8.1.11
Raio-X
Retirei o contador, olho para ele e em vez de ver algo destinado a incentivar a continuidade de uma batalha, que contas feitas, se é que se podem fazer, atravesso incólume, nem uma flecha cravada num braço, nem um arranhão na testa, vejo as lanças voarem na minha direcção mas passo-lhes ao lado, estaco diante das espadas erguidas mas depois corro, muito, mesmo muito, tem sido assim, parece que ninguém dá por mim, parece que os guerreiros se concentram em abater os mais fortes e querem lá saber dos mais fracos porque esses, esses não representam perigo, agora olho e vejo um anúncio, como se dissesse olhem para mim que já não fumo há quatro meses e vejam bem o que eu fiz, e sou a maior porque estou a conseguir onde a maioria falha. É isto que vejo. Vejo vaidade, e a vaidade é coisa que abomino. A minha, principalmente.
7.1.11
Relatividade
Quatro meses sem fumar. De alguma forma que não compreendo, assinalar ou contar o tempo deixou de ter a mesma importância. Antes olhava para o "marcador" para me lembrar que estava a vencer uma luta pessoal. Agora olho para o marcador e não lhe encontro utilidade absolutamente nenhuma, mas deixo-o ficar. Não fumo. Mas não é por isso que deixei de ser a pessoa que era. A diferença é apenas esta: eu era uma pessoa que fumava e agora sou uma pessoa que não fuma, O resto, está igual, de há quatro meses para cá. Mais ou menos igual.
5.1.11
4.1.11
Marcas
Ontem tive de tomar a decisão de mandar colocar uma pedra no chão para que se não queime a madeira que mandei pôr no chão da sala. É melhor, disse o homem, porque aqui, por baixo da porta do recuperador de calor é provável que caiam pedaços de carvão ao chão quando se abre a porta. É verdade, pensei, mas também pensei que não gosto nada da ideia da pedra e que não me importo nada que o chão de madeira venha a mostrar marcas de queimaduras. Assim como não me importo com nenhuma outra marca que a minha casa venha a apresentar por causa do uso. As coisas são para se usarem, as casas são para se usarem. Os sofás rompidos, pedaços de madeira, brinquedos ou livros largados são marcas de vida dentro de uma casa. A lareira suja tudo, pois suja, mas aquece, o corpo e a alma. O sofá rompido é feio, pois é, mas reconforta, dá alento e dá sossego, ao corpo e à alma. Uns brinquedos e uns livros largados aqui ou ali dão ânimo e dão vida. Ao corpo e à alma. Ainda nem sequer está pronta, mas estou morta que a minha casa nova fique velha, que ganhe vida.
27.12.10
Voltas
Às vezes regressamos a lugares onde nunca antes estivemos, assim como às vezes regressamos a pessoas que nunca antes tivemos. E mesmo assim sentimos imediatamente que pertencemos, somos invadidos pela sensação de conforto, aquela que nos diz que nunca dali saímos, que nunca nos separamos. Temos simplesmente a certeza que somos, e regressamos.
23.12.10
Pointless
Há mulheres que não precisam de pretexto para se arranjarem. Sem mais nem menos pegam na lingerie mais bonita e vestem-na, só para elas. Calçam as meias de liga e sentem-se bem, só para elas. Olham-se ao espelho e não, não é preciso maquilhagem. Apetece aquele vestido preto e não saem sem o sapato de salto alto. Não há nenhuma ocasião especial, não é para ninguém em especial. É somente para dentro, para um sentimento muito delas, que provavelmente ninguém entende e não faz diferença. Hoje, eu sou essa mulher. Estou triste, deprimida, vazia de entusiasmo, sim estou. Mas sinto-me bem comigo, vesti-me e arranjei-me para mim, só para mim. E agora? Expliquem-me isto.
20.12.10
Para acabar o ano em beleza
Parece que estou deprimida, parece. Parece que é uma depressão, parece. Pois se me perguntou eu respondi, que acordo com vontade de não acordar, que não descortino interesse em nada, que nunca me apetece ir trabalhar. Que confundo as coisas, que acho que fiz o que não fiz e que não fiz o que fiz. Que me esqueço, sim, esqueço-me de coisas das quais não devia esquecer-me. Que me faz falta estar sozinha, que me apetece estar sozinha, que quero estar sozinha e que nunca estou sozinha. Que deixei de fumar há mais de três meses, e que nestes três meses chorei mais do que na minha vida toda, o que não é difícil porque nunca fui mulher de chorar por qualquer coisa, aliás nunca fui mulher de chorar por quase nada e que nestes três meses me fartei de chorar, mas que já não choro, tanto. Que reencontrei uma pessoa que conheço há muitos anos e que este reencontro me pertubou, me abanou e me arrasou, mas já consigo respirar outra vez. Parece que é uma depressão, parece, quase como que a pedir-me confirmação. Sei lá se é uma depressão, não sou médica, foi por isso que cá vim, isso pergunto-lhe eu. É. É uma depressão.
13.12.10
Heart beat
Nada bate o bater de um coração. Que acelera na ansiedade de ver, que dispara com a adrenalina de tocar. Nada bate esse momento em que já não chega a mão para o sentir, é preciso encostar-se o ouvido ao peito para o escutar, para absorver a vibração, permitindo que trespasse o nosso peito e invada o nosso corpo. Sentes? Sim, sinto. O bater de um coração, o ouvir o bater de um coração com o ouvido encostado ao peito desata qualquer nó, derruba qualquer barreira e aproxima o coração que bate do coração que ouve. O bater de um coração é, ao fim e ao cabo, a vida que temos, a vida que damos, e a que recebemos.
7.12.10
2.12.10
Tangerina
O cheiro é maravilhoso. Apetece encher a boca, mas não é para comer. É de massajar, é de acariciar, é de envolver, é de... nem sei. Faltam-me as palavras mas sobram-me as sensações. Desperta-me os sentidos e faz-me sentir bem. Sinto-me sexy, sinto-me doce, sinto-me desejável. Regalo-me com um creme que cheira tão bem que se pudesse comia-o. Cheira a tangerina, e combinado com o gel duche, deixa-me a pele tão macia, brilhante e cheirosa que me apetece trincar-me, apetece-me tocar-me, uma loucura. O meu creme cheira a tangerina, faz-me sentir bem comigo, faz-me sorrir, e desperta-me os sentidos. Tenho um gajo assim, tal e qual o creme, faz-me tão bem e é tão bom que apetece comer só que não é para comer. Também cheira bem, mas não é a tangerina.
30.11.10
Turning point
Às vezes somos como o S. Tomé. Precisamos de ver para crer. E depois de vermos e ouvirmos parece que tudo muda. Parece que as coisas tomam outros contornos, parece que de repente, só por causa de uns breves minutos em que vimos e ouvimos, a realidade torce-se e transforma-se numa outra. A que era nossa passa a ser de outros e a dos outros passa a ser a nossa. E o que antes sabíamos ser verdade mas esperávamos que fosse mentira passa a ser mesmo verdade. Mesmo muito verdade. E esta percepção retira-nos um certo peso, e retira-nos uma certa mágoa. Ficamos aliviados do nosso fardo e a vida parece mais fácil. E é. Resumindo, é extremamente simples. Bastou-me enviar um simples e-mail e esperar uma semana pela resposta. Esta semana foi determinante. Esta ausência de resposta foi determinante. Chegou para que quando veio a resposta, o que queria dizer já não fosse bem a mesma coisa. O que disse foi condicionado pela ausência de resposta. O que disse foi que se iniciou dentro de mim um processo muito importante. Iniciou-se o processo de passar à frente, virar a página, encerrar o capítulo, o que se lhe queira chamar. O que é certo é que estou cada vez mais longe. E esta minha nova etapa, gerou um outro fenómeno muito interessante, que contarei mais tarde.
15.11.10
12.11.10
Under the stars
Se eu acreditasse nestas merdas ia já a correr ver o que é que isto quer dizer. Pois bem, noto um padrão que de certeza que quer dizer qualquer coisa. O meu ex-marido e o tipo por quem me perdi este Verão são do mesmo signo. Depois, os homens que intelectualmente acho mais estimulantes são também do mesmo signo. Aposto que alguém encontra e me dá a explicação para isto, mas custa-me a acreditar que o signo do Zodíaco condicione assim o carácter ou a inteligência, ou mesmo o sentido de humor de uma pessoa.
11.11.10
Just what I needed
Pó de talco, algodão.
Relva acabada de cortar.
Uma cama feita de lavado.
Uma manta e uma lareira.
Um abraço apertado.
Um par de mãos quentes que me seguram no rosto.
Um copo de vinho.
Espreguiçar-me ao sol.
Um corpo colado ao meu.
Um beijo na nuca, mesmo na linha do cabelo.
Um beijo nas costas, mesmo ali no fundo, onde faz cócegas.
Uma gargalhada ao acordar.
Tu fazes-me pensar em tudo isto. Só coisas boas, muito boas.
Obrigada.
Relva acabada de cortar.
Uma cama feita de lavado.
Uma manta e uma lareira.
Um abraço apertado.
Um par de mãos quentes que me seguram no rosto.
Um copo de vinho.
Espreguiçar-me ao sol.
Um corpo colado ao meu.
Um beijo na nuca, mesmo na linha do cabelo.
Um beijo nas costas, mesmo ali no fundo, onde faz cócegas.
Uma gargalhada ao acordar.
Tu fazes-me pensar em tudo isto. Só coisas boas, muito boas.
Obrigada.
9.11.10
Frase do dia (a minha)
"É um bocado estranho porque tenho o tempo tão ocupado, tenho sempre tanta coisa para fazer e ao mesmo tempo sinto que não faço nada de jeito. Puta de estupidez."
7.11.10
Fardamento
Hoje houve fardamento. É o que se chama a terem estado todos os escuteiros da freguesia, devidamente fardados, do mais pequenino ao mais velho, na missa das onze. Com as bandeiras do agrupamento levantadas com orgulho. Achei muito bom, porque estava o professor, que por acaso é o director do agrupamento das escolas primárias sentado ao lado do tecelão, e por acaso o tecelão, na hierarquia dos escuteiros está acima do professor. Também estavam os moços, lado a lado, todos iguais com o lenço da mesma cor, os universitários e os operários fabris. Os putos, uma maravilha, sejam filhos do sapateiro ou do presidente da junta, do agricultor ou do advogado, é tudo igual. Gostei. E tive pena, mais uma vez, que os meus macaquitos não queiram ser escuteiros. O princípio da coisa é fixe. Seja qual for a proveniência, a família, a profissão, a condição financeira, ali não há distinções, a farda é igual e apaga as diferenças de todas as espécies. A única coisa que conta é a cor do lenço, e essa vai mudando com o passar dos anos e com o mérito de cada um. Ponho o meu pescoço como ali ninguém suborna ninguém para que o lenço mude de cor mais depressa.
6.11.10
Et voilà, comme promis
Lady Marmelada
Miss Geleia
O grande circulava à minha volta chegando-me todos os utensílios que iam sendo necessários e atento a todos os meus movimentos, absorvia todo o ritual com visível prazer.
O pequeno oscilava entre o espaço à volta do fogão onde andávamos eu e o irmão, e o cesto da gata, que é grande o suficiente para ele lá se meter dentro com a gata ao colo.
No fim, rapamos as panelas e lambemos as colheres, todos três, como sempre.
No próximo fim-de-semana, há mais.
Cala-te
Amanhã faz dois meses que não fumo (estranho porque mais dois dias e são nove semanas, mas ninguém contradiga o calendário). O primeiro mês foi absolutamente fodido, o segundo foi bastante suportável. Há uma semana que tudo ficou diferente. Desde aquele dia em que quase que fumava um cigarro. Na minha cabeça só me vejo a fumar. Vejo-me a entrar numa tabacaria ou num quiosque e a comprar um maço de Marlboro Lights, não, que lhe mudaram o nome, Marlboro Gold, e um isqueiro e a acender um cigarro. Penso nisto constantemente. Ainda agora acabei de almoçar e fiz o percurso para o escritório a pé, sozinha e pensei, um cigarro, ia tão bem agora um cigarro, ninguém iria saber. Estou a quebrar, sinto-me a ceder. O meu cérebro já está às voltas a tentar arranjar um esquema para me enganar. Já sei como é. Já ouço aquela voz from the back of my head a dizer-me: fuma, vá, se te apetece, ninguém precisa de saber, vai comprar, é só um, escondes o maço no carro, ninguém descobre, vá, vai, tu queres, bem sabes que queres. E é isto, a puta da voz não se cala. Mandem-na calar, mandem-na calar senão ainda lhe espeto dois pares de estalos.
3.11.10
Todos iguais
Serve-me um qualquer corpo, um qualquer rosto, uma qualquer voz, fecho os olhos ou mesmo com eles abertos e tanto me faz, serve-me um qualquer homem para foder, são todos iguais, serve-me qualquer um, o único que quero não tenho, os outros são todos iguais.
2.11.10
Fraquezas
Ontem fraquejei e quase que fumei um cigarro, felizmente a minha amiga impediu-me. Sentia-me tão mal que mandava às urtigas todo o esforço que fiz este tempo todo para não fumar. Por uns minutos de prazer deitaria tudo a perder. Depois, já sei, sentir-me-ia mal, muito mal, uma fraca, uma merda. Por uns minutos de prazer iria sentir-me uma merda durante muitos minutos, muitas horas, muitos dias. Burra. Felizmente a minha amiga impediu-me. Felizmente passou-me a ideia, foi um momento, um repente. Acho que estou a enlouquecer. Obrigada G.
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