"Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida."
Sandor Maraí - As velas ardem até ao fim
8.6.10
7.6.10
Livro amarelo
Da última vez que fui fazer o controlo do sangue quase que houve chapada entre os idosos que lá estavam na fila para fazer a inscrição. Aquilo é simplesmente absurdo. Primeiro dois guichets e duas filas paralelas a uns dois metros depois da porta que para além de ser para as pessoas que vão às consultas externas também é para as pessoas que ficam à espera de familiares que dão entrada nas urgências. Portanto é um corridinho de pessoal a passar de muletas, de cadeira de rodas, malta com as criancinhas ao colo, tudo ali a furar as filas e os das filas a serem apertados uns contra os outros. Segundo, o povo põe-se na fila mas as inscrições para Imunohemoterapia (onde eu vou tirar sangue) só começam às 10:15h o que quer dizer que ficam as pessoas todas misturadas, as que vão ao sangue (que é assim que os idosos dizem) e as que não vão, e há sempre aquelas alminhas que não se apercebem e ficam à espera, atrás dos do sangue e podiam passar para a frente. E há também aqueles velhinhos que se sentam, e à hora de começarem as inscrições se aproximam e fazem de conta que estavam na fila e tentam fazer batota. Ora isto, dá sempre origem a confusões, desde que lá vou que é este circo. Os funcionários aguentam tudo, os velhinhos a reclamar uns com os outros, os não velhinhos a reclamar com os funcionários e devo dizê-lo, com muita paciência e categoria, coisa rara em serviços públicos. Pois bem, da ultima vez que lá estive pensei que aquela merda havia de ter um Livro de Reclamações e que estava na altura de o usar. Perguntei onde é que estava o tal livro e lá fui pronta para escrever. Basicamente sugeri que abrissem o terceiro guichet, que esteve sempre fechado desde que lá vou, só para a malta que vai ao sangue, que são mais de 100 pessoas na segunda leva (a minha) e deduzo que sejam outras tantas na primeira. Portanto, abrir o tal guichet só para as cerca de 250 pessoas que todas as manhãs vão ao sangue, acho que se justifica. E deixam-se os outros dois para o pessoal "sortido", além de que o terceiro guichet está afastado da porta abrindo assim mais espaço para os que por lá passam. Hoje achei aquilo estranhamente calmo. Pouca gente à porta, e pouco barulho principalmente. Ao avançar mais uns passos, verifiquei que o terceiro guichet estava aberto e a fila era só de malta para o sangue. Sorri.
6.6.10
Interruptor
Desde ontem que sinto uma energia estranha, uma vibração que não sei de onde vem. Como aquela tristeza que chegou de parte incerta e se instalou como se fosse a dona da casa. Uma pujança inexplicável que desde ontem me faz fazer coisas que há muito não fazia. Estou cheia de ganas. De tudo. O que é estranho. O que me faz pensar que da mesma forma que me toma a tristeza só porque sim, me toma agora uma força vinda do nada que me faz arrancar a todo o gás e me faz sentir bem. E esta merda, assim sem explicação é sinal de desiquilíbrio. Isto é andar ao sabor do vento sem qualquer controlo sobre nada. E a puta da minha vida não pode ser isto, como os interruptores, ora para cima ora para baixo, só porque sim. De modos que não sei o que é normal, se estar triste se estar porreira visto que nem uma coisa nem outra se baseiam em qualquer motivo válido, porque afinal todo o resto se mantém constante.
5.6.10
Fascínio
O que dizer? Que durante toda a minha adolescência era esta figura que me fazia sonhar? Era. Que nunca me disseram nada os bonitões da moda? Nunca. Que a série era sagrada? Era. Que anos depois, já adulta comprei a colecção toda em vídeo? Comprei. Que a inteligência sempre teve para mim uma forte carga erótica? Sempre.
O ter descoberto há uns anos que o actor era gay não mudou rigorosamente nada. Eu era apaixonada pelo Sherlock Holmes, que tanto quanto se sabe, também podia muito bem ser gay, eu na altura é que não tinha rasgo para tanto.
4.6.10
Simples
O P. tem uma característica que me agrada bastante. Deve-se talvez ao facto dele ser uma pessoa simples, no verdadeiro sentido da palavra. Ele tem a capacidade de me foder com todo o vigor e desdém como se de uma puta se tratasse, e de me beijar e acariciar como se me amasse. Extraordinário.
Pensamentos
"Ai que este gajo é tão bicha, parece impossível, a voz claramente forçada para obter um tom doce que é preciso ser muito inocente para não perceber a trafulhice, as pausas dramáticas no discurso que a mim só causam nervos, mas que toda a gente parece estar a gostar, ai que esta merda nunca mais acaba e eu ainda tenho de comprar o pão para o almoço em casa dos meus pais, ai que raio de gajo bicha foram desencantar para por aqui, e depois do almoço mando mensagem ao P. para saber se está livre, apetece-me estar com ele, e estas gajas vêm para aqui armadas em boas e não têm onde cair mortas que eu bem as conheço de outros carnavais, e francamente esta bicha é um escândalo e aposto que desfila lá em casa com as cenas que veste aqui, e podias despachar-te não que eu não tenho a tua vida, nunca mais cá venho podes crer, e será que os meus tios vão aparecer depois do almoço e despacho logo o assunto ou vou ter de passar em casa deles depois do jantar, ai porra! que este gajo é tão óbvio com esta vozinha de mel e só deve mesmo enganar as velhinhas, e na próxima semana o puto tem testes e vai ser uma canseira, e amanhã vou ter um dia de cão no trabalho, e daqui a nada ponho-me a andar que a malta vai começar a ligar-me porque não tem pão para o almoço e eu aqui não posso atender o telefone e ainda me entram todos em pânico, mas o que é que aconteceu à rapariga, e esta bicha é tão bicha, mas tão bicha que até mete impressão, e foda-se! ainda bem que já está a acabar."
Tudo coisas que me passaram pela cabeça durante a missa a que resolvi ir.
Tudo coisas que me passaram pela cabeça durante a missa a que resolvi ir.
3.6.10
Crivo II
É curiosa a forma como penso nos espécimens do sexo masculino que me aparecem pela frente. São palavras como moço, rapaz ou gajo que me vêm à mente. É bom moço; um rapaz em condições; é um cromo, o gajo. Nenhuma destas palavras é usada de forma negativa, mas parecem-me as mais correctas pois sinto-me sempre mais velha do que eles, mesmo podendo não o ser, ou então acho que ainda têm algum caminho a percorrer. Não me apareceu ainda nenhum homem. Aqueles em que penso como homens são o meu pai, alguns dos meus tios, o meu patrão e conheço poucos mais. Curioso isto, tem certamente a ver com o respeito que lhes tenho. Tão díficil de ganhar e tão fácil de perder.
2.6.10
Revelação
" Se alguém é forte o suficiente para reconhecer a verdade da sua própria natureza, disse o homem, está próximo da libertação. E suporta-a, sem mágoa, porque é uma verdade. E, na medida em que isso humanamente é possível, vive sem falsos desejos. "
Sandor Maraí - Revelação
Sandor Maraí - Revelação
1.6.10
Inútil
Poderia fazer exercícios mentais na tentativa de perceber determinados comportamentos. Poderia tecer hipóteses na tentativa de explicar determinadas atitudes. Poderia fazer juízos de valor, poderia especular sobre personalidade, sobre vivências, sobre hábitos, sobre maturidade, sobre montes de coisas. Não. Ao invés penso na minha reacção a tais acções e é esse comportamento e essa atitude que importa perceber e explicar sobretudo para não se repetir. O resto é perfeitamente inútil. Por isso, dou cordinha aos sapatos e afasto-me para ajustar a perspectiva. O que vejo não me agrada. Nada. Porém, não podendo mudar o comportamento dos outros, o que tenho a fazer é mudar o meu.
31.5.10
Crivo
Os outros não passam da percepção que temos deles, assim ainda que eventualmente referindo outros estaremos sempre a falar essencialmente de nós.
Não
Não. Não gostei da sensação. Definitivamente não sirvo para isto, é contra a minha natureza. Fico aqui. A vaidade e a hipocrisia são coisas muito feias. A primeira, que de vez em quando me turva passa logo a seguir a clareza que, como água lava e leva consigo a estúpida ideia de que quem possui a segunda possa alguma vez removê-la, essa nódoa que se esconde não conseguindo porém disfarçar o desconforto.
28.5.10
Sempre dá!
Ontem, duas colegas minhas andaram a matar a cabeça com um pedido de uma malha com um determinado tratamento/efeito, que os nossos fabricantes garantiram que era impossível de reproduzir a cem por cento, mas que se conseguiria fazer algo de parecido. Ora, algo de parecido não dá, tem de ser igual, e eu meti-me ao barulho, o que não é difícil pois estamos na mesma sala, e concordei com elas que aquilo é possível. Lembrei-me de falar com um amigo meu, que por acaso é fornecedor de vários dos nossos fabricantes porque se ele não soubesse aquilo ninguém sabia, ele é fornecedor de malha. Hoje de manhã telefonei-lhe, expus o caso e perguntei-lhe se era possível ou não. Ele confirmou que sim e explicou como se faz, coisa que nós tinhamos imaginado, mas obviamente sem conhecimento dos detalhes técnicos. Ah, sempre dá! Ontem toda a gente nos disse que não, afinal não somos assim tão burras, disse-lhe eu, a entrar com ele. Ao que ele respondeu, naaaa, vós burras não sois, sois é chatas cumó caralho!!! Barrigada de riso, claro.
27.5.10
Romance
Contexto: à chegada de uma visita de estudo ontem, do mais novo que, tem só 6 anos:
Ele: Oh mãe, a Mariana já gosta de mim outra vez!
Eu: Ai sim? Conta lá.
Ele: Ela gostava de mim, eu também gostava dela. Depois ela deixou de gostar de mim e eu, claro, deixei de gostar dela. Ela começou a gostar do Hugo.
Eu: Ah, percebi, e então?
Ele: Agora já gosta de mim outra vez, e gosta por amor!
Eu: (um nadinha baralhada) E começou a gostar outra vez agora, foi?
Ele: Foi, o Hugo não trata bem dela!
Eu: (já em estado de choque, o caramelo sacou a namorada ao colega ?!?) A sério? Estou admirada, pá! E conta lá como é que foi hoje? Foi fixe?
Ele: (entusiasmadíssimo) Foi, ela deu-me um beijo. Eu estava a ver o filme, sabes? No autocarro, e ela veio ao pé de mim, tirou-me o cinto (de segurança, que fique bem claro!) e deu-me um beijo!
Eu: (Oh balhamedeus!) E tu que fizeste?
Ele: Fiz-lhe cócegas!
Eu: Onde???
Ele: Na barriga.
Eu: E ela?
Ele: Ela riu-se.
Mais tarde, no carro ouvi de esguelha que o beijo tinha sido na boca, (loucura!!!) ele a contar ao irmão, que se ria como um perdido.
Fiz de conta que não ouvi, não me ocorreu fazer mais nada.
Ele: Oh mãe, a Mariana já gosta de mim outra vez!
Eu: Ai sim? Conta lá.
Ele: Ela gostava de mim, eu também gostava dela. Depois ela deixou de gostar de mim e eu, claro, deixei de gostar dela. Ela começou a gostar do Hugo.
Eu: Ah, percebi, e então?
Ele: Agora já gosta de mim outra vez, e gosta por amor!
Eu: (um nadinha baralhada) E começou a gostar outra vez agora, foi?
Ele: Foi, o Hugo não trata bem dela!
Eu: (já em estado de choque, o caramelo sacou a namorada ao colega ?!?) A sério? Estou admirada, pá! E conta lá como é que foi hoje? Foi fixe?
Ele: (entusiasmadíssimo) Foi, ela deu-me um beijo. Eu estava a ver o filme, sabes? No autocarro, e ela veio ao pé de mim, tirou-me o cinto (de segurança, que fique bem claro!) e deu-me um beijo!
Eu: (Oh balhamedeus!) E tu que fizeste?
Ele: Fiz-lhe cócegas!
Eu: Onde???
Ele: Na barriga.
Eu: E ela?
Ele: Ela riu-se.
Mais tarde, no carro ouvi de esguelha que o beijo tinha sido na boca, (loucura!!!) ele a contar ao irmão, que se ria como um perdido.
Fiz de conta que não ouvi, não me ocorreu fazer mais nada.
26.5.10
Receita
Pegue-se nisto;
E coloque-se disto;
Depois, junte-se disto;
E mais isto;
E ultime-se com isto.
Depois contem-me como foi.
25.5.10
Diz-lhe
Diz-lhe que não, que não espere nada e que nada tens para lhe dar. Não posso faltar-lhe assim ao respeito, não posso. Ele nunca me pediu nada, nem agora, ele nunca cobrou nada, apenas gosta de mim há vinte anos e durante vinte anos menos dois meses nada soube de mim. Mas aposto que te procurou porque soube que te divorciaste, aposto que pensa que tem agora a oportunidade dele. Talvez, mas isso não muda nada, nem o sentimento dele nem o meu. De que adianta magoa-lo? Não, não posso. Se durante estes anos todos o sentimento ficou sem saber do meu paradeiro, sem esperar nada em troca, não serão as minhas palavras que farão a diferença. A ausência é muito pior do que as palavras, a ignorância é muito pior do que as palavras, e ele aguentou tudo por uma ideia do que poderia ter sido. Ele é coerente. Ele é desonesto com toda a gente à volta dele mas manteve-se honesto com ele próprio, quase que o admiro por isso. Quase. Fez da própria mulher a segunda escolha, quase que o desprezo por isso. Quase. Desde que retomamos o contacto nunca foi indelicado, nunca fez um comentário impróprio, que direito tenho eu de o confrontar com um facto que o destroçará? Não tenho direito algum. O que ele sente é dele, não é meu e nunca será. Invadir esse espaço é faltar-lhe ao respeito. Não posso. Não digo.
Corda
O meu vizinho daqui do escritório chamou-me lá fora para me dizer que lhe fiz uma mossa na carripana velha que tem. Está lá uma marca de tinta escura é um facto. Mas não fui eu, tenho a certeza disso. Ele foi verificar todos os carros que costumam estar estacionados naquele sítio e encontrou no meu pára-choques uma marca que corresponde, acha ele, à mossa. Não fui eu, mas não vi justificação para um confronto. Disse-lhe que mandasse arranjar que pagava. Disse-lhe que não me apercebi. Disse-lhe que não iria discutir com ele. Calei-me. Amanhã deixo o meu carro mesmo ao pé do dele e chamo-o. Mostro-lhe que a mossa dele não bate certo com o arranhão no meu pára-choques, não estão à mesma altura. Hoje dei-lhe a corda toda, amanhã provo-lhe que está errado. Na vida, há situações em que não vale a pena o confronto, dê-se corda e espere-se pela oportunidade de provar que se tem razão. É menos desgastante e mais eficaz. É a isto que eu chamo mostrar o espelho, por exemplo.
Old friends, old bruises.
Quando os verbos começaram a ser utilizados no presente em vez de no pretérito perfeito percebi que provavelmente aquilo que me atingiu como uma pedrada na cabeça aqui há tempos, mas que secretamente desejei que fosse passado ainda que subsistindo a dúvida, afinal não é passado, é presente:
Ele: não é fácil...
(respeirei fundo, enchi-me de coragem)
Eu: mas o que estás a dizer? isso já passou, certo?
(pausa)
Ele: olha as horas, é tardíssimo, amanhã não nos levantamos.
(arrependi-me imediatamente)
Eu: tens razão, vamos dormir, amanhã nem de grua
(e despedimo-nos)
Foi o final da conversa, hoje sem eu querer, ele levou-a novamente para o assunto, aquele assunto, que não foi abordado desde então, desde que senti o soco no estômago com a revelação, a revelação. Outro soco hoje, este dói mais, foi em cima da ferida, onde já tinha magoado antes e que durante algum tempo achei que tinha sarado. Mas não, ainda me dói. Que lhe doa.
Ele: não é fácil...
(respeirei fundo, enchi-me de coragem)
Eu: mas o que estás a dizer? isso já passou, certo?
(pausa)
Ele: olha as horas, é tardíssimo, amanhã não nos levantamos.
(arrependi-me imediatamente)
Eu: tens razão, vamos dormir, amanhã nem de grua
(e despedimo-nos)
Foi o final da conversa, hoje sem eu querer, ele levou-a novamente para o assunto, aquele assunto, que não foi abordado desde então, desde que senti o soco no estômago com a revelação, a revelação. Outro soco hoje, este dói mais, foi em cima da ferida, onde já tinha magoado antes e que durante algum tempo achei que tinha sarado. Mas não, ainda me dói. Que lhe doa.
24.5.10
23.5.10
Voar
Sentir-te na pele faz-me voar, encheste-me de boa energia. Sinto-te no corpo, ainda, estás presente em todos os movimentos. Nada se compara aos momentos que passo contigo, dou-me, dás-te e eu absorvo tudo o que consigo. Fecho os olhos e sinto-te. E voo.
Dói-me tudo, qu'esta merda de passar um dia inteiro na praia debaixo de Sol deixa marcas.
Faz mal, eu sei.
Mas é tão bom.
Dói-me tudo, qu'esta merda de passar um dia inteiro na praia debaixo de Sol deixa marcas.
Faz mal, eu sei.
Mas é tão bom.
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