22.10.09

É-me Impossível

explicar, então só me resta descrever que sofro por não poder sofrer. Isto é tão verdadeiro quanto contraditório. Se eu pudesse sofrer por eles, se eu pudesse fazer magia e transferir para mim as dores deles. Eles não sabem lidar com a dor, eu sei. Eles desesperam, eu não. E o desespero deles sufoca-me, rasga-me o peito, mata-me. O miúdo mais novo acordou literalmente a gritar, em pânico. Não conseguia articular palavra, demorei a perceber o que o atormentava, o ouvido. Os minutos que levei a ir buscar o analgésico e a verter água para o copo foram de sofrimento atroz, quando me aproximei dele batia com a cabeça na cabeceira da cama. Dei-lhe o xarope e de seguida a água, o sabor do xarope dá-lhe náuseas, e enrolei-me nele. Abracei-o o mais que pude e sussurrei-lhe ao ouvido promessas inúteis enquanto lhe limpei as lágrimas, grossas que já tinham molhado a almofada. Senti as minhas a querer saltar. Não, tu não importas agora, deixa-te disso, concentra-te nele que precisa da tua voz serena e segura. Tu não importas nada, só serves agora para lhe garantir que vai passar já, que a mãe está aqui e que vai tratar de ti muito bem, mas tens de te acalmar meu amor para parares de chorar e adormeceres porque quando acordares já não vai doer. Dorme meu amor, sossega. Só quando tu sossegares é que a mãe pode voltar a viver.

21.10.09

Alerta vermelho

Fui levantar os resultados das análises. Como sempre abri imediatamente o envelope para verificar os valores. Começo a ler a nada de mais, até que vejo o valor do colesterol: 220 quando o ideal é inferior a 200. Pensei que não é nenhuma desgraça, nada que uma dietinha saudável não resolva. E aqui soaram todos os alarmes. Oh que caralho! Dieta?! Lá se vão as mamas pr'o galheiro!!! Estou fodida, nunca terei umas mamas de jeito! Se não for duma maneira é doutra. É o destino, esse camelo do destino na minha ficha de certezinha que escreveu assim: Terás cú e ancas que se vejam (só porque são grandes, mais nada) mas mamas, minha filha, nem penses.

(Tenho p'ra mim que se algum dia pensar em próteses, o destino desenvolve-me imediatamente uma diabetes só para me impedir de as colocar)

20.10.09

Lume

Eu sei perfeitamente que ainda não está frio que justifique, mas eu andava mortinha por usá-la. A chuva e descida de temperatura de hoje foram desculpa suficiente para encher o cesto de lenha e trazê-lo, para logo ao chegar a casa acender a lareira. Gosto tanto, mas tanto de olhar para ela. Devo ter uma costela incendiária, que me impele para o lume. Gosto de lareiras, de fogueiras e de lume. Nunca na minha vida incendiei nada, só acendo lareiras, ou melhor acendo uma lareira. Ainda gosto mais dela este Outono do que no Outono passado, porque ela agora é minha.

O que sentes?

Sabes aquelas coisas que fazes sem sequer te aperceberes que as fizeste? Sabes aquelas coisas que simplesmente não consegues perceber como fizeste? Porque não viste o que estava tão perto de ti, e dás voltas à cabeça e não entendes como foi possível? Toda a gente já teve alguma vez na vida esta experiência. Imagina que o que não viste foi uma senhora na casa dos cinquenta e o que fizeste foi passar-lhe com a viatura por cima, mesmo em cima duma passadeira. Devagar, que a curva era apertada e estavas a tentar entrar com jeitinho. Imagina que só te apercebes quando já passaste com a roda da frente por cima da senhora. Imagina que algumas horas depois recebes a notícia que se a senhora sobreviver, se sobreviver, não andará mais pelo próprio pé porque ficou com a bacia desfeita, de tal forma que ainda não encontraram forma de a poder operar. Agora imagina viveres com esta irremediável culpa para o resto da tua vida. Imagina tudo isto. E se esta senhora for a tua mãe? E se esta senhora for a tua mulher? E se esta senhora for a tua irmã? Sentes-te capaz de matar o cabrão, em cuja pele te meteste há apenas alguns segundos, quando leste ali em cima. E agora, o que sentes? Consegues explicar o que sentes?

Não se enxergam

Há gente que não sabe e há gente que não sabe e acha que sabe, e mesmo com provas irrefutáveis de que não sabe à frente do nariz, continua a recusar-se a admitir que não sabe, para poder começar a aprender. Teimosos!

Esta também

é das que me mexe com o sistema:

19.10.09

Merda nos olhos

Estou no banco, ao balcão a depositar uns cheques. O rapaz já me conhece, é um fixolas, sempre simpático e bem humorado. Aparece uma moça, simpática também que me cumprimenta com um sorriso sempre que me vê apesar de nunca ter conversado comigo sobre coisíssima nenhuma. Vira-se para mim e diz-me assim, toda gaiteira: "Já abriu conta para a sua filhota?" Mau, começas bem tu, penso eu. Escavo fundo e vou buscar um sorriso que me custa um bocado e respondo: "Eu não tenho filhota, tenho dois filhos, mas porquê?" Ela, embasbacada mas sem perder a pose continua: "Ah, porque temos um produto que oferece uns prémios, que são uma PSP, ou uma bicicleta, ou (outra coisa qualquer que não me lembro), pode ser que lhe interesse" Resolvi alimentar um nadinha a coisa e digo que daquilo tudo o que eventualmente me interessaria seria a PSP porque eles têm uma e com duas acabava-se a trolhice. O rapaz da caixa começa a rir discretamente. Uso a palavra trolhice de propósito para tentar situá-la, só que não resulta. Estou já a dirigir-me para a porta, e ela chama-me: "Ah, mas tem de ver este cartão de crédito tão giro da Hello Kitty, tá a ver, olhe só, em fushia e com a bonequinha toda em strass, veja bem... não é o máximo?" Estaco, já está a ser demais. Explico-lhe que tenho 2 rapazes, não tenho meninas. "Eu sei, eu sei, mas para si!" A esta altura já o rapaz se ri às gargalhadas. Com toda a diplomacia que consigo, que não é muita, olho-a e digo-lhe: "Olhe para mim, olhe bem para mim, acha que sou mulher para andar com um cartão desses? Acha? Por favor!" E ela: "Então é melhor ficarmo-nos só pela PSP, não é?" "É, é melhor." E desandei dali para fora. Convém esclarecer que nem a minha vestimenta poderia induzi-la em erro porque nesse dia caprichei no básico: jeans, t-shirt lisa, não era um top da moda, era mesmo uma t-shirt clássica, lisinha, do mais simples que pode haver e sapatilhas allstar pretas. A gaja deve ter merda nos olhos, só pode. Hello Kitty? Eu? Está tudo doido?

Trivia

Há coisas que me passam completamente ao lado, outras coisas não. Dentro das coisas que não me passam ao lado há aquelas que eu gostaria que me passassem. Preocupo-me com merdas que adoraria que não me preocupassem de todo, e fico lixada porque me martelam na cabeça pormenores que considero verdadeiras paneleirices. A saber:
Paneleirice #1
Ficar com vestígios de comida nos dentes é uma merda que me chateia. Se estou com malta conhecida, faço aquele sorriso forçado e mostro a cremalheira para verificação. Se não estou fico aflita e tenho de ir à casa de banho ver-me ao espelho. Só depois de ter a certeza que não há pedaços de azeitona ou folhas de alface presas nos dentes é que fico descansada e relaxo.
Paneleirice #2
Ficar com a cueca à mostra quando me sento é outra cena que me consome. Aderi à moda do fio dental (no questions asked please) e não sendo eu uma rapariga propriamente elegante, a visão da cuequita a espreitar no lombo não corresponde de todo ao imaginário sexy de ninguém. Se a cadeira for tapada fico na boa, se não for passo a vidinha a passar a mão nas costas para ter a certeza absoluta que a parte de cima cobre perfeitamente toda a zona perigosamente ridícula.
Paneleirice #3
Os óculos de sol, sempre os óculos de sol. Tenho de os ter sempre comigo, é estupidamente inexplicável.
Paneleirice #4
Aspirinas, tenho de ter sempre aspirinas. À falta delas, poderão pontualmente ser substituídas por outro analgésico qualquer mas não descanso enquanto não comprar aspirinas para ter sempre na carteira, é doentio. Já pareço o House com o Vicodin, só que não as meto sem ter dores de cabeça ou de dentes, não exageremos.
Paneleirice #5
Gosto de um determinado tipo de isqueiros, os Bic mas dos grandes, e pretos. São já bastante raros agora e sempre que os encontro à venda compro vários e guardo. Gosto de gastar o meu isqueiro até ao fim, e fico doente quando o perco ou alguém mo gama. Há gente com a mania de meter os isqueiros ao bolso. Fico podre quando me fazem essa merda, o que me obriga a estar sempre atenta ao paradeiro do meu isqueiro.
Paneleirice #6
Os cabelos brancos, que já são muitos, e que pinto de castanho-escuro, a minha cor natural. Ao fim de 2 semanas já brilham as raízes, e obviamente que num cabelo castanho-escuro se vêem lindamente. Odeio. Mais valia não ter começado. Tinha agora umas valentes madeixas grisalhas e cagava. Do mal, o menos, como a minha mãe é cabeleireira não preciso de apanhar secas nos salões das dondocas. Ela atende-me ou à hora de almoço ou à noite, conforme me der mais jeito.

Vou parar por aqui, já vou na meia dúzia, e levar com meia dúzia de paranóias de gaja, convenhamos, é o limite, até para mim. E já é muito, arre!

No fundo, no fundo

o que me acende, o que me faz fechar os olhos e esquecer o mundo, o que faz vibrar todas as fibras do meu corpo, será por já não ser nenhuma catraia talvez, é uma boa música rock.
Just good old rock n'roll.

Tipo esta:

18.10.09

Hipocrisia

Manias e afins

Eu tenho a mania de sair de mim e olhar para mim como se fosse outra pessoa qualquer, com a vantagem de me conhecer melhor do que a outra pessoa qualquer. E às vezes percebo coisas que mais valia ficarem enterradinhas bem lá no fundo do subconsciente. Aquele tipo de informação totalmente desnecessária, que não contribui em nada para a felicidade de ninguém, completamente inútil. Se fosse sobre outra pessoa qualquer era igual ao litro, só que como é sobre mim é altamente perturbador.

O piropo do ano

Não ouvi mas foi-me transmitido 2 minutos após ter sido proferido: "E mais uma para escachar a minha cama". Também não foi para mim, mas escachei-me a rir à mesma.

17.10.09

Absolut(amente) triste

A miúda era lindíssima. Fresca, de sorriso fácil e luminoso. Uma boa aposta para servir bebidas no bar. Até aqui tudo bem. Quando se dirigiu a mim para me atender disse-lhe que queria uma Absolut com sumo de limão. Sorriu e explicou-me educadamente que sendo noite da mulher, se a vodka fosse Eristoff seria oferta, já Absolut não poderia ser. Eu sorri e disse: "Absolut, se faz favor". Olhou para mim, aproximou-se como quem quer contar um segredo e: "Mas... não é a mesma coisa?" Respirei fundo e nem abri a boca, ela percebeu.

(E está uma rapariga que não sabe a diferença entre Eristoff e Absolut a servir bebidas... aposto que também não distingue o paté do foie gras mas, também aquilo não é nenhum restaurante. Está certo...)

16.10.09

Música light, só porque é sexta-feira

Vai ter de ser

Foi esta manhã, a seguir ao pequeno almoço, que veio a pergunta que eu aguardava há já algum tempo.

"Mãe, quando é que me dás o telemóvel? "

Não foi "um telemóvel", foi "o telemóvel" porque eu havia prometido que quando começasse o 5º ano, ele teria um telemóvel, não antes. Ele esperou, calminho. O 5º ano começou e eu mantive-me em silêncio (talvez ele se esqueça pensei eu, sou crente...) e só hoje ele se manifestou. Vou ter de lho dar, já o tenho guardado há muito.

"Parece-me que sou o único da minha turma que não tem telemóvel, sabes? E estou um bocado triste com isso."

Posto isto, não há qualquer hipótese de adiar mais. Apesar de não perceber para que raio precisa um puto de 9 anos de ter telemóvel (mau era eu não saber, aos 9 anos, onde é que ele anda durante o dia, a todas as horas e minutos) vou ter de ceder, só para que o miúdo não seja descriminado. É ruim... os putos são tão cruéis nesta idade e o meu sofre tanto... É ruim...

15.10.09

Ok... ok...

Ok, parece que tenho de dar a mão à palmatória... quer dizer, tenho nada. Os moços ganharam, mas a cena toda continua a não me seduzir. Por falar em seduzir, é de mim ou os moços malteses são muito mais giros do que os nossos? É, tive de ver, não tive hipótese, mas só vi até cantarem o hino. Mais do que isso, desculpem-me mas para mim é violento.

14.10.09

Pois... se fosse eu...

Nem digo esta merda a ninguém que ainda me lincham publicamente com honras de estado, mas vingo-me aqui que ninguém vê. Irrita-me tanto o entusiasmo futebolístico, que quase que desejo que os gajos percam e acaba-se a confusão, o stress, a correria, os infinitos programas de televisão depois dos jogos, a euforia, o histerismo, as palavras dessa língua inventada utilizada por jogadores, treinadores, comentadores e jornalistas, para não falar da corrupção (ok, aceito que a nível de selecções não se verifique como nos clubes). Se fosse eu que mandasse acabava com esta merda toda. E mais, irritam-me infinitamente mais as mulheres histéricas com o futebol do que os grunhos dos homens, eles aproveitam para extravasar aquilo que o politicamente correcto não lhes permite, o que não quer dizer que lhes justifique a estupidez. Há jogo logo à noite e desde a hora de almoço que já ninguém trabalha. Mete-me nojo! É vê-los nas esplanadas de pipo ao Sol, a emborcar a cervejola por baixo de orgulhosas bandeiras que nascem espontâneamente em qualquer varanda. À hora do jogo já está tudo bem bebido, uma alegria. Se a equipa ganha metem-me todos nojo, se a equipa perde também. Se fosse eu que mandasse acabava com esta merda toda. Trabalhem que é disso que o país precisa, não é de jogos de futebol, que só vêm arruinar os índices de produtividade das empresas. E depois há crise, bando de podres!

13.10.09

E quando

acordas e são 2:00h da matina, e estás deitada no sofá, e ficas toda contente por já teres dormido, e te levantas e vais para o quarto quase sem abrir os olhos, apagas televisão e luzes pelo caminho, fazes o xixi sem acender a luz da casa de banho e lavas os dentes de olhos fechados, e te metes na cama devagarinho, e bocejas e te esticas, e… e de repente a suavidade dos lençóis na tua pele te desperta sensações que te tiram completamente o sono? Ah? Ah? Não ficas fodida? Eu fico.

É por causa de

inteligentes condutores como V. Exa. que este país é um paraíso de civismo. Passe bem e vá aprender a estacionar.

Foi o miminho que lhe deixei no párabrisas. Tivesse a criatura aparecido e ficava a esguichar sangue, mas deixei-lhe um bilhete educado.

Foi uma sorte

Foi por pouco que não parti as trombas ao grandessíssimo(a) camelo(a) que cagou (sim, cagou!) o carro no estacionamento e me obrigou a fazer vinte e uma mil manobras para conseguir sair. Com um metro e meio de espaço à frente o(a) anormal deixou o cú de fora impedindo a passagem à minha viatura. Não fosse a minha falta de tempo e tinha-lhe feito uma espera só para lhe dar cabo do focinho. Ainda perdi uns bons 20 minutos, fartei-me de apitar e nada. Veio o vizinho lá da rua e foi bater às portas dos possíveis sítios onde o(a) enorminho(a) pudesse estar. É que há vários, desde um bar, passando por 2 ou 3 lojas e acabando num cabeleireiro. Sim há espertinhos(as) que vão para o cabeleireiro e deixam os carros mal estacionados. Depois não ouvem o povo a apitar por causa dos secadores. Bando de burros!
Lá consegui tirar o carro, fiz-me valer da minha perícia nas manobras, que sem querer armar ao cagalhão é muito superior a muitos que por aí andam, aceitei a ajuda do vizinho lá da rua e passei com não mais de 2cm de cada lado e mais de vinte e uma mil manobras. Podia ter chamado a polícia, pois podia, mas o que me apetecia mesmo era dar-lhe cabo das trombas, logo ali. Não tive foi tempo.

(esta merda está por um triz, eu bem a sinto a vir, ela está quase a chegar...)