 66,7 Kgs

27.4.11

Fome

Como esta merda não ata nem desata e os quilos ainda cá estão agarrados ao rabo e às coxas tenho de tomar medidas drásticas. Ontem fui ao médico e fartei-me de rir. Balança... ai. Até doeu. Assim bem, bem eram dez a menos, mas ficavam a ver-se muito os ossos de maneiras que são só sete. Sete têm de ir abaixo. E não é a cena do ai que está aí o Verão e ai a linha e ai o caralhinho mais velho. Não é nada disso. Não entro na roupa que tenho e não vou comprar roupa nova que não tenho paciência nem gosto da puta  da saga do entra, escolhe, despe, veste, despe, veste, sai, e entra de novo. Não gosto. Pelo menos esta sequência associada a roupa não gosto. Já o entra e sai e o despe, etc. mas noutra linha de raciocínio, não me importo mesmo nada, muito pelo contrário. Adiante. Estava portanto a conversar com o senhor doutor e a queixar-me que é mais forte do que eu e que tenho imensa fome desde que deixei de fumar quando o homem olha para mim, muito sério e me diz, mas menina, a fome não engorda. Explodi a rir. Evidentemente. Mas prometeu-me que me ajuda a controlar a fome. É que se isto continua assim, vindo o calor a sério vou ter de andar nua, é que não me safo, ainda se estivesse mais magra, era naquela, agora nua e gorda, não me dá mesmo jeitinho nenhum.

26.4.11

Só faltas tu

No carro:

Grande: Sabes mãe, estou à procura de garina.
Eu: Como? (o gajo tem onze anos)
Grande: Sim, à procura de namorada.
Eu: Mas... namorada? Mas para quê?
Grande: Daaaahaaa! Para quê... Para fazer coisas de namorados, ora. O que é que os namorados fazem?

...

Pequeno: Sabes mãe, não percebo, na minha sala todas as raparigas gostam de mim.
Eu: Todas? Mesmo todas? (este tem sete)
Pequeno: Sim, todas, elas dizem que eu sou o mais bonito da sala.
Eu: E tu? Gostas de alguma?
Pequeno: Gosto da Mariana, e ela gosta de mim.

...

Grande: Vês mãe? Só faltas tu.
Pequeno: É, só faltas tu.

21.4.11

Não

Angústia. O peito apertado e o inevitável nó na garganta. E achavas que estavas a chegar ao fim? Tola.

20.4.11

Melga

Pensei que dizer claramente a alguém que não se vê qualquer propósito em continuar em contacto devido às diferenças de personalidade, postura e objectivos seria suficiente para efectivamente acabar com o contacto. Depois pensei que uma despedida por escrito fosse esclarecedor que não se pretende continuar a falar. Depois achei que um adeus, vai à tua vida, assim, a frio, chegasse mas também não. Nem deixar de responder foi suficiente, passados dois dias pergunta porque é que não respondo às mensagens e eu, pasmada, voltei ao início, não vejo qualquer propósito. Não, ainda não foi desta, acho que devias pensar melhor e dar outra oportunidade, mas já dei não vês? e não funciona, não percas tempo comigo, tenho pena que penses assim, não tenhas, adeus. Pois. Não, também não. Acabou de chegar, é hoje que vamos estar juntos? beijinho. Hein? Como? Este camelo, de verdade, ainda está convencido que me vai comer? Não posso. A sério. Não posso com gajos burros.

18.4.11

Primeira vez

O meu date de sábado à noite foi verdadeiramente inédito. O tipo melhorou bastante com a idade, conheci-o há vinte e quatro anos atrás, andávamos no ciclo, quero dizer, no quinto ano de escolaridade. Conversamos obviamente sobre aqueles anos de escola, dos colegas com quem se manteve contacto e dos que nunca mais vimos. Falamos também da vida, dos nossos percursos, das relações falhadas, sim , ele também, e dos filhos claro. E fui percebendo o real interesse dele em mim. Nada mais nada menos do que os meus contactos profissionais, trabalho numa empresa com ramificações a nível mundial, com escritórios nos quatro continentes e com infinitas possibilidades para ele, que está a desenvolver um produto e pretende colocá-lo no mercado. Ah pois é! Agora, ainda não decidi se o obrigo a prostituir-se em troca da minha influência. E esta ideia diverte-me tanto...

15.4.11

Homens simples

Os homens que admiro são sempre homens simples. Ao fim destes anos todos chego a esta conclusão sem me importar minimamente com o que esta constatação diz de mim. Consigo enumerar vários exemplos, um é o Berto Gordo de quem já falei, outro é o Eduardo, o marido da minha prima, um tipo que pouco estudou e que começou a trabalhar adolescente numa tecelagem no turno da noite. Durante o dia tinha outro emprego, entregava produtos químicos a várias empresas, andava a tarde toda na carrinha às voltas. Mais tarde, já casado, a tecelagem fechou e a mulher, secretária de direcção (licenciada, tenho de o dizer) num dos hipermercados daqui da terra, arranjou-lhe emprego no talho do tal hipermercado. No outro dia atendeu-me, e fiquei maravilhada com ele. Sempre foi simpático e meigo, mas atendeu-me com tal desenvoltura e confiança que me espantou. Fiquei por perto a vigiar como é que ele atendia as outras pessoas, sim que eu sou prima dele, e a mesma coisa. Um tipo que nunca antes tinha cortado carnes na vida aprendeu a fatiar bifes, a desossar perus e a golpear cabritos com um empenho e brio que me fizeram acreditar ainda mais nesta ideia  que tenho mas que às vezes se esconde nas teias do esquecimento, que um homem, quando quer aprende qualquer ofício e consegue ser bom naquilo que faz, seja lá o que isso for. E se esse homem tiver grandeza de espírito para se agarrar a cortar carnes (ou a cortar madeira, ou a varrer o chão) sem qualquer preconceito, e se for simpático e agradável, torna-se num profissional de primeira. Não me admiraria ver a fotografia dele ao lado do anúncio do funcionário do mês. Há anos atrás toda a gente estranhou a escolha da minha prima, uma rapariga licenciada casar-se com um simplório daqueles? Ela é que a sabe toda, além do físico que ele não é feio, longe disso, ela viu-lhe a meiguice, a simpatia e acima de tudo, viu-lhe o carácter. Fez ela muito bem.

12.4.11

Cristal

Não bebo vinho todos os dias mas quando me apetece uso os copos de cristal. Herdei-os da minha tia, são magníficos, com uns desenhos gravados, são copos antigos. A minha tia tinha um enxoval cheio de coisas boas, copos de cristal, serviços de chá e de café em porcelana chinesa verdadeira, daquela que tem um selo no fundo das chávenas, um desenho em relevo que só se vê quando se vira o fundo para a luz, toalhas e lençóis de renda e linho, mas a desgraçada nunca usou nada. Viveu sempre na expectativa de vir a ter a sua casa quando saísse da casa dos senhores em Lisboa. Juntou coisas a vida toda, comprou, comprou, comprou, e depois quando os senhores morreram já estava velha demais para ter casa e viver sozinha. Escolheu uma pequena parte de tudo o que tinha e foi para a Ordem de S. Francisco. Deu-me a escolher entre aquilo tudo o que lhe sobrou e eu escolhi os copos de cristal, três toalhas de linho e um serviço de café chinês, azul e branco. Mas decidi não guardar nada, uso tudo, não quero chegar a velha e tudo o que tenho ser novo. Decidi também nessa altura que ia usar os melhores lençóis na minha cama, para quê guardá-los? Quando me casei a minha mãe mostrou-me lençóis do seu enxoval que nunca tinha usado e lembro-te de ter pensado que era um grande disparate. Vivemos a vida guardando as coisas melhores dentro de armários e baús porquê? Na expectativa de um grande acontecimento que justifique sujar as toalhas de linho e os copos de cristal? Que tristeza chegar a velha e verificar que tal acontecimento nunca aconteceu, por isso decidi que a vida me acontece todos os dias.

11.4.11

O gordo

O Berto Gordo foi sempre gordo, desde pequeno, e nunca foi um rapaz bonito. Mas o Berto Gordo arranjou namorada e casou-se. Tem um filho adolescente que é sobre-dotado, frequenta uma escola de música desde muito pequenino, não tenho a certeza que instrumento o miúdo toca, e canta maravilhosamente. O filho do Berto Gordo não é gordo, e é um rapaz bonito. O Berto Gordo ainda é gordo, está igual, mal ajeitado e balofo. Mas o Berto é um homem respeitado por todos, é prestável e simpático, é homem de palavra, trabalhador e membro activo da comunidade. É escuteiro e faz parte da comissão de festas da freguesia. Canta no coro da igreja, ao lado do seu rapaz. Imagino-o carinhoso com a esposa, só porque vejo alegria nos olhos e nas maneiras daquela mulher. Imagino o Berto gordo a comer desalmadamente à mesa, um prato cheio a seguir ao outro, e no fim um elogio rasgado aos dotes culinários da esposa. Imagino o Berto gordo a deixar ocasionalmente a tampa da sanita levantada mas imagino-o também a barbear-se religiosamente e a tomar o seu duche antes de se deitar ao lado da mulher. Imagino a mulher do Berto gordo a virar-se para ele a sorrir-lhe por sentir o cheiro a fresco e a lavado. Imagino-os a fazer amor.

8.4.11

Carne

A carne que te alimenta o animal não passa de pó que à mínima brisa se espalha e desaparece no ar, o sangue que te ferve nas veias não passa de água que ao mais ténue raio de luz se evapora na pele. Deixa, dorme, respira, nada te fica, nada te marca, é impossível destruir o que está desfeito.

5.4.11

Chato

A cena chata é que apetecem uns braços para nos abraçar e só se imaginam aqueles braços. E apetecem uns lábios para nos beijar e só se visualizam aqueles lábios. É chato. Há montes de braços e há montes de lábios, mas são aqueles, aqueles que se querem. Sim, aqueles que não se tem. Os outros ali à mãozinha de semear e nós, nada. É chato.

29.3.11

Waste

É a segunda vez que sou deitada fora, ao lixo. Como um objecto que não tem utilidade, que não serve para nada e que ocupa um lugar que não possui pois esse lugar pertence a outro. Então resta só livrar-se desse objecto. Da primeira vez, esse espaço era dele, apenas dele e do seu ego. Eu, de nada servia, e o meu amor foi comigo para o caixote do lixo. Agora, o espaço é dela, e ele, não se desfaz dela, porque ela está lá há mais tempo, mas o meu amor não vai para o lixo, ao invés é cuidadosamente colocado na recliclagem e periodicamente é aproveitado, mas nunca todo, só uma parte, a que interessa, a melhor, a mais refinada. Ainda assim, não passo de desperdício, não importam os detalhes, não importam as razões nem os motivos, o desperdício sou eu.

25.3.11

Choque

Estão a cortar árvores no jardim do centro da cidade, as árvores que desde que me lembro dão sombra aos bancos do jardim. Está tudo de pernas para o ar há meses, mas cortar as árvores? Não me habituo à ideia de cortar árvores adultas. Há coisas que por mais que se tornem banais não consigo habituar-me a elas. Como cortar árvores. Ou destruir livros. Não consigo.

24.3.11

Moda

Ok, ok, ok, entrou agora aqui uma colega com duas bolsas e uma carteira, ou porta-moedas ou lá como é que se chama, que fez para um dos clientes dela para nos mostrar e perguntar se queremos encomendar à fábrica que vai produzir a encomenda para o cliente. É prática corrente aqui no escritório, quando as produções são feitas cá, cada uma que se desunhe e compre à fábrica se quiser algum modelo, afinal todas nós conhecemos as fábricas todas, mas quando as encomendas são feitas na China, Tunísia ou Índia, e especialmente acessórios como sapatos, malas e carteiras, ou então peças de malha em caxemira, as colegas que seguem essas produções, no momento em que passam as encomendas às fábricas, mostram o artigo às outras colegas e passam também uma encomenda "pessoal" para a malta do escritório. Pois bem, chegou aqui a colega a mostrar as bolsas, são engraçadas até, e tomou nota dos pedidos. Uma disse que eram giras mas que não faziam o género dela, outra disse logo que não queria e outra achou gira uma bolsa fushia com aplicação de leopardo e uma cena dourada enorme ao meio. É gira para sair à noite, levou logo uma gargalhada geral, e por acaso tu até sais muito à noite, pois sais, e tu, virando-se a colega para mim, não queres nada? Eu? Na, eu, para sair à noite, prefiro foder os setenta euros em vodka.

23.3.11

Não precisa de título

Esta história da universidade, podia ter sido outra coisa qualquer, porque pensar é coisa que me acontece frequentemente, fez-me pensar. E penso na minha vida, onde estou e para onde vou. Ainda não sei assim muito bem. Penso no que foi a minha vida desde que me conheço adulta e comparo com o que vivi nos últimos meses. Penso no meu percurso profissional e no que espero ainda alcançar. Penso nos meus filhos e na marca que gostaria de lhes deixar. Penso essencialmente em mim. Sou tão exigente, tão rigorosa em determinados aspectos e tão desleixada noutros. Gosto de pensar que valorizo muito mais aquilo que importa e o que considero superficial é tratado simplesmente assim, como superficial, sem direito a grande tempo ou esforço, mas este balanço é somente o meu. Aprendi a perdoar e hoje sei que é dos estados mais libertadores que podemos atingir. Há alguns anos achava que nunca perdoaria determinadas atitudes, mas isso só significa agarrarmo-nos a coisas más, e quem se agarra a coisas más fica mau, fica azedo. Quando perdoamos os outros libertamo-nos de nós mesmos, e quem nos olha com desdém porque somos parvos ou fracos é aos nossos olhos apenas mesquinho. Avançamos, deixamos o que nos faz mal para trás e às vezes pessoas também, mas percebemos que não precisamos delas para nada. Nem para nos sentirmos fortes, nem para sermos felizes. Para sermos felizes temos de perdoar a nós próprios, mas isso, ainda não aprendi.

22.3.11

Para começar

Para começar a pensar no assunto acho que um curso de Português, ou de Literatura Portuguesa seria bom. Podia ser também de Inglês, ou isto tudo junto. E já vi que existe um, em horário pós-laboral, que se chama assim:

Licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias
variante bilingue major Português
minor Inglês, Alemão, Francês ou Espanhol

Sou gaja para ir pelo Inglês por não constituir motivo para qualquer preocupação, ou pelo Francês, pelo desafio de aprofundar uma língua que utilizo diariamente numa base comercial, mas que considero deliciosa. Vou pensar.

18.3.11

E agora?

Estou um bocadinho triste, acabaram as minhas aulas. Afinal já frequentei mais aulas do que necessário. Confusões com o meu registo escolar que quase que tive de resolver à estalada, mas ficou tudo definido e perceberam que já está. Mas estava a gostar. Resta-me completar um port-folio absolutamente inútil. Agora penso no que fazer a seguir. Universidade? Talvez. E o quê? Difícil.

17.3.11

Começar bem o dia

Comecei o dia de trabalho hoje com um comentário que, francamente, não poderia nunca ser proferido por um homem sem ser considerado ordinário mas foi a C., a nossa C., a caçula aqui do people do escritório. Então a C. quando me viu hoje a entrar no escritório, ainda nem sequer tinha tido tempo para tirar os óculos de sol, sai-se-me com isto:

Eu: Bom dia.
Ela: Bom dia. Ui, sabes o que tu pareces hoje?
Eu: Não, o quê?
Ela: Pareces uma daquelas gajas dos filmes, que por baixo do casaco apertado só têm uma lingerie sexy e depois abrem o casaco e uau, arrasam.
(depois de termos conseguido parar de rir)
Eu: Oh C., foda-se pá, tu não bates bem, mas gostei da ideia.
Ela: É dos saltos altos, e do casaco assim apertado com um nó, fica-te bem.

Há melhor? Não há.

16.3.11

Ena!

E eis que me chega esta manhã às mãos um novo dossier, anunciado há duas semanas pelo meu patrão. Um velho amigo seu, disse-me, voltou e quer imperativamente tê-la a si. E cá está, o tipo que me pôs a cabeça em água há uns anos atrás e que depois de uma violenta discussão que me fez gritar o mais alto que consegui ao telefone e de seguida lho desligar nas trombas, foi remédio santo, ficamos grandes amigos, voltou, com uma nova marca de roupa, um projecto muito engraçado, com muito potencial. E ao descobrir os modelos, as matérias-primas, o conceito, dou comigo a sentir a adrenalina nas veias. Já não era sem tempo.

15.3.11

Coragem

No fim-de-semana tive vários momentos em que pensei: e se fumasses um cigarro agora? Estás sozinha e nunca ninguém saberia. Vais ao carro e pegas nos cigarros, é fácil. Ninguém sabe. E se fosses? Mas não fui. Ontem à noite tive a mesma ideia, e também não fui. O facto é que não tenho coragem. Desde que deixei de fumar há seis meses que mantenho um maço de cigarros num compartimento do carro. E desde aí que tenho vontade de fumar, todos os dias, várias vezes por dia, mas ontem percebi que chegada a este ponto, não fumo simplesmente porque não tenho coragem de fazer o caminho de volta. Um cigarro à noite, outro na noite seguinte. Em menos de nada estaria outra vez a derreter o maço diário. Não tenho coragem. Sou fraca.

14.3.11

Lógica

Ontem, ao almoço, à mesa:

Ele: Sabes mãe, quando eu era pequenino achava que o sal vinha do mar.
Eu: E vem filho, o sal vem do mar.
Ele: Eu sei, vem a água do mar, fica presa naquelas coisas...
Eu: Nas salinas...
Ele: Isso, nas salinas, evapora-se e fica o sal. Mas também achava que o acúcar vinha do rio.
Eu: Do rio?
Ele: Sim, (já a rir-se) a água do rio não é água doce?

(Choramos a rir)

Retenção

Enquanto estive a viver em casa dos meus pais experimentei um sentimento que não posso descrever como ciúme porque não sei se é ciúme. Foi a primeira vez que senti e acho que nunca tinha sentido ciúme antes. Chateava-me ter de partilhar constantemente os meus filhos, nunca estavam só comigo, havia sempre mais alguém. Nem à noite, ao deitar eu sossegava porque se eu estava com um deles, a minha mãe estava com o outro. Isto tudo misturado com o sentimento de gratidão e um profundo amor que sinto pelos meus pais causou-me bastante mau estar. Como posso eu ser assim quando se aqui estou é porque assim o quis e quando tenho todo o apoio dos meus pais e toda a generosidade e sacrifício da minha mãe, todo a segurança trazida pelo meu pai, como posso ser eu assim? Verbalizo pela primeira vez este meu podre, pois consegui encontrar ainda um outro. Agora que estou já em minha casa, com os meus filhos dou comigo a fazer retenção. Dou comigo a passar o fim-de-semana com eles sem vontade nenhuma de participar nos almoços de domingo. Não fui. Passei o dia com eles e eles foram só meus. Só para mim. À noite, pesou-me a consciência e telefonei aos meus pais, os miúdos falaram com eles e eu também. Verifiquei que o ciúme deu origem a outro podre. Sou um cesto de maçãs. A primeira já deu cabo da segunda e se não me livro delas rapidamente apodrecem todas. Mau, muito mau.

11.3.11

Genética

Às vezes penso, e se esta merda se sabe? Se alguém descobre e me chiba? O que pensarão os meus pais? O que pensarão os meus filhos? Acredito que será sempre mais fácil explicar aos meus filhos pois ainda não percebem o que é a vida destilada de emoções. Digo-lhes que o amo e pronto, eles aceitam. Por hora. Aos outros seria muito mais difícil e doloroso. A minha mãe morreria de desgosto, mulher crente, temerosa de Deus e profundamente religiosa. Desgosto. Nem quero pensar. O meu pai, não sei, o meu pai. Pois. Pensando bem no meu pai, a irmã mais velha só se casou com o pai do filho já parido e criado quando engravidou do segundo. Outra irmã, a única cuja história desconheço, foi "obrigada" a casar com um senhor viúvo cheio de filhos pequenos porque já estava a fazer asneiras a mais, a outra engravidou e pariu um filho que abandonou ao encargo da avó aos dezasseis anos, e desandou para Lisboa com os patrões, e um dos irmãos tendo emigrado para França nos anos sessenta, conheceu uma espanhola quente e quinze anos mais velha do que ele e nunca mais apareceu à mulher que cá tinha deixado, voltou vinte anos depois com a espanhola que nós sobrinhos conhecemos como mulher dele até já sermos adultos e descobrirmos a aventura do nosso tio. Casou-se com a espanhola um ano antes de morrer. A espanhola, a minha tia, ficou connosco até morrer. Perante isto, sinto-me tentada a pensar que esta merda só tinha era de acontecer, esta merda está-me no sangue. Com uma família assim, a puta da avaria genética tinha de calhar a alguém. Foi a mim. Olé!

9.3.11

A namorada

Ontem conheci a namorada do meu ex-marido. Já a tinha visto antes, entreguei-lhe os miúdos um dia em que o pai não conseguiu regressar a Portugal no voo previsto, acho que por altura dos fumos do vulcão que perturbaram os percursos aéreos em toda a Europa, e o pai iria chegar mais tarde e pediu-me para entregar os miúdos à namorada que os levaria para um almoço qualquer. Achei-a simpática. Ontem falamos um pouco, mais uma vez, o pai de viagem e ela prontificou-se para os levar com os filhos dela para verem um desfile de Carnaval numa aldeia onde os pais dela têm casa. Levei-os até casa dela e ficamos à conversa. É uma mulher despachada, simples, inteligente e simpática. É bonita mas não é sofisticada. Gosto dela. Já gostava antes, porque os meus filhos gostam muito dela e dos filhos dela também. Gostam de estar em casa dela e os relatos são sempre muito alegres e entusiásticos. Trata-os bem sem no entanto ser demasiado permissiva nem a amigalhaça que os deixa fazer tudo. Disse-me que há regras em casa dela e que faz questão que sejam respeitadas, o que me agradou muito ouvir. As minhas amigas que já a conhecem tinham-me dito que é uma tipa porreira, sem merdas, assim como nós. Ontem pude comprovar que é mesmo. Disse-me também, na cara, que gostaria que eu a visse como uma amiga dos meus filhos e como minha amiga também. Respondi-lhe que sentia que sim, que era amiga dos meus filhos, que eles gostam muito dela e que isso me deixa muito contente. Não respondi à parte de ser minha amiga, acho que não faz muito sentido, mas acredito que é uma mulher que poderia perfeitamente sê-lo. Sem merdas.

7.3.11

Uma mulher séria

O que é uma mulher séria? Vi há pouco esta expressão num blog que costumo ler. Lá onde a li dizia que uma mulher séria não diz asneiras, não apanha uma bebedeira, não vê filmes pornográficos, não dorme com estranhos. Será? O que é que faz duma mulher realmente séria?

4.3.11

Larguezas

A sensação das putas das calças a ficarem largas no rabo é excelente, já sentir o soutien a dançar é mais fodido. Já vão as mamas para o caralho outra vez. Foram dois abaixo.

3.3.11

Gás

É só mesmo para dizer que o meu fogão é um Porsche. Não, não é um Porsche porque não custou nenhuma fortuna, mas dá um gás... um luxo. É uma maravilha, e um fogão em condições é meio caminho andando para bons pratos e barriguinhas cheias e consoladas. E pronto, só queria dizer mesmo isto. Há quem venha falar de roupa ou sapatos, eu falo do meu fogão. Até aqui era a banheira, agora é o fogão, e depois? Há crise?

1.3.11

Sucesso

Vou falar outra vez do Facebook e do grupo da minha escola. Não resisto. Há um tipo que foi da minha turma, era muito popular, senão o mais popular da escola. Era giro, engraçado, destemido, tudo o que um rapaz na adolescência quer ser e só muito poucos são. Além disso era simpático e falava com toda a gente, mesmo com quem não era popular como ele. De vez em quando cruzo-me com ele, ora na rua, de carro, ora no super mercado, cumprimenta-me sempre, e já o vi inclusivamente num concerto em Lisboa, grande coincidência. Mas de há uns anos para cá vejo-o triste e apagado. Houve um dia até, em que o encontrei e quando me viu sorriu e vi naquele sorriso uma característica que me era tão familiar. Vi um sorriso de socorro, de alguém que não se sentindo bem, a lembrança que eu lhe trazia, dos tempos de escola em que a vida lhe corria bem, em que era feliz, o fez sorrir como que a pedir, salva-me, tu que conheces o tempo em que eu era feliz, leva-me de novo para lá. Eu conhecia esse sorriso, era também o meu às vezes. Muitas vezes. O Facebook... pois. Vejo as fotografias dele naquele tempo e a expressão é aquela de que me lembro, a jovialidade, a irreverência e sempre aquele sorriso aberto de quem é feliz. E também no Facebook, vejo as fotografias dele hoje, tão diferentes das do antigamente, vejo-o triste, o olhar apagado, sinto sofrimento naquele rosto. Sei que vive cá na terra, sei que é casado, que tem filhos pequenos, mais novos que os meus. E sei também que não é feliz.

28.2.11

Comida

Estou exausta. Os miúdos voltaram definitivamente a casa. Pareciam loucos. Ai que saudades mãe, a casa está tão bonita mãe. Nem sabiam o que fazer, para que lado se virarem. Jogaram à bola no jardim, ficaram como ferreiros, todos suados, cheios de relva e de terra. Depois do duche, viram a varanda toda arrumada com os brinquedos todos em ordem, e ao abrir as gavetas e percorrer as estantes, ei, que saudades deste carro, que saudades deste jogo, já nem me lembrava. Depois os dvd's, olha este filme, que saudades, podemos ver? Podemos. E o que vamos jantar? Não sei, o que acham? Vamos às compras e decidimos o que vamos comer? Ena, vamos. Fomos. Escolheram picanha. Seja. Chegamos a casa e trinta minutos depois, eles ajudaram,  estávamos a jantar. Depois de tudo arrumado e limpo, eles ajudaram, fomos ao circo. Muito bom. No dia seguinte, o almoço foi comprado porque fomos à missa e não dava tempo, mas o jantar, a velha história. Mãe, o que vamos jantar? Não sei, o que acham? Pizza! Hum... não sei... comida de plástico? Sim mãe, não há problema, pizza mas da que tu fazes, nós ajudamos-te. Seja, vamos às compras e fazemos pizza. Fizemos, todos, uma algazarra total, a loucura, adoramos ver-te cozinhar mãe.
(Nunca conseguirei dissociar a ideia de família e união, da comida, da preparação das refeições e das refeições Pelo menos na minha, está tudo íntima e fortemente ligado)

25.2.11

Descubra as diferenças

Através de uma amiga de escola descubro no Facebook o grupo da nossa escola e delicio-me a ver as fotografias da malta naquela altura. Percorro os perfis e há os que reconheço imediatamente e os que se se sentassem ao meu lado no cinema ou no café não passariam de mais um desconhecido. E divertida, vou andando e vendo, rindo com as fotos dos jogos de futebol, festas e passeios. Até que me deparo com uma fotografia de um passeio e piquenique, e temos lá escarrapachados os comentários dos que lá aparecem. E o que me chamou a atenção foram os comentários de um casal, do meu tempo, da minha idade. Eles começaram a namorar lá na escola, recordo-me perfeitamente dela chegar à escola e dele ter ficado deslumbrado com ela, a ponto de nunca mais a ter largado, a ponto de ter conseguido que ela deixasse o namorado que tinha e ter casado com ele. É aquele tipo de casal que no Facebook tem as fotografias das férias, com os dois filhos ao pé da piscina, a família perfeita, os comentários dos amigos, ai que lindos, ai que apaixonados, ai os meninos que engraçados, e por aí fora. E na puta da foto do passeio, bato com os olhos no comentário dele, este dia mudou a minha vida, foi neste dia que comecei a namorar com a mulher que está comigo hoje. E o comentário dela, foi neste dia que comecei a namorar com o meu marido lindo, graças a este dia tenho agora dois filhos lindos. Sou só eu que vejo aqui uma diferença? Sou?

23.2.11

Tiny little things

No segundo em que me sentei na cadeira pensei de mim para mim: mas que bom que é estar sentada a apanhar Sol numa esplanada e dou-me conta que um prazer tão fácil e simples me passa tanto ao lado. Triste não é não conseguir fazer coisas difíceis, triste é não conseguir fazer coisas fáceis.

Ciúme #1

Há meses que não escrevo sobre os meus filhos, porque durante estes meses fora de casa e a partilhá-los com os meus pais experienciei um sentimento detestável cuja origem começo a identificar mas que ainda não consegui digerir. Abro-lhe a porta apenas, a este sentimento, não ouso deixá-lo sair, ainda é cedo.

Puzzle

E à medida que tudo em minha casa começa a voltar ao devido lugar, à mistura com algumas coisas novas que naturalmente encontraram também o seu lugar, dentro de mim, tudo começa a desmoronar.

22.2.11

Dona Rosa

Dona Rosa enviuvou aos cinquenta e cinco anos. Dona Rosa, muito senhora do seu nariz resolve casar-se com o Senhor Antunes, senhor muito respeitável, de boa apresentação, asseado e educado, cristão católico e praticante, uma boa reforma, enfim, tudo o que se pretende encontrar num marido ideal para combater a solidão dos anos dourados da vida de uma pessoa. Pois casam-se Dona Rosa e o Senhor Antunes, e dos cinco filhos de Dona Rosa, três zangam-se. O Senhor Antunes não teve filhos com a sua falecida esposa. As duas filhas que se conformaram o segundo casamento da mãe estão hoje perante um grande problema nas suas vidas. Passaram-se vinte anos desde que a mãe se casou. Ouvem-na agora queixar-se que não consegue aturar o Senhor Antunes, que é um chato e que não pode mais. O Senhor Antunes, coitado, confessa que Dona Rosa, hipocondríaca de primeira linha, mimada e caprichosa, lhe dá cabo do juízo. Estão velhos, Dona Rosa e Senhor Antunes, já não deviam estar sós. E as filhas? Não se chegam? A mais nova entende que a mais velha, que já não trabalha terá mais disponibilidade para tomar conta dos velhotes. A mais velha reclama que se fosse só a mãe a levaria para sua casa, mas o padrasto... isso não, tem a filha já casada a viver noutra cidade, desvia-se do problema e vai passar longas temporadas em casa da filha. A mais nova, vive num apartamento no oitavo andar, os velhotes não querem ir para lá. Dizem as más línguas, Dona Rosa, muito senhora do seu nariz, casou-se sem precisar da licença de ninguém, não escutou ninguém, agora que está doente e farta do marido, que se desunhe. Dona Rosa nunca cultivou o afecto dos filhos, nunca esteve disponível para ajudar fosse no que fosse, sempre independente e senhora do seu nariz. Sempre com a língua afiada, nunca murmurou um mimo, nem aos filhos, nem aos netos. Dona Rosa colhe agora o que ao longo da vida semeou, não espere carinho quem nunca acarinhou.

14.2.11

Foi você que pediu?

The real thing, é a minha.






(esta noite já durmo chez moi)

13.2.11

Nem acredito

Os móveis estão todos dentro de casa, à excepção das camas dos putos, que estão todas fodidas e vão dar lenha e lugar a um beliche, os putos estão contentíssimos com a ideia, da minha cama que vai ser forrada, e de um armário e uma cómoda que vão ser restaurados. Ontem levei uma coça monumental a limpar todos os restantes móveis enquanto os homens iam buscar a próxima carga ao armazém. À noite doía-me tudo, mas pior, doía-me a perna defeituosa. Há quase um ano que não sentia aquela dor. Vou acreditar que foi do esforço, prefiro acreditar nisso. Adiante. Agora que os móveis estão no sítio é preciso tratar do resto, por isso programei tirar a semana. Sim, férias, mas a trabalhar chez moi. Vou fechar-me em casa e só saio quando tiver terminado (as aulas não contam, claro que não vou faltar). Vim agora ao escritório organizar uns assuntos para a minha colega dar seguimento durante a semana e desapareço do mapa durante uma semana. Quando aparecer espero já estar a morar de novo lá em casa. Ufa, já não é sem tempo. Nem acredito.

10.2.11

Abuso

Mas ele tratava-te mal? Perguntaram-me acerca do meu ex-marido. Se por tratar mal entenderes que me batia, que me insultava, que me impedia de fazer o que eu queria, fosse isso sair ou ficar em casa ou que me proibia de falar com alguém, ou que não me desejava sexualmente, ou que me achava uma má mãe, não, nunca me tratou mal. Mas, se por tratar mal entenderes que me fazia sentir que eu não era suficientemente boa para ele, ou que me dizia que tudo o que eu fazia, se tivesse sido feito por ele teria sido feito muito melhor, ou que porque eu gosto de cinema e conheço os realizadores e os actores me fazia sentir fútil, ou que eu era uma burra e ele só estava comigo porque lhe convinha, ou porque profissionalmente me considerava menor porque não tenho um curso superior apesar do meu salário que não é nada mau ter o seu peso no orçamento familiar, ou porque me desiludiu muito ao longo dos doze anos que estivemos casados sobretudo porque todos os dias me fazia sentir que os meus sentimentos para ele eram merda e o que ele achava é que estava certo e nada do que eu dissesse ou fizesse era levado em conta, sim, tratou-me muito mal. E eu deixei, depois disse basta e a seguir divorciei-me. Haverá talvez mulheres para quem tudo aquilo que eu considero faltas de respeito para comigo não constitua problema algum. Haverá talvez mulheres para quem nem mesmo uns tabefes nas trombas constitua motivo válido para um divórcio. Deixem-se estar. Eu aprendi muito cedo, se bem que não muito cedo o apliquei, que quem não está bem, põe-se. Eu pus-me.

9.2.11

Bulldozer

Não é frequente mas há momentos na minha vida em que sou tomada pelo espírito bulldozer. Como quando contra tudo e contra todos fui sozinha para Lisboa, à base do Lumiar fazer testes para a Força Aérea. Ou como quando decidi que o meu casamento não continuaria nem mais um minuto e sabia perfeitamente que o mundo iria desabar mas não me preocupava nadinha com isso. Esses momentos sao extraordinários. São momentos em que tenho a certeza absoluta daquilo que quero e o resto do mundo que se foda. Nesses momentos, como um bulldozer, levo tudo à minha frente. E levo mesmo, a força vem-me não sei bem de onde e sinto-a percorrer-me o corpo como se fosse uma droga potentíssima que me transforma numa máquina gigante trabalhando arduamente para atingir o seu objectivo. Depois, há os que me acompanham e há os que ficam para trás.

7.2.11

Consumições

1. Separar o que vai para o lixo e o que fica, limpar e arrumar de volta para o lugar, ou não, pode muito bem ir parar a outro sítio, depende. mas interessa mesmo é desimpedir a passagem para que no próximo sabado, se não chover, os móveis possam regressar a casa. Esta semana, à noite, tirando quarta e quinta-feira que tenho aulas, vou alombar com a limpeza das merdas (não foram muitas, vá... mas algumas) que lá ficaram em casa durante as obras, tapadinhas mas que ficaram cheias de pó na mesma, e que estão amontoadas na varanda das traseiras.

2. Começar a dieta (amanhã, isto vai ser lindo, vai) para perder os 6 quilos que desde Setembro, uniformemente se me agarraram ao rabo, coxas e mamas mas fico lixada porque se me incomoda o volume a mais que me impede de entrar em todos os pares de calçar que tenho menos um, nas mamas até nem me importava que ficasse um quilito, metade em cada uma, mas enfim, começo a dieta e lá se vão as mamas. Mas tem lógica, não fumo logo tenho mais apetite; mais apetite, mais comida; mais comida, não entro nas calças; não entro nas calças, faço dieta; faço dieta, fico sem mamas. Deixo de fumar, fico sem mamas, tem lógica.

3. Chatear a cabeça ao homem das cozinhas porque estão lá os móveis mas faltam as pedras que vão por cima e aquilo tem de ficar feito esta semana, mais precisamente na próxima quarta-feira conforme me prometeu, porque quero que os homens das limpezas tratem de vida na sexta-feira e se o gajo falha estraga-me o esquema todo. Sábado voltam os móveis. Ah, já tinha dito isto.

4. Fazer de polícia no escritório para que as peças que tenho de enviar o mais tardar na sexta-feira não falhem pois na segunda-feira começa uma feira e o meu cliente quer apresentar a colecção de Inverno 2011/12, e já vai um bocado tarde porque os outros cliente todos já estão a desenvolver a colecção de Verão 2012. É que na próxima semana vou estar de férias descansadinha, a trabalhar que nem uma mula lá em casa a colocar tudo no devido lugar, e não quero estar a ser incomodada com chamadas do cliente furioso porque lhe faltam modelos na feira.

5. O puto mais velho começa a época de testes hoje. Tenho de estar atenta a ver se o gajo estuda, e se estuda como deve ser. Normalmente é mais de uma semana.

6. O carro está a fazer um barulho estranho, não percebo nada de carros, mas aquele ruido não é normal, tenho de o levar à oficina antes que avarie.

(não sei se dou conta desta merda toda, a sério)

3.2.11

Bad Girl

Não custará nenhuma fortuna comprar um bilhete de avião, reservar hotel para uma ou duas noites e alugar um bicho destes e arrancar em direcção aquela auto-estrada alemã onde não há limite de velocidade, pois não?

Bad boy






De todos as figuras másculas que, como a qualquer adolescente, me fizeram sonhar, esta tem ainda hoje um efeito algo perturbador em mim. Sempre teve ar de "bad boy", mas o timbre da voz e o olhar contradizem o corpo musculado e a atitude firme que independentemente dos personagens, sempre lhe vi. Os anos passam e o efeito permanece, a voz continua segura, calma e quente, e o olhar doce e sereno. Este senhor, para quem não conhece, é actor da TV Globo e chama-se Humberto Martins.

27.1.11

Areia



Não. Não guardo rancor de ninguém, apesar de já me terem feito mal. Não guardo rancor porque não gosto. É como quando tenho areia no sapato, incomoda e chateia, e torna impossível esquecermo-nos dela lá dentro. Não dou meia dúzia de passos sem parar tirar o sapato e a sacudir para poder andar sem incómodo. É assim o rancor, apodera-se de nós, não o conseguimos esquecer e condiciona-nos os movimentos, transforma-nos. Sem percebermos somos amargos e vingativos. É melhor sacudir e deixar para trás. Caminhamos sempre melhor sem areia dentro do sapato.

25.1.11

Tinta

Tenho uma vontade medonha de te escrever cartas de amor, à antiga, de escrever com caneta e derramar toda a tristeza na tinta preta desenhando na alvura do papel os contornos do meu amor, de transformar em palavras todos os sentimento que me prendem e me escorraçam de ti, de te abrir as entranhas e mostrar-te toda a podridão que me definha, de aliviar este peso que me esmaga o peito e me impede de respirar, mas não sei a tua morada, mesmo que as escreva, não sei para onde as mandar.

Não sou vítima

24.1.11

Zen

Não ando em mim ultimamente. É um pensamento altamente reconfortante pois este não ando em mim dá-me pano para mangas. Como não ando em mim, não posso ser responsabilizada pelos meus actos. Ou pela falta deles, e aqui, nesta falta de acção, é que reside o grande problema. Em condições normais, eu já teria feito qualquer coisa, já teria tomado uma decisão, como já fiz antes, mas não. Deixo-me estar, deixo-me andar. Ele telefona-me e eu atendo, ele manda-me mensagens e eu respondo. Diz-me que me ama e eu acredito. Estou apenas a uns milímetros de me tornar oficialmente amante de um homem casado. E nada, estou meia burra, ou melhor estou completamente burra. Isto vai contra tudo o que eu acho certo, no entanto nada faço para parar. Eu devia era parar de tomar os filhos da puta dos comprimidos que me emburreceram, era o que eu devia fazer. O médico diz-me que estou deprimida, que tenho de tomar anti-depressivos, e eu tomo. E eu atendo, e eu respondo, e eu acredito. Depois pergunto-me, onde, quando, como, o que foi que me destruiu? Em que momento quebrei? O que me vergou? O amor ou o anti-depressivo? Burra.

21.1.11

Acordares

Primeiro veio o maior, já de casaco vestido e mochila às costas, trepou para a cama e deu-me um beijo bem no meio da bochecha acordando-me, então mãe, estás melhor das costas? hum... que bem que me soube aquele beijo, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-te estar deitada mais um bocadinho, eu já vou para a escola, até logo. Depois senti o pequeno, ainda em pijama, a deslizar para debaixo da roupa, abraçou-me e deixou-se estar, agarrado a mim, mãe, já acordaste? estás melhor? hum... que bem que me soube aquele abraço, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-me ficar aqui um bocadinho ao pé de ti, a avó vai ter de me procurar, não lhe digas que estou aqui, esconde-me, e ficou aninhado no meu colo, no quentinho do ninho da mãe. Quais dores nas costas quais quê? O mimo dos filhos cura tudo.

19.1.11

Identidade

Nunca compreendi o que leva algumas mulheres a mudarem de nome quando casam. Porque é que metem lá o nome dos homems com quem se casam? Porquê? O que é que muda por mudarem de nome? Procurava não há muito duas primas minhas no Facebook e acabei por encontra-las só depois de ter encontrado o marido de uma delas. E porque não as encontrava eu? Porque as meninas já não dão pelo nome de baptismo mas antes pelo nome dos maridos. Fez-me impressão. Eu casei-me e não mudei de nome. Não deixei de ser quem era por me casar, nem passei a ser de alguém por me casar. Também não sei o que pensar dos homens que apreciam que as esposas lhes adquiram o nome. Sentimento de posse? Será? As mulheres que mudam de nome quando se casam fazem-me sempre pensar que de alguma forma se anulam porque parece que só com o nome do marido existem. Por exemplo, a minha sogra (será ex-sogra? dizem que não, que as sogras serão sempre sogras) tem o nome do marido, médico reconhecido na sua área de especialidade, e quando a senhora diz o nome imediatamente se sabe que é a esposa do senhor doutor. Quando a minha prima diz o nome, também se sabe que é a esposa do senhor doutor (este é advogado). Não estão estas mulheres a admitir que sem este nome ninguém as conhece, ninguém sabe quem são, e por conseguinte não existem?

Lastro

Às vezes penso nas pessoas a quem perdi o rasto ao longo da vida. E tenho pena de as ter perdido pelo caminho. Hoje pensei em algumas pessoas com as quais não tenho contacto e que até nem me importaria de o ter mantido. Não é bem a mesma coisa, há pessoas que nos fazem bem, que puxam por nós enquanto indivíduos e que nos trazem naturalmente coisas boas, ou porque são boas ou porque fazem vir ao de cima coisas boas em nós e não é dessas que falo, falo das outras, daquelas que não são propriamente aquelas com quem mais nos identificamos mas cuja companhia é agradável e com quem o convívio é positivo. Mas, nesta fase da minha vida conviver com essas pessoas requereria um esforço da minha parte, a ligação que havia deixou de existir e apesar de ser possível retomar a relação que me unia a essas pessoas, ela não é natural. A gestão do meu tempo é já bastante complicada, já não me chega para tudo e as tentativas de aproximação da minha parte seriam motivo de preocupação e stress para mim. Não posso ter mais coisas que me preocupem, que me suguem energia, que me desgastem, simplesmente não aguento. E assim vou perdendo pessoas na minha vida, e mesmo não sendo as pessoas mais importantes acho que é triste. A nossa capacidade de mantermos na nossa vida aqueles de quem gostamos diz muito sobre nós. Neste momento não tenho energia para investir em relações de amizade. Não cultivo novas amizades, vou mantendo as que tenho, felizmente são de betão. E chego à conclusão que não tenho nada para dar. Não tenho amizade, não tenho tempo, não tenho disponibilidade. Estou fechada sobre mim própria, sobre a minha família e o meus poucos amigos. Sou um ovo, o meu mundo é cá dentro confinado ao que sou, ao que conheço e ao que está muito perto, e sem vontade nenhuma de partir este ovo. Que tristeza.

17.1.11

Saldos

Fiquei a saber este fim-de-semana que parece que sendo gaja, tenho de ir aos saldos. Só porque há saldos, como se as promoções fossem por si só, razão mais que válida para se comprar roupa, sapatos, acessórios e o caralho mais velho. Ora, eu vou às compras quando preciso e se não preciso de comprar nada porque raio é que hei-de ir aos saldos? Não percebo.

Strip

Chega um momento em que te deixas de merdas e vais ao fundo ver o que queres. Nesse momento sabes o que verdadeiramente importa e o que tens a certeza absoluta que não queres. Aí vês quem és e do que és capaz. E escolhes.

14.1.11

Puta

Há dias em que tenho a certeza de que preferia prostituir-me do que ter este trabalho. Ao menos vendia o corpo. Aqui, há dias em que vendo a alma. Nojo.

11.1.11

Segredos cabeludos

Do lado da família do meu pai, dos irmãos e irmãs dele, há histórias do arco da velha, disso já eu sei há anos. Há o meu tio que abandonou a mulher e fugiu para França e engatou uma espanhola quinze anos mais velha do que ele e com quem viveu e com quem só se casou um ano antes de morrer, sem nunca mais ter aparecido à esposa, há a minha tia que só se casou quando engravidou do segundo filho, ou a outra tia que teve um filho solteira e toda a vida mentiu sobre o pai da criança, ou ainda a outra tia que por causa duma história embaraçosa, esta ainda não a descobri, foi empurrada para um senhor viúvo com quem se casou e que tinha seis criancinhas pequenas e que a minha tia criou como filhos, a eles e depois aos filhos deles como netos. Conheço estas histórias todas há anos, excepto a da minha tia casada com o senhor viúvo, e todas elas possuidoras de contornos que têm tanto de hilariante como de trágico. Mas ontem descobri uma história fantástica sobre um irmão da minha mãe. Ora deste lado da família não há, não havia até ontem, ponta por onde se lhe pegasse. E esta história bate aos pontos as outras todas, porque ter sabido que o meu tio, irmão mais velho da minha mãe, que só se casou com a mulher quando ela engravidou do segundo filho, onde é que eu já vi isto? e poucos anos depois teve um affair com a irmã mais nova dela, que ainda por cima era freira, não é fazer uma descoberta do caralho, não sei o que será. Estou parva da minha vida.

8.1.11

Raio-X

Retirei o contador, olho para ele e em vez de ver algo destinado a incentivar a continuidade de uma batalha, que contas feitas, se é que se podem fazer, atravesso incólume, nem uma flecha cravada num braço, nem um arranhão na testa, vejo as lanças voarem na minha direcção mas passo-lhes ao lado, estaco diante das espadas erguidas mas depois corro, muito, mesmo muito, tem sido assim, parece que ninguém dá por mim, parece que os guerreiros se concentram em abater os mais fortes e querem lá saber dos mais fracos porque esses, esses não representam perigo, agora olho e vejo um anúncio, como se dissesse olhem para mim que já não fumo há quatro meses e vejam bem o que eu fiz, e sou a maior porque estou a conseguir onde a maioria falha. É isto que vejo. Vejo vaidade, e a vaidade é coisa que abomino. A minha, principalmente.

7.1.11

Relatividade

Quatro meses sem fumar. De alguma forma que não compreendo, assinalar ou contar o tempo deixou de ter a mesma importância. Antes olhava para o "marcador" para me lembrar que estava a vencer uma luta pessoal. Agora olho para o marcador e não lhe encontro utilidade absolutamente nenhuma, mas deixo-o ficar. Não fumo. Mas não é por isso que deixei de ser a pessoa que era. A diferença é apenas esta: eu era uma pessoa que fumava e agora sou uma pessoa que não fuma, O resto, está igual, de há quatro meses para cá. Mais ou menos igual.

5.1.11

Insisto

Já aqui disse, acho que até mais do que uma vez, que gosto de épicos. Agora ainda gosto mais.


4.1.11

Marcas

Ontem tive de tomar a decisão de mandar colocar uma pedra no chão para que se não queime a madeira que mandei pôr no chão da sala. É melhor, disse o homem, porque aqui, por baixo da porta do recuperador de calor é provável que caiam pedaços de carvão ao chão quando se abre a porta. É verdade, pensei, mas também pensei que não gosto nada da ideia da pedra e que não me importo nada que o chão de madeira venha a mostrar marcas de queimaduras. Assim como não me importo com nenhuma outra marca que a minha casa venha a apresentar por causa do uso. As coisas são para se usarem, as casas são para se usarem. Os sofás rompidos, pedaços de madeira, brinquedos ou livros largados são marcas de vida dentro de uma casa. A lareira suja tudo, pois suja, mas aquece, o corpo e a alma. O sofá rompido é feio, pois é, mas reconforta, dá alento e dá sossego, ao corpo e à alma. Uns brinquedos e uns livros largados aqui ou ali dão ânimo e dão vida. Ao corpo e à alma. Ainda nem sequer está pronta, mas estou morta que a minha casa nova fique velha, que ganhe vida.

27.12.10

Voltas

Às vezes regressamos a lugares onde nunca antes estivemos, assim como às vezes regressamos a pessoas que nunca antes tivemos. E mesmo assim sentimos imediatamente que pertencemos, somos invadidos pela sensação de conforto, aquela que nos diz que nunca dali saímos, que nunca nos separamos. Temos simplesmente a certeza que somos, e regressamos.

23.12.10

Pointless

Há mulheres que não precisam de pretexto para se arranjarem. Sem mais nem menos pegam na lingerie mais bonita e vestem-na, só para elas. Calçam as meias de liga e sentem-se bem, só para elas. Olham-se ao espelho e não, não é preciso maquilhagem. Apetece aquele vestido preto e não saem sem o sapato de salto alto. Não há nenhuma ocasião especial, não é para ninguém em especial. É somente para dentro, para um sentimento muito delas, que provavelmente ninguém entende e não faz diferença. Hoje, eu sou essa mulher. Estou triste, deprimida, vazia de entusiasmo, sim estou. Mas sinto-me bem comigo, vesti-me e arranjei-me para mim, só para mim. E agora? Expliquem-me isto.

20.12.10

Para acabar o ano em beleza

Parece que estou deprimida, parece. Parece que é uma depressão, parece. Pois se me perguntou eu respondi, que acordo com vontade de não acordar, que não descortino interesse em nada, que nunca me apetece ir trabalhar. Que confundo as coisas, que acho que fiz o que não fiz e que não fiz o que fiz. Que me esqueço, sim, esqueço-me de coisas das quais não devia esquecer-me. Que me faz falta estar sozinha, que me apetece estar sozinha, que quero estar sozinha e que nunca estou sozinha. Que deixei de fumar há mais de três meses, e que nestes três meses chorei mais do que na minha vida toda, o que não é difícil porque nunca fui mulher de chorar por qualquer coisa, aliás nunca fui mulher de chorar por quase nada e que nestes três meses me fartei de chorar, mas que já não choro, tanto. Que reencontrei uma pessoa que conheço há muitos anos e que este reencontro me pertubou, me abanou e me arrasou, mas já consigo respirar outra vez. Parece que é uma depressão, parece, quase como que a pedir-me confirmação. Sei lá se é uma depressão, não sou médica, foi por isso que cá vim, isso pergunto-lhe eu. É. É uma depressão.

13.12.10

Heart beat

Nada bate o bater de um coração. Que acelera na ansiedade de ver, que dispara com a adrenalina de tocar. Nada bate esse momento em que já não chega a mão para o sentir, é preciso encostar-se o ouvido ao peito para o escutar, para absorver a vibração, permitindo que trespasse o nosso peito e invada o nosso corpo. Sentes? Sim, sinto. O bater de um coração, o ouvir o bater de um coração com o ouvido encostado ao peito desata qualquer nó, derruba qualquer barreira e aproxima o coração que bate do coração que ouve. O bater de um coração é, ao fim e ao cabo, a vida que temos, a vida que damos, e a que recebemos.

2.12.10

Tangerina

O cheiro é maravilhoso. Apetece encher a boca, mas não é para comer. É de massajar, é de acariciar, é de envolver, é de... nem sei. Faltam-me as palavras mas sobram-me as sensações. Desperta-me os sentidos e faz-me sentir bem. Sinto-me sexy, sinto-me doce, sinto-me desejável. Regalo-me com um creme que cheira tão bem que se pudesse comia-o. Cheira a tangerina, e combinado com o gel duche, deixa-me a pele tão macia, brilhante e cheirosa que me apetece trincar-me,  apetece-me tocar-me, uma loucura. O meu creme cheira a tangerina, faz-me sentir bem comigo, faz-me sorrir, e desperta-me os sentidos. Tenho um gajo assim, tal e qual o creme, faz-me tão bem e é tão bom que apetece comer só que não é para comer.  Também cheira bem, mas não é a tangerina.

30.11.10

Turning point

Às vezes somos como o S. Tomé. Precisamos de ver para crer. E depois de vermos e ouvirmos parece que tudo muda. Parece que as coisas tomam outros contornos, parece que de repente, só por causa de uns breves minutos em que vimos e ouvimos, a realidade torce-se e transforma-se numa outra. A que era nossa passa a ser de outros e a dos outros passa a ser a nossa. E o que antes sabíamos ser verdade mas esperávamos que fosse mentira passa a ser mesmo verdade. Mesmo muito verdade. E esta percepção retira-nos um certo peso, e retira-nos uma certa mágoa. Ficamos aliviados do nosso fardo e a vida parece mais fácil. E é. Resumindo, é extremamente simples. Bastou-me enviar um simples e-mail e esperar uma semana pela resposta. Esta semana foi determinante. Esta ausência de resposta foi determinante. Chegou para que quando veio a resposta, o que queria dizer já não fosse bem a mesma coisa. O que disse foi condicionado pela ausência de resposta. O que disse foi que se iniciou dentro de mim um processo muito importante. Iniciou-se o processo de passar à frente, virar a página, encerrar o capítulo, o que se lhe queira chamar. O que é certo é que estou cada vez mais longe. E esta minha nova etapa, gerou um outro fenómeno muito interessante, que contarei mais tarde.

15.11.10

Aviso

Temporariamente fora de serviço.

Até breve.

Espero.

12.11.10

Under the stars

Se eu acreditasse nestas merdas ia já a correr ver o que é que isto quer dizer. Pois bem, noto um padrão que de certeza que quer dizer qualquer coisa. O meu ex-marido e o tipo por quem me perdi este Verão são do mesmo signo. Depois, os homens que intelectualmente acho mais estimulantes são também do mesmo signo. Aposto que alguém encontra e me dá a explicação para isto, mas custa-me a acreditar que o signo do Zodíaco condicione assim o carácter ou a inteligência, ou mesmo o sentido de humor de uma pessoa.

11.11.10

Just what I needed

Pó de talco, algodão.
Relva acabada de cortar.
Uma cama feita de lavado.
Uma manta e uma lareira.
Um abraço apertado.
Um par de mãos quentes que me seguram no rosto.
Um copo de vinho.
Espreguiçar-me ao sol.
Um corpo colado ao meu.
Um beijo na nuca, mesmo na linha do cabelo.
Um beijo nas costas, mesmo ali no fundo, onde faz cócegas.
Uma gargalhada ao acordar.

Tu fazes-me pensar em tudo isto. Só coisas boas, muito boas.
Obrigada.

9.11.10

Frase do dia (a minha)

"É um bocado estranho porque tenho o tempo tão ocupado, tenho sempre tanta coisa para fazer e ao mesmo tempo sinto que não faço nada de jeito. Puta de estupidez."

7.11.10

Fardamento

Hoje houve fardamento. É o que se chama a terem estado todos os escuteiros da freguesia, devidamente fardados, do mais pequenino ao mais velho, na missa das onze. Com as bandeiras do agrupamento levantadas com orgulho. Achei muito bom, porque estava o professor, que por acaso é o director do agrupamento das escolas primárias sentado ao lado do tecelão, e por acaso o tecelão, na hierarquia dos escuteiros está acima do professor. Também estavam os moços, lado a lado, todos iguais com o lenço da mesma cor, os universitários e os operários fabris. Os putos, uma maravilha, sejam filhos do sapateiro ou do presidente da junta, do agricultor ou do advogado, é tudo igual. Gostei. E tive pena, mais uma vez, que os meus macaquitos não queiram ser escuteiros. O princípio da coisa é fixe. Seja qual for a proveniência, a família, a profissão, a condição financeira, ali não há distinções, a farda é igual e apaga as diferenças de todas as espécies. A única coisa que conta é a cor do lenço, e essa vai mudando com o passar dos anos e com o mérito de cada um. Ponho o meu pescoço como ali ninguém suborna ninguém para que o lenço mude de cor mais depressa.

6.11.10

Et voilà, comme promis

Lady Marmelada



Miss Geleia




O grande circulava à minha volta chegando-me todos os utensílios que iam sendo necessários e atento a todos os meus movimentos, absorvia todo o ritual com visível prazer.

O pequeno oscilava entre o espaço à volta do fogão onde andávamos eu e o irmão, e o cesto da gata, que é grande o suficiente para ele lá se meter dentro com a gata ao colo.

No fim, rapamos as panelas e lambemos as colheres, todos três, como sempre.

No próximo fim-de-semana, há mais.



Cala-te

Amanhã faz dois meses que não fumo (estranho porque mais dois dias e são nove semanas, mas ninguém contradiga o calendário). O primeiro mês foi absolutamente fodido, o segundo foi bastante suportável. Há uma semana que tudo ficou diferente. Desde aquele dia em que quase que fumava um cigarro. Na minha cabeça só me vejo a fumar. Vejo-me a entrar numa tabacaria ou num quiosque e a comprar um maço de Marlboro Lights, não, que lhe mudaram o nome, Marlboro Gold, e um isqueiro e a acender um cigarro. Penso nisto constantemente. Ainda agora acabei de almoçar e fiz o percurso para o escritório a pé, sozinha e pensei, um cigarro, ia tão bem agora um cigarro, ninguém iria saber. Estou a quebrar, sinto-me a ceder. O meu cérebro já está às voltas a tentar arranjar um esquema para me enganar. Já sei como é. Já ouço aquela voz from the back of my head a dizer-me: fuma, vá, se te apetece, ninguém precisa de saber, vai comprar, é só um, escondes o maço no carro, ninguém descobre, vá, vai, tu queres, bem sabes que queres. E é isto, a puta da voz não se cala. Mandem-na calar, mandem-na calar senão ainda lhe espeto dois pares de estalos.

3.11.10

Todos iguais

Serve-me um qualquer corpo, um qualquer rosto, uma qualquer voz, fecho os olhos ou mesmo com eles abertos e tanto me faz, serve-me um qualquer homem para foder, são todos iguais, serve-me qualquer um, o único que quero não tenho, os outros são todos iguais.

2.11.10

Fraquezas

Ontem fraquejei e quase que fumei um cigarro, felizmente a minha amiga impediu-me. Sentia-me tão mal que mandava às urtigas todo o esforço que fiz este tempo todo para não fumar. Por uns minutos de prazer deitaria tudo a perder. Depois, já sei, sentir-me-ia mal, muito mal, uma fraca, uma merda. Por uns minutos de prazer iria sentir-me uma merda durante muitos minutos, muitas horas, muitos dias. Burra. Felizmente a minha amiga impediu-me. Felizmente passou-me a ideia, foi um momento, um repente. Acho que estou a enlouquecer. Obrigada G.

31.10.10

Prioridades

A noite de ontem deve ter-me custado uns 150€, mais coisa menos coisa. Gasolina, portagens, jantar e copos, tudo junto a coisa não andou longe, mas, de longe, antes euros gastos em bons jantares e bons copos com amigos do que em roupas e sapatos e malas e essas coisas todas que se compram em lojas. Gostos...

27.10.10

Tradições

Outra das coisas que à primeira vista ninguém imagina é que eu, todos os anos por esta altura, faço marmelada. Daquela que se mete em tigelas de barro e se deixa a secar à janela, ao Sol. Daquela que liberta um cheirinho maravilhoso que inunda a casa toda enquanto ferve ao lume. Daquela que invariavelmente me garante os meus filhos à minha volta na cozinha enquanto mexo a panela com a colher de pau, enquanto encho as tigelas para depois, contentíssimos raparem e lamberem a panela e a colher de pau. Daquela que é feita com marmelos e açúcar e muito, muito amor. Adoro.

26.10.10

Pensamento do dia

"É dificil comerem-me de cebolada, muito difícil. Mais depressa me comem com chantilly do que de cebolada."

(Este foi o "meu" pensamento do dia, eu é que pensei esta merda, fui eu. Isto está lindo, sim senhor)

25.10.10

Quem não está...

Outra maravilhosa característica desta minha cativante personalidade é que, apesar de haver pessoas com as quais gostaria imenso de conviver mais, não convivendo penso sempre: quem está, está, quem não está, estivesse. E amigos na mesma, nem chateada fico. A sério, é uma categoria.

24.10.10

Missa das 11

Hoje na missa das 11, sim levo os meus filhos à missa, sim o pai, apesar de não ter tido uma educação católica como eu tive, também os leva à missa quando estão com ele e sim andam os dois na catequese. Não lhes faz mal absolutamente nenhum e terão muito tempo para questionar, abandonar, renegar, e escolher outra coisa qualquer ou não escolher nada. Por agora fica assim porque além de, repito, não lhes fazer mal nenhum, poupamos um grandessíssimo desgosto à avó e também somos coerentes porque se os meninos fazem a primeira comunhão com  direito a festa de família como manda a sapatilha, há que ser minimamente coerente e dar algum seguimento à coisa. Bom, hoje na missa das 11, eu toda fodida porque estive numa festa fantástica até às 5 da matina e obviamente que estava cheinha de sono e com o corpo todo moidinho, o maior a curtir aquilo à brava, sim o grande curte a missa, e o pequeno a achar a seca de sempre. Já perto do fim, ao ver o padre a guardar as coisas todas dentro do sacrário, o pequeno aproxima-se de mim e com as duas mãos em concha à volta da boca que encostou ao meu ouvido diz-me assim:

- Mãe, ali dentro, onde ele está a guardar o pão, é quentinho não é?
- Não filho, claro que não.
- Mas então aquilo não é um forno?

Não sei como me segurei.

21.10.10

Rosita

Quando casou, toda a gente disse que a Rosita tinha tido muita sorte. O marido era uma estampa. E por acaso era, lembro-me perfeitamente de ser miúda e de achar o indivíduo um homem muito bonito. A Rosita também era bonita, faziam um casal lindo de se ver. Hoje, a Rosita está mais velha obviamente e o rosto transformou-se num rosto sofrido e gasto. O marido continua muito bem parecido, é normal. O tipo não trabalha, passa o dia na rua ou no café a coçá-los, enquanto a Rosita trabalha que nem uma moura para o manter e aos dois filhos quase adultos. Trabalha Rosita, que a estampa do teu marido gasta.

19.10.10

Os meus lençóis.

Tenho saudades da minha cama. Mais do que qualquer coisa lá de casa, falta-me a minha cama, faltam-me os meus lençóis. Os meus lençóis são parte de mim. Na suavidade dos meus lençóis amei, na solidão dos meus lençóis chorei e na imensidão dos meus lençóis desejei. Desejei tudo o que uma mulher pode desejar, um corpo de um homem junto ao seu ou uma existência mais feliz. Forcei o descanso e escorracei memórias, reneguei o mundo todo e reconciliei-me comigo, tantas vezes. Os lençóis para onde entraram os meu filhos tantas vezes de noite, ignorando o amor feito pouco tempo antes. Quando na minha cama se deixou de fazer amor passou a fazer-me impressão que os meus filhos lá entrassem naqueles lençóis, sujos, já não havia amor. Sossegados, como anjos dormindo entre o pai e a mãe, eu olhava-os e pensava, nesta cama já não se faz amor. O pai talvez ame a mãe mas a mãe não ama o pai, aqui já não se faz amor. Os meus filhos dormiram muitas vezes numa cama cheia de pai e de mãe, mas completamente vazia de amor.

Saturday night

Aconteceu-me uma coisa estranhíssima no Sábado passado, não este que acabou de passar, no Sábado passado mesmo, o da semana passada. Entendido? Bom, adiante. No Sábado passado jantei em casa do meu compadre que cozinha muito bem. Comemos e bebemos muito bem. Depois de jantar apareceu o meu irmão, um primo nosso e um amigo deles. Bota música e vai daí, o meu compadre teve a excelente ideia de preparar umas bebidas. Muito bem, vai daí, emborquei duas vodkas Absolut com Sumol de laranja, que foi o sumo que se arranjou no café lá de baixo. Bebida altamente improvável, mas que escorregou que foi uma maravilha. Resultado: fomos depois à festa de reabertura da discoteca cá do sítio, onde me deparei com um tipo que nunca antes tinha visto, boa pinta por sinal, e que me olhava com aquele olhar que já aqui descrevi, o olhar que me faz voar, o olhar desafiador. Arrependi-me imediatamente da vodka já consumida, mas não havia volta a dar-lhe, e este, com este olhar e esta pintarola, não vai a lado nenhum, fica já aqui, pensei. E ficou. Conversamos, dançamos e no fim trocamos de nº de telefone. Só um pequeno problema, no dia seguinte não conseguia lembrar-me do rosto dele. Lembrava-me da conversa, lembrava-me de o ter achado um giraço, lembrava-me do olhar que me fez levantar voo e lembrava-me que ele cheirava bem. Do rosto, nada - lá está, vodka a mais - não me lembrava do rosto, uma chatice. Como expliquei no início, tudo isto aconteceu no Sábado passado, o da semana passada, porque este Sábado, este que acabou de passar, o tipo telefonou-me e eu, claro, eu quis ir confirmar se o que me lembrava batia certo. Bate tudo certo, simpático, giro, cheiroso, e desafiador. Isto promete. Ui, se promete!

18.10.10

Friday night

O fim de semana começou com um concerto muito intimista deste senhor que apesar de madurinho continua um charme, uma doçura que só visto. Foram duas horas a ouvi-lo tocar que souberam a uma tarde passada num sofá, à lareira com um copo de vinho e um albúm de fotografias antigas. Muito bom. Mesmo.

(Lloyd Cole - 15/10/2010)

15.10.10

Farinha

Há mulheres que são parolas e serão parolas toda a vida. Podem arranjar o cabelo, podem vestir as melhores roupas e calçar os melhores sapatos que serão sempre parolas. Mas essas, não têm culpa, não podem mudar o código genético que lhes saiu na rifa. Podem por outro lado cultivar a simpatia, a gentileza, podem desenvolver características que as tornem atraentes, mas só se o tal código genético também lá tiver o bom material. É preciso boa farinha para fazer bom pão. Há outras mulheres que podem até parecer boazinhas, que são simpáticas e humildes e depois, atingindo o objectivo a que se propuseram na maior parte das vezes recorrendo a meios menos correctos se transformam numas cabras impossíveis, arrogantes e cheias de manias, até tentam melhorar o aspecto e umas conseguem outras não, mas a massa, a farinha é ruim, e por mais que se amasse, nunca dará bom pão.

14.10.10

Exigências

Eu tenho uma maneira de ser um bocado fodida. É que não faço a coisa por menos. Levo sempre as coisas ao ponto das outras pessoas serem quase que obrigadas a mostrar o material de que são feitas. Não consigo fazer de outra maneira, ponho sempre as coisas num patamar em que ou se tem tomates ou não se tem, nunca facilito. Tenho sempre de ver até onde é que se vai, até que ponto se é verdadeiro, até que ponto se assume o que se é. Podia ser menos exigente, pois podia? Podia facilitar as merdas, pois podia? No imediato até lucrava mais, mas a longo prazo seria corrosivo, conheço-me. Pois é, eu podia ser uma mulher mais "fácil", podia, mas depois não era a mesma coisa.

12.10.10

Carga

Deixei o homem que me interessava ter por perto, deixei o tabaco, deixei a minha casa, é preciso estar de olho nas obras lá de casa, no emprego atravesso uma fase complicada, as aulas dão-me trabalho e consomem-me tempo que encontro com muito esforço. Isto tudo junto parece-me mais do que o que consigo aguentar, mas enquanto os meus rapazes estiverem bem, o resto todo que se foda, hei-de sobreviver.