25.1.11
Tinta
Tenho uma vontade medonha de te escrever cartas de amor, à antiga, de escrever com caneta e derramar toda a tristeza na tinta preta desenhando na alvura do papel os contornos do meu amor, de transformar em palavras todos os sentimento que me prendem e me escorraçam de ti, de te abrir as entranhas e mostrar-te toda a podridão que me definha, de aliviar este peso que me esmaga o peito e me impede de respirar, mas não sei a tua morada, mesmo que as escreva, não sei para onde as mandar.
24.1.11
Zen
Não ando em mim ultimamente. É um pensamento altamente reconfortante pois este não ando em mim dá-me pano para mangas. Como não ando em mim, não posso ser responsabilizada pelos meus actos. Ou pela falta deles, e aqui, nesta falta de acção, é que reside o grande problema. Em condições normais, eu já teria feito qualquer coisa, já teria tomado uma decisão, como já fiz antes, mas não. Deixo-me estar, deixo-me andar. Ele telefona-me e eu atendo, ele manda-me mensagens e eu respondo. Diz-me que me ama e eu acredito. Estou apenas a uns milímetros de me tornar oficialmente amante de um homem casado. E nada, estou meia burra, ou melhor estou completamente burra. Isto vai contra tudo o que eu acho certo, no entanto nada faço para parar. Eu devia era parar de tomar os filhos da puta dos comprimidos que me emburreceram, era o que eu devia fazer. O médico diz-me que estou deprimida, que tenho de tomar anti-depressivos, e eu tomo. E eu atendo, e eu respondo, e eu acredito. Depois pergunto-me, onde, quando, como, o que foi que me destruiu? Em que momento quebrei? O que me vergou? O amor ou o anti-depressivo? Burra.
21.1.11
Acordares
Primeiro veio o maior, já de casaco vestido e mochila às costas, trepou para a cama e deu-me um beijo bem no meio da bochecha acordando-me, então mãe, estás melhor das costas? hum... que bem que me soube aquele beijo, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-te estar deitada mais um bocadinho, eu já vou para a escola, até logo. Depois senti o pequeno, ainda em pijama, a deslizar para debaixo da roupa, abraçou-me e deixou-se estar, agarrado a mim, mãe, já acordaste? estás melhor? hum... que bem que me soube aquele abraço, sim filho, melhor um bocadinho, deixa-me ficar aqui um bocadinho ao pé de ti, a avó vai ter de me procurar, não lhe digas que estou aqui, esconde-me, e ficou aninhado no meu colo, no quentinho do ninho da mãe. Quais dores nas costas quais quê? O mimo dos filhos cura tudo.
19.1.11
Identidade
Nunca compreendi o que leva algumas mulheres a mudarem de nome quando casam. Porque é que metem lá o nome dos homems com quem se casam? Porquê? O que é que muda por mudarem de nome? Procurava não há muito duas primas minhas no Facebook e acabei por encontra-las só depois de ter encontrado o marido de uma delas. E porque não as encontrava eu? Porque as meninas já não dão pelo nome de baptismo mas antes pelo nome dos maridos. Fez-me impressão. Eu casei-me e não mudei de nome. Não deixei de ser quem era por me casar, nem passei a ser de alguém por me casar. Também não sei o que pensar dos homens que apreciam que as esposas lhes adquiram o nome. Sentimento de posse? Será? As mulheres que mudam de nome quando se casam fazem-me sempre pensar que de alguma forma se anulam porque parece que só com o nome do marido existem. Por exemplo, a minha sogra (será ex-sogra? dizem que não, que as sogras serão sempre sogras) tem o nome do marido, médico reconhecido na sua área de especialidade, e quando a senhora diz o nome imediatamente se sabe que é a esposa do senhor doutor. Quando a minha prima diz o nome, também se sabe que é a esposa do senhor doutor (este é advogado). Não estão estas mulheres a admitir que sem este nome ninguém as conhece, ninguém sabe quem são, e por conseguinte não existem?
Lastro
Às vezes penso nas pessoas a quem perdi o rasto ao longo da vida. E tenho pena de as ter perdido pelo caminho. Hoje pensei em algumas pessoas com as quais não tenho contacto e que até nem me importaria de o ter mantido. Não é bem a mesma coisa, há pessoas que nos fazem bem, que puxam por nós enquanto indivíduos e que nos trazem naturalmente coisas boas, ou porque são boas ou porque fazem vir ao de cima coisas boas em nós e não é dessas que falo, falo das outras, daquelas que não são propriamente aquelas com quem mais nos identificamos mas cuja companhia é agradável e com quem o convívio é positivo. Mas, nesta fase da minha vida conviver com essas pessoas requereria um esforço da minha parte, a ligação que havia deixou de existir e apesar de ser possível retomar a relação que me unia a essas pessoas, ela não é natural. A gestão do meu tempo é já bastante complicada, já não me chega para tudo e as tentativas de aproximação da minha parte seriam motivo de preocupação e stress para mim. Não posso ter mais coisas que me preocupem, que me suguem energia, que me desgastem, simplesmente não aguento. E assim vou perdendo pessoas na minha vida, e mesmo não sendo as pessoas mais importantes acho que é triste. A nossa capacidade de mantermos na nossa vida aqueles de quem gostamos diz muito sobre nós. Neste momento não tenho energia para investir em relações de amizade. Não cultivo novas amizades, vou mantendo as que tenho, felizmente são de betão. E chego à conclusão que não tenho nada para dar. Não tenho amizade, não tenho tempo, não tenho disponibilidade. Estou fechada sobre mim própria, sobre a minha família e o meus poucos amigos. Sou um ovo, o meu mundo é cá dentro confinado ao que sou, ao que conheço e ao que está muito perto, e sem vontade nenhuma de partir este ovo. Que tristeza.
17.1.11
Saldos
Fiquei a saber este fim-de-semana que parece que sendo gaja, tenho de ir aos saldos. Só porque há saldos, como se as promoções fossem por si só, razão mais que válida para se comprar roupa, sapatos, acessórios e o caralho mais velho. Ora, eu vou às compras quando preciso e se não preciso de comprar nada porque raio é que hei-de ir aos saldos? Não percebo.
Strip
Chega um momento em que te deixas de merdas e vais ao fundo ver o que queres. Nesse momento sabes o que verdadeiramente importa e o que tens a certeza absoluta que não queres. Aí vês quem és e do que és capaz. E escolhes.
14.1.11
Puta
Há dias em que tenho a certeza de que preferia prostituir-me do que ter este trabalho. Ao menos vendia o corpo. Aqui, há dias em que vendo a alma. Nojo.
11.1.11
Segredos cabeludos
Do lado da família do meu pai, dos irmãos e irmãs dele, há histórias do arco da velha, disso já eu sei há anos. Há o meu tio que abandonou a mulher e fugiu para França e engatou uma espanhola quinze anos mais velha do que ele e com quem viveu e com quem só se casou um ano antes de morrer, sem nunca mais ter aparecido à esposa, há a minha tia que só se casou quando engravidou do segundo filho, ou a outra tia que teve um filho solteira e toda a vida mentiu sobre o pai da criança, ou ainda a outra tia que por causa duma história embaraçosa, esta ainda não a descobri, foi empurrada para um senhor viúvo com quem se casou e que tinha seis criancinhas pequenas e que a minha tia criou como filhos, a eles e depois aos filhos deles como netos. Conheço estas histórias todas há anos, excepto a da minha tia casada com o senhor viúvo, e todas elas possuidoras de contornos que têm tanto de hilariante como de trágico. Mas ontem descobri uma história fantástica sobre um irmão da minha mãe. Ora deste lado da família não há, não havia até ontem, ponta por onde se lhe pegasse. E esta história bate aos pontos as outras todas, porque ter sabido que o meu tio, irmão mais velho da minha mãe, que só se casou com a mulher quando ela engravidou do segundo filho, onde é que eu já vi isto? e poucos anos depois teve um affair com a irmã mais nova dela, que ainda por cima era freira, não é fazer uma descoberta do caralho, não sei o que será. Estou parva da minha vida.
8.1.11
Raio-X
Retirei o contador, olho para ele e em vez de ver algo destinado a incentivar a continuidade de uma batalha, que contas feitas, se é que se podem fazer, atravesso incólume, nem uma flecha cravada num braço, nem um arranhão na testa, vejo as lanças voarem na minha direcção mas passo-lhes ao lado, estaco diante das espadas erguidas mas depois corro, muito, mesmo muito, tem sido assim, parece que ninguém dá por mim, parece que os guerreiros se concentram em abater os mais fortes e querem lá saber dos mais fracos porque esses, esses não representam perigo, agora olho e vejo um anúncio, como se dissesse olhem para mim que já não fumo há quatro meses e vejam bem o que eu fiz, e sou a maior porque estou a conseguir onde a maioria falha. É isto que vejo. Vejo vaidade, e a vaidade é coisa que abomino. A minha, principalmente.
7.1.11
Relatividade
Quatro meses sem fumar. De alguma forma que não compreendo, assinalar ou contar o tempo deixou de ter a mesma importância. Antes olhava para o "marcador" para me lembrar que estava a vencer uma luta pessoal. Agora olho para o marcador e não lhe encontro utilidade absolutamente nenhuma, mas deixo-o ficar. Não fumo. Mas não é por isso que deixei de ser a pessoa que era. A diferença é apenas esta: eu era uma pessoa que fumava e agora sou uma pessoa que não fuma, O resto, está igual, de há quatro meses para cá. Mais ou menos igual.
5.1.11
4.1.11
Marcas
Ontem tive de tomar a decisão de mandar colocar uma pedra no chão para que se não queime a madeira que mandei pôr no chão da sala. É melhor, disse o homem, porque aqui, por baixo da porta do recuperador de calor é provável que caiam pedaços de carvão ao chão quando se abre a porta. É verdade, pensei, mas também pensei que não gosto nada da ideia da pedra e que não me importo nada que o chão de madeira venha a mostrar marcas de queimaduras. Assim como não me importo com nenhuma outra marca que a minha casa venha a apresentar por causa do uso. As coisas são para se usarem, as casas são para se usarem. Os sofás rompidos, pedaços de madeira, brinquedos ou livros largados são marcas de vida dentro de uma casa. A lareira suja tudo, pois suja, mas aquece, o corpo e a alma. O sofá rompido é feio, pois é, mas reconforta, dá alento e dá sossego, ao corpo e à alma. Uns brinquedos e uns livros largados aqui ou ali dão ânimo e dão vida. Ao corpo e à alma. Ainda nem sequer está pronta, mas estou morta que a minha casa nova fique velha, que ganhe vida.
27.12.10
Voltas
Às vezes regressamos a lugares onde nunca antes estivemos, assim como às vezes regressamos a pessoas que nunca antes tivemos. E mesmo assim sentimos imediatamente que pertencemos, somos invadidos pela sensação de conforto, aquela que nos diz que nunca dali saímos, que nunca nos separamos. Temos simplesmente a certeza que somos, e regressamos.
23.12.10
Pointless
Há mulheres que não precisam de pretexto para se arranjarem. Sem mais nem menos pegam na lingerie mais bonita e vestem-na, só para elas. Calçam as meias de liga e sentem-se bem, só para elas. Olham-se ao espelho e não, não é preciso maquilhagem. Apetece aquele vestido preto e não saem sem o sapato de salto alto. Não há nenhuma ocasião especial, não é para ninguém em especial. É somente para dentro, para um sentimento muito delas, que provavelmente ninguém entende e não faz diferença. Hoje, eu sou essa mulher. Estou triste, deprimida, vazia de entusiasmo, sim estou. Mas sinto-me bem comigo, vesti-me e arranjei-me para mim, só para mim. E agora? Expliquem-me isto.
20.12.10
Para acabar o ano em beleza
Parece que estou deprimida, parece. Parece que é uma depressão, parece. Pois se me perguntou eu respondi, que acordo com vontade de não acordar, que não descortino interesse em nada, que nunca me apetece ir trabalhar. Que confundo as coisas, que acho que fiz o que não fiz e que não fiz o que fiz. Que me esqueço, sim, esqueço-me de coisas das quais não devia esquecer-me. Que me faz falta estar sozinha, que me apetece estar sozinha, que quero estar sozinha e que nunca estou sozinha. Que deixei de fumar há mais de três meses, e que nestes três meses chorei mais do que na minha vida toda, o que não é difícil porque nunca fui mulher de chorar por qualquer coisa, aliás nunca fui mulher de chorar por quase nada e que nestes três meses me fartei de chorar, mas que já não choro, tanto. Que reencontrei uma pessoa que conheço há muitos anos e que este reencontro me pertubou, me abanou e me arrasou, mas já consigo respirar outra vez. Parece que é uma depressão, parece, quase como que a pedir-me confirmação. Sei lá se é uma depressão, não sou médica, foi por isso que cá vim, isso pergunto-lhe eu. É. É uma depressão.
13.12.10
Heart beat
Nada bate o bater de um coração. Que acelera na ansiedade de ver, que dispara com a adrenalina de tocar. Nada bate esse momento em que já não chega a mão para o sentir, é preciso encostar-se o ouvido ao peito para o escutar, para absorver a vibração, permitindo que trespasse o nosso peito e invada o nosso corpo. Sentes? Sim, sinto. O bater de um coração, o ouvir o bater de um coração com o ouvido encostado ao peito desata qualquer nó, derruba qualquer barreira e aproxima o coração que bate do coração que ouve. O bater de um coração é, ao fim e ao cabo, a vida que temos, a vida que damos, e a que recebemos.
7.12.10
2.12.10
Tangerina
O cheiro é maravilhoso. Apetece encher a boca, mas não é para comer. É de massajar, é de acariciar, é de envolver, é de... nem sei. Faltam-me as palavras mas sobram-me as sensações. Desperta-me os sentidos e faz-me sentir bem. Sinto-me sexy, sinto-me doce, sinto-me desejável. Regalo-me com um creme que cheira tão bem que se pudesse comia-o. Cheira a tangerina, e combinado com o gel duche, deixa-me a pele tão macia, brilhante e cheirosa que me apetece trincar-me, apetece-me tocar-me, uma loucura. O meu creme cheira a tangerina, faz-me sentir bem comigo, faz-me sorrir, e desperta-me os sentidos. Tenho um gajo assim, tal e qual o creme, faz-me tão bem e é tão bom que apetece comer só que não é para comer. Também cheira bem, mas não é a tangerina.
Subscrever:
Mensagens (Atom)