7.9.10

Noventa

Como na sexta-feira passada já dormiram em casa do pai ontem à noite dormiram comigo, a regra é dormirem comigo só uma vez por semana e normalmente é à sexta-feira. Deitamo-nos como sempre, eu no meio e um de cada lado agarrando-me um braço cada um e uma perna a entrelaçar cada uma das minhas. Mas, o grande começou a queixar-se que tinha qualquer coisa a incomodá-lo numa unha do pé. Acendi a luz e verifiquei do que se tratava. Uma unha partida, nada de especial. Então levantei-me e fui buscar a tesourinha pequenina e agarrei-lhe no dedo para cortar o pedacinho da unha que estava levantado e arranhava o que fosse que tocasse. Acontece que ao agarrar o dedo, não sei como fiz, mas a articulação estalou, e estalou a confusão. Foi um ver se te avias, o grande soltou uma gargalhada quando o dedo estalou, o pequeno achou piada e toca a puxar os dedos dos pés ao grande a ver se estalavam. E o grande, claro, toca a puxar os dedos dos pés ao pequeno. Quanto mais os dedos estalavam mais eles se riam e quando dou conta já me estão os dois a tentar apanhar os dedos dos meus pés e instalou-se definitivamente a tourada em cima da minha cama. Não me aguentei, as gargalhadas eram contagiantes e quanto mais eu me ria menos força tinha para lhes fugir. Não escapou um dedinho, de ninguém, e cada dedo cada gargalhada. Eram trinta dedos naquela cama, eram três pessoas a rir, o que feitas as contas resultou em noventa gargalhadas em menos de cinco minutos. Já tive muitos presentes de aniversário, mas nenhum, nenhum como este.

6.9.10

Hoje

Faço 35 anos.
Deixo de fumar.

5.9.10

Amanhã

Chega a doer um bocadinho. Amanhã é o último dia.

4.9.10

A sangue frio.

Se um dia um dos meus filhos me disser, mãe, aquele homem fez-me isto, ou, aquele homem tocou-me aqui, ou, isso mesmo que ocorre a todas as mães e pais e que é tão medonho que se luta contra essa ideia com todas as forças do ser, se um dia um dos meus filhos me disser mãe, aquele homem, aquele homem, se um dia eu o apanhar, e esforçar-me-ei para o conseguir ainda que seja a última coisa que faça na puta da vida, se um dia eu o apanhar, aquele homem, morre às minhas mãos, às minhas unhas, aos meus dentes. Depois podem fazer um circo mediático à minha volta. Não me importo. Não verterei uma lágrima. Não proferirei uma palavra.

2.9.10

Salva-vidas

Porque projectamos nós nos outros, aquilo que gostaríamos que fossem ao invés de aceitarmos o que realmente são? Tendemos todos para isso, acho eu. Conhecemos as pessoas, até ao nível que nos é dado a conhecer e incluindo sempre o cunho que lhes imprimimos que nunca é isento, faz parte do ser humano, a nossa interpretação tem sempre e só a ver connosco, mas depois projectamos, invariavelmente todo o potencial que a pessoa tem, ou que pensamos que tem. Muitas vezes é esse potencial que é o mais atractivo, diminuímos o real e focamo-nos no potencial. Depois, quando as pessoas não correspondem ao potencial que lhes atribuímos inventamos todos os motivos e mais alguns para que tal não suceda. Há uma pessoa que me acha o máximo. Acha-me linda, maravilhosa e um espectáculo de pessoa. Tudo filme daquela cabeça. Fico chateada, porque não só não me conhece bem como também tem as ideias um bocado baralhadas por conjunturas negativas e então, eu pareço-lhe um raio de sol no meio da escuridão, pareço-lhe o salva-vidas que lhe vai deitar a mão porque se sente a afundar. Tudo filme daquela cabeça. Aceito que me ache bonita, há gostos para tudo e gostos não se discutem. Não aceito que me venere, que me eleve a um plano que só naquela cabeça existe, e muito menos que me tome por salva-vidas. Tomara eu manter a minha vida à tona.

Needs

"I think he always loved me, in his own way, spending no time with me, showing me no affection"

"Why did you stay?"

"I didn't need him to feel about me the same way I felt about him"

1.9.10

As minhas dores

Consegui recuperar alguns hábitos que me fizeram muita falta durante anos. Encontrando-me com tempo para dedicar a mim própria recomecei a fazer aquelas coisas que me dão imenso prazer e das quais me tinha simplesmente esquecido. Recomecei a frequentar as sessões do Cineclube ainda que quinzenalmente, recomecei a deitar o olho aos concertos e às peças de teatro, recomecei a comprar livros. Durante cerca de dez anos li apenas um livro por ano, a minha avidez pela leitura morreu. Li desalmadamente pela adolescência fora, encontrava-me dentro de livros e vivia neles a maior parte do meu tempo, e custava-me imenso deles sair. Li livros que eram para a minha idade e que não eram para a minha idade. Depois casei-me e continuei a ler, tinha muito tempo para mim com um marido que viajava a maior parte do tempo. Depois tive um filho e o tempo para ler fez-se pouco. O tempo para ir ao cinema, concertos e todo o tipo de espectáculos fez-se nenhum. Depois tive outro filho e os dois eram todo o meu tempo, toda a minha vida. À noite, aquele tempo de silêncio de nada rendia, vencida pelo cansaço a leitura era simplesmente impossível, tentava mas de nada servia. Levantá-los, vesti-los, pequeno-almoço, escola ou infantário, trabalho, banho, deitá-los, sozinha porque no meu caso durante a semana não havia com quem repartir as tarefas, tudo isto fazia com que tudo o que lesse fosse inútil. Desisti de ler simplesmente, não valia a pena, não retinha absolutamente nada. As férias grandes, sim, um livro cuidadosamente escolhido, da lista que mentalmente ia fazendo, os que queria ler. Sentia-me reduzida a quase nada por só ser capaz de ler um livro por ano. Sou uma grande parva, não sei organizar-me, não faço a gestão do tempo como devia fazer, deveria conseguir ler mais, não leio mais por exclusiva responsabilidade minha. Nunca culpei fosse o que fosse ou fosse quem fosse pela minha falta de disciplina. Hoje, com tempo para dedicar a todas as coisas que gosto de fazer, com oportunidade de investir no meu prazer pessoal, os livros são o que mais me custa. Não preciso de sair de casa, não preciso de fazer rigorosamente nada, basta pegar neles e abri-los. Não percebo porque me custa tanto. Não percebo porque me doem tanto os livros.

30.8.10

Fútil

O tédio destrói-me, corrói-me, esventra-me. Vazio de tudo, sede de tudo, fome de tudo. E o mais estúpido é que nunca me senti tão bem com o meu corpo, nunca gostei tanto de mim, acho francamente que, fisicamente, estou no meu melhor. Gosto do meu cabelo, das ondas sedosas, gosto da minha pele, macia e brilhante. Gosto das minhas curvas e das minhas carnes, voluptuosoas. Até gosto das minhas mamas, pequenas e mansas. Gosto do meu rosto, das minhas rugas e das minhas sardas que só aparecem no Verão. Não, não é estúpido, é só fútil.

28.8.10

Distância

Observei um casal, não vai há muito, numa festa. Reconheci a mulher. São de cá, apesar da festa ter sido a uns 70 quilómetros daqui, numa praia. Acompanhei um amigo que foi pôr música, numa festa "I love 80's". Este amigo é dj, porque gosta, é de borla e faz disso apenas um hobbie. Pelos menos por aqui, nos meses de Julho e Agosto fecham-se as dicotecas e deslocam-se as festas para as praias. Alugam sítios, ou instalam-se noutros sítios, ou constroem sítios só para as noites de Verão. Este amigo é amigo dos donos dos estaminés nocturnos locais e foi então convidado para essa festa. Levei-o e fui obviamente à festa. No meio de gente muito beta, de casais com mais de 60 anos, de meninas muito bem e de meninos de calça caqui e sapato de vela, reconheci esta mulher, lindíssima, cabelo cor de mel, e olhos azuis, alta e magra, uma elegância. Tem dois filhos, parecidos com a mãe, lindos portanto, já a vi com eles por aqui. Estava com o que deduzi ser o marido, um tipo de aspecto perfeitamente normal. Muito calma esta mulher, enquanto toda a gente dançava como se não houvesse amanhã, ela apenas balançava o corpo, sem sorrir. O marido, mais animado, tentava que ela sucumbisse ao espírito da festa, à musica, tão familiar a música que trazia de volta a adolescência e a inconsciência. Ela, nada. Ele continuava, sorria-lhe, estendia-lhes as mãos, abraçava-a e procurava-lhe o pescoço, ela, nada. Estariam zangados? Hum... Não parecia, não lhe vi raiva nem azedume na expressão, a ela, porque a ele vi-lhe desejo escancarado nos gestos. Entristeci por eles, tão perto, e mesmo assim tão longe um do outro. Uma pena.

26.8.10

Encontros imediatos de terceiro grau

Os meninos foram jantar e dormir a casa do pai. A mãe aproveita a noite livre e resolve ir ao cinema. Até aqui tudo bem. Bom, saí do escritório e programei a noite: compro o bilhete, vou à Fnac procurar o livro e ainda tenho tempo de comer qualquer coisa antes do filme. Fui a um dos centros comerciais cá do sítio e dirigi-me imediatamente à bilheteira do cinema. Continua tudo bem. Com o bilhete comprado, dou meia volta para ir à Fnac e com quem me deparo? Quem? Pois... Outro encontro imediato de terceiro grau com alguém que durante anos e anos tinha desaparecido do mapa e que agora... bem, agora... em poucos dias emerge duas vezes. "Olá tudo bem?" e continuo em direcção à Fnac, resolvo o que lá tenho a resolver e à saída, eis que quase me esbarro novamente com essa pessoa. Ai o caralho... pensei eu, já a achar que isto são coincidências a mais. Já estava sentada à mesa quando me passa, mesmo pela frente, outra vez o gajo. Puta que pariu esta merda, aparece duas vezes em quatro dias, e três vezes na mesma noite.

Fiquei a saber, com estes encontros imediatos de terceiro grau, algo que não gostei nada de ter ficado a saber. Bato com os olhos nele, e estremeço, como dantes. Foda-se,  foda-se,  foda-se.

22.8.10

Autorização para namorar

Sem mais nem menos, assim de rajada fiquei a saber que pelo menos o meu filho mais velho concebe a ideia da mãe ter namorado. Com um de cada lado, pela mão à saída da missa deparo-me com um velho amigo, que do meio de uma confusão de gente aperaltada para o que parecia ser um casamento, se dirige a mim e me cumprimenta. Sorriu aos dois e perguntou o "Tudo bem?" da praxe. Seguimos com o habitual "Adeus, gostei de te ver" e logo o mais velho perguntou "Quem era mãe?" Respondi-lhe que era um velho amigo, do tempo de escola e ele, para minha total surpresa perguntou se era o meu namorado. "Não filho, que tolice!" E ele "Mas, oh mãe, vocês ficavam bem juntos".

(Caiu-me tudo ao chão. Este velho amigo era nem mais nem menos do que o tipo que me tinha ficado atravessado e que recentemente desatravessei. E pensar que passei anos sem me cruzar com ele, agora que já não é preciso aparece-me assim à frente, raio de sorte a minha.)

Mudança

Falta-me apenas decidir sobre as casas de banho, azulejos, louças, torneiras, essas coisas. O resto já está decidido, madeiras, janelas e estores, a nova lareira, a custo de várias visitas a obras e a casas em construção que o senhor é impecável e teve o cuidado de me mostrar o efeito final de cada um dos elementos que tive de escolher. Esperam-me dias e noites a embalar e encaixotar tudo o que tenho dentro de cada armário, todos os livros de todas as estantes. Os móveis serão carregados e depositados num armazém providenciado pelo senhor das obras. A roupa ficará para o final, vai tudo para casa dos meus pais para onde me vou mudar durante os meses que durarão as obras. Lá para o fim do mês de Setembro decidirei sobre a cozinha, falta-me um orçamento. Disseram-me três meses, conto com cinco. Viverei portanto uns bons meses em casa dos meus pais, e nesse tempo há o regresso às aulas, tanto dos miúdos como o meu, há a tentativa de deixar de fumar que prometi à minha mãe e a mim própria, há o regresso ao exercício físico. Será uma excelente oportunidade de me livrar de alguns péssimos hábitos que tenho.

21.8.10

Bouillabaisse

Em 2004 tive de ir a St Tropez trabalhar. É verdade, trabalhar, estranho não é? Mas o cliente em questão, depois de ter apresentado a colecção aos representantes europeus cá em Portugal e cá na terrinha, foi de férias para St. Tropez de mandou-nos lá ir ter com ele passado mais ou menos um mês para nos passar as encomendas. tratava-se de uma marca americana, e como as encomendas para a Europa já tínhamos, um mês depois teríamos as encomendas para os Estados Unidos. Preparámos os modelos todos e lá fomos, eu e a minha colega, de malas e sacos aviados para St. Tropez. Julho, calor filha da puta e o bikini devidamente guardado dentro da mala, obviamente. Se despacharmos o trabalho rapidamente ainda damos uns mergulhitos, pensamos nós. Pois muito bem, trabalhamos como umas burras, aturamos malucos de meia-noite mas tivemos uma tarde de domingo livre. Um dos comerciais de uma das fábricas que tinham trabalhado na colecção e que tinha as consequentes encomendas, foi lá ter connosco porque queria a informação que lhe tocava logo que possível e regressaria mais cedo do que nós. Almoçámos nesse dia no hotel onde estávamos todos hospedados. Todos porque além de mim e da minha colega, estava o nosso patrão, o nosso agente nos Estados Unidos, o tal comercial, o representante francês, a mulher, os filhos e a bábá, o dono da marca, a mulher os filhos e a bábá, e mais dois ou três capangas do dono da marca que além de lhe chegarem os cigarros, de lhe carregarem os sacos e de lhe tratarem das mais variadas merdas, também lhe organizavam as saídas e garantiam entrada em qualquer discoteca e/ou restaurante em St. Tropez. Um verdadeiro circo. Dizia eu, almoçamos nesse dia no hotel, no terraço ao lado da piscina e a estrela (o dono da marca) lembrou-se de mandar fazer uma Boullabaisse para o jantar (prato típico do sul de França, creio que é mesmo típico de Marselha, mas não tenho a certeza, é parecido com uma caldeirada de peixe) e perguntou aos convivas quem alinhava. Encomendou-se a Bouillabaisse então para o jantar. Tarde de sorna na piscina, tudo a jibóiar ao sol, nós as duas entretidas na conversa com o nosso colega português e com a mulher da estrela, muito simpática por sinal. A meio da tarde entram uns 4 ou 5 gajos munidos de guitarras e desatam a cantar espanholadas tipo Gipsy Kings lá ao pé do povo. Fartaram-se de cantar, já ninguém os podia ouvir, um desespero para todos os presentes menos para a estrela, é fã do género, ficamos a saber. No fim, a estrela aplaude entusiasticamente, faz sinal ao outros todos para aplaudirem também e grita: Très bien, on prend les gitans pour le dinner!!! Nós as duas deitamos as mãosinhas à cabeça, o nosso colega revira os olhos e diz: Creeeeeedo! Pensei que íamos comer peixe...

19.8.10

Dores de crescimento

Lembro-me bem quando me deitava e me doía a dobra das pernas, por detrás dos joelhos e não havia posição que acalmasse o raio da dor. A minha mãe dizia-me que eram as dores de crescimento, que era normal. Sei lá se eram, mas doía e não era pouco. Há outras dores, na idade adulta, daquelas que o corpo não sente e essas são sim, as dores de crescimento. E doem muito mais. Doem cá dentro, por dentro, e não há pomada, comprimido ou xarope que as acalme. O único calmante para estas dores é o perceber que não somos os únicos com dores, que há outros como nós e que há sempre quem não nos julgue. Há sempre alguém que nos segure a mão, que nos dê a opinião sem censura que mesmo não sendo igual à nossa nos faz pensar e nos ajuda a aceitar as nossas falhas como parte de nós, e a retirar-lhes a lição para evoluirmos como indivíduos. E quando finalmente percebemos e aceitamos que a vida não é a preto e branco mas pintada de milhares de tons de cinza encontramos alguma paz. Quando finalmente aceitamos a nossa condição de seres feitos de racionalidade mas também de impulsos, que não deixamos de ser bichos muitas vezes guiados por instinto, estamos a crescer.

18.8.10

Guerra

Ontem à noite o pequeno quis dormir em casa dos avós, então fui para casa com o grande e decidimos ver um filme que tinha acabado de começar. Vimos o Tróia, eu pela quarta ou quinta vez, que eu gosto de épicos e de filmes onde há guerras, sangue e honra, e ele pela primeira. Deliciei-me a vê-lo ver o filme. Gostou das batalhas e das espadas, dos guerreiros e das armaduras, dos navios e dos cavalos, mas lindo foi vê-lo a absorver o discurso dos reis e a ler a raiva e a ganância, o discurso dos amantes e a descobrir o adultério, o discurso de Heitor e a interiorizar o carácter, o discurso de Príamo e a perceber o amor. O meu filho percebeu aquilo tudo, percebeu as metáforas todas. Mas não percebeu uma coisa fundamental porque no fim disse-me que o filme foi justo. Foi justo? Sim mãe, o Páris matou o Aquiles porque ele matou o Heitor, que matou o Pátroclo pensando que ele era o Aquiles, e que também também matou Menelau para defender o Páris. Continuou: e o Menelau queria matar o Páris porque ele lhe roubou a mulher, e foi por isso que começou a guerra mas eu sei que o Agamémnon aproveitou a guerra porque queria conquistar Tróia. A guerra foi justa. Na cabeça dele aquilo teve lógica, mas que desgosto! Meu amor, a guerra não foi justa. Meia dúzia de homens decidem a guerra e muitos inocentes morrem, não viste? Não viste quantos soldados morreram? Não viste quantos troianos morreram sem culpa de nada? Sim, tens razão mãe, devem ter morrido milhares de pessoas naquela guerra não é? Pois. Vês? Nenhuma guerra é justa meu amor, nenhuma.

(Também gostei da parte em que o Aquiles salta para a espinha da refém e ele me pergunta: estão a fazer amor, pois estão mãe? Ui... sem preservativo... mas naquela altura não havia preservativos, pois não mãe? Pois não...filho. E no final quando Aquiles vai desvairado à procura da miúda, ele diz: está à procura da mulher dele, não é mãe? Podemos dizer que é a mulher dele, pois podemos mãe? Eles gostam um do outro mãe...)

17.8.10

Silêncio

O que não se diz é tão importante como o que se diz.
Assim como aquilo que não se faz é tão revelador como o que se faz.
Às vezes, até mais.
Que ninguém se iluda.

15.8.10

Julião Sarmento

No Tate Modern Museum, em Londres, numa sala só com obras dele. Houve uma que não irei mais esquecer. A acompanhar uma sequência de fotografias de um torso de uma mulher, tem o seguinte texto:

"Des le commencement il y a ton ombre qui leche mon corps, et des que mon corps se laisse lecher par ton ombre, mon corps se fait en brume."

Pode ser vista aqui.

(desde o início há a tua sombra que lambe o meu corpo, e desde que o meu corpo se deixa lamber pela tua sombra, o meu corpo faz-se em bruma)

13.8.10

O amor

Há um homem que se casou com uma mulher, que não ama que nunca amou e de quem fez a segunda escolha, mas nunca a traiu. Ama desde sempre outra mulher que não consegue esquecer, apesar de nunca lhe ter tocado. Vive assim, resignado. A mulher dele sente-lhe o mau humor, sente-lhe a indiferença e a distância. Vive assim, resignada.

Há um homem que se casou com uma mulher, que ama profundamente, a quem dá toda a atenção quando estão juntos. Leva-a ao cinema e ao teatro, ajuda-a em tudo o que pode, esforça-se por ser o melhor marido, e trata-a muito bem. No entanto, no horário de expediente, porque pode, trai-a sempre que tem oportunidade, tem casos fugazes com variadíssimas mulheres e não consegue viver sem isso, sem a emoção da caça, sem a adrenalina. Vive assim, no limite. A mulher sente-lhe o carinho, o amor, a dedicação. Vive assim, sente-se a mulher mais amada do mundo.

Há um homem que se casou com uma mulher, diz-lhe que a ama todos os dias e nunca a traiu. Pensa basicamente nele, e não nela. Faz o que quer e não tem em conta os desejos dela. Diminui-a todos os dias, emocionalmente e intelectualmente. Diz-lhe que a ama todos os dias. Desilude-a frequentemente com comportamentos que a magoam sem sequer se dar conta disso. Desvaloriza os sentimentos dela, o amor dela. Vive assim, sem noção do que lhe faz. Ela sente-lhe a arrogância, sente-lhe a distância, sente o quanto ele se acha melhor do que ela, e sente que só está com ele porque a ele lhe convém. Vive assim, frustrada.

Conheço estes três casos de perto, e desconheço se o homem comprometido de quem falei se encaixa em algum deles, nunca saberei.

Pergunto a todas as mulheres qual destas três esposas preferiria ser.

O que conta mais? O que eles efectivamente fazem ou o que eles nos fazem sentir?

Eu já fui a terceira e não gostei, por isso, já não sou.

1.8.10

London

Here I go.

Plástico

Sempre que vou a Trás-os-Montes venho de lá com a sensação que a minha vida é de plástico. Descartável. O ambiente agreste lá de cima faz-me sempre pensar que não dou o devido valor às coisas. Caio sempre num estado de espírito que me atinge como um balde de água fria. Volto sempre a achar que ali sim, se vive verdadeiramente. Ali, nas aldeias de Trás-os-montes, onde se trabalha a terra, onde as estações do ano comandam o ritmo da vida, onde tudo é díficil e vem apenas do trabalho, ali é que se vive. Aqui, onde tudo é fácil, onde tudo se compra feito, onde tudo se desperdiça, aqui a vida é de plástico, não conta. Nem se trata de ter mais ou menos dinheiro, de ter mais ou menos poder de compra, é o trabalho, é o levantar de madrugada, é o frio, é o ter a canseira de fazer as coisas mesmo que custe, senão não há frutos, senão não se come, senão não há nada. Não sei explicar porquê mas no fundo, tenho a convicção que aquelas vidas difíceis valem muito mais do que a minha.